Admirável Mundo Novo

Atitudes que mudaram o pop para todo o sempre

Por Cristiane Lisbôa Publicado em 17/10/2008, às 15h59

Entre o que se vive e o que de fato existe, há uma única diferença: a coragem. Coragem é aquilo que faz com que uma pessoa subverta a ordem, desobedeça a regras, rasgue dogmas e aja duas vezes antes de pensar. Como Andy Warhol, que com sopa, surto e 15 minutos mudou a arte contemporânea e o culto à fama; ou Madonna, que ressignificou a presença da mulher no mundo do entretenimento, e ainda Marcel Duchamp, que inverteu os valores dos museus ao expor um mictório para apreciação pública. Todos eles ousaram ver mais do que estava à mostra e descortinaram horizontes até então desconhecidos.

Historicamente, a Rolling Stone faz da audácia e do novo a sua bandeira. Por esse motivo, neste especial de 2 anos de vida da revista em terras brasileiras, nada mais justo do que recordar algumas revoluções da cultura pop - mais precisamente na literatura, no grafite, na televisão, na internet, na música e no cinema - que, ainda hoje, ecoam no que chamamos, às vezes tão descuidadamente, de arte. São mudanças que, de uma forma ou de outra, reinterpretaram a vida e a obra das gerações seguintes.

O Grafite-Arte

Jean-Michel Basquiat e a expressão dos muros

Em 1977, do alto de seus 17 anos, Basquiat e um amigo começaram a grafitar prédios abandonados em Manhattan (Nova York). Assinavam "SAMO" ou "SAMO shit" (same old shit, a mesma merda de sempre). Não, ninguém fazia ainda isso. Ou ao menos não com tanto talento. Em dezembro de 1978, o jornal Village Voice publicou um artigo sobre os escritos. O projeto "SAMO" acabou com o epitáfio "SAMO IS DEAD" (SAMO está morto) escrito nas paredes de construções do SoHo nova-iorquino. Por eles, obviamente. Mas aí, o mainstream e o underground já sabiam quem fazia arte e Basquiat já estava nas graças dos modernos e dos eternos. Debochando descaradamente de tudo, tornou-se um multiculturalista, levando o grafite e as pichações para dentro das galerias, dando preço (alto) ao que outrora era sujeira das cidades.

Literatura Real

Truman Capote cria o romance de não-ficção

Foram seis anos de pesquisa, suborno de guardas, milhares de entrevistas, 8 mil páginas de anotações, recortes, diários dos assassinos, relatos periciais e nenhuma gravação. Capote não pretendia escrever um livro, queria criar um gênero só pra ele. E conseguiu. Com A Sangue Frio, apresentou ao mundo o chamado "romance de não-ficção", ou seja, baseado em fatos reais - desde que a realidade apareça através das palavras do escritor. O autor desta, que é uma das obras mais famosas dos Estados Unidos, não tomava nota na frente dos entrevistados, não relia suas anotações durante a escrita e, ao mesmo tempo, repetia aos críticos que havia feito um livro "imaculadamente factual". E o fez. Pois os fatos existem publicamente a partir do momento em que são apresentados, sempre pela visão de um filtro. Foi-se a imparcialidade da notícia e fica uma nova forma de contar as histórias, com floreios, percepções, opiniões pessoais e requintes mil.

Democracia Virtual

YouTube, o cinema amador da vida real

Dois pseudonerds fizeram um vídeo de um jantar e não conseguiram enviar por e-mail. De mau humor, criaram um programa (em 2005) que permitia dividir vídeos com amigos. Cerca de 20 meses depois, a invenção foi comprada por US$ 1,65 bilhão pelo Google e mudou para sempre a história das imagens no mundo. Porque hoje dá para mostrar ao vivo, sem frescura, desde os primeiros passos de um desconhecido bebê na praia até policiais batendo em crianças de rua no centro de alguma grande cidade do mundo. Do YouTube para cá, aquela velha fórmula de uma câmera na mão e uma idéia na cabeça realmente passou a fazer sentido e todos se acharam no direito de serem cineastas. Não sem razão. Porque alguém já disse que a única diferença entre cinema e vida real são os diálogos - na vida real eles são melhores.

Esta é a Sua Vida

A invasão dos reality shows

Em 1973, a série An American Family (Uma Família Americana), transmitida em 12 partes nos Estados Unidos, ficou famosa por documentar uma família real, os Louds, tendo que lidar com o divórcio e a homossexualidade. Mas o boom aconteceu mesmo depois que John de Mol, fundador da produtora Endemol, criou um roteiro simples de um programa: 12 pessoas, que não se conheciam, vivendo juntas em uma casa e isoladas do mundo externo por cerca de 100 dias. Isoladas, porém vigiadas por câmeras, microfones e um bando de telespectadores curiosos. O projeto foi batizado de Big Brother, inspirado no livro 1984, de George Orwell, onde há um "grande irmão" que tudo vê e controla. O sucesso foi tanto que o formato espalhou-se, lançando celebridades instantâneas, modas, gírias e uma dúvida: "se pessoas reais fazem tanto sucesso, pra que ficção?".

Roteiros Especiais

Quadrinhos adaptados que revolucionaram a tela grande

Pipoca, tela grande, escuro e duas horas em que nos permitimos ser enganados. Para o bem e para o mal. O cinema sempre se deu ao luxo e ao direito de jogar o novo diretamente dentro de nossos olhos. Mas com as adaptações dos quadrinhos para as imensas telas a coisa ficou séria, porque os efeitos digitais e as portas abertas por eles deram aos filmes possibilidades infinitas e a imaginação ficou pequena. Sin City, Homem-Aranha (do mestre Stan Lee), O Senhor dos Anéis, Harry Potter e Beowulf, que não é exatamente HQ, mas uma obra literária matriz de todas as narrativas épicas medievais e da fantasia moderna, gênero que tem fãs tão dedicados quanto os super-heróis da Marvel e da DC e que mesmo sendo uma animação interpretada, é tão moderno que permite que a história vire fantasia. E nos faça crer. Ou você duvida?

Música e Contracultura

O surgimento do "faça você mesmo"

O punk, que (ainda) carrega o título de "última grande manifestação jovem de contracultura", surgiu em meio ao contexto da Guerra Fria, corrida armamentista, disputa econômica e ideológica da ex-URSS e dos Estados Unidos. O que aqueles jovens de moicano, roupa rasgada e voz alta queriam? Nadar contra. Como toda e qualquer manifestação realmente interessante, o berro ecoou até os palcos e os Ramones começaram a dar força ao movimento, que ganhou verdade, voz e corpo em novembro de 1975, data do primeiro show dos Sex Pistols, realizado na St. Martins Art School, em Londres. Pois foi com os Pistols - criados por Vivienne Westwood (ela mesma) e seu marido, o empresário Malcolm McLaren - que o lema "do it yourself " ganhou corpo e se alastrou pelas mentes, ditando que cada um podia fazer sua própria arte, leis e que as ordens existiam para serem invertidas.