Lembranças de Nova York

Teté Ribeiro Publicado em 07/05/2008, às 16h30 - Atualizado em 06/06/2008, às 11h06

Da esquerda para a direita: Kristin Davis, Sarah Jessica Parker, Cynthia Nixon e Kim Cattrall, protagonistas de Sex and the City - O Filme
Sarah Jessica Parker volta ao seu personagem mais famoso, Carrie Bradshaw, em Sex and the City - O Filme, que estréia em 6 de junho, sexta-feira. A atriz e produtora fala com exclusividade à Rolling Stone Brasil sobre uma possível visita ao país, a depilação batizada de "brazilian", seus problemas com Kim Cattrall, o número de sapatos em seu guarda-roupa e o fato de não mostrar os peitos por nenhum dinheiro do mundo

A rodada de entrevistas organizada em Nova York no começo de março aconteceu sem a apresentação de Sex and the City - O Filme, que está sendo mantido em segredo para atiçar ainda mais a curiosidade dos fãs. Ou isso, ou é muito ruim (outra razão pela qual os produtores costumam não exibir aos jornalistas antes da estréia). O suspense só aumenta com as últimas notícias: o longa-metragem foi convidado para ser exibido no festival de Cannes, o mais importante do mundo, mas a produtora New Line declinou.

As quatro protagonistas - Kristin Davis, Sarah Jessica Parker, Cynthia Nixon e Kim Cattrall - foram instruídas a não revelar muito da história. Disseram ainda que o diretor e roteirista Michael Patrick King talvez precisasse refilmar alguma cena. E, já na segunda metade do mês passado, a cantora Fergie foi convidada para compor uma música inédita para a trilha. Disse que não tinha tempo, mas mudou de idéia depois de assistir ao filme e se inspirar. Ou seja, aparentemente ficou pronto.

O encontro com Sarah Jessica Parker revelou uma mulher estilo "no bullshit" - ela está ali a trabalho, sabe quem é e o que quer dizer sobre cada assunto. Baixinha e magrela, pessoalmente parece uma miniatura da personagem que interpreta. Seu quadril e seu torço são os mais estreitos que já vi em uma pessoa considerada saudável. Mas tem aquele "je ne sais quoi" das grandes estrelas, que no fundo acho que "je sais bien" o que é: tudo é bonito, bem tratado, corpo em forma, dentes brancos, olhos atentos, cabelo impecável (estava ondulado e castanho com toques loiros no dia), pele boa, cílios postiços. Dispensando maiores apresentações, a conversa foi assim:

A imprensa brasileira toda hora publica que você está planejando ir ao Brasil para promover o filme, seu novo perfume e um novo shopping center. É verdade?

Quero ir ao Brasil há anos e, nos últimos meses, tenho conversado com um grupo de empresários e talvez a viagem finalmente aconteça. Tenho muita curiosidade sobre o Brasil, mas é sempre difícil armar essas viagens longas quando minha agenda está tão ocupada.

O que despertou sua curiosidade em relação ao país?

Uma grande amiga da minha família e o marido dela são brasileiros, o nome dela é Alexa. Então sei falar "muito obrigada", e ela ensinou uma música de criança para meu filho em português, deixa ver se me lembro& (começa a cantarolar "Atirei o Pau no Gato", sem a letra, só canta a parte do "gato-to" e o "miau" do final).

O que mais você sabe sobre o Brasil?

Já comemos comida brasileira com eles, vi muitas fotos, ouvi música, mas não lembro o nome dos artistas. Queria muito conhecer a família deles, os dois vêm de uma cidade chamada Americana, que foi criada por um grupo de norte-americanos. É em uma área rural no estado de São Paulo.

O Brasil foi mencionado na série várias vezes, algumas como metáfora para xoxota depilada; outras como destino de um dos amantes de Carrie; depois Samantha e Richard vão passar uma noite no Rio; e, claro, teve a participação da Sonia Braga em três episódios - fora o grande número de músicas brasileiras na trilha. Tinha alguém do Brasil no time de roteiristas?

Não, na verdade nunca tinha parado para pensar nisso, mas aparece muito mesmo. Acho que o Brasil é um país pelo qual muita gente tem simpatia e a idéia de que é um lugar sexy, musical, liberal, animado, de gente bonita. Basicamente o contrário do que se pensa hoje em dia sobre os Estados Unidos.

Mas a famosa depilação "brazilian bikini" não foi criada no Brasil, sabia?

Sabia por causa da minha amiga e acho isso muito engraçado. Também acho que essa depilação não devia existir em lugar nenhum, é uma idiotice.

Agora, muito por causa da série, essa moda começou a chegar ao Brasil&

Jura? Credo, achei que os brasileiros iam rir da cara das norte-americanas quando soubessem disso, nunca adotar essa moda horrenda que faz as mulheres ficarem parecendo que têm 5 anos de idade.

Assim como no seriado, você também é produtora do filme. Por que acumular as funções?

Produzir um filme é um trabalho sem fim, mas que sei fazer. Também sei que meus melhores momentos aparecem quando estou atolada de trabalho e preocupação, adoro a sensação de que tenho que cuidar de todo mundo ao mesmo tempo. Tinha dias em que achava que ia enlouquecer de tanto cansaço e falta de sono, mas não faria nada diferente, nem deixaria que outra pessoa tomasse de mim essa responsabilidade.

Por quê?

Porque esse é meu momento. Não sei se vou ter outra chance de interpretar uma personagem tão interessante e que faz tanta gente se identificar com ela como a Carrie. Os anos da série foram o auge da minha carreira até aqui, e acredito que o filme será a cereja do bolo. Produzir de verdade uma coisa que pode ser importante para você e para outras pessoas, com o personagem da sua vida, é uma oportunidade que não deixaria passar por mim sem agarrá-la com as duas mãos.

Quer dizer que você é supercontroladora?

Sou e não tento esconder. Não acho ruim nem pouco atraente em uma mulher, e esses últimos meses de campanha presidencial mostraram isso. A ambição às vezes parece uma característica pouco feminina, enquanto nos homens é vista como uma qualidade invejável, e, de novo, acredito que os últimos meses de campanha presidencial mostraram isso [risos]. Mas não acho que seja uma forma de egoísmo, trabalho muito para ter certeza de que todo mundo está confortável e tendo o que precisa para fazer a sua parte da melhor forma possível. Sei que minha voz tem um peso e que posso usá-la para fazer o filme ser melhor, então eu uso, não importa o nome que isso tenha, se é uma mania, ambição, excesso de controle.

O filme está guardado a sete chaves, mas o trailer já passa nos cinemas, está na internet e parece revelar um bom pedaço da história. O quanto é revelado no trailer?

Basicamente 99% do que acontece no filme não está no trailer. Nós trabalhamos muito para revelar o mínimo possível e despertar a curiosidade do público. Acho que as pessoas vão ficar surpresas.

Os rumores de que sua relação pessoal com a Kim Cattrall não é das melhores sempre acompanharam a série e agora as filmagens do longa-metragem. O quanto há de verdade nisso?

Eu briguei para conseguir tê-la de volta no elenco, não faria o filme sem a Kim. A gente não é amiguinha, não temos muita coisa em comum, mas trabalhamos bem juntas. Não sei como essas histórias começam e por que ganham tanto espaço. Acho que as pessoas gostam de pensar que as mulheres não se dão bem, que são competitivas. Ninguém prestou atenção ao elenco de Sopranos, ninguém escreveu uma linha sobre a relação pessoal do James Gandolfini e seus colegas de trabalho, ninguém perguntou se aqueles homens saíam juntos toda noite. Que colegas de trabalho saem juntos toda noite?

Mas é verdade que ela não quis fazer o filme assim que a série acabou porque queria mais dinheiro?

É verdade, ninguém nega isso. E acho que ela tinha todo o direito de brigar por mais dinheiro, essa é uma das coisas na vida que quase ninguém consegue sem uma briga ou pelo menos sem se posicionar firmemente. Eu fiquei chateada na época, mas nunca questionei o fato de que ela tinha direito de querer mais dinheiro. Todo mundo ficou frustrado. Mas no final deu tudo certo.

O que mudou? Ela aceitou menos dinheiro ou vocês chegaram ao preço que ela queria?

A gente se encontrou no meio do caminho. Mas foi um jogo de sedução, eu mandei e-mails, telefonei, mandei presentes, fiz tudo o que podia para tê-la no elenco, não teria sentido sem ela. E fazer um filme é um processo muito íntimo, você consegue trabalhar com uma pessoa com quem não se dá muito bem, mas é quase impossível trabalhar com uma pessoa que você detesta.

Vou ter que perguntar sobre os sapatos&

Vai em frente, você não vai ser a primeira e tenho certeza de que não será a última [risos].

Já li que você tem um guarda-roupa fora de casa só para seus sapatos mais queridos, mas também já li que você, na verdade, tem apenas seis pares de Manolos, a marca de sapatos favorita de Carrie. O que está mais perto da verdade?

Não sei, nunca contei, mas são mais de seis. Talvez tenha comprado uns seis mesmo, mas herdei tantos do figurino do seriado que virou um daqueles casos em que intérprete e personagem meio que se misturam. Mas a maioria dos que estão comigo não tenho coragem de usar, trato como um prêmio, uma lembrança de um momento especial. Certamente não faço tantas compras quanto a Carrie, nem gasto tanto do meu tempo nem do meu dinheiro com sapatos, ainda que agora tenha mais dinheiro do que ela. Adoro sapatos, mas, assim como as roupas, eles não são uma prioridade na minha vida.

O que você está vestindo hoje?

Este vestido é Versace, emprestado, esse blazer é Gucci, emprestado, o sapato é Manolo, emprestado, e a bolsa é Fendi, emprestada. E esse diamante no meu pescoço é meu mesmo, mas é falso [risos]. Os dois mínimos que estão nas minhas orelhas são verdadeiros, meus e muito velhos. Não tenho muito tempo para pensar nas roupas que vou vestir, tenho um filho que tenho que levar para a escola todos os dias e visto o que o clima de Nova York permite.

Ser mãe atrapalhou seu estilo?

Ser mãe atrapalhou tudo, mudou tudo, mas também melhorou tudo. Agora, sair de casa é uma experiência muito mais complexa, prazerosa por um lado e ultradolorida por outro. Fico com saudade do meu filho, preocupada, mas, ao mesmo tempo, consigo sentir prazer em coisas que só me traziam chateação, como viajar de avião. Às vezes, estou no meio de um vôo e sinto uma calma absoluta, me dou conta de que não estou tomando conta de ninguém, não tenho que arrumar nada, pensar em nada, distrair meu filho, virou um luxo. Me vestir bem, arrumar meu cabelo e fazer maquiagem foram parar lá embaixo na lista de prioridades. Ir para o set todos os dias era como ir para um spa, quase não acreditava que tudo aquilo estava à minha disposição para me deixar mais bonitinha [risos].

Você gostaria de ter outros filhos?

Essa é a única ou uma das únicas perguntas que não gosto de responder. Porque, se eu disser sim, daqui a pouco estou grávida em um tablóide ou em um site de fofoca; se eu disser não, daqui a pouco minha gravidez foi um pesadelo ou meu casamento está em crise. Podemos pular?

Claro. Mas vamos falar de outro assunto espinhudo, neste caso. A Carrie vive pela casa de calcinha e sutiã. Mas você tem a famosa cláusula no contrato que proíbe que seus seios apareçam, mesmo nas cenas de sexo. Por quê?

Porque não fui criada assim, nunca andei pela casa de calcinha e sutiã, e quando tenho que fazer essas cenas fico supernervosa, envergonhada de aparecer quase pelada na frente dos meus colegas de trabalho. Sou mais tímida com meu corpo e bem mais pudica que a Carrie.