O Olho-Que-Tudo-Vê

Com a ajuda de empresas norte-americanas, a China está construindo o protótipo do totalitarismo high-tech para exportação

Por Naomi Klein Publicado em 08/07/2008, às 15h10 - Atualizado em 18/07/2008, às 15h02

Matt Mahurin

Há trinta anos a cidade de Shenzhen não existia. Era apenas um aglomerado de vilas pesqueiras e cooperativas de plantio de arroz, um lugar de estradas de terra marcada e templos tradicionais. Tudo isso foi antes de o Partido Comunista escolher a área - graças à proximidade com a parte portuária de Hong Kong - para se tornar a primeira "zona econômica especial", uma das quatro onde o capitalismo seria testado. A teoria por trás do experimento é que, deste modo, a China "verdadeira" manteria sua alma socialista ao mesmo tempo em que lucraria com os trabalhos do setor privado e o desenvolvimento industrial em Shenzhen.

O resultado foi uma cidade de puro comércio que não perdeu sua cultura e suas raízes históricas - o crack e a cocaína do capitalismo. Uma força tão atrativa para os investidores que o experimento de Shenzhen rapidamente se expandiu, engolindo não só os arredores do Delta do Rio Pérola, que hoje abriga 100 mil fábricas, mas o resto do país. Shenzhen é atualmente uma cidade com população de 12,4 milhões de pessoas, e há uma boa chance de que pelo menos metade das coisas que você possui tenha sido feita por lá: iPods, laptops, tênis, TVs, celulares, jeans, provavelmente seu carro e quase certamente sua impressora. Centenas de condomínios de luxo fazem sombra sobre a cidade; muitos têm mais de 40 andares, com coberturas triplex. Vizinhanças mais novas como Keji Yuan estão cheias de campi corporativos ostensivamente modernos e shoppings decadentes. Rem Kool, arquiteto favorito da Prada, está construindo o prédio da bolsa em Shenzhen de forma com que pareça flutuar - a intenção do design, diz ele, é "sugerir e ilustrar o processo do mercado". Uma moderna linha de metrô ainda em construção irá conectar todos os pontos em alta velocidade; cada vagão tem TVs transmitindo via wi-fi. Quando anoitece, a cidade se ilumina, com cada hotel cinco estrelas e torre de escritórios competindo pelo prêmio de melhor show de luzes.

Muitas das maiores companhias norte-americanas se estabeleceram em Shenzhen, mas parecem surpreendentemente pouco impressionantes frente aos competidores chineses. O centro de pesquisas da gigante de telecomunicações chinesa Huawei, por exemplo, é tão grande que tem sua própria estrada de saída, enquanto seus funcionários voltam para casa em sua própria linha de ônibus. Comparados aos shopping centers de Shenzhen, as superstores do Wal-Mart - são nove na cidade - parecem lojinhas de esquina. As lanchonetes do McDonald's e do KFC chegam a parecer quase retrô perto da Real Kung Fu, cadeia de fast-food local que tem como mascote um Bruce Lee estilizado.

Nada disso aconteceu por acidente. A China de hoje, marcada pela transformação de Shenzhen - que foi da lama à megacidade em 30 anos - representa um novo modo de organizar a sociedade, às vezes chamado de "Stalinismo de mercado", um híbrido potente das mais poderosas ferramentas políticas do comunismo autoritário - planejamento centralizado, repressão e vigilância constante - juntas em prol do avanço dos objetivos do capitalismo global.

Agora, enquanto a China se prepara para mostrar seus avanços econômicos durante as Olímpiadas de Pequim, Shenzhen serve mais uma vez de laboratório, um campo de teste para a próxima fase desse vasto experimento social.Nos últimos dois anos, 200 mil câmeras de vigilância foram instaladas por toda a cidade. Muitas delas estão em lugares públicos, disfarçadas de postes de luz. O circuito fechado de câmeras de TV em breve será conectado a uma única rede nacional, um sistema de vigilância total capaz de rastrear e identificar qualquer um que esteja dentro de seu alcance - um projeto conduzido em parte com tecnologia e investimento dos Estados Unidos. Nos próximos três anos, executivos de segurança da China prevêem que 2 milhões de CCTVs serão instaladas em Shenzhen, tornando-a a cidade mais vigiada do mundo (maníaca por segurança, Londres tem apenas meio milhão de câmeras de segurança).

As câmeras formam apenas uma parte de um programa muito mais amplo de vigilância e censura conhecido na China como "Escudo Dourado" (Golden Shield). O objetivo é usar o que há de mais moderno em tecnologia de rastreamento pessoal - fortemente abastecida pelas gigantes americanas IBM, Honeywell e General Electric - a fim de criar uma espécie de casulo consumidor cuidadosamente selado: um lugar onde cartões Visa, tênis Adidas, celulares da China Mobile, Mc Lanches Feliz, cerveja Tsingtao possam ser aproveitados sob o sempre vigilante olho do Estado, sem a ameaça da democracia. O governo espera usar o escudo para identificar e contra-atacar dissidências antes que estas explodam em movimentos de massa como o que chamou a atenção do mundo na Praça da Paz Celestial.

Lembra-se de quando disseram que o livre comércio e a liberdade do povo andavam juntos? Era mentira. O modo mais eficiente de aplicação do capitalismo é usando o estilo totalitário do comunismo, reforçado com tecnologias de segurança norte-americanas e turbinado com a retórica da "guerra contra o terror". E as corporações globais, atualmente aproveitando os superlucros desse experimento social, dificilmente se contentarão em manter esse novo mercado confinado apenas a cidades como Shenzhen. Como tudo que é montado na China com peças norte-americanas, o Totalitarismo 2.0 está pronto para ser exportado para uma vizinhança perto de você.

Zhang Yi aponta para um espaço vazio no painel de sua Honda preta. "Aí ficava meu GPS, mas agora eu deixo ele em casa", diz ele. "É muito fácil de roubar." Rapidamente ele acrescenta, "desde que colocaram as câmeras de vigilância, percebemos uma queda muito grande na criminalidade em Shenzhen". Depois de dirigir durante uma hora, passando por centenas de portões de fábrica e parques industriais, encostamos em frente a um prédio pintado de cor salmão, do qual Zhang é parcialmente proprietário. Esta é a sede da FSAN:CCTV System. Zhang, o protótipo do yuppie de Shenzhen, vestindo uma camisa azul- royal de colarinho abotoado e óculos de aro preto, se desculpa pela bagunça. Do lado de dentro, cada centímetro de espaço é ocupado por caixas de papelão cheias de componentes eletrônicos e produtos finalizados.

Ele abriu sua fábrica há dois anos e já ganhou dez vezes mais do que investiu. Esse tipo de crescimento não é estranho no campo em que escolheu: a empresa fabrica câmeras de vigilância, cerca de 400 mil por ano. Metade é mandada para outros países, destinada a ocupar lugar nas beiras dos prédios de Londres, Manhattan e Dubai, como parte da onda global de preocupação com a "segurança nacional". A outra metade fica na China, muitas em Shenzhen e na vizinha Guangzhou, outra megacidade de 12 milhões de habitantes. O mercado de câmeras de segurança na China teve um crescimento de 4,1 bilhões de dólares no último ano, um salto de 24% se comparado a 2006.

Zhang me escolta até a linha de montagem, onde fileiras de jovens trabalhadores, a maioria mulheres, se inclinam sobre semicondutores, placas de circuito, pequenos cabos e lâmpadas. Entramos em um showroom onde ele e seus parceiros se reúnem com clientes. Nas paredes, há dúzias de modelos de câmera: especiais para dia e noite, clima seco e úmido, camufladas como luminárias ou detectores de fumaça, à prova de explosão, do tamanho de uma bola de futebol ou de uma caixinha de aliança.

Os trabalhadores da FSAN não só montam as câmeras como são vigiados por elas. Enquanto trabalham, os olhos silenciosos das lentes rotativas capturam cada movimento. Quando saem do trabalho e entram nos ônibus, são filmados de novo. No caminho até seus dormitórios, as ruas têm o que parecem ser lâmpadas recém-instaladas, seus postes brancos curvados na direção da calçada, os domos negros na extremidade. Dentro dos domos estão câmeras de alta resolução, o mesmo tipo produzido pelos trabalhadores da FSAN. Alguns quarteirões têm três ou quatro, uma a cada poucos metros. Companhia estabelecida em Shenzhen, a China Security & Surveillance Technology desenvolveu um software que torna as câmeras capazes de alertar a polícia quando um número incomum de pessoas começa a se aglomerar em algum lugar.

Em 2006, o governo chinês ordenou que todos os internet cafés (assim como restaurantes e outros pontos de "entretenimento) instalassem câmeras de vídeo com ligação direta para as delegacias locais. Parte de um projeto de vigilância mais amplo chamado "Cidades Seguras" (Safe Cities), a empreitada já inclui 660 municípios. É o mais ambicioso dos novos programas governamentais na região do Delta do Rio Pérola, e sua sustentação se tornou um dos novos mercados de maior crescimento em Shenzhen. Mas as câmeras construídas por Zhang são apenas parte do massiço experimento de controle populacional em curso no local. "O grande panorama", me diz ele em seu escritório na fábrica, "é integração". Isto quer dizer ligar as câmeras a outras formas de vigilância: internet, telefones, softwares de reconhecimento facial e monitoração via GPS.

É assim que o "Escudo Dourado" vai funcionar: os cidadãos chineses serão vigiados o tempo todo pelas câmeras em rede e pelos computadores. Serão ouvidos em suas chamadas telefônicas, monitorados por tecnologia de reconhecimento de voz. Seus acessos à internet serão limitados através do notório sistema de controle online do país, o "Grande Firewall". Seus movimentos serão rastreados por um cartão de identidade com chips de leitura por computador e fotos serão instantaneamente carregadas para a base de dados da polícia e anexadas aos dados pessoais de seu dono. Este é o elemento mais importante de todos: juntar todas as ferramentas em uma gigantesca base de dados pesquisável de fotos, informações de residência, histórico de empregos e dados biométricos. Quando o Escudo estiver pronto, haverá uma foto para cada pessoa na China: 1,3 bilhões de rostos.

Shenzhen é o lugar onde todos esses brinquedinhos são testados. "Eventualmente, o governo central quer uma vigilância de 'cidade por cidade', assim eles podem monitorar a área como um todo", explica Zhang. É tudo parte desse projeto maior. Uma vez que os testes estejam comprovados, ele será espalhado das grandes províncias às cidades e até zonas rurais. Na verdade, a expansão do escudo high-tech já está acontecendo.

Com o incidente em Lhasa, capital tibetana, em março, o mundo pôde ver um pouco da raiva latente em muitas partes da China. E embora os protestos na cidade tenham se destacado por seu foco étnico e intensidade, outras manifestações por todo o país não raro carregam alguma chocante conotação militante. Em julho de 2006, trabalhadores de uma fábrica em Shenzhen expressaram seu descontentamento com o palpérrimo salário recebido virando carros, destruindo computadores e abrindo hidrantes. Em março do último ano, quando as passagens de ônibus subiram na cidade rural de Zhushan, 20 mil pessoas foram às ruas e cinco viaturas policiais foram incendiadas. Na verdade, a China não vê tempos de instabilidade política como o dos últimos anos desde 1989, o ano em que os protestos de estudantes foram massacrados pelos tanques na Praça da Paz Celestial. Em 2005, de acordo com números do próprio governo, houve pelo menos 87 mil "incidentes em massa" - o termo governamental para protestos em larga escala.

Esta instabilidade crescente - um processo auxiliado pelo acesso a celulares e internet - representa mais que um problema de segurança para os líderes em Pequim. Ameaça todo o seu modelo de capitalismo. O rápido crescimento econômico chinês tem dependido da habilidade de seus governantes de destruir vilas e mover montanhas para abrir caminho para cidades industriais e shoppings. Se as pessoas que vivem nesses lugares usarem blogs e mensagens de texto para lutar por seus direitos, e se puderem se unir a cada manifestação semelhante em outras partes do mundo, a estonteante expansão da China pode empacar.

Ao mesmo tempo, o bem-sucedido desenvolvimento do país gera seus próprios desafios. Cada vila rural desapropriada resulta em mais pessoas que se juntam ao grupo de quase 130 milhões de migrantes que vagam em busca de emprego. A projeção é que em 2025 esta população "flutuante" chegue a 350 milhões. Muitos irão acabar em cidades como Shenzhen, que já abriga 7 milhões de migrantes.

Mas, enquanto a China precisa dessas pessoas para trabalhar nas fábricas e construções, o governo não se mostra inclinado a oferecer a elas os mesmos benefícios dos residentes: educação altamente subsidiada e assistência médica, bem como outros serviços públicos. Apesar de poderem viver por décadas nas grandes cidades, como Shenzhen e Guangzhou, os imigrantes ainda constam como moradores das comunidades rurais onde nasceram, fato gravado em seus cartões nacionais de identidade. Como me disse um jovem migrante em Guangzhou, "A população local quer fazer dinheiro do trabalho migrante, mas não quer dar a eles seus direitos. Mas por que o povo local é tão rico? Por causa dos trabalhadores migrantes!".

Com seus protestos militantes e população móvel, a China enfrenta um desafio fundamental. Como manter um sistema baseado em duas categorias de pessoas tão dramaticamente desiguais: os vencedores, que ficam com os condomínios e carros, e os perdedores, que fazem o trabalho pesado e têm seus benefícios negados? Mais urgente ainda: como fazer isso quando a tecnologia da informação ameaça juntar os perdedores em um movimento tão grande que poderia facilmente sobrepujar as elites do país?

A resposta é o "Escudo Dourado". Quando o Tibete explodiu em protesto recentemente, o sistema de vigilância teve seu primeiro teste verdadeiro, no qual cada suposta ferramenta de liberação da Era da Informação - celulares, televisão via satélite, internet - transformou-se em um método de repressão e controle. Assim que os protestos esquentaram, a China reforçou a Grande Firewall, bloqueando o acesso de cidadãos a dúzias de fontes de notícias estrangeiras. Em algumas partes do Tibete o acesso a internet foi totalmente bloqueado e os celulares de Lhasa foram atacados por mensagens da polícia: "Combata severamente a invenção e propagação de rumores que possam perturbar ou assustar as pessoas, causar desordem social ou atitude criminosa que possa danificar a estabilidade social". Durante a primeira semana de protestos, jornalistas estrangeiros que tentaram entrar no Tibete foram sistematicamente rejeitados. Mas isso não significa que não havia câmeras dentro da área sitiada. Desde o início do ano passado, ativistas de Lhasa têm reportado a proliferação de câmeras de domo negro disfarçadas de postes de luz - como as que vi na linha de montagem de Shenzhen. Monges tibetanos reclamavam que câmeras - ativadas por um sensor de movimento - haviam invadido os monastérios e oratórios.

Na época dos tumultos em Lhasa, a polícia aumentou a vigilância usando suas próprias câmeras, preferindo filmar - em vez de conter - a violência que deixou 19 mortos. A polícia então rapidamente editou as filmagens das câmeras de segurança, escolhendo as seqüências que faziam os tibetanos parecerem mais brutais - batendo em chineses nas ruas, ateando fogo a lojas, depredando bancos - e criou uma espécie de documentário policial: Tibetans Gone Wild (ou Tibetanos Selvagens). Aqueles não eram os seres celestiais em mantos esvoaçantes a respeito dos quais os Beastie Boys e Richard Gere nos falavam. Eram jovens raivosos, empunhando pedaços de pau e facas e lâminas longas. Na TV estatal chinesa, as cenas passavam o dia todo.

A polícia também usou as câmeras para fotografar os rostos dos protestantes e agitadores envolvidos. Fotos dos 21 tibetanos "mais procurados" foram imediatamente espalhadas por todos os principais sites do país, que obedientemente as colocaram no ar a fim de auxiliar na caçada humana. A internet se tornou a mais poderosa ferramenta policial. Em questão de dias, vários dos homens mostrados nos cartazes já estavam em custódia, junto com centenas de outros.

O incidente no Tibet foi descrito repetidamente pela imprensa internacional como um "pesadelo" para Pequim. Vários líderes estrangeiros se comprometeram a boicotar a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, a imprensa protagonizou uma orgia de ataques à China. Mas dentro do país o fiasco do Tibet pode ter sido uma verdadeira bênção para o governo, reforçando ainda mais seu controle. Apesar de seus cidadãos terem acesso a tecnologias de informação sem precedentes (há tantos usuários da internet no país quanto há nos Estados Unidos), o partido demonstra que ainda é capaz de controlar o que eles vêem e ouvem. E o que eles viram em suas TVs e monitores foram os violentos tibetanos querendo matar seus vizinhos chineses, enquanto a polícia demonstrava sua admirável habilidade de contenção. Grupos de solidariedade tibetanos afirmam que 140 pessoas foram mortas durante o tumulto que se seguiu aos protestos, mas sem as fotos tiradas por jornalistas, é como se essas mortes subseqüentes jamais tivessem acontecido.

Os telespectadores chineses também assistiram a um mundo insensível às vítimas da violência tibetana contra os chineses. Hostil a ponto de usar a tragédia para roubar da China sua tão merecida e suada glória olímpica. Esses sentimentos nacionalistas serviram de carta branca para que Pequim se empenhasse em uma verdadeira caça às bruxas e as forças de segurança capturaram milhares de ativistas e simpatizantes tibetanos. Quando os jogos começarem, muitos dos que compunham o movimento tibetano estarão atrás das grades - juntamente com vários jornalistas e blogueiros defensores dos direitos humanos chineses, pegos na teia tecnológica do governo. O Totalitarismo 2.0 pode não parecer bom visto de fora, mas do lado de dentro parece ter passado com louvor por seu primeiro grande teste.

Em Guangzhou, a uma hora e meia de trem de Shenzhen, Yao Ruoguang se prepara para um grande teste particular. "É chamado teste dos 10 milhões de rostos", conta ele. Ele é um dos diretores da Pixel Solutions, companhia chinesa especializada na produção dos modernos cartões nacionais de identidade, bem como na venda de software de reconhecimento facial para empresas e agências governamentais. O teste, cuja primeira fase deve acontecer dali a uma semana, está sendo montado pelo Ministério da Segurança Pública de Pequim. A idéia é medir a efetividade do programa de reconhecimento facial na identificação de criminosos. "Precisamos ser capazes de encontrar um rosto específico entre 10 milhões em um segundo", explica ele. "Estamos nos preparando para isso agora." As empresas que conseguirem bons resultados serão as primeiras na lista dos lucrativos contratos de integração de reconhecimento facial ao Escudo Dourado, que possibilitará a checagem de fraude nas identidades e identificação dos suspeitos flagrados pelas câmeras de segurança. Yao diz que a tecnologia está quase lá: "Vai acontecer no ano que vem". Quando nos encontramos na sede de sua empresa, ele estava confiante quanto à performance da companhia no teste. Sua arma secreta é um software de reconhecimento facial comprado da L-1 Identity Solutions, uma das principais contratadas da defesa norte-americana, responsável pela produção de passaportes e fornecimento de sistemas de segurança biométricos para o governo dos Estados Unidos.

Para demonstrar o quão bem o programa funciona, Yao usa a si mesmo como exemplo. Usando uma câmera ligada a seu laptop, ele tira uma foto de seu próprio rosto, redondo e ainda jovem para seus 54 anos. Em seguida, carrega a foto no site da empresa, construída com o soft-ware da L-1. Com o cursor, marca seus olhos com duas cruzes verdes, ajudando o sistema a medir a distância de suas feições, um aspecto distinto de nossos rostos incapaz de ser modificado mesmo com disfarces ou cirurgia plástica. Ele aperta um botão, ordenando o programa a encontrar a pessoa correspondente ao rosto recém-carregado em meio à base de dados da companhia, que contém 600 mil rostos catalogados. Instantaneamente, várias fotos de Yao aparecem, incluindo uma tirada 19 anos atrás - prova de que a tecnologia pode "encontrar um rosto", mesmo que ele tenha sido modificado pelo tempo. "Levou 1,1 milisegundo!", exclama Yao. "É, esse aí sou eu!"

Como tantos outros executivos do ramo de segurança que entrevistei na China, Yao nega que o uso primário da tecnologia seja como instrumento de caça de ativistas políticos. "Noventa e cinco por cento", insiste ele, "é apenas para a segurança." Ele admite que tem sido visitado por espiões do governo, que chama de "pessoal da segurança interna". Eles chegaram com fotos pouco nítidas, batidas a grandes distâncias ou através de microcâmeras, de "alguns manifestantes e dissidentes". Queriam saber se o software de Yao podia ajudá-los a descobrir a identidade das pessoas nas fotos. Ele sentiu em desapontá-los. "Honestamente, o que temos hoje em termos de tecnologia não é o suficiente para a necessidade deles", explica. "As fotos que nos mostraram estavam muito fora de foco." Isso está mudando rapidamente, é claro, graças ao aumento do número de CCTVs de alta resolução. Yao ainda assim insiste que o objetivo do governo não é a repressão: "Se você tem envolvimento com política, eles querem saber qual sua motivação", esclarece. "Por isso tiram e nos dão a foto, para que saibam ao menos quem a pessoa é."

Até pouco tempo o império fotográfico de Yao era focado nos consumidores - tirar fotos de turmas de escola, a criação de uma versão chinesa do Flickr (o original é barrado pela Grande Firewall) e transformar fotos de bebês gorduchos em ímãs de geladeira e quebra-luzes. E ele ainda mantém esses serviços. Isso significa que metade dos escritórios da Pixel Solutions parece ter sido palco de um aniversário de criança. A outra metade se parece com um sombrio escritório alfandegário, as paredes forradas de pôsteres de terroristas na mira das autoridades: comparar, aprovar, vigiar. Entre computadores mais poderosos, câmeras de alta resolução e a obsessão global com o crime e o terrorismo, ele percebeu que o ramo do reconhecimento facial "podia ser o novo dot-com".

Não exatamente um perito em computadores - estudou literatura inglesa na escola -, Yao começou a pesquisar os líderes na área. Logo aprendeu que o reconhecimento facial era altamente controverso, com grandes índices de erro. Algumas poucas companhias, porém, haviam se destacado em testes controlados nos Estados Unidos. Uma delas era a L-1 Identity Solutions. Com sede em Connecticut, a L-1 foi criada dois anos antes a partir de fusões e compra de meia dúzia das maiores empresas no campo da biometria, todas especializadas na ciên-cia da identificação pessoal através de características físicas distintas: impressões digitais, íris, geometria facial. As fusões fizeram da L-1 a parada obrigatória quando o assunto é biometria. Graças a membros da diretoria como o ex-diretor da CIA George Tenet, a companhia se tornou rapidamente o grande peso pesado da segurança nacional. Estima-se que seu lucro anual deva atingir 1 bilhão de dólares em 2011, boa parte vinda de contratos com o governo norte-americano.

Em 2006, conta Yao,"fiz meu primeiro telefonema e mandei o primeiro e-mail". Por 20 mil dólares, ele ganhou acesso ao programa criado pela empresa, permitindo que "construísse muitos softwares de desenvolvimento baseados na tecnologia da L-1". Desde que iniciou a parceria, Yao já foi bem além da fase dos pequenos investimentos. Ele diz que não é exatamente a sua companhia quem estará competindo no teste de 10 milhões de rostos aplicado pelo governo chinês. "Estaremos entrando como representantes da L-1 na China." Yao tem conversas regulares com a empresa e já visitou seus centros de pesquisa em Nova Jersey ("Da janela dá para ver a Estátua da Liberdade. É um lugar histórico tão importante"). A L-1 está acompanhando os preparativos para os testes com grande interesse, conta Yao. "Eles parecem mais empolgados que nós quando contamos os resultados."

O entusiasmo dos norte-americanos não é nem um pouco surpreendente: se Yao impressionar o Ministério da Segurança Pública com a capacidade da companhia em identificar criminosos, a L-1 terá arrebatado o maior mercado potencial de biometria do mundo. Mas há um porém: enquanto Yao parece orgulhoso em ser o representante chinês da L-1, a L-1 parece particularmente menos orgulhosa de sua associação com Yao. Em seu site e relatório para investidores, a L-1 se gaba de contratos e negociações com os governos de Arábia Saudita, Panamá, México e Turquia. A China, entretanto, está notadamente ausente. E embora o CEO Bob LaPenta se refira a "algumas grandes oportunidades internacionais", a Pixel Solutions não é citada uma vez sequer.

Depois de deixar uma mensagem para a companhia perguntando sobre o envolvimento com o mercado de segurança nacional chinês, recebi uma chamada de Doni Fordyce, vice-presidente de comunicações corporativas. Ela tinha consultado Joseph Atick, o chefe de pesquisa da companhia. "Não temos nada na China", respondeu ela. "Não estamos envolvidos. Realmente não temos nenhuma relação." Conto a ela sobre Yao, sobre o teste dos 10 milhões de rostos, o dinheiro que ele pagou pela licença do software. Ela diz que me liga de volta em seguida. Quando o faz, 20 minutos mais tarde, tem novidades: "Vendemos kits de desenvolvimento de software para testes à Pixel Solutions e a outras empresas (na China) que podem vir a fazer parte do teste". O uso que Yao faz da tecnologia, diz ela, "está dentro da licença" comprada junto à L-1.

O modo reticente como a empresa divulga suas atividades na China pode ter a ver com o fato de sua relação com Yao poder ser considerada ilegal pelas leis dos Estados Unidos. Quando o governo da China mandou seus tanques para a Praça da Paz Celestial, em 1989, o Congresso aprovou uma legislação que impede companhias norte-americanas de venderem na China qualquer produto relacionado com o "controle do crime e equipamentos ou instrumentos de detecção". Isso inclui não só armas, mas também itens como cacetetes, algemas, tinta e pó para coleta de impressões digitais e softwares para armazená-las. O interessante é que as câmeras de vigilância foram justamente um dos "instrumentos de detecção" que motivaram a criação da lei. Pequim tinha instalado várias câmeras antiquadas na Praça da Paz Celestial, com o objetivo de monitorar o tráfego. No fim, elas eram usadas para identificar e prender os principais dissidentes pró-democracia. "A intenção do ato", me conta um membro da equipe do congresso com experiência considerável na China, "era manter as empresas dos Estados Unidos fora do negócio de ajudar a polícia chinesa a conduzir seus assuntos, o que poderia resultar na supressão dos direitos humanos e da democracia na China, como ocorreu em 1989".

A aplicação que a Pixel faz do software da L-1 parece vir de encontro à intenção da lei. Como ele próprio admite, Yao já vem recebendo visitas de espiões do estado chinês, ansiosos por usar o reconhecimento facial na identificação de dissidentes. E, como parte do teste dos 10 milhões de rostos, Yao vem trabalhando intimamente com as forças de segurança nacional chinesas, sincronizando o software com sua vasta base de dados, um processo que tomou uma semana inteira de intenso trabalho em Pequim. Durante este tempo, ele conta que esteve em contato diário com a L-1, contando com a ajuda deles para adaptar o programa. "Porque somos representantes deles", ele repete. "Estamos fazendo os teste em nome da empresa."

Em outras palavras, a controversa tecnologia americana de "controle do crime" já encontrou seu caminho até as mãos da polícia chinesa. Mais que isso, o objetivo de Yao, como me foi dito várias vezes, é conseguir contratos lucrativos com as agências policiais a fim de integrar o reconhecimento facial ao recém-construído sistema onipresente de câmeras de vigilância e cartões de identidade. Como parte de qualquer contrato que conseguir, a Pixel "pagará à L-1 uma porcentagem de suas vendas".

Quando coloco a situação da L-1 ao Departamento de Comércio do Bureau de Indústria e Segurança - a divisão que aplica a lei de controle de exportação criada após o incidente na Praça da Paz Celestial - um representante me diz que os kits de software estão sujeitos às sanções se "exportados dos Estados Unidos ou se forem produto estrangeiro originário de item norte-americano". Baseado em ambos os critérios, os kits de software vendidos a Yao estariam sujeitos à lei. Quando pergunto a Doni Fordyce sobre o embargo, ela responde "Não sei nada sobre isso". Quando questiono se ela prefere pesquisar a respeito e me ligar em seguida, a resposta é: "Não há nenhum comentário a ser feito". E desliga.

Você pode nunca ter ouvido falar da L-1, mas existe uma grande chance de que ela tenha ouvido falar de você. Poucas companhias têm coletado tantas informações delicadas sobre os cidadãos norte-americanos e visitantes presentes nos Estados Unidos quanto ela: trata-se de uma base de dados de 60 milhões de fichas, com mais de 1 milhão de impressões digitais sendo "capturadas" a cada ano. Um pequeno exemplo do que a companhia faz: produz passaportes e cartões para cidadãos norte-americanos; escaneia as impressões digitais dos visitantes ao país dentro do programa U.S.Visit, coordenado pelo Departamento de Segurança Nacional; equipa os soldados no Iraque e Afeganistão com "dispositivos portáteis multimodais e leitura de íris" para que possam coletar dados biométricos enquanto estão em serviço; mantém o "maior banco de dados de reconhecimento facial" pertencente ao Departamento de Estado; e produz as carteiras de motorista dos estados de Illinois, Montana e Carolina do Norte. Além disso, a L-1 tem um departamento de inteligência ainda mais secreto, o SpecTal. Chamado por um analista do Wall Street para discutir, "em termos extremamente gerais", o que a divisão estava fazendo com contratos no valor estimado de 100 milhões de dólares, o CEO da empresa disse apenas, "Fique ligado".

É justamente a ligação profunda da L-1 com múltiplas agências do governo dos Estados Unidos o que torna seus negócios com a China ainda mais interessantes: ela está ajudando, junto com os contribuintes norte-americanos, a polícia chinesa a prender dissidentes políticos. A tecnologia que Yao comprou por alguns milhares de dólares é fruto de verbas do Departamento de Defesa e contratos que vêm desde 1994, quando um jovem acadêmico chamado Joseph Atick (o diretor de pesquisas que Fordyce consultou sobre os negócios da L-1 na China) ensinou um computador da Universidade Rockfeller a reconhecer seu rosto.

De sua parte, Yao sabe de tudo sobre o controle de exportação de equipamentos policiais dos Estados Unidos para a China. Ele me conta que os instrumentos eletrônicos de leitura de impressões digitais estão "proibidos de entrar no país" por causa da preocupação dos norte-americanos de que eles sejam usados para "pegar os criminosos políticos, os dissidentes, mais facilmente". Entretanto, Yao acha que a L-1 encontrou uma brecha na lei. Enquanto a tecnologia de impressões digitais aparece na lista de produtos banidos mantida pelo Departamento de Comércio, não há nenhuma menção explícita a "reconhecimento facial" - provavelmente porque a idéia ainda fazia parte do reino da ficção científica quando o massacre na Praça da Paz Celestial ocorreu. Até onde vai o interesse de Yao, a omissão significa que a L-1 pode legalmente fornecer seu software para o uso do governo chinês.

Qualquer que seja a legalidade da participação no programa de vigilância da China, fica claro que as companhias norte-americanas estão empenhadas em entrar no mercado de segurança nacional do país, que representa o maior potencial de crescimento desde o 11/9. De acordo com um membro da equipe do congresso, as companhias norte-americanas e seus lobistas estão colocando "uma enorme pressão para que os portões se abram".

Os acontecimentos no Tibete geraram uma onda de manifestações e ameaças de boicotes. Mas isso só desvia a atenção de um desconfortável fato: muito do poderoso sistema de vigilância chinês já vem sendo construí-do com tecnologia norte-americana e européia. Em fevereiro de 2006, um subcomitê do congresso sediou um encontro que tinha como tema: "A Internet na China: Uma Ferramenta da Liberdade ou da Repressão?". As seguintes companhias foram chamadas: Google (por ter idealizado para a China um sistema de procura especial que bloqueia conteúdos mais delicados), Cisco (por suprir o país com hardware para a Grande Firewall), Microsoft (que tirou do ar blogs políticos a pedido de Pequim) e Yahoo (por concordar em entregar informações de contas de e-mail que levaram à captura e prisão de importantes jornalistas chineses, bem como de dissidentes que haviam criticado oficiais corruptos em grupos de discussão online). O assunto veio à tona novamente durante os últimos conflitos no Tibete, quando foi descoberto que tanto a MSN quanto a Yahoo haviam colocado as fotos dos protestantes procurados em seus portais chineses.

Em todos esses casos, as multinacionais apresentaram a mesma defesa: cooperar com as ordens do governo é, infelizmente, o preço de fazer negócios na China. Alguns, como o Google, argumentam que apesar de limitar o acesso à internet, estão contribuindo com o aumento da liberdade no país. É uma história que encobre um escândalo muito maior: investidores ocidentais marchando para o país, possivelmente violando a lei, com o propósito único de auxiliar o Partido Comunista a gastar bilhões de dólares construindo o Totalitarismo 2.0. Este não é o infeliz preço a ser pago para se fazer negócios na China: é o objetivo de se fazer negócios com eles. "Ajude-nos a espionar!", o governo chinês disse ao mundo. E as companhias líderes em tecnologia responderam ao chamado.

Como foi noticiado recentemente pelo jornal The New York Times, ajudar e encorajar Pequim se tornou a grande oportunidade de investimento para as empresas norte-americanas.

A Honeywell está trabalhando junto com a polícia chinesa na "instalação de um elaborado sistema de monitoração computadorizado capaz de analisar transmissões de câmeras internas e externas em um dos mais populares distritos de Pequim". A General Electric está fornecendo à polícia de Pequim um sistema de segurança que controla "milhares de câmeras simultaneamente e dá um alerta automático quando há por perto objetos suspeitos ou se movendo em grande velocidade, como pessoas correndo, por exemplo". A IBM, por sua vez, está instalando seu "Sistema Inteligente de Vigilância" (Smart Surveillance System) na capital, mais um sistema que une câmeras de vídeo e rastreamento em busca de problemas, enquanto a United Technologies está em Guangzhou ajudando a customizar uma "rede de 2 mil câmeras em uma única grande comunidade, o primeiro passo em direção à construção de uma rede de 250 mil câmeras capazes de englobar toda uma cidade, algo que deve ser instalado ainda antes dos Jogos Asiáticos de 2010". No próximo ano, o mercado de segurança interna chinês valerá cerca de 33 bilhões de dólares, mais ou menos a mesma quantia que o Congresso norte-americano destinou à reconstrução do Iraque.

"Estamos no início de um gigantesco boom de gastos com segurança na China", de acordo com Graham Summers, analista de marketing que publica uma newsletter para investidores em Baltimore. "Precisamos estar atentos às companhias que irão lucrar com o 'consumo de segurança'. Há muito dinheiro a ser ganho."

Enquanto as empresas norte-americanas estão ansiosas para invadir o mercado em expansão chinês, cada empresa chinesa que encontrei na região do Delta do Rio Pérola tem algum tipo de plano para entrar no mercado norte-americano. Nenhuma delas, entretanto, parece tão entusiasmada quanto a Aebell Electrical Technology, uma das top 10 no ramo de segurança. A Aebell é a responsável pelo estádio olímpico onde se realizarão as competições de natação em Pequim e instalou mais de 10 mil câmeras na cidade de Guangzhou e seus arredores. Os negócios têm aumentado na razão de 100% ao ano. Quando me encontrei com o agitado gerente-geral da companhia, Zheng Sun Man, a primeira coisa que ele me disse foi "Vamos tornar nossas ações públicas este ano. Na Nasdaq". Também fica claro por que ele escolheu falar com uma repórter estrangeira. "Me ajude, me ajude!", ele pede. "Ajude-nos a promover nossos produtos!" Zheng, MBA vindo de uma das principais escolas da China, mostra orgulhoso um recém-impresso catálogo em inglês mostrando as câmeras de segurança produzidas pela empresa. As páginas estão cheias de imagens iconográficas norte-americanas, incluindo homens de negócios trocando maços de dólares e várias fotos do horizonte de Nova York mostrando proeminentemente as torres do World Trade Center. No hall da sede da companhia há um pôster mostrando dois corações entrelaçados: um com a bandeira dos Estados Unidos e o outro com o logo da Aebell.

Pergunto a Zheng se o aumento do mercado de vigilância na China tem algo a ver com o aumento da incidência de greves e manifestações no país nos últimos anos. O braço direito de Zheng, um militar veterano com 23 anos de carreira, vestindo um terno preto no estilo Mao, responde como se eu tivesse feito um ataque direto ao próprio Partido Comunista. "Se você sair deste prédio, estará sendo vigiado através de cinco ou seis diferentes métodos", diz enquanto me olha firme. Ele deixa a implicação de suas palavras no ar como uma amea-ça não dita. "Se você é um cidadão que respeita as leis, não tem o que temer", conclui, enfim. "Os criminosos são os únicos que devem ter medo."

Uma das primeiras pessoas a alertar sobre a evolução do totalitarismo chinês foi o pesquisador britânico Greg Walton. Em 2000, a respeitada organização de direitos humanos Rights & Democracy encarregou Walton de investigar os modos pelos quais as forças de segurança da China estariam interligando os instrumentos da Era da Informação para usá-los como meio de cerceamento da liberdade de expressão e monitoramento de ativistas políticos. O documento escrito por ele chamou-se "China's Golden Shield: Corporations and the Development of Surveillance Technology in the People's Republic of China" (O Escudo Dourado da China: Corporações e o Desenvolvimento da Tecnologia de Vigilância na República Popular da China). Mostrava como grandes empresas estavam ajudando o governo chinês a construir um "gigantesco banco de dados online englobando redes de vigilância - incorporando reconhecimento vocal e facial, circuitos fechados de TV, cartões inteligentes, histórico de crédito e tecnologia de vigilância da internet". Quando o relatório estava completo, Walton se encontrou com a equipe do instituto para elaborar a estratégia de divulgação de suas explosivas descobertas. No meio das discussões, um companheiro dele invadiu a reunião e contou que um avião havia batido nas Torres Gêmeas. O encontro prosseguiu, mas eles sabiam que o contexto do trabalho realizado estaria mudado para sempre.

As descobertas de Walton tiveram impacto, nas não exatamente o que ele esperava. O documento serviu como "fonte de inspiração" para o governo dos Estados Unidos, bem como para companhias privadas esperançosas em agarrar uma fatia do repentino mercado emergente de instrumentos de espionagem. Para ele, o momento mais assustador foi quando o Departamento de Defesa tentou lançar um sistema chamado "Total Information Awareness" (Conhecimento Total de Informação), que construiria o que eles chamavam de "grande banco de dados virtual e centralizado", criando dossiês para cada cidadão, atualizados eletronicamente de forma constante, extraindo informações de históricos bancários, de cartões de crédito, bibliotecas e ligações telefônicas, bem como filmagens de câmeras de vigilância. "Era claramente muito semelhante ao que condenávamos na China", compara Walton. Entre os que brigavam para fazer parte desse novo mercado estava Joseph Atick, hoje executivo da L-1. O nome que ele escolheu para seu plano de integrar um software de reconhecimento facial a uma vasta rede de segurança era incomodamente parecido com o do sistema de vigilância chinês: "Operação Escudo Nobre" (Operation Noble Shield).

Auxiliados pelo Ato Patriota, muitos dos grandes sonhos secretamente nutridos por homens como Atick já estão sendo postos em prática nos Estados Unidos. Nova York, Chicago e Washington, D.C. vêm testando câmeras de vigilância ligadas em uma única rede abrangendo a cidade toda. O uso de câmeras pela polícia em manifestações pacíficas já é rotina e as imagens feitas podem ser usadas para coletar "impressões faciais" - e então são comparadas com o sempre crescente arquivo de fotos da instituição. Tais esforços deram aos governantes chineses algo muito mais valioso que a tecnologia das democracias ocidentais: o poder de dizer que são iguais aos norte-americanos. Liu Zhengrong, autoridade que lida com a política da China no que diz respeito à internet, tem defendido o "Escudo Dourado" e outras medidas de repressão baseando-se no Ato Patriota [lei norte-americana criada para combater o terrorismo] e nas massiças operações de coleta e análise de e-mails conduzidas pelo FBI. "Está claro que as autoridades legais dos outros países monitoram de perto a divulgação de informações ilegais", afirma ele. "Os Estados Unidos vêm fazendo um bom trabalho nessa área." Ativistas dos direitos humanos rapidamente apontam que, embora as ferramentas sejam as mesmas, o contexto político é radicalmente diferente. A China tem um governo que usa de uma teia de alta tecnologia para aprisionar e torturar manifestantes pacíficos - monges tibetanos e jornalistas de pensamento independente. E mesmo na "América" linhas começam a se tornar cada vez menos nítidas. Os Estados Unidos têm mais presidiários que a China, mesmo tendo uma população que não chega a um quarto da que há no país oriental. Sharon Hom, diretora executiva do grupo de defesa Human Rights in China, diz que quando fala sobre as horríveis violações dos direitos humanos na China nos encontros internacionais, "Há palavras que ouço como resposta repetidas vezes: Baía de Guantânamo".

O negócio global da segurança nacional vale cerca de 200 bilhões de dólares - mais que a indústria de Hollywood e a da música juntas. Qualquer setor com essas proporções acaba inevitavelmente desabando, vítima de seu próprio peso. É preciso encontrar novos mercados - o que, no ramo do Big Brother, significa uma eterna procissão de novos inimigos e emergências: crime, imigração, terrorismo. Em Shenzhen, tive um jantar com um consultor de negócios norte-americano chamado Stephen Herrington. Antes de começar a dar palestras em faculdades de economia na China, ensinando conceitos como gestão de marcas, Herrigton era um oficial da inteligência do exército e chegou até o posto de tenente-coronel. O que ele viu até agora na região do Delta do Rio Pérola o deixou muito assustado. "Há pessoas na administração Bush estudando o uso das tecnologias de vigilância desenvolvidas aqui e que devem ter pelo menos o esqueleto de um plano para implantá-las em nosso país", diz ele. "Já se pode ver isso em Nova York, com as câmeras CCTV. Uma vez que se tenha as câmeras instaladas, já existe uma infra-estrutura para um poderoso sistema de rastreamento. Me preocupo com a ameaça que isso representa para a democracia dos Estados Unidos."

Malhar a China é algo que nunca falha quando se trata de aliviar a consciência do Ocidente - temos aqui um país enorme e poderoso que, no que diz respeito aos direitos humanos e à democracia, é muito pior que a América de Bush. Mas durante o tempo que passei em Shenzhen, a mais jovem e moderna cidade chinesa, tive o sentimento constante de estar observando não o palco de um totalitarismo renegado mas sim um campo neutro global, o lugar para onde mais e mais países estão convergindo. A China está se tornando mais parecida com a América em aspectos bem visíveis (Starbucks, Hooters) e os Estados Unidos estão se tornando mais como a China em aspectos menos observáveis (torturas, escutas clandestinas, detenção sem pena determinada - embora não chegue nem perto da escala em que essas coisas ocorrem no país oriental). O que é mais desconcertante neste estado de vigilância da China é o quão tudo parece familiar. Quando dei entrada no Sheraton em Shenzhen, por exemplo, era tudo igual a qualquer outra cadeia de hotéis caros - a diferença era que o lobby era uma pouco mais moderno e o simpático atendente não só checou meu passaporte como também o escaneou. "Você está fazendo uma cópia?", perguntei. "Não, não", respondeu ele solícito. "Só estamos mandando uma cópia para a polícia."

No meu quarto, o site que aparece no meu laptop se parece com qualquer outro - a diferença é que ele não me deixará visitar sites de direitos humanos ou trabalhistas que eu sei que estão no ar e funcionando perfeitamente. A TV pega a CNN Internacional - mas a programação tem edições estranhas e buracos obviamente deixados pela censura. Meu celular pega um sinal forte da China Mobile. Alguns meses antes, em Davos, Suíça, o CEO da China Mobile se gabava para uma platéia de executivos do ramo de comunicações que "não sabemos só quem você é, sabemos onde você está". Quando questionei sobre a privacidade dos consumidores ele respondeu que sua companhia só cedia "esse tipo de informação para as autoridades governamentais" - uma resposta muito parecida com a que recebi do atendente do hotel.

Quando deixo a China, sinto uma sensação poderosa de alívio: escapei. Estou salva. Mas o sentimento começa a desaparecer assim que chego à fila da alfândega do aeroporto JFK, vendo centenas de visitantes aguardando para ter suas fotos tiradas e dedos escanea-dos. No terminal, alguém me entrega um livreto da "Fly Clear". Tudo o que preciso fazer é ter minhas impressões digitais e íris escaneadas para ganhar um cartão Clear com um chip biométrico que me deixará livre para passar tranqüila pela segurança. Mais tarde, resolvo checar: a companhia que providencia a tecnologia é a L-1.