A Guerra da Água

Sérgio Adeodato Publicado em 08/07/2008, às 14h50 - Atualizado em 12/07/2008, às 10h17

Canal da Integração: pesca proibida, mas totalmente necessária
André Pessoa
A polêmica transposição do Rio São Francisco faz um ano e revela uma disputa cruel: sertanejos que esperam abastecer torneiras contra os que não querem doar a fonte de riquezas. Retrato da desigualdade no sertão, é a versão brasileira de uma guerra que atinge proporções mundiais

O mandacaru, cacto típico do semi-árido nordestino, simboliza mais que todas as plantas a dura vida severina. Luiz Gonzaga o eternizou. "Mandacaru quando fulora na seca / É o siná que chuva chega no sertão / Toda menina que enjôa da boneca / É siná que o amor já chegou no coração", cantava o mestre no Xote das Meninas - "Ela só quer / Só pensa em namorar". De tão comum e importante, emprestou o nome a um povoado cearense planejado para ser um eldorado, mas que hoje é palco de desigualdade e conflitos pelo uso da água. Estamos na BR-116, rumo ao rio Jaguaribe, o maior e mais importante do Ceará. A região, como outras no semi-árido, receberá as águas da transposição do rio São Francisco, obra polêmica que chega ao primeiro aniversário sem bolo nem vela para apagar. De um lado e outro da rodovia, o notório cacto com seus quase três metros de altura se destaca na paisagem tórrida da caatinga. É ícone cultural. Resiste bravamente às secas, mesmo as mais severas. Acumula água no caule e, nos tempos de penúria, serve para alimentar os animais.

Tem muitos, muitos espinhos, usados como alfinete pelas rendeiras para fazer o artesanato vendido nas estradas. A que leva até o distrito de Mandacaru, no município de Nova Jaguaribara, margeia canais de irrigação por entre vilas sertanejas. E, ao contrário do que se imagina, naquele cenário árido a água é farta. Mas logo vem a surpresa: poucos moradores, ou quase nenhum, têm acesso a ela. E pior: por aquelas paragens, esse bem natural é caso de polícia.

Lá vem a irmã Bernardete Neves, 65 anos, filha do Coração Imaculado de Maria. Ar angelical de religiosa, braveza respeitada de líder social, chega ao lado do lavrador Francisco Saldanha, 71 anos, o seu Taxinha. O homem desembucha: "A polícia me ameaçou de prisão porque eu tirava água do canal e respondi que iria continuar. Um dia depois os soldados vieram em várias viaturas e uns 30 companheiros nossos aqui do povoado chegaram em motos e bicicletas para me socorrer. Ia ter briga. Tivemos medo e naquela semana ninguém pegou água. A coisa ficou feia".

O relato espelha o clima de tensão em Mandacaru - o mesmo cacto nordestino que inspira o amor na poesia, ali é referência de cobiça e ambição. É a guerra pela água no sertão, o retrato brasileiro de uma crise que causa atritos diplomáticos e militares em diversas partes do mundo, principalmente no Oriente Médio, e tende a se tornar mais grave nas próximas décadas, segundo previsões da Organização das Nações Unidas. O assunto preocupa, porque um terço da humanidade vive em áreas de escassez hídrica. No Mandacaru, em lugar onde água é uma relíquia, os canais onde ela circula são vigiados por guardas armados e câmeras de vídeo. Nada pode atrapalhar o curso dessa corrente preciosa até o destino final. O foco da discórdia é o Canal da Integração, que está sendo construído para abastecer grandes cidades, vastos cultivos irrigados e pólos industriais da capital cearense. Ele é alimentado pelo açude do Castanhão, o maior do Brasil, três vezes o tamanho da Baía de Guanabara, e está planejado para ter 255 quilômetros até Fortaleza, 55 dos quais já concluídos até o município de Morada Nova.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 22 da Rolling Stone Brasil, julho/2008