Renascida das Cinzas

Com primeiro disco em quatro anos e de olho nos novos tempos, Alanis Morissette só pensa em se divertir

Mateus Potumati Publicado em 09/06/2008, às 17h47 - Atualizado em 23/07/2008, às 19h28

Relaxada: Alanis Morrissette, de cara nova: fôlego após longo período distante das paradas

Em 1995, uma cantora canadense de 21 anos quebrou o monopólio masculino do chamado "rock alternativo comercial". Seu primeiro sucesso, "You Ougtha Know", unia um misto de ressentimento e agressividade contra um ex-namorado, embalado por um refrão pop grudento. Ali, Alanis Morissette colhia os primeiros frutos de uma carreira que já vendeu mais de 55 milhões de discos - ela é até hoje a artista feminina de rock que mais vendeu discos na história -, venceu sete vezes o Grammy e emplacou hits como "Ironic", "You Learn" e "Thank You" no topo das paradas mundiais.

Alanis também gosta de atuar, e faz incursões pelas telas sempre que convidada. Até o ano passado, sua aparição mais famosa havia sido fazendo o papel de Deus em Dogma (1999), do diretor independente Kevin Smith. Em 2007, porém, ela voltou a chamar a atenção para seus dotes interpretativos com uma paródia de "My Humps", do Black Eyed Peas. O vídeo foi um dos maiores sucessos do YouTube no ano passado, com mais de 12 milhões de acessos. E 2008 promete: Alanis acabou de gravar seu primeiro papel principal, na adaptação para o cinema de Radio Free Albemuth, do mestre da ficção científica Phillip K. Dick.

Depois de quatro anos sem lançar um disco, ela volta à cena com Flavors of Entanglement, produzido por Guy Sigsworth, que já trabalhou com Björk, Madonna e Robyn. Com exceção de algumas faixas, o disco representa uma reviravolta sonora na carreira da artista de 34 anos. Em "Versions of Violence", um baixo eletrônico pesado e distorcido e uma gama de efeitos eletrônicos criam um clima denso, apocalíptico, numa fusão entre trip-hop e rock industrial. "Giggling Again for No Reason" traz sintetizadores que ora remetem a Pet Shop Boys, ora a Missy Elliott. Em Los Angeles, uma Alanis relaxada discorreu sobre o novo projeto, o sucesso do passado e o agora ultrapassado messianismo de sua música.

Suas músicas novas transitam por um universo habitado por Björk, Muse, Blonde Redhead e até a fase inicial do Placebo. É uma diferença enorme, especialmente se compararmos às músicas de Jagged Little Pill (primeiro disco de Alanis, de 1995). Qual a diferença entre a garota de "Ironic" e a mulher de "Versions of Violence"? Como é envelhecer?

No fundo é isso mesmo, né? Ficar velha. Me sinto como se, na época do Jagged Little Pill, eu tivesse 8 anos, emocionalmente falando. Agora, devo estar com uns 13 [risos]. Então, tenho essa sensação de estar ficando velha, lentamente. Mas é engraçado, essas coisas são meio cíclicas, graças a Deus. Trabalhar com Guy Sigsworth trouxe de volta um pouco do aspecto tecnológico dos discos que eu gravava quando era adolescente. Então, se por um lado o disco traz um amadurecimento, também significa uma volta às minhas raízes, de certa forma. É um ambiente bem familiar para mim.

Você trabalhou muitos anos com Glen Ballard, que produziu Jagged Little Pill e Supposed Former Infatuation Junkie (1998), seus discos de maior sucesso. Depois, você produziu os discos posteriores em parceria ou sozinha. Agora, você voltou a entregar a produção do disco inteiramente a um produtor. Como foi trabalhar com Guy Sigsworth?

É muito diferente de trabalhar com Glen Ballard?

Há uma semelhança na facilidade de comunicação. Com Guy é diferente, ele é o típico cientista maluco, maníaco por tecnologia, muito meticuloso, um sábio mesmo. Foi maravilhoso [trabalhar com ele], e eu não tive que fazer nada em termos de produção, pude me preocupar só em me divertir.

Passou o trabalho sujo para alguém, então?

Exatamente. Ele ficou lá, tendo que acordar às 4 da manhã, enquanto eu dormia. Ou tomava umas [risos].

Flavors of Entanglement será seu primeiro disco em quatro anos. O que os fãs devem esperar deste disco?

Ele narra em tempo real uma fase muito ruim pela qual eu passei. É como um relacionamento, chegar até o fundo do poço, ficar ali por um tempo e depois a fênix renasce lentamente, sabe? Em termos sonoros, é uma combinação de toda a minha sensibilidade em áreas diferentes, algo que eu adoro. Amo essa fusão de influências, não só música, mas arte, interpretação, até decoração, tudo isso junto.

O que você estava ouvindo enquanto gravava o disco, e o que ouve hoje?

Eu ouço tudo o que eu sempre ouvi, como R.E.M., Rufus Wainwright, uma artista canadense chamada Sarah Slean. Mas eu também ouço música clássica, adoro hip-hop também, adoro [o rapper porto-riquenho] Immortal Technique. Sou aberta a todo tipo de música. Se há profundidade emocional, não importa o gênero musical, eu consigo sentir.

Em "Underneath", faixa de trabalho do disco, você canta sobre "ser a mudança que você quer ver no mundo", ecoando a famosa frase de Gandhi. Você é ativista ambiental e se envolve em várias iniciativas nessa área. Por outro lado, o mundo vive um período altamente conservador. Você acha que há muitas pessoas realmente preocupadas em mudar o mundo atualmente?

Bom, eu realmente penso que, se nos concentrarmos apenas nos sintomas, pode até haver uma mudança de cinco minutos em algo, mas logo as coisas voltam ao ponto em que estavam. Mas, se trabalharmos para uma mudança interna, uma mudança de consciência, os avanços serão sustentáveis. As pessoas estarão conectadas, e nós começaremos a compartilhar uma nova visão de mundo. A partir daí, as mudanças começarão a se mostrar de outra forma, seus efeitos serão visíveis.

Mas eu deposito toda a minha energia em assumir responsabilidade pelo que eu posso controlar. Eu não posso controlar o que o [presidente norte-americano George W.] Bush vai dizer, não posso controlar o que está acontecendo na Coréia do Norte, mas posso controlar minha própria violência ou minha propensão a projetar essa violência e me sentir separada do mundo. Tudo o que criticamos no mundo aparece dentro de nós mesmos, então o melhor que eu posso fazer é trabalhar isso dentro de mim mesma.

Além do que, querer mudar tudo o tempo todo deixa as pessoas malucas.

Exatamente. E é impossível. Isso era um complexo messiânico bizarro que eu tinha quando eu era mais jovem. Quando deixei isso de lado, me permiti ser uma pessoa mais leve, mais engraçada.

Você é símbolo de uma era em que o rock voltou ao topo das paradas, e discos ainda eram vendidos.

É, lembra disso? [risos]

É, você deve se lembrar bem. Agora, a principal banda de rock do mundo praticamente deu seu disco novo de graça, as grandes gravadoras estão lutando para sobreviver e usam seu poder econômico para pegar pesado com pessoas que compartilham música. Além disso, uma das estratégias para divulgar seu disco no Brasil é distribuir "Underneath" como brinde para quem comprar um determinado modelo de celular. Como uma artista que vendeu 55 milhões de discos se encaixa nesta nova realidade?

Eu adoro. Estes dias mesmo eu estava conversando com um amigo e ele me disse que o clima hoje está perfeito para eu fazer tudo o que eu sempre quis. Eu me divirto demais criando vídeos, compondo músicas e distribuindo tudo de graça, no YouTube, no meu site. Posso experimentar várias idéias diferentes sem ficar muito preocupada com os resultados. Então, eu não poderia estar mais empolgada com esta fase.

Você fez várias participações em filmes e programas de TV. A mais famosa foi provavelmente a versão engraçada e um tanto polêmica de Deus em Dogma, de Kevin Smith. Agora, você acabou de filmar seu primeiro papel principal, na adaptação de Radio Free Albemuth, de Phillip K. Dick. O papel é tão polêmico quanto Deus?

Bom, ela recebe mensagens de um satélite chamado Valis, e aí tem a missão de se infiltrar na indústria musical e criar uma música com uma mensagem escondida: derrubar o governo! Foi demais fazer esse papel! [risos]

Você é fã de Phillip K. Dick?

Eu não era muito familiar com ele até ler o roteiro, mas agora sou uma grande fã. Li os livros e vi várias adaptações, como Minority Report, Blade Runner, O Homem Duplo, O Vingador do Futuro, etc.

Você fez uma paródia hilária do clipe de "My Humps", do Black Eyed Peas, que foi um dos vídeos mais acessados do YouTube em 2007. De onde veio essa idéia? Você tem algum plano de explorar mais esse seu lado Weird Al Yankovic? [risos]

Eu estava no estúdio com Guy [Sigsworth] e comentei que queria fazer uma música bem simples, porque minhas músicas sempre são muito profundas [risos]. Aí eu disse: "Uma música como 'My Humps'" [risos]. Compusemos a versão no piano por uns dias, e uma semana depois eu estava na garagem de casa com meus amigos filmando o vídeo. Pensei que talvez umas 200 pessoas fossem achar engraçado, mas pelo jeito mais gente gostou. Adoro fazer cover de músicas em que posso colocar a letra em destaque, para que as pessoas prestem mais atenção nelas.

Você estava escalada para tocar no Live Earth Brasil no ano passado. O show acabou sendo cancelado. Sabe o porquê?

[Quando me contataram] eu não estava fazendo shows, e perguntei se poderia ajudar de alguma outra forma. Mas aí eles anunciaram meu nome antes que eu dissesse sim, e algumas pessoas [na minha produção] não gostaram muito. Eu amo o Brasil e adoraria ter ido, mas, infelizmente, eu não pude.

Tem algum plano de tocar no país em breve?

Nós iremos à América do Sul neste ano ou no ano que vem, com certeza. Eu adoro tocar no Brasil. As pessoas aí têm uma forma muito especial de curtir as músicas, é uma cultura muito viva, vibrante.

Você passou por um período conturbado nos anos 90, ficou deprimida e frustrada com o estilo de vida que a fama trouxe a você. Agora, que você tem mais controle sobre a sua carreira, diria que está no topo?

Acho que minha carreira está sempre em desenvolvimento. Cada disco é como a fotografia de uma época. Flavors of Entanglement é uma bela fotografia de uma época incrível, e eu estou muito orgulhosa dela.