A Besta Ressurge

Adormecido por 40 anos, novo filme do gênio Zé do Caixão mira no grande público e tenta combater preconceito contra terror no cinema brasileiro

Alex Antunes Publicado em 08/07/2008, às 15h08 - Atualizado em 08/08/2008, às 09h48

UNHA E CARNE Mojica em ação: sangue, erotismo e Zé Celso Martinez Correa

Em uma tarde de junho, em um estúdio de som de cinema em São Paulo, uma sessão fechada reúne José Mojica Marins, o Zé do Caixão, com seus produtores, seu roteirista, seu biógrafo, entre outros colaboradores, para assistir à versão (quase) finalizada de Encarnação do Demônio, seu primeiro filme após décadas sem dirigir. Um dos mais ansiosos é o produtor Paulo Sacramento, que havia passado os sete meses anteriores debruçado na montagem e sonorização do longa. À porta do prédio, os convidados são recebidos por um display de dois metros decorado com as famosas unhas longas que tornaram Mojica eterno. Na parede é visível um pôster avermelhado, em que o mestre do terror aparece um tanto envelhecido, mas sempre ameaçador.

Sacramento avisa que faltam alguns efeitos visuais, mas os presentes mergulham na experiência cinematográfica com fervor. Um arrepio misto de susto, excitação, alívio e sensação de missão cumprida percorre a sala: o longo esforço para trazer Mojica de volta às telas está a um passo de ser concretizado. E mais, com Zé no melhor da sua forma.

Segundo o roteiro, depois de 40 anos preso, Zé do Caixão, ou o "maldito funerário" Josefel Zanatas, sai da penitenciária para retomar a sua busca - a mulher superior que gere o seu filho perfeito e garanta a sua imortalidade, pela "continuidade do sangue". Ao contrário da cidadezinha onde se passavam À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), agora Zé está escondido na megalópole, bem no meio de uma favela. E é perseguido pelos irmãos PMs Coronel Claudiomiro e Coronel Oswaldo (personagem interpretado por Adriano Stuart, e criado após a morte de Jece Valadão, que fez Claudiomiro, durante as filmagens), pelo padre Eugênio (brilhantemente interpretado por Milhem Cortaz), além de alucinações vindas de seu próprio passado assassino. Mas ainda encontra tempo de seduzir não uma, mas várias "mulheres superiores". Escrito em 1967, o roteiro foi adaptado para os dias atuais com o auxílio de Dennison Ramalho, e ganhou vários auxílios luxuosos, como a presença do dramaturgo José Celso Martinez Correa, que partilha com Zé do Caixão a magnífica seqüência da visita ao purgatório, e figurinos do estilista Alexandre Herchcovitch. "Desta vez tivemos 70 técnicos - antes eu costumava trabalhar com 12. Os melhores da praça, e com todo mundo recebendo pela tabela, coisa que eu nunca tinha conseguido fazer. Até a figuração foi paga!", gargalha Mojica. "O céu vermelho do purgatório eu teria feito de pano, do meu jeito, se não tivesse o computador. Todo o pessoal da arte, dos efeitos, da maquiagem fez um trabalho fantástico, e é onde esta fita ganha das minhas outras. Mas a filosofia continua idêntica - essencialmente, é o mesmo roteiro da Encarnação que eu escrevi e nunca tinha conseguido filmar. O Zé só voltou mais ressentido, mais violento, depois de 40 anos."

Era um escândalo, um absurdo o Mojica não estar filmando", esbraveja Sacramento, produtor de filmes como Amarelo Manga, O Prisioneiro da Grade de Ferro (o qual também dirigiu), A Concepção e O Aborto dos Outros. "Ele é de uma época em que os cineastas tinham uma relação forte com o público, em que existia um cinema popular. Você fazia um filme visando já entrar em determinado circuito. O Mojica trabalhava com produtores, exibidores, investidores privados que colocavam o dinheiro já sabendo o potencial do filme." O paradoxo do cinema brasileiro atual é que, apesar da enorme dificuldade de reencontrar (exceto em uns poucos casos) uma empatia com o público, uma identidade cultural que o viabilize comercialmente, os orçamentos praticados no país são relativamente altos, com um profissionalismo nos moldes de Hollywood - só que sem o grande público correspondente. Tudo sempre à custa das leis de incentivo federais. A produção de Encarnação do Demônio se dispôs a fazer o mais difícil: trazer um diretor como Mojica de volta do limbo, com um filme de um gênero com pouca tradição no país - o horror, e ainda por cima um horror autoral -, e ao mesmo tempo extremamente bem acabado. Tudo com um orçamento de menos de R$ 2 milhões, e uma ambição de atingir o grande público, com seu lançamento nacional com cerca de 60 cópias.

Pergunto a Sacramento se ele tem noção de que cada centavo gasto no filme aparece na tela, que ficou com cara de superprodução, apesar dos recursos "iranianos". Ele diz que sim, era a intenção: "Para criar um clima em que cada um desse o máximo de si, e multiplicar o dinheiro que tínhamos, contratamos as pessoas com um mote. Claro que, em boa parte, funcionou por causa do carisma do Zé, que atrai esse engajamento, esse esforço de quem trabalha com ele. Nós dizíamos: 'Você faça o que tiver que fazer, mas a tela tem que pesar uma tonelada!', como no maracatu da Nação Zumbi [risos]". E pesou mesmo, inclusive na temática. "Nosso país não tem tradição no cinema de gênero", começa o roteirista Dennison Ramalho. "Segundo uma pesquisa, já foram feitos 300 filmes de horror ou que se aproximam dele, no Brasil. Mas todos, exceto os do Mojica, desapareceram. E os atuais mecanismos de financiamento no país - as leis de incentivo e os concursos públicos - não acreditam no horror."

"Não vou falar nem em censura", ele continua. "Digamos que é uma percepção um tanto contaminada pelo fato de o horror ser porta de entrada no cinema para jovens amadores. Então, não tem aquela visibilidade, aquela falsa margem de segurança que uma comédia romântica com atores globais, por exemplo, tem." No exterior, no entanto, é sabido que o gênero é respeitado e essencial para a indústria cinematográfica. O roteirista concorda: "O mercado internacional precisa do filme de horror. Não só nos Estados Unidos, como na Espanha e outros países. Onde o cinema visa o consumidor, ele existe. Especificamente, é muito importante para as estantes de DVDs. O Mojica é a exceção nessa falta de tradição do horror no Brasil, porque é o cara que inegavelmente fez história, que se notabilizou, foi para a TV e os quadrinhos. Então conseguimos furar esse bloqueio - por ser ele, acabaram apostando".

Mas não é apenas o preconceito genérico. Segundo Dennison, Zé do Caixão, ainda por cima, faz parte da retomada do terror adulto, que andou meio em baixa. "A minha esperança é que as forças capitalistas que tiram um filme de cartaz na segunda semana atuem mais devagar que o nosso boca a boca, porque o Encarnação, se tiver tempo, vai desafiar as pessoas. É uma obra provocadora, um filme de um tipo de horror sexualizado que andou quase em extinção, uma coisa mais da década de 1970 do que de hoje. O Encarnação é desavergonhadamente um filme transgressor. É muito gráfico, bizarro e violento. Espero que ele seja o nosso Cidade de Deus doentio, o nosso Tropa de Elite do terror. É um filme que precisa ser visto para superar não só o preconceito, mas inclusive aquela simpatia paternalista que existe pelo Mojica, principalmente da parte de quem nunca viu os filmes dele."

Outro neófito no cinema de horror foi o trilheiro André Abujamra, músico do Karnak e dos Mulheres Negras. "Essa trilha foi particularmente difícil de fazer, porque sempre que eu me entusiasmava e mandava algo mais melódico, que tinha mais de duas notas, eles não gostavam [risos]. É uma trilha de não-música. A gente perseguiu o caos das trilhas do Mojica e o construiu junto com a edição de som." Já André Barcinski, biógrafo de Mojica (Maldito, co-escrito com Ivan Finotti e lançado em 1998) e diretor do talk show O Estranho Mundo do Zé do Caixão, do Canal Brasil, documentou as tentativas anteriores - nada menos que quatro - de filmar Encarnação do Demônio. "Depois dos dois primeiros filmes da trilogia, na segunda metade da década de 1960, o Mojica estava na mira da censura, que exigiu até que mudassem o final do Esta Noite... [o "arrependimento" do Zé do Caixão é corrigido agora no novo filme, com outro desfecho para a cena da conversão cristã]. Quando essa fase aliviou, surgiram novos produtores interessados no filme, como o Miguel Augusto de Cervantes, no final da década de 80, e Ivan Novais, no final da de 90, além de um produtor americano. Só que esses produtores... morreram em algum momento do processo", conta.

Mojica lembra que, na penúltima tentativa, em 1996, havia até um almoço marcado com o produtor Ivan Novais. "Quando eu me aprontava para o encontro, a [atriz] Ítala Nandi ligou e avisou: 'Não venha para o almoço, estamos no velório do Ivan'." Já da tentativa dos anos 1980 restaram os negativos de um único dia de filmagem - que podem virar extra no DVD de Encarnação. "Sempre tive o apoio e o respeito de pessoas importantes no cinema brasileiro - o [Rogério] Sganzerla, o Jô Soares, o saudoso [Luis Sérgio] Person -, mas essa maldição perseguia a fita", brinca Mojica. "Em 2000, quando o Dennison me apresentou o Paulo [Sacramento] e eles me fizeram a proposta, eu disse: 'Estes dois são jovens, e até têm mais sócios na produtora, para o caso de morrerem'."

Maldição da ditadura, da crise de identidade da cultura brasileira no pós-ditadura ou da frescura e do lobismo do cinema brasileiro contemporâneo? Para José Mojica Marins, a discriminação brasileira contra o terror sempre foi, e continua, forte, "apesar de haver um grande público para tudo que é místico e desconhecido". O fato é que Encarnação do Demônio não só passou por cima de tudo isso como foi conquistando aliados importantes, como a produtora Gullane, dos irmãos Caio e Fabiano, e a distribuição da gigante Fox. "A entrada dos Gullane foi legal, porque foi uma associação por desejo, não por necessidade", diz Sacramento. "Eles gostam de fazer as coisas grandes. Eu, como produtor, enxugaria ao máximo a estrutura. Eles trouxeram um equilíbrio, no sentido de fazer algo não-acanhado." Caio Gullane também é só entusiasmo: "Sempre tivemos curiosidade em conhecer o trabalho do Mojica de perto. Quisemos dar o suporte que ele sempre mereceu, mas acabamos aprendendo muito com ele. Nas dificuldades inesperadas, como a morte do Jece [Valadão], o Mojica mostrou que, apesar da idade, tem destemor e criatividade ao propor uma solução. É o mestre da adaptação. O resultado é um filme de dar medo nas platéias modernas e uma plástica que está à altura de qualquer produção atual". Sacramento concorda, e conclui: "Quer saber? Com três vezes mais dinheiro, nós faríamos exatamente o mesmo filme".

"E, agora que conseguimos, eu quero ficar pelo menos uns seis meses em cartaz com esta fita", completa Mojica. Velhos e novos fãs assinam embaixo.