Marisa Monte

Na busca pela verdadeira alma do samba, ela transforma nosso passado, e nosso futuro musical, em sétima arte

Ademir Correa Publicado em 07/08/2008, às 18h23 - Atualizado em 18/08/2008, às 12h12

"O samba tem vários sentidos, não é só um estilo que transforma tristezas em alegrias"

Há dez anos, Marisa Monte mergulhou de vez no universo do samba - ritmo que já era seu conhecido de outras épocas - para resgatar histórias perdidas. Durante essa investigação musical, a cantora/pesquisadora produziu alguns álbuns que flertam com esse ritmo: o seu, Universo ao Meu Redor (2006), o da Velha Guarda da Portela, Tudo Azul (2000), e a estréia solo de Argemiro Patrocínio (2002).

Uma década de memórias depois, ela reorganiza suas descobertas - fitas cassete de clássicos gravados informalmente, pequenos bilhetes com letras escritas "do jeito que deu" e a lembrança de canções imortalizadas em mesas de bar e hoje presentes apenas na tradição oral - e traz um baú dessas cenas cariocas no filme O Mistério do Samba.

Nossa cantora maior (atualmente grávida de sua filha) mostra sua reverência àqueles que carregam a genialidade e o sofrimento de viver da própria inspiração...

Muito se fala sobre o samba ter o poder de transformar tristeza em alegria. Concorda com essa definição?

Não rotularia dessa maneira. Acho que o samba é uma forma de as pessoas expressarem seus sentimentos e perpetuarem seus valores. Tem vários sentidos, algumas músicas exaltam temas como a natureza, a criação, o amor, a solidão e outras condições humanas comuns a todos. Não é só um estilo que transforma tristezas em alegrias. Mas realmente quando estão todos juntos, cantando, mesmo quando é uma música muito triste, eles conseguem fazer daquela união um momento de felicidade.

E você já descobriu o verdadeiro mistério do samba?

Não, porque são muitos. Neste filme, a gente [dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda e com direção musical de Marisa Monte] queria mostrar a pureza da criação, o que leva pessoas com uma vida tão difícil, tão sofrida, a produzir coisas tão belas. Eles não eram profissionais de música, faziam outros trabalhos, mas se mantinham ativos criativamente compondo clássicos maravilhosos que mostram a alma do Brasil. Esse é o mistério que a gente não procura desvendar, mas propor como reflexão. Não trata de Carnaval, trata de ser humano. E o samba é a mais forte expressão musical carioca, ele traduz muito da identidade da cidade.

Por isso é tão importante "invadir" a vida dos integrantes da Velha Guarda da Portela em Oswaldo Cruz (Zona Norte do Rio)?

São eles que fazem esse trabalho ser tão bonito. Para mim, é um privilégio conviver e aprender com cada um... É uma pureza muito refrescante. O Argemiro [Patrocínio], por exemplo, um grande artista... É lindo vê-lo falando da vida com uma sabedoria, uma propriedade. Assisti ao filme pela primeira vez no cinema e chorei muito nessa cena.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 23 da Rolling Stone Brasil, agosto/2008