Samba da Cura

Fabiana Cozza prefere as emoções ao vivo e avisa: "Quero curar pela música"

Marcus Preto Publicado em 07/05/2008, às 17h13 - Atualizado em 04/08/2008, às 18h06

Fabiana Cozza faz parte da nova safra do samba paulista

Eu, por mim, se não precisasse desse 'cartão de visitas', não faria discos. Nunca vou render numa gravação o mesmo que rendo ao vivo. As pessoas sempre preferem a Fabiana do palco - eu mesma gosto muito mais dela. Um teatro é como um templo. Para mim, é o melhor terreiro."

Com dois "cartões de visita" gravados (e já pensando no terceiro), Fabiana Cozza encara, entre 30 de maio e 1º de junho, aquele que pode ser um momento crucial em sua ainda recente história na música. Ela leva seu teatro, seu candomblé e seu samba para o gigantesco Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Convida o rapper Happin' Hood (possível produtor de seu próximo trabalho) e a amiga Maria Rita - artista que considera, como ela própria, uma "desesperada". "Tenho uma coisa com as cantoras desesperadas: Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Elis...", ela enumera. "São artistas que me inspiraram sempre, que me curaram de alguma coisa. E quero poder fazer isso, poder ser essa pessoa com poder de cura. Pode ser a cura de uma dor de cabeça, mas também de uma mágoa, de um ranço, de uma ira. Tudo se dissolve com a música."

Fabiana nasceu em São Paulo, tem 32 anos e estuda técnica vocal há 12. Filha do cantor Osvaldo dos Santos, ligado à Camisa Verde e Branco, ouve samba desde o berço. É jornalista de formação e até trabalhou na área, até que foi pega de vez pela música. Começou profissionalmente em um grupo vocal comandado pela também cantora Jane Duboc, mas foi como vocalista de Eduardo Gudin que começou a "ter uma agenda" e viu sua voz registrada pela primeira vez (o disco é Pra Tirar o Chapéu, de 1998).

Em 2003, começou a tocar no bar Ó do Borogodó, na Vila Madalena. "Tinha semanas que tocava só para os funcionários da casa. Quando deu as férias de julho, os estudantes bombaram o show. E uns críticos foram e gostaram. Gravei meu primeiro disco [O Samba É Meu Dom, de 2004] em janeiro do ano seguinte. Fiquei lá semanalmente por três anos."

Nesse meio-tempo, fez aulas de corpo e dança brasileira, pois gosta de dizer que sua intenção nunca foi "simplesmente" cantar. "Isso sozinho não faz minha cabeça. Estou num investimento pesado na intérprete que canta, dança, pode falar um texto - não para ser uma cantora-atriz-e-dançarina, mas para aumentar as ferramentas da intérprete da canção."

Nossa entrevista aconteceu em uma academia de ginástica do Alto da Lapa, entre uma dessas aulas. Fabiana fala com tranqüilidade, dá longas respostas a cada pergunta e usa um timbre completamente diferente de sua voz cantada. "Canto samba usando técnica de musical da Broadway, de peito alto", explica. "Minha professora de canto lírico me ensinou a sustentar essas notas, mas aprendi mesmo foi ouvindo Alcione."

Durante nossa conversa de uma hora, volto com o assunto inicial, ao amor absoluto que sente pelo palco. Nasce a questão: uma intérprete "de cena" como ela não se sente frustrada quando tem que transportar tudo aquilo - imagem, expressão, gestual, dança - para o som de um CD? Fabiana escolhe cada palavra: "No primeiro disco, fiquei muito insegura com isso. Mas aí entendi: vou até onde posso hoje. Qual é meu tamanho? Um metro e setenta? Então vou chegar ao máximo do meu 1,70 m. Mas, claro, com a esperança e a fé de que sempre vou ter uma próxima chance".