Campo dos Sonhos

Bem-vindo a Skatopia: 35 hectares de anarquia nos Estados Unidos

Por Mark Binelli Publicado em 23/09/2008, às 10h57 - Atualizado em 20/02/2013, às 15h05

Brewce Martin, o criador deste campo dos sonhos, e sua amorada, Amber Cavender, em meio ao caos da Bowl Bash

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A estrada que leva a Skatopia mal pode ser chamada de pista dupla e, na maior parte do tempo, não tem sinalização. Ela faz curvas por um pasto de ovelhas, uma igrejinha branca de madeira e uma placa amarela que mostra uma carroça de amishes (grupo religioso cristão) em vez de um cervo. Outra placa escrita à mão no alto de uma estradinha íngreme de terra - "Skatopia - Entre por sua própria conta e risco!!!" - informa aos peregrinos que chegaram a seu destino.

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Skatopia tem 35 hectares e fica em Rutland (Ohio), nas Montanhas Apalaches. Nessa tarde específica, Brewce Martin, o fundador volúvel e o governante alegremente autocrático do local, conduz uma visita guiada. Ele é daqueles fanáticos por skate desde criança; agora está com 42 anos.

Criado nas redondezas, Martin sempre sonhou com um parque perfeito para a prática do skate, adorava o desafio de criar rampas e bowls (pistas em formato de piscina) cada vez mais complicados e passou anos trabalhando em obras em parques de skate por todos os Estados Unidos. Mas, assim como acontece com todos os outros movimentos utópicos, ele também tinha profunda sustentação filosófica para seu sonho. "Existia um lugar chamado Skatopia nos anos 70", lembra. "A gente pagava para entrar, vestia proteção completa e não podia beber. Não tinha nenhuma utopia." A versão de Martin para Skatopia tem a pretensão de consertar tudo isso. Não há taxa de entrada (geralmente pede-se aos skatistas que doem uma hora de trabalho), não há regras de segurança e, para falar a verdade, as pessoas lá se comportam de maneira um tanto "imprópria" de propósito - por exemplo, há incentivo para que se coloque fogo em coisas (mas, como Brandon, o filho de 22 anos de Martin, observa: "Quando a gente queima coisas, temos permissão para isso. Não vamos atear fogo no carro de ninguém. Isso já aconteceu, mas não fomos nós".) Pode beber? Claro que sim. "Beber e dirigir é permitido aqui", Martin explica ao abrir uma cerveja Pabst e se coloca atrás da direção de um dos vários veículos aparentemente inoperantes espalhados por seu terreno. Esse carro é, ou era, um Jeep Grand Wagoneer - todas as janelas estão estilhaçadas, uma porta de trás está toda amassada, a parte de dentro e a de fora estão completamente cobertas de lama e a grade da frente se foi, deixando o radiador totalmente à vista.

Mas o motor do Jeep pega e logo Martin dispara por uma estrada de terra. Passamos a toda pelo Bowl Lula, que tem esse nome em homenagem ao cachorro de Martin que foi enterrado embaixo do concreto; entramos na floresta e Martin, debruçado por cima da direção, desvia das árvores como se estivesse jogando um videogame e não arriscando nossas vidas de verdade - apesar de ele detestar videogames, menos, talvez, Tony Hawk's Underground 2, que tem um nível inteiro ambientado em Skatopia. Finalmente, saímos em uma trilha enlameada. Martin faz a volta em torno de um pedaço de metal. "Aqui está o escapamento que estava procurando", conta. Subimos mais uma lombada e, lá do alto, avistamos as lindas montanhas verdejantes dos Apalaches. Martin aponta para uma pedra coberta de limo com a cabeça. "Quando quero comer alguém, vou ali", mostra.

O corpo de Martin é compacto e musculoso. De família escocesa, seu cabelo é meio ruivo e está cortado curto e todo desgrenhado. Hoje, usa uma camisa suja da Volcom por cima de uma camiseta branca, calça cinza de pano grosso, botas enlameadas e um colarzinho com um dente de tubarão. Na boca dele falta um dente e as suíças terminam abruptamente na altura do bigode.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 24 da Rolling Stone Brasil, setembro/2008