A Força de Paulo Coelho

O mais universal dos escritores brasileiros lança um novo livro e se equilibra na tênue linha entre a matéria e o espírito

Ricardo Franca Cruz Publicado em 07/08/2008, às 16h27 - Atualizado em 27/02/2012, às 12h57

"Críticos são como eunucos em um harém. Sabem como faz, vêem outros fazendo, mas não sabem fazer.", destila Paulo Coelho
Patrick Swirc

Da pequena varanda do 3º andar do edifício construído durante os anos 20 no 16º Arrondissement de Paris, na margem direita do rio Sena, a voz anasalada grita meu nome e chama minha atenção com um carregado sotaque carioca: “Um incêndio! Ali na frente! Espere, eu vou descer!”. Na rua, a poucos passos, uma pequena multidão assiste à fumaça escura sair de duas janelas no alto de um prédio côncavo de apartamentos residenciais. Em alguns minutos, o dono da voz, um senhor branco de 61 anos, praticamente careca, salvo uma rala camada de finos fios brancos que lhe cobre a cabeça, nariz e bolsas proeminentes embaixo dos olhos, lábios grossos, cavanhaque branco, menos de 1,70m e uma pequena barriga saliente, está ali, acompanhado de sua esposa. Quer saber o que apurei sobre o incêndio e, sabendo que nada sei, parte para o meio das pessoas, como o cidadão local que é e o repórter que já foi. “O apartamento é daquela menina ali”, e aponta para uma jovem de pés descalços, como se tivesse saído de casa às pressas. “Ela não sabe como começou o fogo, a esta altura os bombeiros já deveriam ter chegado”, ele comenta com a esposa. As sirenes se fazem ouvir. O casal fica impressionado com a calma dos vizinhos ao lado e abaixo do apartamento em chamas que, de suas janelas, acompanham a fumaça densa se dissipar na noite. Uma rápida caminhada em direção ao rio e eles estão, curiosos, em frente à entrada principal do prédio, onde os bombeiros já conectaram uma potente mangueira à rede de água da cidade.

Puxando a esposa, a artista plástica Christina Oiticica, pela mão, Paulo Coelho pára e vê de perto um backlight com um pôster de Cidade dos Homens, que estrearia em menos de uma semana nos cinemas parisienses. Cinéfilo, pergunta: “Você viu este filme?” À resposta afirmativa, emenda: “É bom?” Digo que a obra – “Cité des Hommes” na França, que receberia mais elogios que críticas negativas nos jornais do país –, apesar da promessa silenciosa de ser um novo Cidade de Deus ou algo do mesmo nível, é uma das mais “mais ou menos” entre as recentes produções nacionais. Dificilmente ele o assistirá em uma sala de cinema. “Pirateio muitos filmes pela internet, assim como deixo piratearem todos os meus livros.”

Quatro horas antes, pontualmente às 19h, com o dia ainda claro lá fora, é o próprio Paulo Coelho que abre a porta de seu apartamento parisiense para uma entrevista cuja duração fora previamente acertada: três horas exatas. Gentil e calorosamente, apresenta a esposa e Paula, sobrinha e assistente, que mora no apartamento e chefia uma equipe de quatro pessoas que mantém o blog, os sites e as páginas do escritor nas redes sociais virtuais. Ele veste uma camisa pólo preta por dentro da calça jeans desbotada, tênis branco de corrida e um imponente relógio de marca fina. Pede alguns minutos para terminar de responder a um e-mail e logo convida à sala de estar. Oferece: “Champanhe ou vinho?” Vinho. Como canta Mick Jagger, inspirado pelo autor russo Mikhail Bulgakov, o brasileiro mais lido no mundo é um homem de riqueza e bom gosto. A riqueza mais óbvia e visível vem do que parece ser uma fonte inesgotável: um catálogo do qual constam 17 obras, incluindo o novo livro, O Vencedor Está Só, o primeiro do que se especula ser um contrato de muitos dígitos com a Ediouro, 74 editores espalhados pelo mundo, mais de 100 milhões de livros vendidos no globo em 66 línguas diferentes, os convites, cargos, prêmios e, principalmente, a fama e o poder de influência decorrentes disso tudo – ele é Mensageiro da Paz e Embaixador Europeu de Cultura, ambos postos da Organização das Nações Unidas, e Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião de Honra francesa criada por Napoleão Bonaparte. O bom gosto deve vir uma porção de berço, outra da voracidade pelos livros na juventude, outra do dinheiro, que começou a ganhar na música, como parceiro de mestre Raul Seixas, e usou, em boa medida, para viajar o mundo. Milionário e espécie de trabalhador-bon vivant-internacional, é no plano humanista e objetivo que se encontra a interpretação de “riqueza e bom gosto” que mais se encaixa ao perfil do escritor carioca: tem a ver com as muitas e profundas experiências vividas e adquiridas ao longo do que Fernando Morais define na biografia O Mago como “trajetória extraordinária”.

“Factualmente a biografia é perfeita”, afirma o biografado. “Mas peca por se deter ao meu lado material e não tocar no tema espiritual – e nem poderia, afinal Fernando é um ateu, um cara que acredita em Fidel Castro, não teria como ele acreditar no meu crescimento espiritual.” Tão logo recebeu em Paris o livro já pronto, “no dia 2 ou 3 de junho deste ano”, o leu do começo ao fim. “Não conseguia parar de ler. Pensava: ‘Esse sou eu!’. Como não me lembrava de 80% do que está no livro, li com um certo distanciamento, como se não fosse a minha história’.”

Um dos aspectos mais interessantes em ser biografado, segundo ele, é a reação de quem leu o livro. “As pessoas me dizem: ‘Como você sofreu!’ E eu não sofri porra nenhuma! Mas elas insistem que eu sofri demais, choram, se emocionam, e eu só me lembro de um sofrimento meu que foi a prisão durante a ditadura.” Em 27 de maio de 1974, ele foi detido pelo Dops para dar esclarecimentos sobre o gibi de quatro páginas encartado no LP Krig-Ha, Bandolo!, de Raul, escrito por ele e ilustrado por sua mulher na época, Adalgisa Rios. Ambos foram logo liberados para, a caminho de casa, serem capturados pelo DOI-Codi, o braço mais brutal da repressão militar. Ele foi interrogado e torturado, mas a biografia de Morais não entra em maiores detalhes. “Foram os piores dias da minha vida. Não foi só o que aconteceu no meu corpo, mas na minha alma. Saí da prisão, mas a prisão ficou dentro de mim até 1982. Fora isso, não acho que sofri. Porra, eu tava no calor da batalha, batendo e levando, batendo e levando! Agora quando você só apanha, como foi na prisão, aí há sofrimento.” Paulo Coelho inspira fundo, solta o ar devagar, dá um trago em um dos muitos cigarros que fumaria durante a entrevista e continua: “As cicatrizes que tenho na minha alma são medalhas que vou carregar até o fim da minha vida com muito orgulho. Um homem sem cicatrizes é um homem que não viveu”.

O membro da Academia Brasileira de Letras, sucesso em praticamente todo o mundo, mas nunca convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty, guarda também outra cicatriz: sua literatura, muitas vezes nem tida como tal, continua rejeitada pela crítica brasileira quase sempre pela ausência de estilo, pela simplicidade e a alegada falta de relação com a estrutura, a escrita lapidada e a permanência dos clássicos. “Críticos são como eunucos em um harém. Sabem como faz, vêem outros fazendo, mas não sabem fazer.” Deixa escapar um desafiador sorriso diabólico que parece dizer: “Eu sei fazer, faça melhor!”. Apedrejado por escritores nacionais muito menos significativos e incapazes de estabelecerem vínculos com seus escassos leitores, ele fala alto a um tipo de pessoa que existe em profusão no mundo: aqueles que acreditam que para tudo que é material há um correspondente espiritual, algo invisível e intocável, mas que pode ser sentido, intuído. Em uma época em que a informação se fragmenta em interpretações diferentes sobre um mesmo objeto e ao mesmo tempo converge para fazer daquele objeto algo de interesse global, em que a dicotomia se manifesta em conflitos econômicos, políticos e religiosos entre forças tidas como do Bem contra as tidas como do Mal, o caminho que o escritor percorre em seus livros, mesmo os que não tratam de questões sobrenaturais, soa como a experiência espiritual, de autoconhecimento e de vida que todos os seus leitores têm ou gostariam de ter. Ele não dissocia um elemento de outro: vida material e espiritual são uma coisa só, que envia sinais e desperta a intuição. “Este mundo em que eu vivo não é governado pela lógica.”


Fosse Paulo Coelho o autor desta reportagem, ele certamente teria interpretado com a linguagem dos sinais todas as coincidências espalhadas pelo caminho até o apartamento de Paris – a mulher ao meu lado e o homem fileiras atrás lendo a biografia do escritor no vôo à França; os cartazes de Cannes 2009 na esteira de bagagens no desembarque do aeroporto Charles De Gaulle (a trama do novo livro acontece em um dia no mais famoso festival de cinema do mundo); a jovem loira com ares de turista lendo Die Hexe von Portobello (a versão alemã de A Bruxa de Portobello, de 2006) no metrô parisiense; a espada de samurai em miniatura pendurada no retrovisor do taxista, como a que o autor obteve, em tamanho real, depois de percorrer o Caminho de Santiago de Compostela e relatar a experiência em O Diário de Um Mago (1987); os exatos 11 euros que marcara o taxímetro de Montparnasse até a porta do prédio. Do ponto de vista jornalístico, são manifestações do poder da cultura de massa e da presença do escritor no inconsciente coletivo. Ou talvez seja meu estado de alerta atento a detalhes que não veria se não estivesse escrevendo este texto.

Deitado no sofá de couro branco, com a cabeça apoiada sobre o braço direito, Paulo Coelho mastiga biscoitos – “Estou morrendo de fome, o jantar já vai ser servido” – e discorre calmamente, entre um gole e outro da taça de vinho, sobre como organiza a vida. Somando tudo, são cerca de três meses por ano em Paris, um mês em Tarbes, uma cidadezinha de 40 mil habitantes nos Pirineus franceses, três meses no Rio de Janeiro. “E o resto do ano passo viajando a lugares e eventos que me interessam.” Há chances de ele estar no Rio, cidade onde vota, na época das eleições para prefeito. Parece lógico que ele seja um eleitor de Fernando Gabeira. “Não sou.” Por quê? “Porque, enfim, não voto Gabeira, apesar de todo o meu respeito. Acho uma das poucas pessoas íntegras... não, retiro ‘uma das poucas pessoas’, tem muita gente íntegra porque, ao contrário do que se quer vender, existem muitas pessoas íntegras na política. Não existe só sujeira em lugar nenhum, nem só limpeza em lugar nenhum. Não existe o absoluto.” Difícil entender como um cara como Paulo Coelho escolhe outro candidato que não aquele que apresenta mais afinidades de caminhada pessoal, ícone de sua geração e das posteriores. “Raul Seixas diz: ‘Se você quer entrar num buraco de rato, de rato você tem que transar’.” Escaldado no terreno das escolhas políticas depois de receber milhares de e-mails de leitores protestando contra sua participação na campanha de Lula para o segundo mandato, talvez ele esteja se esquivando.

Mas é mais difícil ainda um escritor idólatra ligado ao catolicismo – “Que professo com restrições” –, que fez fama marketeando a imagem de um autodeclarado iniciado na magia, e viu crescer nas últimas duas décadas, desde o lançamento de O Alquimista, o poder econômico, midiático, político e religioso das igrejas evangélicas, votar abertamente em um pastor.

“Os evangélicos, por melhores intenções que tenham, pertencem ao ramo do fundamentalismo, em que só existe uma salvação. E nesse ponto eles dividem a mesa com Bin Laden, para quem só existe uma salvação, o Islã. Esse tipo de radicalismo é extremamente pernicioso. Porque aí não é uma questão de ter o discernimento para aplicar a lei de Jesus – ‘Amar o próximo como a ti mesmo’ – mas a lei do Talmude – ‘Não fazer ao próximo o que você não quer que te façam’.”

A respiração é um pouco ofegante, de fumante de longa data – “Faço um check-up uma vez por ano, mas sou da seguinte tese: ‘Se abrir o capô vai ter problema”. Facilmente caricaturável por causa da voz única, dos traços árabes e do jeito malemolente, ele lembra mais um personagem do mestre Chico Anysio que o cara que vende milhões de livros para povos tão díspares quanto norte-americanos e iranianos. É o escritor mais conhecido do mundo. “Os livros mais vendidos são os do Harry Potter”, admite. “Mas nem todo mundo associa o nome da J.K. Rowlling à marca Harry Potter”, completa. Os leitores da saga do jovem bruxo de Hogwarts não esperavam o novo livro de J.K. Rowlling, mas o novo livro de Harry Potter; os leitores do brasileiro esperam pelo próximo lançamento de Paulo Coelho. “Possivelmente, sou o escritor mais popular do mundo.” No caso, ele é a marca, o autor e a obra fundidos em um só. O início, o fim e o meio. Pelo ponto de vista da popularidade, se ele fosse um músico do mesmo nível internacional que atingiu como escritor, seria um Beatle. Ou Michael Jackson, ou Madonna. “E se eu fosse um refrigerante, seria a Coca-Cola”, define.

O Vencedor Está Só pretende ser, segundo o autor, e no vácuo da tradição dos grandes escritores, “uma fotografia de sua época”. “É um livro sobre a moda”, diz, conduzido por uma história de amor e morte, de verdades e aparências, de sonho e frustração, de sucesso material e vazio pessoal, com características de crítica de costumes e romance policial. Apresenta um assassino serial que, como quase todo serial killer literário ou cinematográfico, possui um inusitado modus operandi, que aplica hábil e aleatoriamente em pessoas da fauna de Cannes na esperança de resgatar um amor perdido. O autor dedica linhas e mais linhas a descortinar não a magia, nem o sobrenatural ou a espiritualidade dos personagens – “Todos baseados em pessoas reais” –, mas o lado obscuro das indústrias da moda e do cinema, do mundo das modelos, dos atores e atrizes, dos contratos milionários fechados durante o festival, e os bastidores da notória Le Marché, a entrada para as sessões e eventos especiais pelas escadarias cobertas com o tapete vermelho. Valendo-se do conceito de superclasse, recentemente definido pelo acadêmico norte-americano David Rothkopf, o escritor faz um instantâneo da onipresença do pequeno grupo de pessoas mais poderosas do mundo que freqüentam o festival sem se expor demasiadamente, sem aparecer nos lobbies de hotel – “As festas de Cannes são muito parecidas com as festas que eu vou onde você encontra muito a superclasse”. A certa altura, o assassino, um milionário russo (também uma espécie de fanático religioso), descreve Cannes, que reúne uma vez ao ano o núcleo de um seleto grupo formado pelas figuras mais influentes, principalmente da indústria da comunicação, como “a suprema manifestação das aberrações do presente”, “a nova Babilônia”, “a Sodoma dos tempos modernos”. Não é o que pensa o autor. “Como sou um cara caseiro e viajo muito, aproveito bem as oportunidades que tenho de ficar em casa. Mas uma vez por ano digo: ‘Vou a festas!’, e vou a Cannes. É muito louco, cara. Eu adoro!”


O livro praticamente não fala sobre drogas, o que, imagina-se, deve ser artigo abundante em um evento desse tipo. “A droga mais visível em Cannes chama-se ego. Todos têm e usam em uma proporção desmesurada.”

Em breve, Paulo Coelho poderá subir os degraus de Cannes pisando no tapete vermelho para assistir a uma adaptação de Verônika Decide Morrer, seu livro de 1998. “Vi até agora apenas algumas cenas de bastidores”, conta. O Alquimista também deve virar filme, mas o projeto não está adiantado como o de Verônika. Mas o autor diz não querer se comprometer com Hollywood. “Ver eu vou querer ver, mas me comprometer não”, diz o brasileiro. “Fui convidado para tentar escrever o roteiro, mas sei que, na verdade, é uma tentativa de me cooptar para que eu não possa depois abrir a minha boca e dizer: ‘Detestei’.” Ao escrever sobre o universo de um dos personagens de O Vencedor Está Só, um distribuidor de cinema, o autor descreve o que poderia ser sua experiência pessoal hollywoodiana: “O produtor diz que está diante de ‘uma obra de arte, extremamente cinematográfica’, que o escritor é um ‘gênio que merece ser reconhecido’...‘o filme será fiel ao livro’. O que é uma completa e absoluta mentira...” Ele acredita que os livros só têm a ganhar quando transmutados do papel para a película, principalmente se as adaptações não forem literais. “Todas as adaptações literais de livros para o cinema foram péssimas, com uma exceção, que é a de O Poderoso Chefão. Nas que seguiram o livro, ele é sempre melhor que o filme.”

Escrito em um mês – “Como todos os meus livros” –, O Vencedor Está Só não é um exemplo do quão brilhante pode ser um escritor, ou do quão bela, ousada e inovadora pode ser a Língua Portuguesa escrita quando manejada pela pena de um mestre. A maestria de Paulo Coelho não está na forma, mas no conteúdo. Não é um livro de auto-ajuda, mas sim mais uma das obras do carioca que levarão os leitores a se identificar com os seres humanos ali descritos, extrair ensinamentos e questionar a existência que levam. E o que é menos ou mais louvável na literatura: forma sem conteúdo ou conteúdo sem forma? O certo é que ignorar a presença de Paulo Coelho no panteão dos grandes escritores brasileiros e mundiais é um equívoco crasso, ainda que se ele fosse mesmo um Beatle, seria Ringo e não um dos que assinariam para a posteridade um Revolver ou um Sgt. Pepper’s. Na verdade, caso fosse um músico ele seria mesmo um Stone e, hoje, pelo fino trato, a distância das drogas e a vida na aristocracia mundial, estaria mais para Jagger que para o mestre Keith Richards.

Se em 11 Minutos (2003), o segundo livro mais vendido de Paulo Coelho – o primeiro é O Alquimista –, o escritor se perguntava interiormente: “É verdade que as pessoas são tão ligadas ao sexo?”, em O Vencedor Está Só, a questão é: “Por que as pessoas gastam fortunas em coisas que, no fundo, não fazem tanta diferença?”. “Esse tipo de pergunta sempre me intrigou. Uma Ferrari, por exemplo, é um carro extremamente desconfortável, mas as pessoas gastam fortunas com esses carros, há um tipo de culto pela Ferrari.” Depois de freqüentar os eventos de moda mais famosos do mundo em cidades como Paris, Nova York e Milão, conhecer criadores, modelos e reencontrar boa parte dessas pessoas em Cannes, a idéia central do novo livro foi nascendo. “De uma maneira muito inconsciente”, ele conta. “Aí, uma vez a cada dois anos, com tudo pesquisado, a história pronta na cabeça, eu digo: ‘Bom, vou escrever meu novo livro’. E o livro já está escrito, tudo o que eu tenho a fazer é sentar e digitar.”

Já que se passa em um dia em Cannes, o livro é dividido por horários que funcionam como capítulos, um formato bastante desgastado principalmente depois da série de televisão 24 Horas. Somados, cada um dos horários resulta no número 11. “É o número de letras de meu nome”, diz o autor. “É simbolicamente A Força.” Que Força? O tipo de poder controlado pela Ordem dos Cavaleiros Jedi? “Chama-se ‘A Força’”, e cita o 11º Arcano Maior do Tarot: “‘A força de uma mulher que abre a boca de um leão’; ‘A Força da doçura que ataca a violência’.” Estabelece-se algum tipo de conexão quando se repete o número 11 nos capítulos de um livro? “O que você quer dizer com ‘conexão’?”. Conexão com algum tipo de... Força. “Não, isso é apenas uma coisa extremamente simbólica para mim. Veronika Decide Morrer, por exemplo, começa com: ‘No dia 11 de novembro...’. 11 do 11.”

Um dos números de poder da numerologia, existem correntes ocultistas que têm no 11 a manifestação de mudanças profundas na era em que vivemos; outras crêem que o uso simbólico e a aparição do algarismo em eventos-chave da humanidade, como o 11 de Setembro, é uma espécie de assinatura ocultista reconhecida pelos iniciados. Paulo Coelho dá uma gargalhada ao ouvir tais teorias. “Daí já é piração demais!” Pergunto se o 11 tem algo a ver com magia negra. “Claro que não!”, responde agora mais sério. Digo que gostaria de falar mais sobre o assunto. “Ah, por favor, isso seria voltar a um passado tão remoto. Não quero falar mais sobre isso. Está tudo lá na minha biografia.” De fato. Fernando Morais retrata os tempos em que o jovem hippie se envolveu com as doutrinas do polêmico ocultista inglês auto-intitulado “A Besta” e seguidor do chamado Caminho da Mão Esquerda, Aleister Crowley, cuja relação com a indústria do rock é tão profunda que pode ser medida desde a aparição do bruxo careca entre as personalidades na capa de Sgt. Pepper’s ao recente filme sobre ele co-dirigido pelo vocalista do Iron Maiden, Bruce Dickinson. É do Livro da Lei de Thelema, uma das principais obras escritas de Crowley, uma das frases mais poderosas do rock brasileiro: “Faze o que tu queres, pois é tudo da lei”, de Sociedade Alternativa, hino que Paulo Coelho compôs com Raul e venceu o tempo. Morais relata ainda, pegando emprestada uma descrição do livro As Valkyrias (1992), do próprio biografado, um encontro de Paulo Coelho com o demônio. “O” demônio, a Estrela da Manhã, ou, digamos, um representante?, questiono. “Não sei, mas eram forças negativas que estavam agindo ali.”


O contraponto político de Cannes também acontece na Europa uma vez ao ano, mas longe do sol e das praias do sul da França. A cada janeiro, sob temperaturas de até - 20 graus, o Fórum Econômico Mundial consegue levar para a cidade suíça de Davos, empresários, políticos, personalidades culturais, e todos os tipos que representam o poder. Entre eles está o que David Rothkopf chama de superclass. Em Superelite – A Elite do poder global e o mundo que ela está criando (Ediouro), ele define esse restrito grupo de seres humanos como “[...] pouco mais de seis mil indivíduos cuja influência pode ser sentida globalmente, sem limites de fronteiras territoriais, políticas ou econômicas [...]”, o que lhes concede “[...]um grande papel na definição do sentido da nossa época, determinando quais pontos de vista serão aceitos e quais não, e quais serão nossas prioridades”. E continua: “A realidade é que a riqueza somada das cerca de mil pessoas mais ricas do mundo [...] é quase o dobro daquilo que têm os 2,5 bilhões mais pobres”. Observar de perto a superelite “revela, em um microcosmo, muito sobre o mundo”.

Freqüentador do Fórum há dez anos, membro-diretor da Fundação Schwab, de Klaus Schwab, criador do evento, Paulo Coelho conhece aquele ambiente tão bem quanto Cannes. “A Cannes vou para me divertir, encontrar amigos, vai todo mundo; à Davos vou para aprender muito. A superclasse está em Cannes e também em Davos.”

No começo do livro de Rothkopf, o escritor é entrevistado e perfilado, ajudando o autor a entender a visão diferenciada de um hippie, um “alegorista” sob “aquele grupo que define a estrutura de poder emergente de nossa época”. Isso faz de Paulo Coelho, segundo Rothkopf, um integrante da superclasse. Um homem cujo poder influencia toda uma época. Um “Homem de Davos”, conceito criado pelo cientista político Samuel Huntington – “o cidadão global, o líder para o qual as fronteiras eram cada vez mais irrelevantes” – que para Rothkopf descreve a nova classe governante de nossa época.

No apartamento em Paris, ele se levanta do sofá e pega na estante praticamente vazia um exemplar da edição norte-americana de Superelite. “Quando você me pergunta se sou da superclasse, eu digo: ‘Estou no livro sobre a superclasse, sei o que é a superclasse, convivo com a superclasse’. Agora, se você me pergunta se eu sou da superclasse, a resposta é um ponto de interrogação.” Pergunto se ele se considera um desses seis mil donos do mundo. “Considero que meu trabalho tem uma influência única, uma penetração universal. Pelos critérios que o autor define no livro, sim, me consideraria, mas não quer dizer que esses sejam critérios absolutos. É um conceito muito vago, muito difícil. O que eu não quero é que você me ponha arrogantemente falando que eu sou da superclasse. Isso não é uma coisa que você decide, entende? ‘Você é um bom escritor?’ Porra, pergunte aos meus leitores! ‘A crítica te critica?’ Porra, pergunte aos críticos!”

Celebridade internacional, o escritor não poderia deixar de sofrer tentativas constantes de cooptação pela indústria das causas, que vende, como a igreja na Idade Média, um lugar no paraíso – ao menos, no paraíso de uma mente que repousa tranqüila. “Já fui a dois desses banquetes de gala para nunca mais ir. Todos os dias recebo convites para ser o anfitrião do banquete contra as minas terrestres de não sei onde, contra a fome de não sei onde. Eles servem para que as pessoas ricas e famosas se sintam menos culpadas. E, obviamente, são maneiras de ganhar dinheiro.”

Para quem vê de longe a fama é muito fácil desconfiar de quem a usa para anunciar sua bondade para com a humanidade e o planeta. Ao que parece, para quem a vive bem de perto também. “São tantas as celebridades envolvidas em causas que às vezes me pergunto se elas estão servindo às causas ou se as causas é que estão servindo a elas. Um exemplo é o Al Gore, que teve uma excelente promoção e ganhou um prêmio Nobel. É uma arrogância achar que pode salvar o planeta.”

Pergunto se ele faz algo para diminuir o aquecimento global, ele ri e dá sua versão do fenômeno ambiental. “Aceitei dar uma palestra para o Credit Swiss sobre o aquecimento global. Poderia ganhar uma grana com o circuito das palestras, mas detesto dar palestra. Só que uma vez por ano faço um teste para ver se ainda pagam o meu preço, que hoje é 70 mil euros – o Clinton vale 100 mil euros. No final descobri que aquele evento era para vender algum tipo de bônus, de crédito em relação ao aquecimento global. Você percebe como a coisa é extremamente manipulada?”

Os inúmeros exemplos de bonzinhos entre os semi-deuses do pop escorrem pelo ralo das boas intenções e já despertam a fina e afiada ironia dos observadores mais atentos. Bono e Madonna são a ponta de um iceberg dourado cravejado de nomes mais ou menos expressivos, que querem salvar o mundo e ao mesmo tempo suas imagens públicas, deixando-as reluzentes junto a fãs e anunciantes. “Não acredito que a celebridade faça alguma diferença, o que pode fazer uma grande diferença é a imensa pressão que já existe do consumidor, do povo. Conheço o Bono e acho que ele deve estar em uma grande depressão porque o resultado do ativismo dele foi simplesmente zero.” Christina interrompe o marido para anunciar que o jantar está servido. Ele pede para fumar só mais um cigarro antes de comer.


À mesa, na companhia de Christina e Paula, ele retoma o assunto com o rosto iluminado pelas velas de dois candelabros. “As pessoas que mais me fascinam hoje são os rebeldes sem causa. Se eu tiver de escolher entre o Bono e a Amy Winehouse, quem está fazendo mais e melhor pela humanidade neste momento é a Amy Winehouse.”

A proto diva de 24 anos definha a olho nu e a mesma imprensa que a elevou ao status merecido de a maior revelação da voz feminina dos últimos tempos a acompanha sedenta em cada milímetro a mais que ela afunda no fundo poço que parece ter cavado para si mesma com a ajuda de seus demônios pessoais. Ela está se matando. “Isso é o que meus pais diziam. Você virou moralista, meu caro!?”, pergunta o ex-maluco beleza, aos 17 anos internado pelos pais em um manicômio pela primeira vez por, de acordo com os dados do prontuário médico que ilustra sua biografia, ser “agressivo, irritável [...] mostrar-se politicamente contrário aos pais [...] A mãe pensa que o paciente enfrenta problemas de ordem sexual, pois tem fimose e não parece ter amadurecido suficientemente”. “Ela vai sobreviver e o que ela está passando vai ser um exemplo para muita gente. Porque o exemplo inverso, sem querer entrar em valores, que é a menina bem comportada que de repente pira, como a Britney Spears, não é bom. O bom exemplo é o cara que é completamente maluco, vai ao fundo do poço, volta e diz: ‘Ó, eu experimentei e vivi de tudo e agora tô voltando’.”

Paulo Coelho sabe do que fala. “Ela está fazendo uma necessária descida ao inferno e quando voltar ao real terá muita sabedoria. Eu já desci aos infernos. As pessoas se aterrorizam com o que vêem, mas a vida é sempre um risco. Se você escapa passa a ter muito mais convicção no que faz. Já vi muitos escritores destruídos pela falta de convicção.”

Como faz durante toda a entrevista, ele ameaça voltar atrás na conversa para puxar o rabicho de um assunto mal finalizado, mal discutido ou que em seu julgamento não tenha deixado claras o suficiente suas opiniões. Mas é para defender Madonna que ele aperta o botão do rewind em nossa conversa e faz uma ressalva. “Ela é uma pessoa profundamente honesta. Posso falar porque a conheço. Madonna não é mais uma dessas que foi simplesmente em busca de uma causa, aliás ela é a bad girl. Mas justamente por ser quem é ela adota uma criança e a imprenssa cai de pau em cima. É injusto.” Na época do filme Evita, depois de ler O Alquimista, a diva pop indicou o livro, elogiando o escritor aos quatro ventos da mídia sempre que teve oportunidade. Ele agora, julgo, retribui a gentileza. “Da vez mais recente, nos encontramos em um jantar em Cannes. Não lembro exatamente sobre o que conversamos, nesses eventos se conversa sobre qualquer coisa. Sei que ela falou sobre a reação da imprensa quando ela adotou o garoto. Ela estava realmente ferida. Tinha um tipo muito interessante que eu não conhecia na mesa chamado Puffy Daddy.”

Ao badalar de um sino de mão, após o jantar são servidos, como manda o estilo francês, queijos variados. Ele os come com goiabada cascão. Espera que Penha, a cozinheira, há dois meses em Paris, retire os pratos da mesa e pede que ela pegue seu cigarro que ficou no sofá. Christina diz que conhece a moça há 20 anos e que ela é massagista. “Ela fez shiatsu em mim no dia da minha eleição para a ABL”, o imortal lembra. “Ela faz no Eike Batista, fazia na Luma, na Marília Pêra”, conta a artista plástica.

Quando a conversa fica desfocada e flutua pela sala de jantar embalada por vinho e champanhe, ele, olhando para o cronômetro do gravador digital, lembra que o tempo não pára: “Continuemos porque nós temos um cronômetro girando aqui. Aproveite, porque o vinho solta a língua”.

Valendo-me do item “nunca ser direto nas perguntas, mesmo que a outra pessoa entenda o que se está querendo saber” de uma chamada lista da normalidade que um personagem de O Vencedor Está Só faz para reedescobrir o que é ser normal – e na verdade mostra o quão anormal é o mundo em que vive, ele e as pessoas que o cercam – sugiro que falemos de amebas. O autor comenta à mesa, sentado de frente para a esposa, a conclusão científica de um estudo publicado na revista Nature: “Só as amebas são monogâmicas”. Citado no livro, “David Barash, um professor de psicologia da Universidade de Washington, em Seattle”, diz que “[...] A única espécie da natureza que não comete adultério é a ameba [...] os dois parceiros se encontram ainda jovens, e seus corpos se fundem em um único organismo”.


“Mas a pergunta é, na verdade, se eu sou ou não monogâmico. A resposta é que sou monogâmico por opção. Somos casados há 28, 29 anos e dizer que fui fiel durante esse tempo seria uma mentira. Mas a tendência do ser humano é se fidelizar à medida que o tempo vai passando. Mas muita gente se separa na primeira traição e isso é uma bobagem.Tenho uma relação sólida porque tive a bênção de ser casado com uma mulher que não pensava de uma maneira distinta da minha. Uma mulher que soube entender essas crises pelas quais passa um casamento. Não sou nenhum santo, mas isso é o máximo que eu elaborarei nesta resposta.” O que pensará uma esposa iraniana, um jovem noivo armênio, um senhor adúltero chinês, uma adolescente eslovena que acaba de descobrir o sexo ou a senhora brasileira viúva que foi fiel a vida toda, todos leitores de Paulo Coelho, quando lerem isso? Como reverberará no mundo, se é que vai reverberar, uma discussão tão básica e fundamental como a fidelidade em um relacionamento? Será que alguém entre os milhões de leitores coelhistas será tocado por aquelas linhas publicadas? “Por isso me surpreende às vezes quando classificam meus livros como auto-ajuda. Normalmente eles são um grande problema para o leitor porque ele irá se confrontar com questões com as quais possivelmente não se confronta normalmente.”

Minha preocupação em relação à nossa conversa ontem foi com o conceito da superclasse. Porque eu dizendo que sou da superclasse fica meio ridículo, não é?”, diz Paulo Coelho no dia seguinte ao incêndio, na sala de seu apartamento parisiense. Depois de feitas as fotos de capa, o fotógrafo francês se despede. Ele então me inicia na bela e castigada voz do cantor de flamenco Camarón de La Isla, morto em 1992 (louvado seja todo mundo que um dia na vida te apresentou a um bom som). “É o Raul Seixas do flamenco.” Copia em um pen drive a cinebiografia (que baixou no Torrent) do espanhol ex-parceiro do violonista Paco de Lucia e me entrega. As pastas de seu computador, com um enorme monitor de 50” no qual as letras ficam do tamanho de moedas de R$ 1, têm nomes de santos católicos – São José, Santa Teresa, São Miguel. Ele avisa: “Tenho que rezar às 6h, daqui a dois minutos, mas depois retomamos.” Fernando Morais escreve que ele é sovina – “Fernando acha que eu deveria gastar mais. Mas gastar em que, porra? Eu já faço tudo o que eu quero”. Seja como for, ele economiza alguns minutos fazendo o que chama de versão compacta de uma oração a Virgem Maria, que, impreterivelmente, repete três vezes ao dia, quando acorda, às 6 da tarde e antes de dormir. “O tempo é mais importante que o espaço.”

Na calçada, depois de acompanhá-lo com a sobrinha até um beco ali por perto para fazer algumas fotos que vão para o arquivo pessoal do escritor, nos despedimos, não sem antes ele dizer: “Esqueci de te fazer um pergunta: você acredita em Deus?”.