Com o Diabo na Carne

Eterno símbolo sexual de Hollywood, Angelina Jolie despontou no final dos anos 90, quando recebeu a Rolling Stone em sua casa para falar de amores, tatuagens e facas. Na época, essa diva misteriosa já encantava os homens, as mulheres e as telas

Mim Udovitch Publicado em 22/09/2008, às 16h27 - Atualizado em 09/05/2014, às 20h22

Capa da edição 819 da RS EUA (agosto de 1999)

Angelina Jolie está na sala de seu apartamento nova-iorquino, fazendo um tour obrigatório por suas tatuagens. "Ok," diz, levantando o braço esquerdo. "Este é meu dragão, aqui em cima." Mostra a parte interna do pulso: "É um H - há duas pessoas em minha vida que têm esta letra, que me são muito próximas e que eu amo e estimo. Esta é a mais recente. Fiz com minha mãe, na verdade, ela me acompanhou. É uma citação do Tennessee Williams [dramaturgo]: A prayer for the wild at heart, kept in cages [Uma súplica pelos selvagens de coração, mantidos em jaulas]". Ela observa seu antebraço esquerdo e sorri em estado de graça. "Minha cruz", continua, puxando a cintura de suas calças para baixo e revelando esbeltos quadris, "e isso", aponta para um provérbio em latim que atravessa a curva do seu estômago bem em cima da marca do biquíni, "significa 'O que me alimenta também me destrói'. E esta aqui", - vira de costas, levantando a ponta de sua camiseta preta para mostrar um pequeno retângulo, "é a única colorida. Vou cobri-la de preto. É uma janela".

Uma janela para seu dorso?

"Não," responde, "é porque sempre me pego olhando pelas janelas, querendo estar em um outro lugar". Sorri novamente, um sorriso lunático - misto de êxtase religioso e careta. É importante lembrar que essa fixação por jaulas e janelas está relacionada a algo que ela mencionara na primeira vez que nos encontramos, alguns anos atrás, quando falou sobre seu interesse a respeito das prisões em geral e das rebeliões de Attica (presídio no estado de Nova York) particularmente. De todos os símbolos sexuais, Angie é a que tem mais probabilidade de carregar na bolsa um artigo do New York Times sobre a condição das penitenciárias. "Talvez", comenta sobre a conexão, sentando-se mais confortavelmente em um de seus dois sofás de couro. "Minha mãe perguntou se a súplica pelos corações selvagens era por mim ou algo que fora muito doloroso em minha vida. Mas é para todo mundo. Acho que não conheço uma só pessoa que possa ser exatamente quem é a cada segundo do dia, que se sinta completamente livre. Então é uma oração para todos encontrarem sua felicidade e se libertarem. Tennessee Williams também escreveu que um pássaro ou um animal sente-se confortável na jaula em que é criado - estar lá representa tanto segurança quanto confinamento. Qualquer coisa que nos deixa confortável é uma jaula ao nosso redor."

Ela acende um cigarro e observa o ambiente. Está tão pálida quanto uma noite em claro a deixa, com suas roupas pretas sob o sofá também preto, na luz difusa de um dia cinza e fresco filtrado pelas cortinas de veludo. Nos últimos meses, Angelina tem trabalhado em Los Angeles e embora sua sala de estar esteja cheia das coisas que uma sala de estar deve sempre estar cheia - mobília, piano, TV, CDs, um busto feminino vestindo um corselete Playtex branco, anos 50 - tudo tem um ar desocupado. Há também uma edição do Código de Lei Penal e Criminal do Estado de Nova York. "Todos sempre imaginam que, por ter tatua-gens, sou uma pessoa má", continua, "ou que há algo muito sombrio a meu respeito, ou que penso demais na morte. Provavelmente sou a pessoa menos mórbida que conheço. Descobri que se penso mais sobre a morte do que algumas pessoas é porque amo mais a vida do que elas". Além das tatuagens, aqui está outra das razões pelas quais as pessoas acham Angelina "dark": há uma plaquinha ao lado da pia de seu banheiro, em que se lê: 'Certas manhãs não vale a pena nem roer as tiras de couro que amarram você à cabeceira da cama'.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 24 da Rolling Stone Brasil, setembro/2008