Unidos Pelo Blues

Os Rolling Stones e Jack White acendem uma luz em relação à origem de sua música

David Fricke Publicado em 08/05/2008, às 09h41 - Atualizado em 04/08/2008, às 17h46

Keith Richards, Jack White e Mick Jagger em Nova York, em fevereiro deste ano
Max Vadukul

Em Shine a Light, o novo filme-concerto dos Rolling Stones, há uma entrevista com Keith Richards. Um repórter pergunta no que ele pensa quando está no palco. E o guitarrista responde, calmamente: "Não penso [no palco]. Só sinto".

Confira um vídeo com Jagger, Richards e Jack White falando sobre Shine a Light clicando aqui.

Dirigido por Martin Scorsese, Shine a Light consegue captar o atual vigor da banda, com uma intimidade até então nunca vista. O cineasta filmou o grupo em 2006, durante dois shows fechados no Beacon Theatre, em Nova York, com a participação de convidados como Buddy Guy, Christina Aguilera e Jack White (White Stripes) - que faz um dueto com Mick Jagger na versão country-soul de "Loving Cup", do álbum Exile on Main Street (1972). Mas Shine a Light - batizado a partir de outra canção de Exile e o último em uma longa linhagem de documentários sobre os Stones (incluindo Gimme Shelter, 1970, Ladies & Gentlemen, The Rolling Stones, 1974, e Cocksucker Blues, a inédita crônica de Robert Frank sobre os excessos do quarteto nos bastidores da turnê de 1972 pelos Estados Unidos) - é uma espécie de testamento do poder dos sentimentos, da empatia e da confiança que Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts têm entre si, nos shows.

Shine a Light também inspirou um encontro inédito: a entrevista a seguir, com Keith Richards e Jack White, em frente ao estrondoso incêndio de uma antiga casa nova-iorquina em uma tarde fria e úmida. Nascidos com uma diferença de quase uma vida e algumas revoluções de rock, Richards, 64, e White, 32, jamais haviam conversado tão demoradamente. De fato, White não tinha assistido aos Stones até que o White Stripes abriu dois shows para eles em 2002. Mas os dois guitarristas logo estavam ligados através do amor mútuo pelo blues e das alegrias espontâneas de tocar ao vivo. "É como descrever as pirâmides para quem jamais as viu", responde Jack, quando sondado sobre o que sente no meio de um solo incendiário de guitarra. "Enfim, um homem com meu próprio coração", admite Richards, sorrindo. Keith, que após a queda de uma árvore submeteu-se a uma cirurgia cerebral poucos meses antes dos concertos no Beacon, acaba de vez com as dúvidas sobre sua saúde. "Devo estar bem, porque nunca mais consultei médico algum", resmunga alegremente. Quanto a uma futura temporada de estrada: "Nunca escutei algo sobre não sair em turnê", completa. "Estou dando aos rapazes basicamente um ano de folga. Nada de pressões, mas poderia suspender o salário de todos", acrescenta com uma gargalhada, "e depois ver como eles se sentem".

Keith, o que você achou de Shine a Light?

Richards: Estou assistindo ao que Marty Scorsese vê nos Stones. Nunca estava ciente das câmeras. Uma vez que você começa a trabalhar, precisa dar à platéia o que ela quer e, ao mesmo tempo, satisfazer-se. Não tenho dúvida de que Mick estava bem mais consciente da filmagem. Mas, quando começo, só olho para o Charlie [Watts]. Sempre me espanto com a confusão que acontece a nossa volta - os telões, a tecnologia - que precisa ser coordenada. Mick ama coordenar, mas eu sou egoísta, tenho que ficar numa boa. Não posso tocar preocupado. Subo no palco para ter um pouco de paz e tranqüilidade, porra.

Jack, o que você aprendeu sobre os Stones quando abriu para eles?

White: O quanto eles são bons. Você podia ver o nível de conforto que existe entre eles, no toque da guitarra de Keith ou na maneira de tocar de Ron. Alguém me disse uma vez, logo que comecei - te respeitam muito mais quando você age como se fosse o dono da casa.

Richards: Você podia ter me perguntado isso quando fomos abrir para Bo Diddley, Little Richard e Everly Brothers, em 1963. Aprendi mais naquelas seis semanas do que se tivesse escutado um milhão de discos.

Qual foi a lição básica?

Richards: Habilidade no desempenho e conhecimento de palco - o que funciona e como se sentir confortável sobre ele. Os Everly Brothers eram soberbos toda noite - aquelas harmonias maravilhosas. Acompanhar Bo Diddley foi uma universidade para mim. Quando ele acabava, se sobrassem duas cordas na guitarra, era um milagre. Lá estavam "A Duquesa" (The Duchess, irmã de Diddley) na guitarra e Jerome Green, com uma maraca em cada mão. Meu trabalho era ser o "fiscal" de Jerome. Costumava ir buscá-lo no bar: "É sua vez, parceiro".

Jack, como foi que você e Mick escolheram "Loving Cup"?

White: Mick me chamou. Sugeri seis ou sete canções, que foram derrubadas [risos]. Falamos sobre "Factory Girl" [de Beggars' Banquet, 1968]. Uma outra foi "Shake Your Hips" [de Exile on Main Street]. Aí ele disse: "Loving Cup". Isso foi sensacional - durante anos, nos shows do White Stripes, a gente tocava essa música como trilha, enquanto a multidão deixava as salas. Eu só queria fazer as harmonias com Mick. Não precisava cantar meu próprio verso. Mas então ele me chamou: "Escolha um".

Exile on Main Street foi um álbum importante para você?

White: Não sabia muito sobre ele até que Meg e eu fizemos o primeiro disco do White Stripes [The White Stripes, 1999]. Gravamos o cover de "Stop Breaking Down", mas diretamente de Robert Johnson. Não sabia que fazia parte de Exile. Aftermath [1966] e Beggars Banquet eram os álbuns dos Stones que ouvia. E então me disseram: "Eles também tocam "Stop Breaking Down". Meu companheiro de quarto naquela época - Exile era o disco favorito dele - foi quem me apresentou a música.

Keith, os Stones tocavam canções de Chuck Berry e Bo Diddley desde o começo, mas não interpretavam os bluesmen mais antigos - Robert Johnson e Fred McDowell - até Beggars Banquet e Sticky Fingers (1971).

Richards: Fomos retrocedendo aos poucos. Quando estava curtindo Chuck & Bo, queria saber quem eles ouviam. O que deixava os dois ligados? Quando Chuck Berry começou, ele queria ser Nat "King" Cole. E ele fazia uma imitação boa pra cacete.

White: Quanto mais você observa, vê que estão todos na mesma família - e você é um felizardo por fazer parte dela. A diferença é que não tiravam muitas fotos de Charley Patton; Son House não conseguiu gravar muitos discos. Mas você acaba pegando certas coisas desses caras. De Kokomo Arnold, ganhei o fraseado vocal; de Blind Willie Johnson, foi a slide [guitarra].

Uma seqüência inesquecível em Shine a Light é quando Buddy Guy vem para a canção de Muddy Waters, "Champagne and Reefer". Ele parece pronto para matar, como se aquela não fosse ser apenas uma jam amistosa.

Richards: Esse é o ponto alto do filme e veio soltando fumaça. Sabia: "A noite está começando". Quando ele entrou, todo mundo queria se afastar.

E depois, no final, você deu sua guitarra para ele.

Richards: Aquilo veio direto do fundo da minha mente: "É sua, baby". Com tudo acontecendo naquela noite, pensei: "Este é o meu tributo a Buddy e Muddy e aos outros rapazes que fizeram minha cabeça".

Você se sentiu enganado, Jack, por não poder encontrar e tocar com seus bluesmen favoritos porque a maioria deles já se foi?

White: O problema agora é que se você quer trabalhar com alguém, você o faz em uma dessas compilações ou tributos. Ano passado me perguntaram: "Você quer tocar com Jerry Lee Lewis?" Era para um desses álbuns. Claro que quero tocar com Jerry Lee Lewis, mas não desse jeito. Quero que aconteça algo em que ambos possam retirar alguma coisa positiva da experiência.

Os Stones fazem filmes-concertos desde os anos 60. Você assistiu a alguns grandes filmes quando era rapaz, Keith?

Richards: Jazz on a Summer's Day [de Bert Stern, de 1960, sobre o Newport Jazz Festival de 1958]. As cenas de Chuck Berry que impressionaram: seus movimentos e o desdém da banda de jazz que o acompanhava. Maravilhoso. Chuck vestia esse imenso casaco. Iluminado de baixo, parecia o diabo.

Jack, você assistiu a filmes dos Stones como Gimme Shelter e Ladies and Gentlemen, The Rolling Stones quando era bem jovem?

White: Vi Gimme Shelter. Em uma casa onde morei, tínhamos uma cópia granulada de Cocksucker Blues. Mas só assistimos umas poucas vezes [risos]. Existe uma cópia decente desse filme? Gostaria de saber.

Richards: Consegui todos os filmes dos Stones no nosso escritório. Mas só queria ver Cocksucker Blues.

Que é mais famoso pelas cenas de sexo e drogas e pelo fato de jamais ter sido lançado. Achei umas partes dele entediantes. Talvez o deboche só seja interessante enquanto você faz.

Richards: Os verdadeiros pontos altos são os shows. O resto é uma trituração maçante. As pessoas sentem um prazer perverso com isso. Minha memória dessa época é um pouco nublada, é por isso que o revejo tanto [sorri], para poder lembrar do que me aconteceu. O monumento ao junkie desconhecido é uma das melhores partes. Não havia nenhum envolvimento nosso em fazer Cocksucker Blues. Ficamos acostumados com os caras andando ao nosso redor, pelo quarto de todo mundo. Você apenas continuava no que já estava fazendo.

Você realmente gostou de Cocksucker, Jack?

Richards: Quase que o faz desistir da idéia de ter uma banda [risos].

White: Tinha mais perguntas do que opiniões. Queria saber de onde tinha vindo, por que nunca foi lançado. Mas adorava aquele mistério dos bastidores. Hoje é bem pior, mais entediante ainda.

Richards: As pessoas têm cronogramas e horários. A hora do show nos anos 70 era quando eu acordava. Não tinha nada a ver com o que dizia no ingresso.

Jack, você acha que nasceu tarde demais? Que você perdeu uma época em que entrar para uma banda de rock era como fugir com o circo?

White: não tive esse tipo de sonhos de estrela do rock. Só queria tocar em clubes menores, mesmo quando já podia encher os maiores. Para conseguir o astral e a vibração certa, você tem que mirar baixo. Os Stones têm feito shows em muitos clubes nos últimos anos. Estou certo de que a vibração é outra.

Richards: Minha sina é estar em uma turnê. É por isso que adorei trabalhar com os X-Pensive Winos [nos anos 80]. Tinha que colocar tudo em uma mala só. Chamávamos isso de EMG: "Everything Must Go" [Tem que caber tudo]. Viajávamos de ônibus. Não fazia isso há um tempão.

White: Assisti aos Winos quando era adolescente. Trabalhei no Fox Theater, em Detroit. Tive uma hora de descanso e consegui ver o show.

Richards: Era tão solto como o que Jack faz com o Stripes agora. Como a gente abria? Sentávamos em frente do kit da bateria e fumávamos unzinho. Toda a platéia podia ver aquela brasinha mudando de mão. Você sentia o astral e sabia o momento certo - "Ok, vamos arrebentar". Começávamos com uma canção diferente a cada noite. Era bem mais interessante do que a queima de fogos de artifício.

Há uma cena em Shine a Light de Dick Cavett entrevistando Mick nos bastidores, em 1972. Cavett pergunta: "Você consegue se imaginar fazendo a mesma coisa aos 60 anos?". E Mick responde: "Sim, facilmente".

White: É por causa do blues. Se você está enraizado nele, melhora quanto mais você o faz.

Richards: A percepção mediana de longevidade supõe que você possa fazer isso dos 18 aos 25 anos, se tiver sorte. Em 1956, rock'n' roll era como calypso, uma novidade. E eles diziam: "Nenhum dos dois vai durar" - sem perceber que toda a música por trás de ambos não era novidade alguma.

Jack, você sempre aceitou sem questionar que poderia fazer isso para sempre?

Richards: Graças a mim, sim!

White: No White Stripes, pensamos: "Se pudermos encontrar 100 pessoas em cada cidade para manter a coisa em movimento, não vamos precisar trabalhar durante o dia". Se você ama tudo isso pelo que é, o resto vem como um bônus.

Richards: Ele não deveria parar [gesticula na direção de White]. É um homem bom.

Apesar da diferença de gerações, o blues moldou a vida de vocês quase da mesma maneira.

White: Quando você vê alguém tocar, sabe na hora se pode ou não se conectar com ele. Você sabe que é da mesma família. E [apontando para Keith] acho que você é. Você me pergunta se perdi algo. Nasci na geração errada porque não pude tocar com Muddy? Eu posso tocar com os filhos dele. E depois disso virão os netos.

Richards: Adoro escutar música - pela pura beleza de escutá-la - desde antes de aprender a tocar um instrumento. E descubro, de certa maneira, que maculei essa graça, pois agora sei como certas coisas são feitas. Mas, irmão, agora você fez um acordo. A única coisa que você pode fazer é passar isso adiante.

White: É assim que o filme devia se chamar - Passe Adiante (Pass It On).

Richards: Não, isso é para a lápide: Ele Passou Adiante (He passed It On).

Mick Jagger

Sobre o desafio de se apresentar ao vivo - e o problema com diretores de filmes

Por Brian Hiatt

Foto de Max Vadukul

Qual a diferença entre os Stones que vemos neste filme e os Stones de, digamos& 1972?

Estamos muito mais velhos [risos]! Ainda canto as mesmas velhas canções, você sabe... Só que é um modo mais maduro de tocar, talvez com menos afetação. Naquela época, a banda era muito inconsistente. Numa noite fazia um show fantástico, aquele puta barulho, e era incrível. Na noite seguinte vinha uma apresentação terrível, ritmos totalmente errados - rápido demais ou muito lentos... Um acidente após o outro. Agora, é um grupo com um desempenho muito mais consistente.

Hoje, no palco, você parece estar ainda mais inquieto fisicamente do que antes. Como pode?

Pra mim, o problema é que você necessita certa quantidade de disposição, oxigênio e condicionamento físico só para cantar. Então, se abusa da dança, não sobra nada para cantar. Em algumas noites, não alcanço as notas porque exagerei fisicamente.

Como você se sentiu vendo aqueles longos e intensos close-ups em você?

Sinto que foi um pouco demais. Mas diretores sempre gostam de usar as músicas lentas para obter essas cenas prolongadas. Não me importei muito. Tedioso. Não ficou muito bom.

Seu desempenho em "Far Away Eyes" é realmente extravagante e engraçado - é um lembrete do quanto você atua?

Todas essas canções têm seus personagens. E são todos diferentes. Essa é a "coisa" dos Stones: um monte de outras facetas, o que os torna um tanto interessantes. Não estão presos ao padrão classic-rock, na verdade.

Se você fosse forçado a definir especificamente aquele personagem...

Ah! Não me force, pelo amor de Deus [risos]! Não me force a intelectualizar isso. Apenas atuo. Fiz esse tipo de personagem em umas duas canções - bem no início da carreira, como "Dear Doctor" e outras.

Há sempre uma persona em suas interpretações?

Ah, não. Às vezes está mais perto da sua própria personalidade. Mas não sei como isso funciona para outros cantores. As pessoas esperam que o rock seja real, sincero e profundo - não se espera que seja produzido. Na música pop se permite algumas tolices, e ninguém se importa. O rock tem seu próprio conjunto de convenções, mas aí você precisa sair delas, porque senão fica preso em uma única imagem.

Buddy Guy parecia bem agressivo e competitivo ao seu lado, enquanto você tocava gaita. Mas você não parece nada intimidado com isso.

Não me intimido. Talvez quando tinha 20 anos. Acho que nem mesmo nessa idade.

Existe alguém que possa intimidar você no palco?

Não [ri].

Você lembra quais os primeiros filmes que "mexeram" com você na sua infância?

Minha mãe amava os musicais e me levava a todos - nunca gostei. Ela adorava Doris Day, Judy Garland. Então, era arrastado para esse tipo de filmes.

Lembro-me de ter lido que você e Keith gostaram muito de Jazz on a Summer's Day, filmado no Newport Jazz Festival em 1958.

Esse foi um grande filme, seminal para muita gente, inclusive para alguns cineastas. Tivemos um bate-papo sobre Jazz on a Summer's Day com Marty [Scorsese]. É o registro de uma noite única e especial e tem uma sensação suave, você vê a platéia dançando, romântica e levemente embriagada. Foi a primeira vez que vi uma performance ao vivo de Chuck Berry. É muito estranho, porque ele parece ser humilhado pelos outros músicos. Porque ele não é do "jazz", algo que a gente experimentou de monte quando começamos... Ser desprezado por músicos de jazz.

O que impressionou você na performance ao vivo dele?

Lembro de falar com Keith sobre isso - fiquei impressionado com o tamanho das mãos dele, imensas. Olhava para as minhas mãos na guitarra e, Jesus, é tão fácil para ele. Lá estou eu tentando esticá-las, e Chuck nem se importa. Fiquei assombrado com a fluidez dele.

Vou ler outra citação sua&

Deus, você esteve fuçando por aí. Sai fora da porra do Google [risos]!

Em um momento dos anos 60, você disse: "Não somos comediantes, não vamos fazer um filme dos Beatles". O que você achava dos filmes dos Beatles - Os Reis do iê iê iê (1964), Help (1965)?

Não podia ver os Stones fazendo qualquer coisa como aquilo. Parecia um pouco idiota para meu gosto cinematográfico. John era o tipo de pessoa muito séria de muitas maneiras. Eram um pouco exagerados, todos aqueles cortes e a trama da coisa.

Os Stones fizeram tantos filmes. Você é capaz de assistir a Gimme Shelter, por exemplo?

Nunca escuto nada, nunca ouço nenhum dos discos [dos Stones] e nunca assisto a nenhum dos filmes. Não volto para casa à noite e coloco Gimme Shelter para rodar, pode apostar.

Alguma chance de vocês finalmente lançarem Cocksucker Blues?

Não me importaria de lançá-lo. É ótimo, na verdade.

Como você o vê hoje em dia?

É um clássico. Quis fazer esse tipo de filme, mas o diretor vai lá e fode tudo, não quer cumprir o combinado. Eu disse: "Você pode fazer esse filme dark, mas tem que ter esses outros momentos para cima, porque estar em turnê tem tudo a ver com subir ao palco, sabe? O que você come no café-da-manhã é fascinante, as drogas que você toma e as garotas que você pega - isso tudo é adorável. Mas, para nós, estar no palco é a parte mais importante e você precisa incluir isso". E então fiquei louco com o cara e o despedi. Esse é o tipo de problema que você pode ter quando contrata diretores de cinema.

Martin Scorsese Os Stones Salvaram Minha Mente"

Por Peter Travers

Você realizou documentários sobre o blues, The Band, Bob Dylan e em breve, Marley. Agora pegou os Stones no palco em Shine a Light. Cantar no chuveiro não basta?

Não penso assim [risos]. Minha vontade era a de criar música, mas só o que posso fazer é juntar imagens e sons.

Qual é sua primeira lembrança dos Rolling Stones?

Era 1965. Dirigia na Long Island Expressway e, de repente, dos alto-falantes saíram os riffs de abertura de "Satisfaction". E a forte impressão da voz de Mick Jagger, depois a letra, a força motriz e a natureza cruel da canção. Tive que parar e procurar outras músicas deles. A voz de Jagger tem o som de um instrumento musical. Na minha cabeça, imaginava movimentos de câmera e truques de edição. Muito dessa energia implacável deles está em Mean Streets (Caminhos Perigosos, 1973) e em Taxi Driver (1976). Os Stones faziam a música que eu escutava.

Quem teve a idéia de Shine a Light?

Jagger queria documentar a turnê A Bigger Bang. Seria um evento - mais de 1 milhão de pessoas e 50 câmeras, na praia do Rio de Janeiro - e eu pensava em filmá-lo em IMAX 3-D.

E como foi levar essa estrutura para o Beacon Theatre, em Manhattan?

Faço tudo melhor em locais menores, onde você pode realmente vê-los em ação.

Há pouquíssima história no filme, o oposto de No Direction Home (sobre Bob Dylan, 2005) e The Last Waltz (sobre a The Band, de 1978).

Os Stones são a banda mais filmada da história. Tive de ficar dizendo para todos que "a história dos Rolling Stones está exatamente no palco, bem ali na cara deles, no jeito que Mick se move e na maneira que Keith maneja sua guitarra, na forma que Charlie Watts toca bateria ou Ron Wood funciona com a banda. Por que não vemos como eles interagem no palco? Talvez sejamos totalmente envolvidos por essa euforia primal".

O Beacon é um espaço pequeno, mas você tem câmeras movimentando-se por toda a sua extensão.

Isso foi vital. Adicionei o elemento extra da surpresa por ter as câmeras movimentando-se, seguindo e dando closes ao mesmo tempo. Em ensaios, nos certificamos de que eles não iam colidir com as câmeras, gruas e dollys para que não se machucassem. Os ensaios, na verdade, eram sobre posicionamentos, não da música - é por isso que há a piada com o Mick, sobre o que eles vão tocar.

Você e Jagger bateram cabeça sobre essa recusa dele em te fornecer o set list (relação das músicas).

Até que ele "sentisse" a platéia, ele não decidiria. É como o cara que faz prognósticos de apostas, aquele que não aposta, mas sente a temperatura e as probabilidades da corrida. Jagger faz isso. Ele sente a vibração. E assim a canção de abertura é escolhida no último instante. Meu problema é que quando estou filmando, gosto de reclamar - reclamo constantemente - mas de Taxi Driver em diante aprendi a ver humor nas coisas.

Como os outros Stones reagiram?

Tentei explicar certas coisas. Não sei se eles [as] entenderam. Keith disse: "Vou fazer qualquer coisa que você quiser". Mas ele fez o que queria. Então comentei: "Keith, se você quiser ir até a frente do palco e ficar pendurado na beirada, tudo bem, a gente te encontra". Você não diz aos Rolling Stones como se movimentar.

Isso levanta a platéia. E não é um público qualquer: ali estão os Clinton, podemos ver Hillary apresentando sua mãe aos Stones.

Eu sei [risos]. Isso foi interessante, porque a maioria da platéia era da Fundação Clinton e isso é um universo muito específico. Na segunda noite foi diferente: os Clinton não estavam. Eu fui do lado de fora filmar os fãs que esperaram dias para conseguir os ingressos.

Quantos shows você filmou?

Dois.

A maior parte do que vemos em Shine a Light é do segundo?

Sim. Em vez de "Start Me Up", eles abriram com "Jumpin' Jack Flash" na segunda noite. E daí por diante decolou. Subiu como um relâmpago e aconteceu de nós conseguirmos capturar isso.

O fato de ser um concerto beneficente explica certos cortes nas letras?

Essa foi uma decisão da banda, foi o jeito que eles tocaram e não mencionei nada a esse respeito. Nós tivemos, sim, a palavra de quatro letras que começa com F.

Quantos "Foda" vocês tinham permissão para dizer, pela classificação?

Tínhamos permissão para dois. Buddy "Motherfucking" Guy teve o "motherfucking" retirado na edição. Tentamos argumentar que faz parte da maneira como ele é conhecido, o "Fodão". Mas perdemos a parada e mixamos um toque de bateria por cima.

Como funciona o fator idade? Todos os Stones são sessentões.

Os Stones exibem sua idade com elegância. Você nota claramente isso, no final. Em especial durante "Satisfaction". Dá para ver isso no rosto de Mick e em Keith apoiando-se firmemente em sua guitarra, tentando recuperar o fôlego. Eles dão tudo de si e fazem você pensar na natureza do rock'n'roll, nos 40 anos de história da banda.

Foi você quem fez pressão para Keith cantar "You Got the Silver"?

Absolutamente. E ele nem toca um instrumento, é Ronnie na guitarra. Acho que foi muito comovente, como um poema. Imagine voltar no tempo e ser um xamã, levantando-se para contar uma história, através de sons. E os sons são música, certamente nossa primeira forma de comunicação, antes da linguagem e dos desenhos nas cavernas. Há algo extremamente roots na maneira como ele interpreta a canção.

Keith Richards não se opôs a cantar sem a guitarra?

Não que eu saiba. Pode até ter reclamado, mas não notei [risos]. Provavelmente não entendi porra nenhuma que ele disse.

No filme, você utiliza entrevistas com os Stones - não que você conduziu, mas umas bem antigas. Por quê?

Para dar uma idéia da história deles. Todo esse tumulto, todo o circo, o viver e morrer que acontece em uma vida, no final das contas, desaparece. Tantos filmes maravilhosos foram feitos sobre os Stones, desde o básico - One Plus One (1968), de [Jean-Luc] Godard, sobre a real composição de Sympathy for the Devil, até o Gimme Shelter, de [Albert] Maysles, em que a música é quase coadjuvante da tragédia de Altamont. Há ainda a rebelião no Cocksucker Blues, de Robert Frank, e toda a alegria de Let's Spend the Night Together (1983), de Hal Ashby. Queria apagar essa lembrança em Shine a Light até restar apenas o que começou tudo isso: a música.

O que fez os Stones durarem mais do que qualquer outra banda de rock?

A maneira de tocar sua música e a resposta da platéia são o que mantém a banda na ativa. Há a energia da vida neles, que é desafiadora e muito bonita.