Entrevista - João Donato

Exclusivamente no site, publicamos entrevista com o músico João Donato, tema da matéria "Dom Natural", impressa na edição 21, junho/08

Por Cristiano Bastos Publicado em 16/06/2008, às 16h01 - Atualizado às 16h08

Você tocou em Cuba nos últimos dias de Fidel Castro como chefão da ilha...

Coincidência... Eu estava lá e ia viajar pro Brasil na manhã do dia seguinte. Foi simbólico. Tocar com os cubanos é um prazer inacreditável, porque sempre fui admirador do seu estilo de música. Trabalhei com eles quando morei em Nova York e Los Angeles. Lá, fiz amizade e entendi o que era a música cubana. Tocar com na ilha foi realmente fantástico. Isso tudo foi gravado pela Tetê Moraes e vai virar CD e DVD da minha passagem por lá.

Rola uma historia que, por volta de 1964, você foi ajudado por um cubano numa roubada em Los Angeles, ficou na rua e não tinha direito de entrar no quarto que tinha alugado numa pensão.

A dona da pensão, que ficava na casa onde Tom Mix, o famoso personagem dos filmes de bang-bang, havia morado, disse que eu não podia mais entrar porque não tinha pago a semana. A mulher ralhou: "Olha aqui, o senhor não pode mais entrar aqui porque não pagou a semana!". Fiquei na rua meditando o que ia acontecer, começou a fazer frio, ficou de madrugada e aí me deu sono e aquela irritação. Disse pra mim mesmo: "Vou dormir seja lá onde for e, amanhã, quando acordar resolvo essa parada". Entrei no motel, daqueles chiques que tem em Hollywood. Quando acordei, lá pelo meio-dia, fui na portaria do motel pra dizer que estava sem dinheiro. Expliquei que era um músico brasileiro, que podia deixar um relógio de garantia, coisa e tal. Estava tentando me desculpar quando o atendente falou: "Ah, tem um compositor cubano morando aqui no hotel também". Nisso, o músico veio se aproximando. Quando chegou, reconheci o congueiro Armando Perazzo. Já o conhecia dos discos que costumava ouvir junto com Tom Jobim e João Gilberto na casa do Mené Nunes. Então, quando ele se aproximou, o saudei, pra fazer uma media, e ele perguntou: "Que passa tchê ?!". Eu: "Ué, tá passando que dormi aqui mas não tenho dinheiro pra pagar". "Quanto é?", perguntou Perazzo. Pagou e, simplesmente, ainda me convidou pra assistir o show dele, um quinteto, logo mais à noite. Ficamos amigos pra sempre.

Depois de 15 anos, você está concluindo um projeto que conseguiu amadurecer quando conheceu um teclado no estúdio do Ritchie. O que tem de especial nesse instrumento?

O negócio é que tenho admiração por Debussy e Ravel e músicas clássicas francesas. Comecei a estudar as partituras para orquestra com muita facilidade nesse teclado, que imita diversos instrumentos, e acabei fazendo umas experiências em casa.

Sampler?

É um tipo sampler: imita flauta, violino, piano. Transferi pro teclado toda a escrita que seria dedicada à uma orquestra sinfônica e acrescentei um ritmo ampliado. O resultado ficou muito bom. Pretendo lançar em disco essas experiências com Debussy e Ravel, com um pouquinho de música popular brasileira misturada à receita.

Os demais instrumentos são tocados por uma banda?

Não, tocados por uma orquestra!

E esse lance de ter um público fiel no Japão. Não é louco pra sua cabeça, que veio do Acre, ir tão longe?

Não...

Às vezes você não pára pra pensar nisso?

Já perguntei por que gostam tanto da música brasileira, e me falaram que traz alegria pra eles, os deixa contentes. É das qualidades que talvez eu tenha na minha música que admirem tanto e os fazem felizes.

Nas vezes que vai lá sente que rola um "frisson" japonês?

É, os japoneses são entusiastas e carinhosos, e demonstram isso publicamente com presentes e aplausos cada vez mais intensos. É surpreendente.

Na Rússia acontece a mesma coisa?

A mesma coisa. As apresentações foram melhorando com o tempo, e o público também melhorou. O público vai crescendo a cada temporada de shows.

Deu muito trabalho ensinar o calopsita Elvis a assoviar "Bananeira"?

O Elvis aprendeu naturalmente. O André [enteado de Donato] passa o dia cantando isso, eu também, a Ivone. Existe um complô nessa casa pra fazer com que o passarinho aprenda essa música, e ele já está cantando bastante bem. (risos gerais)

Já teve outras experiências ensinando passarinhos a cantar?

Não, primeira vez.

O André disse que você aprendeu a gostar de cães por causa do Bambam, o cachorro que ele tinha. É verdade?

Sim. No início eu achava o Bambam antipático, mas depois me apaixonei por pelo bambam de tal maneira que, hoje, do pessoal da casa, quem sente mais falta dele, agora que morreu atropelado, sou eu.

Me fala um pouco sobre a tua rotina. Dá pra notar que seus horários são completamente distintos...

Gosto de trabalhar à noite e ficar estudando até cansar e dar sono, até enjoar. Principalmente as partituras de Debussy; esse é o feijão com arroz, o alimento diário.

E sua criação própria?

Termina sendo relativa a isso. Estou tão influenciado por Debussy e Ravel que já acho que minha música tem uma parte deles na irrealidade que ela possa ter. Já vem com esse efeito. É como se fosse vírus, o negócio. Acho que peguei o vírus do Debussy e do Ravel.

Onde você pegou esse vírus?

Na minha música... Primeiro, de tanto gostar de ler e de comprar tudo quanto é livro de partitura deles, os arranjos das grandes orquestras. Com esse estudo, passei a saber tudo o que acontece dentro de uma orquestra.

Qual é a lembrança mais longínqua com a música?

Um nativo e sua canoa passando na beira do Rio Branco, alguém assobiando uma melodia (assobia "Lugar Comum")... Depois o Gilberto Gil botou letra. É a lembrança mais remota que tenho, a música que "passou pela minha infância". Devia ter 6 ou 7 anos. Na época fiz uma música para minha namorada, a Nininha. Eu tinha 7 anos, ela tinha 8.

Foi aí que viu que música era seu negócio?

Nem sabia! Apenas tinha mania de música, não sabia que viria a ser minha profissão. Profissão mesmo, só depois dos 18, quando fui reprovado pra ser piloto da aeronáutica, como meu pai. Tenho problema de daltonismo e disse pra mim mesmo: "Se não dá pra ser piloto, vou ser músico. Mas não foi decisão tomada...Foi a reprovação de um sonho que eu tinha de ser aviador.

Qual foi o primeiro instrumento que você tocou?

Acordeom, que eu ganhei de Papai Noel, ainda aqueles de papelão.

Quem primeiro te ensinou as notas?

Bom, primeiro foi de ouvido, depois minha irmã, Eneyda, que já tocava piano. Logo após um sargento da banda militar da polícia me deu aulas de "como é que se tocava uma música": ele lendo a partitura e me ensinando a tocar, decorado de ouvido. Aí passei a tocar músicas da época, "Rosa de Maio", "La Comparsita", "Serenata de Amor". Ouvíamos músicas pelo rádio. E também as músicas das bandas militares e os discos de 78 rotações que precisavam dar corda na vitrola.