O Eterno Culto ao Rush

Com canções épicas, letras absurdas e solos de bateria extravagantes, a maior banda nerd dos anos 70 ainda é idolatrada no século 21

Por Chris Norris Publicado em 08/09/2008, às 17h45 - Atualizado em 09/09/2008, às 16h38

Três senhores virtuosos: Os integrantes do Rush, Neil Peart, Geddy Lee e Alex Lifeson (a partir da esq.) em Austin (Texas), no mês de abril
Dan Winters

Em uma noite quente de abril, a New Orleans arena pulsa com sucessos dos anos 70: "Kashmir", do Led Zeppelin, "Thick as a Brick", do Jethro Tull, "Us and Them", do Pink Floyd - a última (traduzindo, "Nós e Eles"), uma boa escolha para a platéia desta noite. Sob fortes luzes, o ginásio com capacidade para 17 mil pessoas é rapidamente preenchido com fãs do trio canadense Rush - muito parecidos com os dois jovens que encontro a dez fileiras do palco: cabelo arrepiado na testa, óculos, uma tentativa de barbicha. Eles parecem ter saído de alguma foto do clube de RPG tirada em 1982 - uma sugestão que nenhum dos dois acha ofensiva. "Adoramos essas coisas", diz Sam, 21, um estudante de engenharia eletrônica com uma tatuagem do Harry Potter. "Esse é o nosso estilo, tudo que é nerd. Jogamos games e ouvimos Rush, e jogamos games sobre o Rush. Foi o que fizemos ontem à noite, nos preparando para o show." Eles lêem livros de ficção e fantasia? "Claro!", diz Brad, cabelo comprido e uma camiseta do Alice in Chains. O Senhor dos Anéis, Sword of Truth, conta Sam. Eles têm namorada? "Ah, isso é uma merda!" diz Brad. "Esse é um estigma que eu gostaria de mudar", completa Sam. "Mas nada disso poderia nos preocupar agora."

Hoje, todo mundo se autoproclama "nerd" porque joga Sudoku ou consegue operar um iPhone. Mas há 34 anos, quando o baixista/cantor Geddy Lee, o guitarrista Alex Lifeson e o baterista Neil Peart surgiram no cenário musical, a palavra que começa com "n" era malvista. E, se você fosse muito fã do Rush - três canadenses magrelos com uma fixação por extensos épicos de rock e referências a J.R.R. Tolkien -, você tinha encontrado sua turma.

"Eu nunca achei que fôssemos muito cool", conta Lifeson, agora com 54, mas ainda possuindo muito de seu cabelo loiro. Dentro do Rush, Lifeson é conhecido como "Lerxst" - uma piada interna da banda de anos atrás, quando os três membros se entretinham inserindo sílabas e acentos extras nos nomes próprios. "Começamos a lotar shows e eu percebia que todos conheciam as letras, conheciam as viradas da bateria e tinham uma mentalidade tipo: 'Essa é a minha banda. Eu descobri esses caras'", conta Lifeson.

A conexão entre fãs e banda permanece firme. Gosto musical à parte, a conquista do Rush é inegável - 18 discos de estúdio, mais de 35 milhões vendidos, uma legião de fãs leais. Ainda assim, os críticos riem de suas músicas hipertrofiadas, o pedantismo de suas letras é parodiado pelos nomes da moda, a voz de seu cantor é submetida a especulações mal-educadas, incluindo uma música do Pavement que perguntava: "E a voz do Geddy Lee/Como ela fica tão aguda?/Eu me pergunto se ele fala como um cara normal." "É, eu ouvi", fala Lee, como um cara normal. "Achei engraçada."

Esta noite em New Orleans não há risadas. Quando o relógio se aproxima das oito, a fumaça começa a aparecer, a multidão faz barulho, até chegar à loucura quando a arena escurece. O aroma de cannabis aumenta. A tela sobre o palco ganha vida. Os heróis aparecem.

O que segue é difícil descrever. Envolve histeria. Envolve lágrimas. Envolve bateria imaginária com uma energia raramente vista - não só a pantomima padrão chimbal-caixa, mas um vertiginoso recital de tontons, sinos, pratos, tudo em sincronia perfeita com os movimentos de Peart, o deus da bateria e letrista do Rush. À minha direita, uma mulher sozinha levanta os braços a cada oito compassos. Algumas fileiras à frente, um homem capricha nas mímicas, tocando guitarra e baixo ao mesmo tempo. E, pelas próximas três horas, durante músicas sobre religião, marés e árvores, a maior parte da multidão irá cantar junto com cada palavra.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 24 da Rolling Stone Brasil, setembro/2008