Jornada Noite Adentro

Movida a cerveja, chá e pão com banana, Amy Winehouse fala de seu marido preso, do próximo álbum e de sua vida atribulada de popstar

Por Claire Hoffman Publicado em 08/09/2008, às 15h48 - Atualizado em 16/09/2008, às 18h23

Corrida pela vida: a estrela sai de casa, no bairro de Camden, e aposta corrida com os curiosos que a esperavam

É uma manhã de domingo, o sol nasce e Amy Winehouse está em casa (em Londres) olhando para o espelho, medindo seu pequeno corpo de alto a baixo, examinando os raquíticos membros tatuados, a selva formada por um penteado emaranhado e o brilho alucinógeno de seus transparentes olhos verdes. Tudo a sua volta é de uma bagunça desastrosa: sacos de batatinha vazios, bolinhas amassadas de papel-alumínio, garrafas de cerveja, caixas de lingerie e velhos cartões de crédito espalhados contam a história de uma longa noite que não termina há semanas, meses talvez. Embora o sábado de Winehouse ainda não tenha acabado, seu domingo começou com tablóides anunciando mais um escândalo de alto calibre. Desta vez são fotografias e cenas - que vazaram através de uma câmera digital perdida - mostrando a cantora em vários estados de degradação, todas tiradas por seu marido, atualmente encarcerado, Blake Fielder-Civil. O que soa terrível não é a cantora cercada de cachimbos de crack (já apareceram muitas dessas fotos este ano), mas o vídeo dela com uma amiga cantando abobadamente uma musiquinha de conotação racista: "Pretos, pakis [paquistaneses], gooks [vietnamitas] e nips [japas]... surdos, tontos, cegos e gays".

A manchete da manhã era "Sexo, Drogas e Resmungos Racistas". Na casa não havia relações-públicas ou empresário, nenhum esquadrão para lidar com a crise na tentativa de livrar da vergonha pública uma das mais bem-sucedidas artistas da década. Esse não é o estilo de Amy Winehouse - no local só há ela e uma amiga, a cantora britânica Remi Nicole, que se debruça sobre o jornal, aborrecida, dizendo que tudo isso precisa parar.

"Tá legal, Remi, já chega", solta Winehouse, seca.

"Mas como alguém soube de Alex e Kristian?", pergunta Nicole, se referindo às supostas escapadas extraconjugais da cantora, noticiadas pela imprensa.

"As pessoas fofocam. É como aquela brincadeira de telefone sem fio", Winehouse comenta chateada.

"Então você precisa se livrar desses cuzões", retruca a outra, depois faz uma pausa. "Qual o sentido de tirar fotos suas com um cachimbo de crack?", pergunta se referindo a Fielder-Civil.

"Não foi assim, querida", Amy explica docemente enquanto procura uma echarpe pelo chão, ainda meio grogue. "Há um monte de coisas que são mais normais para mim do que para você."

"É. Como fumar crack", resmunga Nicole.

"Foi por acaso", continua Winehouse. "Ele estava tirando fotos porque era nossa lua-de-mel e Blake achou que eu estava bonita." Ela encontra uma echarpe vermelha com bolinhas brancas, estilo Minnie Mouse, e, cuidadosamente, a amarra em volta da cabeça, terminando em um alegre laçarote. Então levanta sua camisa regata preta e olha para o próprio peito - a tatuagem do nome do marido cruzando a altura do coração, semi-oculta por um sutiã cinza também de bolinhas. "Será que devia usar meu top espanhol?", indaga sem se dirigir a ninguém específico. Lá embaixo, na calçada, uma multidão de alvoroçados paparazzi se amontoa a poucos centímetros da porta, esperando uma aparição.

A jovem cantora passou a última hora se arrumando para encontrar os fotógrafos, desenhando as grossas sombras à la Cleópatra em volta dos olhos por cima de manchas de maquiagem gasta, as longas unhas pintadas mascarando uma base de resina preta, o gloss rosa dos lábios brilhando, a base cobrindo as pequenas marcas que tomam seu rosto. "O que você vai dizer, Amy?", pergunto do sofá onde me larguei nas últimas horas fazendo anotações. Às 4h da manhã - depois de passar metade da noite do lado de fora da casa dela, na esperança de conseguir uma entrevista -, Winehouse, para minha surpresa, abriu a porta e me convidou para tomar uma cerveja. Desde então, ela tem vagado em estados variados de consciência, desaparecendo a mais ou menos cada meia hora para o quarto no andar de cima e voltando para falar comigo um pouco sobre sua música, um pouco sobre drogas e bastante sobre seu marido preso. Durante todo o tempo, ela se mostra uma anfitriã aberta e atenciosa, fazendo chá e me dando mais papel para que eu possa continuar escrevendo. Agora, se dando conta dos paparazzi do lado de fora, ela mantém os olhos fixos em sua imagem no espelho. "Podia ir lá e dizer... não sei." Sua boca pende frouxa. "Não sei mesmo." Winehouse faz um último retoque e trota corajosamente em direção às escadas. Ela abre a porta e é bombardeada por uma tempestade de flashes e vozes que chamam seu nome. "Amy! Amy! Amy!"

"Acho que devia me desculpar", fala enquanto pisca lentamente, movendo os quadris e mexendo no cabelo de modo inocente. "Não se desculpe, Amy, não se desculpe!", os fotógrafos gritam enquanto disparam uma saraivada de flashes. "Nós a amamos e seus amigos a amam!" "O que vem agora, Amy?" querem saber. "Como vai se chamar seu novo álbum?". Ela sorri, deixando no ar a dúvida se vai ou não responder, e então diz com malícia: "Black Don't Crack".

No ano passado, amy winehouse passou de um dos mais promissores e celebrados talentos da música a uma catástrofe tragicômica de proporções épicas. Ela sempre se definiu, desde o início da carreira, como uma garota simples loucamente apaixonada por seu homem. Sua vida, sua história e talento parecem pouco dignos de seus comentários se comparados à vontade que tem de falar de seu marido, Blake: o quão em forma ele está, como foram feitos um para o outro. "Estamos tão apaixonados, somos um time", avisa, entusiasmada. "Blake, Blake, Blake, Blake, Blake, Blake, Blake." É como se entrasse em um transe.

Filha de um motorista de táxi e uma farmacêutica, Winehouse cresceu em North London, em uma casa onde o jazz de Dinah Washington e Frank Sinatra não parava de tocar. Sam Shaker, dono de um antigo clube no Soho, o Jazz After Dark, se lembra de uma noite há quatro anos, quando Amy pediu para cantar algumas músicas com a banda de blues. "Ela subiu no palco", conta Shaker, "e eu não entendi mais nada. Estava bêbada? Chapada? Não fazia sentido. Mas aí ouvi a voz dela. A banda teve que parar."

Aos 17, Winehouse assinou contrato com a Island e em 2003 lançou seu primeiro álbum, Frank, totalmente dedicado a um ex-namorado. As faixas foram bem, incluindo a maliciosa "Fuck Me Pumps", que fazia uma crítica dura às mulheres aproveitadoras britânicas. O disco foi indicado ao Mercury Music Prize de 2005, mas Winehouse já tinha construído uma reputação não invejável, aparecendo completamente transtornada nos shows. Em 2003 ela conheceu Blake Fielder-Civil em um bar. Bonitão oportunista do Condado de Lincolnshire, ele trabalhava com videoclipes em regime de meio período. Amy se apaixonou perdidamente; em pouco tempo já tinha feito uma tatuagem do nome do namorado em seu peito. O romance era difícil e durante uma das separações, quando Fielder-Civil trocou Winehouse por outra mulher, ela compôs a maior parte de Back to Black, seu segundo disco. Depois que apareceu drogada em público, seus empresários tentaram mandá-la para uma clínica de reabilitação. Notoriamente, a cantora recusou. Quando Back to Black chegou aos Estados Unidos, a inglesa já era celebrada como o futuro da soul music. O disco vendeu 2 milhões de cópias e rendeu cinco Grammys.

Tudo ficou meio obscuro não muito tempo depois de seu casamento com Fielder-Civil em Miami, em maio de 2007. Em novembro, ele foi preso por atacar o dono de um bar no East End e se confessou culpado. Com seu amado longe, Amy Winehouse se afundou na tristeza e cancelou sua turnê no fim de 2007 dizendo: "Não consigo dar tudo de mim no palco sem o meu Blake". Em janeiro de 2008, depois que um vídeo no qual aparecia fumando crack foi divulgado pelo The Sun, Amy foi novamente mandada para uma clínica de reabilitação. Acabou saindo de lá logo em seguida e me conta alegremente que usou drogas o tempo todo durante o curto período de tratamento.

A primavera trouxe notícias e mais notícias estampadas nas páginas dos jornais, mostrando Winehouse bêbada, freqüentemente chapada e seminua. Surgiram rumores de casos extraconjugais, ela foi presa (e mais tarde liberada) por posse de drogas e advertida pela polícia por atacar um homem. Sua vida louca tornou-se hit na internet em maio, quando o vocalista do Babyshambles, Pete Doherty, postou no YouTube alguns vídeos dos dois em uma sala escura brincando com camundongos recém-nascidos, seus dedos sujos de resina preta, usando os animais como fantoches, pedindo para que o marido de Winehouse não se divorciasse dela. Também em maio, Mark Ronson, o DJ e produtor que trabalhou em seus hits, cancelou as gravações do tema do próximo James Bond. "Não sei se Amy já está pronta para voltar a trabalhar", declarou na época. Amy explicou que tudo isso é fruto da distância de seu verdadeiro amor, cujo nome aparece em um alfinete em forma de coração que ela usa no cabelo. "Para ser honesta, ele está longe, estou chateada, sou jovem. Me senti como se não tivesse razão para viver. Tem sido uma fase difícil."

Winehouse raramente está sozinha. Sua casa fica em uma ruazinha pacata, longe da parte agitada do bairro de Camden, mas, a noite toda, músicos, traficantes, massagistas, amigos e fãs entram e saem livremente. Do lado de fora, um bando quase constante de paparazzi - a maioria homens por volta dos 30 anos - esperam, fumam cigarros e contam piadas que em geral têm a cantora como alvo. Amy é o ganha-pão deles. E um ganha-pão divertido. Os fotógrafos brincam chamando-a de "a flautista de Camden", em referência ao seu poder de encantamento. Ela os trata como animais sob seus cuidados - faz chá e, em várias ocasiões, os beija se chegam muito perto. "Ela fuma muito crack, mas há mais nela do que isso", comenta Simon Gross, fotógrafo freelancer. "Só quero que ela melhore. Espero que um dia possa tirar fotos dela andando de bicicleta no parque ou alguma outra coisa saudável."

No tempo em que passei com a cantora, a principal concessão que a vi fazer em prol de sua saúde foi uma câmara vertical de bronzeamento, que ela usa todos os dias. A impressão que dá é que Amy está sempre se esforçando para continuar acordada, lutando para manter os olhos abertos. "Acabei de tomar meu remédio noturno", admite. "Estou tão cansada." Parece uma pessoa solitária tentando eternamente esticar a balada. "As mulheres não tentam me usar", ela me diz meio grogue. Sua confiança é admirável; em dado momento, chega até a discutir que roupa irá usar com duas fãs adolescentes, pelo interfone.

Seus braços estão marcados por cortes e arranhões, e ela os coça furiosamente enquanto vaga escada acima. Me oferece cerveja com gelo e limão para só então se lembrar que não tem cerveja em casa. Ela diz a Nicole que peça para um paparazzi ir comprar e ri quando a amiga volta contando que o fotógrafo pediu dinheiro. Vai flutuando até a cozinha - um mar de pratos sujos - para lavar alguns copos. Confusa, perde a noção do que está fazendo, seus olhos piscam sem parar. "Sinto muito, sou uma bosta como entrevistada", diz polidamente a mim, uma repórter que apareceu do nada, de madrugada. Ela passa dez minutos esfregando cuidadosamente a esponja na boca dos copos para depois secar com uma toalha de banho suja que fica sobre a pia. Então coloca a cerveja, gelo e um pouco de refrigerante velho que estava largado por ali. Pergunto como vai ser o próximo álbum. "Igual ao anterior, mas com um pouco de ska." Já começou a gravar? "O principal não é a gravação, é todo o resto." Comento sobre o desentendimento com Ronson. Ela me conta que o produtor a julgou com base nas reportagens negativas na imprensa. "Nós éramos tão próximos que achei que seria algo do tipo: 'Alô, querido, essa sou eu'." Depois acrescenta que os dois chegaram a entrar em estúdio por alguns dias em Oxford, mas não havia sintonia. "Toquei algumas músicas das quais gostava, só para pegar o clima e ele ficava tipo: 'Amy, vem, vamos trabalhar'. Mark estava bem nervoso..." Ela fica quieta por uns instantes e então conclui empolgada: "Ele foi embora depois de três dias e eu pensei: 'Respire aliviada, estou no campo e sei compor'".

Pergunto como serão as músicas. "Quando estiverem prontas, serão todas atmosféricas e legais como isto..." Ela faz um tipo de dança sessentista espacial estilo bond girl, quebrando o quadril para um lado, remexendo os dedos e abrindo a boca. "Whaaaa..." "Pode ser que saia como estas garotas que eu ando ouvindo, The Shangri-las." Sobre Doherty, ela se explica: "Somos apenas bons amigos. Pedi a Pete que fizesse um EP conceitual e ele ficou com uma cara, como se eu tivesse feito cocô no chão. Ele não faria. Somos só muito próximos".

Amy pega o violão, toca os acordes de "I Will Follow Him", uma música dos anos 60, põe o violão de lado e desaparece escada acima por um tempo. Quando volta, cambaleia até a sala de estar, afasta o amontoado de garrafas e copos e pede a Nicole que lhe faça uma massagem: "Pressione meu rosto, Remi". Senta em frente à amiga, afasta um travesseiro e resolve ir pegar óleo de massagem e toalhas de papel. "Você vai parar quieta ou não?", pergunta Nicole, que parece claramente sóbria. Em questão de minutos, Winehouse já fez Nicole mudar de lugar de novo, desta vez para o sofá, onde ela mergulha a cabeça no colo da amiga enquanto a outra massageia suas pequenas e tortas costas.

"Amo a Amy", explica Nicole.

"É", diz Winehouse, fazendo uma vozinha meiga, "ela me ama".

"Amy é o tipo de pessoa muito honesta", conta Nicole. "Ela é demais. É muito especial." Winehouse resmunga: "Cuidados especiais".

"Ela vai me odiar por dizer isso, mas tem um coração de ouro", acrescenta Nicole.

"Coração de madeira", balbucia Winehouse.

"Ela é muito democrática", emenda Nicole. "Diplomática", corrige a outra.

"Quero me apaixonar como Amy", Nicole continua. "Acho que já me apaixonei antes."

Winehouse levanta a cabeça: "Não, não, se você tivesse se apaixonado, estaria morta por não estar junto com ele".

Amy quer me mostrar as fotos de seu casamento, mas antes precisa comer. "Estou em uma dieta restrita a pizza. É para ganhar peso. Adoro comida, só ando meio estressada." Ela volta da cozinha com um sanduíche melequento de pão branco e banana, no qual ainda coloca um pouco de batata chips. Então passa seu laptop, que está cheio de marcas de dedos e manchas, para Nicole e pede que ela me mostre as fotos dela e do marido se agarrando, fazendo pose para a câmera, como Mickey e Mallory (do filme Assassinos por Natureza, 1994), passando pílulas um para o outro com a língua. Winehouse se levanta para pegar mais comida. Nicole continua o slide show e, de repente, passa rápido pela tela uma foto meio borrada do rosto de Amy, tirada de cima, na qual está com um telefone em uma mão e um pênis gigante na boca. Nicole e eu desviamos o olhar. "Nunca estive em uma clínica de reabilitação. Quero dizer, não do jeito certo", grita Winehouse da cozinha. "Estou apaixonada e fico meio louca às vezes. Mas nunca foi do tipo: 'Amy, dê um jeito na sua vida'."

São 9 da manhã e do lado de fora o último paparazzo vai embora, gritando: "Obrigado, Amy!" "De nada!", ela emenda, para depois dizer baixinho: "Seus gooks [apelido pejorativo para vietnamitas] da porra". E então ri. A cantora gentilmente me acompanha até a porta e chama um táxi, me convidando para um show alguns dias mais tarde em Moscou, onde receberá U$ 2 milhões para cantar para o milionário russo Roman Abramovich (um dia depois, o empresário dela suspendeu o convite). Depois da apresentação, os jornais noticiam que Amy Winehouse estava bêbada e os organizadores tiveram que procurar desesperadamente por uma substituta. Dizem que ela tocou com horas de atraso e sem roupa de baixo. Tracey Miller, representante da cantora, desmente os rumores e insiste que tudo correu bem. Amy tinha vários festivais e concertos agendados para o verão europeu e, antes de cumprir a agenda, desmaiou em casa e foi levada ao hospital pelo pai. De acordo com Miller: "Eles estão lidando com isso um dia de cada vez. De certo modo, é bom que Amy esteja lá". Mas ela logo deixou o hospital e voltou à sua rotina de caos.