Do outro lado do muro

Após mais de 40 anos de ocupação israelense, a Palestina ainda luta para se tornar um Estado independente. Porém, a construção de uma muralha de contenção dentro de seu território segrega ainda mais a população e torna mais distante a paz na região

Pedro Carrilho Publicado em 08/05/2008, às 11h26 - Atualizado em 20/02/2013, às 15h02

Em 2006, um cidadão palestino caminha ao lado do que Israel chama de "Cerca de Segurança", na cidade de Abu Dis

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A luz fosca do fim da manhã turva a paisagem de sutil beleza. Já surgem no relevo pedregoso as primeiras flores primaveris, pontilhando ainda timidamente os campos mediterrâneos. As oliveiras, símbolos da região, estão por toda parte. Incongruente, a cerca elétrica que separa territórios ocupados de terras recentemente anexadas serpenteia pelos montes, vales e ravinas da Cisjordânia até perder-se de vista. Além da cerca, em terras outrora palestinas, um enorme canteiro de obras dá à luz mais uma colônia ilegal. Esse é o palco para a encenação de um drama que se repete todas as sextas-feiras, desde dezembro de 2004. Moradores do vilarejo de Bil'in, a cerca de 20 minutos a oeste de Ramallah, unem-se a ativistas estrangeiros em manifestações pacíficas contra o muro de separação israelense e a expansão de colônias judaicas em terras anexadas.

Com o pretexto de conter ataques suicidas de palestinos, o governo israelense aprovou a construção de um "muro de proteção", o que gerou ampla condenação pela comunidade internacional. O detalhe é que o muro, que começou a ser construído na Cisjordânia em 2002, não está sendo erguido sobre o traçado da Linha Verde - a linha de armistício desdenhada por Israel desde 1967. Oitenta por cento do muro está sendo levantado dentro do território palestino. Em algumas áreas, a construção chega a avançar até 22 quilômetros no coração da Cisjordânia, de modo a incluir grandes colônias judaicas dentro dos limites dessa nova "fronteira". Como resultado, várias cidades e vilas palestinas agora estão localizadas nas áreas anexadas entre o muro e a Linha, consideradas pelo governo israelense como zonas militares fechadas. Assim, o muro não separa apenas israelenses de palestinos, mas, principalmente, palestinos de palestinos, dando a impressão de que a intenção do governo israelense parece ir além do que apenas garantir sua segurança.

Boa parte dos 710 quilômetros previstos foi erguida após a divulgação da decisão da Corte Internacional condenando a construção. A estimativa é de que aproximadamente 60 mil palestinos estarão vivendo dentro das zonas militares fechadas, e muitos mais serão severamente afetados pelo muro.

Na parte oriental de Jerusalém, "reunificada" (na verdade, anexada por lei aprovada no Knesset, o Parlamento israelense), o muro também está quase pronto. Segundo John Dugard, relator especial da ONU para a questão dos direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, a construção "é um exercício em engenharia social, criado para manter o processo de 'judaização' da cidade". O muro divide o que restou da Jerusalém palestina em pequenos guetos, isolando seus mais de 200 mil habitantes do restante da Cisjordânia, e mudando radicalmente a demografia da cidade. Segundo o mesmo relatório, "o muro construído por Israel, em sua grande parte nos territórios palestinos, é claramente ilegal".

Defensores do muro afirmam que a quantidade de atentados diminuiu drasticamente com sua construção. Segundo o historiador israelense Ilan Pappe, em seu livro A History of Modern Palestine, no entanto, o que teria reduzido o número de atentados em Israel "não foi o muro, e sim a presença militar permanente nas cidades palestinas e nos seus arredores". Em entrevista para a RS Brasil, Pappe, nascido em Israel, filho de judeus alemães que fugiram do nazismo, defende a criação de um Estado para dois povos, onde palestinos e israelenses viveriam.

Controverso por fazer uma releitura da história de Israel e do sionismo, ele diz que o muro é parte de uma estratégia para dividir a Cisjordânia. "Uma parte vai ser diretamente anexada por Israel e as pessoas que lá vivem serão expulsas de várias formas. A outra seria enclausurada como uma prisão a céu aberto, na qual os palestinos poderiam ter um Estado, sem independência econômica, soberania ou segurança".

Já o cientista político norte-americano Norman Finkelstein, especialista no Holocausto e no conflito israelo-palestino, e autor de livros polêmicos como The Holocaust Industry, acredita que as reais intenções de Israel com a construção do muro são bem conhecidas e não têm nada a ver com segurança. "Israel pretende anexar unilateralmente de 10 a 13% da Cisjordânia, incorporando algumas das melhores terras e cerca de 80% das colônias de assentamentos", diz. E completa: "Se a questão fosse mesmo a segurança, Israel teria simplesmente construído o muro nas suas fronteiras".

Uri Avnery, 85 anos, é ex-deputado do Knesset e membro fundador do Gush Shalom, bloco que reúne grupos pacifistas israelenses. Sua voz é uma das mais ativas contra os abusos da ocupação, expressa em centenas de textos. Para ele, a real intenção foi definir uma fronteira e anexar as terras deste lado dela. "Mas considerações de segurança também tiveram seu papel nisso."

Essa não é a visão oficial das autoridades israelenses. A Embaixadora de Israel no Brasil, Tzipora Rimon, sempre se refere ao muro como "cerca de segurança". Segundo ela, apenas 3% da barreira seria realmente um muro. "Desde o acordo de Oslo em 1993 tivemos muitos altos e baixos", diz. "Tivemos depois, em 2000, a reunião de Camp David, com o presidente Clinton, o primeiro ministro Ehud Barak e o presidente da Autoridade Palestina Yasser Arafat. Israel deu muitas idéias, mas Arafat não aceitou algumas delas e pouco depois começou a (segunda) Intifada. Nós tivemos resultados horríveis de ambos os lados. Quase mil israelenses morreram, e uma quantidade ainda maior de palestinos." Ela diz que Israel foi pego de surpresa por "elementos novos" quando teve início a segunda Intifada. "Os homens-bomba, por exemplo. Foi para nós um elemento muito novo. Como enfrentar essa situação? Tivemos bombas nas ruas, nos shoppings, nos cafés e nos restaurantes do país inteiro. Enfrentamos grandes dificuldades no início, porque foi um tipo diferente de guerra. O governo de Israel tinha que proteger seus cidadãos. Foi então que veio a idéia da cerca de segurança."

Partes do muro já estão tomadas com frases e desenhos de protesto. Roger Waters, ex-líder do Pink Floyd e compositor do clássico The Wall, já deixou sua marca com a frase "We don't need no thought control". Em certas áreas, como em Qalqiliya, o muro de concreto tem até 8 metros de altura, o dobro do Muro de Berlim, enquanto em outras, como Bil'in, ele é substituído por cercas elétricas e arames farpados.

"Nós não gostamos da idéia no início", diz Tzipora. "A cerca não é bonita, custa muito, e também separa. A idéia para que haja paz é delinear uma linha como fronteira, mas não separar. Mas não tivemos outra maneira, depois de todos os mortos. Não é essa a idéia de paz que temos, mas vimos como último recurso em algumas áreas que tiveram muitas mortes. Essa cerca já salvou a vida de muitos israelenses."

A exemplo das outras áreas da Cisjordânia, a barreira separa Bil'in de aproximadamente 60% de suas terras cultiváveis, anexando-as para a construção e expansão de novas colônias, e isolando as comunidades de seu sustento. Desde que o exército israelense começou a derrubar as primeiras oliveiras para construir o muro, no entanto, os moradores foram aos campos protestar.

Com cerca de 1.500 habitantes, Bil'in é mais um empobrecido vilarejo palestino localizado a 4 quilômetros da Linha Verde. Para chegar-se lá desde Jerusalém, cruza-se o muro por um dos checkpoints, os infames postos de controle do exército israelense espalhados às centenas por todo o território palestino. Aqueles são sempre momentos de humilhação para os palestinos que têm o "direito" de cruzá-los. Tais postos são fechados aleatória e freqüentemente pelos militares, formando filas de carros e pedestres e infernizando a vida dos palestinos. "Antes, eu levava 15 minutos para chegar à minha loja. Agora, tenho que dar uma volta de duas horas para poder chegar a uma das passagens clandestinas. Faço isso todos os dias", relatou um comerciante da cidade velha de Jerusalém que não quis se identificar, resumindo a situação de muitos palestinos separados dos seus empregos pelo muro. Há histórias de abusos, como de ambulâncias tendo suas passagens negadas em casos emergenciais.

Uma vez em território palestino, a paisagem muda. As ruas limpas de Israel dão lugar ao lixo amontoado à beira de estradas decrépitas. A falta de infra-estrutura é evidente, mesmo em Ramallah, sede da Autoridade Nacional Palestina. Prédios e casas são cobertos de caixas d'água pretas, utilizadas para estocar a pouca água suprida, e as forças de segurança são insuficientes. É também em Ramallah que fica a Muqata, a sede do governo onde Yasser Arafat ficou confinado em situação precária por mais de dois anos. Reconstruído das ruínas, o local também abriga o recém-inaugurado Mausoléu de Arafat, onde se encontra o túmulo do falecido líder palestino.

Já em Bil'in, um morador concorda em nos guiar até a "fronteira". Depois de 1 quilômetro, a estrada é abruptamente interrompida pela cerca elétrica. Atrás de cercas e portões, se reúnem dezenas de soldados israelenses preparando-se para mais um dia de manifestações. Ao perceberem nossa aproximação, trocam olhares desconfiados e passam mensagens de rádio a seus superiores. Logo um jipe do exército se aproxima. Através da cerca, o palestino e o soldado travam um breve e inesperado diálogo. Sem sair do veículo, mas com a porta aberta, o soldado sorri ironicamente e cumprimenta o palestino. O rapaz então diz para o soldado: "Vê se não pegam pesado hoje". No que o soldado responde: "Se vocês não o fizerem, nós também não o faremos". Bateu a porta e arrancou com seu veículo, seguindo a estrada junto à cerca até sumir nas curvas. Soldado e ativista, protagonistas do drama da ocupação, tratam os embates com a naturalidade de quem marca uma pelada. Em algumas horas, ambos estariam no mesmo lugar, desta vez sem tantas gentilezas.

Sexta-feira é o dia santo para os muçulmanos. Como de praxe, a maioria dos habitantes reúne-se na mesquita local para suas preces. A pichação política que toma conta dos muros da vila deixa claro que Bil'in é dominada pelo Fatah, organização laica do atual presidente Mahmoud Abbas. Aos poucos, manifestantes estrangeiros e membros da imprensa começam a chegar. Um dos primeiros palestinos a aparecer é um idoso vestindo um kefieh (lenço típico) adornado por um broche com a imagem de Arafat. Ele logo atrai a atenção dos jornalistas. Um desses, Emad Bornat, documentarista e cinegrafista freelancer, sempre registra as manifestações, edita os vídeos e depois os publica em sites dedicados à causa palestina e no YouTube. "A minha intenção é mostrar para o mundo o que realmente acontece aqui, e espero conseguir isso através de meus vídeos", diz, em português fluente. Casado com uma brasileira e morador de Bil'in, Bornat leva consigo um capacete que o identifica à distância como membro da imprensa. "Já fui ferido mais de uma dezena de vezes por balas de borracha", conta, mostrando as cicatrizes. "E uma granada de gás lacrimogêneo atingiu meu joelho. Fiquei mais de um mês sem poder trabalhar." Portador de passaporte estrangeiro - o que lhe permite sair do país para participar de conferências, Emad diz que não pretende deixar a Palestina: "Adoro o Brasil, mas aqui estão minhas raízes, por isso resolvi viver aqui, para ajudar o meu povo na sua pacífica luta".

Naquela sexta-feira, os manifestantes também prestavam homenagem ao Dia do Prisioneiro. Crianças posavam para os fotógrafos com as mãos amarradas por fitas pretas em frente a grandes pôsteres com fotos de palestinos mortos ou presos. Depois, como que em uma brincadeira infantil, alguns dos meninos colocam-se dentro de uma pequena jaula improvisada, posando para mais fotos e deixando claro como a realidade da ocupação inevitavelmente entranha-se desde cedo. De fato, é difícil encontrar palestinos que não tenham sequer um amigo ou parente que já foi ou esteja preso - no momento, cerca de 10 mil prisioneiros políticos estão detidos em prisões israelenses, incluindo centenas de mulheres e crianças.

Em um pequeno prédio na rua principal, fica o "quartel" dos ativistas. É um bagunçado apartamento térreo enfeitado por fotografias da ocupação, onde os manifestantes reúnem-se e escrevem cartazes com frases de protesto. Em um deles, escrito por um israelense, lê-se: "Por que Bil'in merece ser enjaulada e ter suas terras roubadas?". Ao fim das preces, a rua é tomada por uma pequena multidão e enfim começa a manifestação. À frente dos manifestantes, seguem os cinegrafistas e fotógrafos. Logo atrás, seguem crianças, o idoso vestindo o kefieh e um senhor de barba grisalha e um colete da organização humanitária Crescente Vermelho que carrega uma maleta de primeiros-socorros. Ele também é o responsável por alertar os manifestantes do perigo iminente, utilizando um potente apito. Atrás deles, centenas de manifestantes entoam palavras de ordem enquanto agitam bandeiras da Palestina: "Não à ocupação, abaixo o muro do Apartheid!".

Na estrada, já é possível avistar soldados agrupados do lado palestino da cerca, próximos a um carro munido de canhões de jato d'água. Um deles utiliza um megafone para alertar os manifestantes que se aproximam. "Atenção, vocês estão invadindo área militar restrita! Seremos obrigados a responder!"

Quando a pequena multidão chega a menos de 100 metros dos soldados, escutam-se os primeiros estampidos. Para os soldados israelenses, armados até os dentes e bem posicionados no alto do morro, fica fácil a dispersão com balas de borracha. Muitos manifestantes, principalmente os estrangeiros, logo recuam, contrariando os pedidos dos palestinos para seguirem a marcha.

Não tarda, surgem os primeiros riscos de fumaça no céu. São granadas de gás lacrimogêneo traçando titubeantes parábolas em direção à multidão. "Coloque isso no nariz, rápido!", grita um manifestante, distribuindo chumaços de algodão embebidos em álcool. Outros cheiram cebolas cortadas, que ironicamente parecem estancar o efeito do gás nos olhos. Os mais corajosos dividem-se em pequenos grupos e espalham-se entre as oliveiras na tentativa de se aproximarem da cerca, mas logo são descobertos e dispersados.

Logo começam a cair os primeiros feridos. Em poucos minutos, chega uma ambulância do Crescente Vermelho. Os paramédicos socorrem as vítimas, deitando-as em campos acarpetados por margaridas, num cenário bucólico que contrasta com a violência ao redor. Uma bala de borracha finalmente silencia o velho do apito. A estrada está agora repleta de grandes pedras para dificultar o possível avanço de veículos israelenses, mas acaba também prejudicando a passagem das ambulâncias. Os jornalistas que registram tudo junto aos soldados também são dispersados com gás, desta vez à queima-roupa. O velho do kefieh agora já senta numa pedra à beira da estrada, levando as mãos à cabeça em sinal de desolação.

No fim de mais uma sexta-feira de protesto, o saldo era de 16 feridos, inclusive um cinegrafista da rede de TV Al Arabiya, fortemente intoxicado pelo gás. Nenhum dos feridos era soldado. Alguns membros da imprensa foram feitos de "reféns temporários", para que não pudessem registrar nada até a total dispersão dos manifestantes. Desde o começo das manifestações em Bil'in, há dois anos e meio, mais de 800 ativistas já foram feridos. Dezenas de moradores já foram detidos, alguns passaram meses na cadeia, e são cada vez mais freqüentes as incursões noturnas para prender os organizadores dos protestos.

"As vidas de todos os palestinos tornaram-se muito ruins", reconhece a embaixadora. Mas, segundo ela, essas questões são discutidas no Tribunal Superior de Justiça de Israel. "Os palestinos podem apelar ao nosso Supremo Tribunal, e muitas decisões já foram tomadas para mudar o caminho da cerca, o que tem custado muito dinheiro."

O que acontece em Bil'in é visto como um símbolo da resistência pacífica à ocupação. O legado do muro, porém, não se restringe a Bil'in, afetando o trânsito de locais em muitas outras vilas "fronteiriças", onde a situação de isolamento e miséria pode ser ainda pior. Em Tulkarem, o desemprego pulou para 80% depois de a cidade ser isolada. Já Qalqiliya é totalmente cercada pelo muro. Outras cidades palestinas próximas à construção se tornaram guetos isolados, onde a entrada e a saída dos moradores são rigorosamente controladas pelos militares israelenses. Nas grandes cidades de Nablus, Hebron e principalmente Gaza, as balas de borracha são substituídas por tanques, armas de efeito moral por mísseis aéreos, a união da resistência palestina pela desordem da guerrilha faccional e o odor acre do gás pelo cheiro de sangue.

Visitar a Faixa de Gaza, atualmente reduto do Hamas, e cada vez mais isolada do resto do mundo com o fechamento de suas fronteiras externas por Israel, é praticamente impossível: os poucos que conseguem autorização só podem seguir em comboios com escolta armada. Sair também é difícil: nem mesmo a Seleção Palestina de Futebol consegue a permissão para deixar Gaza para seus jogos internacionais. Importantes normas internacionais têm sido sistematicamente violadas, criando uma grave crise humanitária no pequeno território que sofre com freqüentes cortes no suprimento de eletricidade e combustíveis devido ao seu estrangulamento. Plantações foram destruídas e a infra-estrutura de saneamento básico e fornecimento de água também foi comprometida. A maioria das fábricas do território foi obrigada a fechar as portas por falta de matérias-primas. De acordo com o Ministério da Saúde palestino, dezenas de itens básicos na lista de medicamentos essenciais ficaram sem estoque. Mais de 90% da população vive agora abaixo da linha de pobreza. Miséria e desemprego nunca estiveram tão altos, assim como o custo de vida. Para muitos, Gaza tornou-se a maior prisão do mundo.

O governo israelense, no entanto, diz que apenas retalia os mísseis Qassam atirados de Gaza contra cidades israelenses próximas à fronteira, como Sderot. Segundo a embaixadora, a maior parte do povo e do governo israelense não quer continuar a controlar os palestinos. "Não queremos ter que entrar com todas as forças novamente na Faixa de Gaza, mas não podemos permitir os lançamentos de foguetes."

Para a representante oficial de Israel no Brasil, a retirada de colonos e de tropas israelenses de Gaza em 2005 foi um passo importante para dar uma chance de encorajar concessões. "Alguns meses depois o Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, chegou ao poder. O Hamas, a Jihad Islâmica e outros elementos fundamentalistas radicais, querem ver um Estado islâmico ocupando todo o território de Israel, Faixa de Gaza e Cisjordânia, e contam com o contrabando de armamentos cada vez mais sofisticados."

O argumento de que a ocupação de Gaza terminou depois da evacuação das colônias de assentamentos judaicos e do recuo das tropas não convence Pappe, pois não leva em consideração o fato de que o governo israelense continua mantendo controle das fronteiras externas através de todos os seus seis acessos, do espaço aéreo e das águas territoriais. "Eles querem isolar e estrangular Gaza, e por essa razão, e apenas por essa razão, eles retiraram os colonos. Agora eles podem impor punições coletivas sem temer pelas vidas dos colonos. No entanto, em geral, punições coletivas são ações ilegais, e espera-se que um dia todas as ações ilegais de Israel vão se mostrar contraproducentes."

O longo martírio da população de Gaza agravou-se ainda mais nos últimos meses, com renovados cortes no fornecimento de eletricidade e alimentos. Os poucos relatos disponíveis de moradores de Gaza dão uma idéia da situação: a água é totalmente imprópria para o consumo, e as forças israelenses não têm permitido a entrada de água mineral engarrafada, nem de bombas d'água. Israel permite a entrada de pouquíssimos itens básicos, mesmo assim a conta-gotas. Nem mesmo aparelhos hospitalares vitais, como incubadoras, podem ser importados. Não há sequer cimento para finalizar a construção de um hospital pediátrico.

Para a embaixadora Tzipora, o Hamas estaria "encenando uma situação de crise energética e humanitária" na Faixa de Gaza: "O Hamas usa essa situação, e cria uma crise artificial. Israel tenta muito evitar problemas humanitários, facilitamos a entrada de alimentos, combustíveis e remédios". E prossegue: "É um paradoxo que, ao mesmo tempo em que nós negociamos com os palestinos, o Hamas, que é contra essas negociações, continua lançando diariamente mais de 100 foguetes contra os cidadãos de Sderot, e nós continuamos fornecendo combustível e eletricidade para eles".

Militantes do Hamas derrubaram, em 23 de janeiro último, partes do muro na fronteira que separa a Faixa de Gaza do Egito. Milhares de palestinos desesperados aproveitaram a brecha para comprar alimentos e combustíveis.

Em solidariedade aos habitantes de Gaza, o Gush Shalom organizou no fim de janeiro manifestações em ambos os lados do muro, além de conduzir um comboio com 5 toneladas de alimentos e mantimentos básicos até a fronteira, na tentativa de fazê-lo cruzar para Gaza. Em recente pesquisa de opinião, uma ampla maioria da população israelense mostrou-se favorável a uma trégua com o Hamas.

Para Finkelstein, trata-se de boas-novas. "Tenho um otimismo que, se os israelenses estivessem a par de que a paz é possível em termos aceitáveis - e o é -, eles iriam apoiar tais acordos."

Pappe tem a mesma opinião: "Parece que a opinião pública em Israel é mais inteligente que o governo, e compreende que não há solução militar". Mas salienta que isso não significa que a sociedade em Israel está pronta para a paz. "Uma nova pesquisa indicou que mais de 70% dos israelenses apóiam a transferência de seus concidadãos árabes, em outras palavras, limpeza étnica." Para a Embaixadora Rimon, os resultados da pesquisa comprovam que Israel é uma democracia. "A sociedade israelense é como um mosaico: quase 20% da população é formada por árabes-israelenses e, além deles, temos os israelenses mesmo, de direita, de esquerda, de centro. Todos os setores são encorajados a expressar opiniões."

Pappe discorda veementemente. "Um país que ocupa outro povo, que mantém mais de 10 mil presos políticos, que desrespeita cada direito humano e civil de mais de 2 milhões de pessoas e discrimina seus próprios cidadãos árabes, não é uma democracia."

No início de março, a situação se deteriorou mais ainda. O estrangulamento prosseguiu, e, conforme o esperado, os mísseis Qassam também, matando um civil israelense. A resposta do governo de Israel foi mais uma vez desproporcional: em menos de uma semana, 120 palestinos foram mortos, a maioria civis. O vice-ministro de Defesa de Israel, Matan Vilnai, chocou a opinião pública mundial ao ameaçar os palestinos de Gaza com um "shoah" - palavra raramente utilizada em Israel para designar outra coisa que não o holocausto nazista. Pappe diz que "levaria a sério" tais declarações: "Os israelenses querem se ver livres da Faixa de Gaza e seu povo, e parece que têm muito pouca inibição ao escolher os meios". Uri Avnery acredita que "a frase foi mal traduzida" e não se referia a um holocausto.

Devido ao massacre, a Autoridade Palestina suspendeu as negociações de paz - ou o que restava delas. Alguns dias depois, mais um golpe: um palestino invadiu uma escola religiosa em Jerusalém, matando oito pessoas, no maior atentado realizado na cidade nos últimos dois anos.

Impossibilitado de seguir para Gaza, limitei-me a circular nas diferentes regiões da Cisjordânia. Logo na entrada de Nablus ficam as ruínas da Muqata local, totalmente destruída por ações do exército israelense - uma espécie de cartão-postal involuntário dessa bela cidade. Nas poucas horas em que estive lá, ouvi tiroteios, vi olhares desconfiados e uma tensão permeando os mercados. Enquanto fotografava as coloridas ruas e barracas dos feirantes, fui rudemente abordado por um adolescente que se dizia policial. "Você não pode fotografar aqui!", gritou, ameaçadoramente. O motorista que me acompanhava precisou intervir com firmeza e o rapaz se afastou, resmungando. "É só um moleque encrenqueiro", disse um dos feirantes. "Eles acham que você pode ser um espião a serviço do governo israelense", completou o motorista.

O clima em Hebron é ainda pior. Seu centro histórico está parcialmente ocupado por cerca de 600 colonos judeus radicais desde meados dos anos 70, protegidos por milhares de soldados. Os comerciantes palestinos abandonaram suas lojas e a sensação é a de uma cidade-fantasma. Os moradores foram obrigados a montar uma tela de arame para se protegerem dos colonos que ocupam os segundos andares do casario. "Eles jogam de tudo: lixo, chá quente e todo tipo de dejeto", reclama um morador, apontando para a sujeira acumulada sobre nossas cabeças. Já do outro lado de uma sinistra catraca próxima à Mesquita de Abraão/Gruta dos Patriarcas, local sagrado para muçulmanos e judeus e epicentro das tensões na cidade, colonos caminham tranqüilamente pelas ruas ocupadas.

Já no Vale do Jordão os planos iniciais de construir o muro para separar e formalmente se apropriar da região foram abandonados. Mesmo assim, o governo israelense assegurou o firme controle da área, que representa 25% da Cisjordânia, da mesma forma que o fez com as áreas "fechadas" entre o Muro e a Linha Verde. Aos palestinos resta o enclave de Jericó.

Na cidade velha de Jerusalém, dividida entre cristãos, judeus e muçulmanos, é cada vez mais comum ver bandeiras de Israel estendidas nos muros da parte árabe, em imóveis recentemente adquiridos por judeus influentes, dentre os quais o ex-primeiro-ministro Ariel Sharon. Há câmeras de vigilância e soldados por toda parte.

Mas talvez o maior sinal de que as perspectivas são um tanto sombrias é a presença de soldados israelenses armados no interior da mesquita do Domo da Rocha, local restrito para não-muçulmanos. A tensão é quase palpável. Os mais radicais ainda sonham em destruir a mesquita para reconstruir no local seu templo, posto abaixo pelos romanos há quase dois milênios. As lojas de produtos judaicos na cidade velha ostentam pinturas nas quais esse "sonho" já teria sido realizado: no lugar do Domo dourado aparece uma reprodução do antigo templo em meio a Jerusalém atual.

Uma rápida olhada no mapa do território palestino em diferentes momentos dos últimos 60 anos mostra claramente a involução da área sob "controle" dos palestinos. As décadas de ocupação reduziram o território palestino a um complexo conjunto de guetos e o número de colonos na Cisjordânia já passa dos 250 mil. Na Jerusalém Oriental, são mais de 200 mil.

Com a construção do muro, muitas famílias perderam suas casas, terras e trabalhos, tornando-se refugiadas. Algumas cidades tiveram seus mercados totalmente destruídos. Em alguns casos, crianças são impedidas de freqüentar suas escolas, agora do outro lado do muro. A região central da Cisjordânia, a mais fértil, perdeu enormes porções de terra com a anexação. Além disso, devido ao isolamento de dezenas de poços e cisternas, metade das comunidades no caminho do muro não terá mais como irrigar suas terras, agora também situadas do outro lado.

"O Muro não está apenas cercando os palestinos atrás de blocos de cimento, mas também serve como instrumento de limpeza étnica", afirma Jamal Juma, da Stop the Wall, coalizão de ONGs e comitês populares palestinos que lutam contra o Muro e a ocupação.

"Nas vilas, agora situadas no limbo atrás do Muro", prossegue Jamal, "até a quantidade de comida que você pode trazer é restrita, e ninguém que não esteja oficialmente residindo na área tem acesso, incluindo médicos". Vilas inteiras já tiveram as ordens de demolição decretadas. "Serão simplesmente apagadas do mapa", diz.

Pappe também usa o termo "limpeza étnica" para se referir às políticas do presente e do passado. "Foi um pequeno grupo de líderes e comandantes militares que se reuniam semanalmente durante um ano, entre fevereiro de 1947 e fevereiro de 1948, que eventualmente decidiram pela expulsão à força dos palestinos de 80% da Palestina, onde a liderança decidiu que seria um Estado judeu. A maioria dos líderes sabia disso quando o plano foi executado", revela. "E depois de completar as operações, quando Israel expulsou metade da população e destruiu metade das vilas e cidades palestinas", continua, "o mundo não reagiu e acabou enviando a Israel uma mensagem silenciosa de que não havia nada de errado no que havia feito. Essa mensagem ensinou a Israel que os poderes instituídos no mundo, as potências ocidentais, não se opunham às políticas de despejo na Palestina e portanto poderiam ignorar as resoluções da ONU, que representam o resto do mundo".

Por tudo isso, muitos se referem ao muro como o Muro do Apartheid. "Depois de Oslo e da construção do muro, a estratégia do governo israelense entrou em uma nova fase com a formação dos 'bantustões'", diz Jamal, referindo-se ao termo utilizado para descrever os territórios segregados na África do Sul durante o período de apartheid.

Para Finkelstein, "a julgar pelo que já foi dito por muitos indivíduos de respeito - como Jimmy Carter e Desmond Tutu -, organizações - como o Centro Israelense de Informações pelos Direitos Humanos nos Territórios Ocupados (B'Tselem) - e instituições - como o mais influente jornal de Israel, Haaretz -, a comparação parece ser válida".

As condenações das políticas de Israel pela Corte Internacional jamais surtiram efeito. Pelo contrário, o regime de sanções imposto à Palestina é um dos mais severos da história recente. Os principais parceiros políticos e comerciais de Israel continuaram seus investimentos maciços, financiando zonas industriais em territórios anexados e, em alguns casos, o próprio muro e o sistema de checkpoints. O chamado "Quarteto de Madri", formado pelos EUA, União Européia, Rússia e ONU, continua inoperante. O governo Bush alardeou em 2007 que "estava empenhado na criação de um Estado Palestino", porém sem especificar como seria esse Estado. Segundo o relatório da ONU, Israel deveria "entrar em sérias negociações com a Autoridade Nacional Palestina para estabelecer a criação do Estado Palestino dentro dos limites de 1967, encerrar a ocupação dos territórios palestinos e respeitar as leis e os direitos humanitários". Mesmo assim, o Muro prossegue e as colônias continuam sendo expandidas ilegalmente.

"O Quarteto não está interessado em se opor a nada que Israel se oponha. Então, como Israel se opõe ao Direito de Retorno, jamais faria parte dos planos de paz do Quarteto. E já que Israel se opõe a um Estado Palestino no verdadeiro sentido do conceito, não fará parte do plano de paz do Quarteto. Em outras palavras, o Quarteto não trará paz à Palestina", diz Pappe.

Para Finkelstein, "há um consenso internacional nos termos para dar um fim ao conflito: um acordo de 'dois Estados' nas fronteiras de junho de 1967 com uma solução justa da questão dos refugiados. Se você olhar as votações anuais nas Nações Unidas, é sempre a mesma coisa: o mundo inteiro de um lado, EUA e Israel do outro".

Tzipora afirma que a idéia de Israel é alcançar a paz com os palestinos. "Já demonstramos isso no passado, temos acordos de paz com Egito e Jordânia, dois países árabes com os quais temos relações muito boas. Nós continuamos os diálogos de concessões com as lideranças moderadas dos palestinos, como Mahmoud Abbas e Salam Fayad (apontado primeiro-ministro da Autoridade Palestina pelo presidente, mas não reconhecido pelo Conselho Legislativo Palestino, o parlamento da ANP)."

Segundo Jamal, a Conferência de Anápolis, realizada em dezembro de 2007, já era refutada pela maioria da população palestina antes mesmo de sua realização. "Não podíamos esperar nada além da retirada de alguns poucos checkpoints em detrimento dos Direitos de Retorno dos 6 milhões de refugiados e de Jerusalém", diz.

De fato, nenhuma negociação séria foi iniciada depois de Anápolis. No dia seguinte, o governo de Israel anunciou novos projetos de construção de assentamentos além da Linha Verde. A diplomata tem uma visão mais positiva sobre a Conferência. "Não sabemos exatamente todos os detalhes das negociações bilaterais, já que desta vez muitas coisas não foram publicadas. Mas nós sabemos que os principais assuntos estavam todos na mesa de negociações. Do ponto de vista de Israel, nós temos que ter garantias de que no futuro não vamos ter que enfrentar um estado terrorista ao lado de Israel."

Para ela, as reivindicações palestinas são questões "muito pesadas, como Jerusalém, a retirada dos territórios ocupados da Cisjordânia, o traçado da nova fronteira, a questão dos refugiados que moram no Líbano, Síria e Jordânia. São questões mais difíceis, mas estão absolutamente na mesa de negociações".

Depois de uma década de fracassos nas negociações iniciadas em Oslo, Jamal diz que as estratégias palestinas devem tomar outra direção: "No momento, há um consenso na sociedade palestina pedindo o corte das relações com seus ocupantes e que o mundo isole Israel como o fez com a África do Sul, pelas políticas de apartheid".

Fica claro, então, que a Palestina, como estado soberano e independente, ainda é apenas uma abstração imaginária. Em 2007, completaram-se 40 anos da ocupação israelense. O governo palestino, enfraquecido por anos de conflitos internos e externos, bloqueios e corrupção, pouco pode fazer, e sente-se uma enorme frustração na população, já esgotada após décadas de ocupação.

Em meio às oliveiras de Bil'in, qualquer estrangeiro pode desfrutar o direito de ir e vir. Os palestinos não têm essa opção. Dependem de paz nessas terras para um dia poderem também colher a tão sonhada liberdade.

A suprema corte de israel ordenou em setembro passado o redesenho e recuo da barreira em Bil'in, por considerá-la "altamente prejudicial" à população e "injustificável". A promessa é de devolver metade dos hectares de terra confiscados. A maior preocupação é que nem sempre as decisões da Corte são implementadas. Além disso, a mesma Corte legitimou a expansão da colônia de Modin Illit, que já havia sido construída em terras de Bil'in. Com a decisão, Bil'in teve uma semana inteira de festejos, com danças tradicionais e muitas bandeiras. Apesar da vitória, os moradores não estão satisfeitos com o pequeno recuo e prometem continuar a luta contra a expansão das colônias. "A decisão foi boa, mas não o suficiente - a colônia continua sendo construída", diz o cinegrafista Emad. Para ele, a decisão do governo de devolver as terras se deve "às manifestações semanais do povo de Bil'in". Segundo um comunicado divulgado pelos organizadores do movimento, eles continuarão a "resistir contra a construção do muro até que ele caia e cada centímetro de terra confiscada e isolada seja finalmente devolvido".

Pappe não é muito otimista quando leva em consideração o contexto atual. Para ele, "o muro só cairá quando Israel deixar de ser um Estado sionista. O muro é muito popular em Israel e, enquanto o sionismo for a ideologia hegemônica, não há motivo para os judeus em Israel quererem ser integrados à Cisjordânia ou viverem juntos em fronteiras abertas".

Já Uri acredita que um dia as tropas israelenses vão recuar para trás da Linhe Verde, "mas apenas quando houver a paz". Ele acredita que "um Estado palestino vá eventualmente se tornar realidade, mas apenas quando conseguirmos convencer a opinião pública israelense".

Para Finkelstein, tudo depende da vontade do povo. "Com vontade suficiente, outros muros já foram derrubados. Diz-se que [o líder bíblico israelita] Josué ordenou crianças a gritarem e um muro desmoronou. Se gritarmos alto o suficiente, nossa indignação contra o que Israel vem fazendo, o país será forçado a mudar seus métodos."