Exclusivo site: Kirk Hammett

Em entrevista exclusiva, Guitarrista Kirk Hammett comenta o novo disco, a paixão pelo surf, e as loucas turnês pelo Brasil

Por Márcio Cruz Publicado em 18/11/2008, às 16h50

AP

Apenas doze horas após o término do show mais recente do Metallica no Reino Unido (dia 24 de agosto no Reading Festival) os membros de um dos grupos de heavy metal mais bem sucedidos da história se dividiram para atender a imprensa internacional. Fã de Jimi Hendrix, Black Tide e João Gilberto, praticante de surf e "obsessivo compulsivo" confesso, Kirk Hammett (guitarrista da banda desde a saída de Dave Mustaine em 1983), recebeu a imprensa no luxuoso Claridge Hotel, no bairro de Mayfair, em Londres. Completamente de preto, com as longas madeixas encaracoladas e hidratadas e, demonstrando cansaço, Hammett, aos 45 anos, ainda comentou o trabalho com o baixista Robert Trujillo, que substituiu Jason Newsted, e com o produtor musical Rick Rubin (Rage Against the Machine, Johnny Cash, Linkin Park, Red Hot Chili Peppers, e Slayer). "Ele queria que nós abordássemos nossa música e tivéssemos a mesma atitude que nós tínhamos quando éramos jovens e fizemos aqueles discos mais espirituais, nos anos 80".

O Metallica teve músicas distribuídas diretamente para o game Guitar Hero. O que você acha desse tipo de jogo?

Eu acho que eles são ótimos pelo que proporcionam. Fazem com que eles sintam que podem tocar guitarras, ainda que eles não saibam. Fazem com que eles tomem um passo adiante e peguem realmente um instrumento. Além do mais, eles estão sendo expostos a um monte de música boa com as quais não teriam contato se não fosse pelo jogo, não é música de rádio, é música de qualidade com a qual eles podem interagir. Acho maravilhoso. Pessoalmente eu não jogo videogames porque sou obsessivo compulsivo e se eu pegar não vou deixar de lado e não conseguiria fazer nada além daquilo. Não tocaria guitarra, provavelmente nem me alimentaria, mas eu acho que Guitar Hero transcende isso, impulsionando pessoas em uma direção positiva - e é divertido.

Como foi trabalhar com um novo produtor em Death Magnetic? Qual é a diferença entre Rick Rubin e [o anterior] Bob Rock? Trabalhar com um novo produtor lhe ajudou a atingir um novo nível de entendimento sobre sua maneira de tocar?

Trabalhar com Rick Rubin foi completamente diferente porque ele não passava muito tempo conosco, aparecendo todo o tempo. E também, porque bem no começo do processo de composição (tosse), não bem no começo, mas durante o processo de escrever letras, Rick nos propôs essa experiência. Ele queria que nós abordássemos nossa música e tivéssemos a mesma atitude que nós tínhamos quando éramos jovens e fizemos aqueles discos mais espirituais nos anos 80. O que ele essencialmente estava tentando fazer era que descobríssemos qual era a real essência da banda, o que nos motivava, por que nós construímos, de uma certa maneira, porque nós queríamos um certo tipo de música tocada de uma maneira específica. E aquilo para a gente foi a essência original por que nós fizemos daquela maneira (sic)... Desculpe. Eu me enrolei. Na verdade, eu estou me repetindo porque eu tenho feito isso o dia todo. (risos)...

Posso imaginar.

O que nós quisemos fazer é retirar todas as camadas...

Então, chega de papo furado. Vocês acham que conseguiram? Como vocês se sentem?

Eu realmente sinto que de alguma forma, de alguma maneira, ele removeu todas as camadas que estavam sobre a essência da banda e essas camadas foram colocadas aí à medida que os anos passaram e tudo tem a ver com o sucesso da banda, com a celebridade que a banda ganhou, com maturidade... O que ele conseguiu fazer foi remover todas essas coisas e nos trazer de volta para a essência que nós tínhamos em mente e nos ajudou a criar nosso material baseado na essência original. Começou como um experimento, mas funcionou muito bem para nós.

Você sentiu isso quando tocaram as músicas novas durante o show de ontem?

Totalmente. Dá para sentir que nós voltamos a ter contato com nossas raízes, sem ter que pegar um trecho de uma música, alterar a letra e mudar o título (risos). Algumas pessoas fazem isso, eu juro para você. Ao menos, se não o fazem, parece que fazem... Mas no nosso caso não soa como se nós tenhamos feito. Graças a deus! Quando nós tocamos as novas músicas ontem soou bem, soou como se o propósito original da banda estava fluindo por esses sons, por essas letras e por essa energia. Nós estávamos muito entusiasmados. Rubin tem muito crédito por ter nos levado a esse ponto. Quando você pensa sobre isso, é em um contexto espiritual, porque não pode ser tocado, não pode ser controlado, colocado no bolso. É uma coisa espiritual e ele nos levou de volta àquele lugar.

Você acredita que bandas não possam ser criadas como negócio?

Você pode criar uma banda como se fosse um negócio, mas vai soar uma merda, e a definição para isso é "pop". Música pop é criada como um negócio, você pensa no maior número de pessoas que você pode atingir e combina com aspectos da música que você faz. Para mim é isso que música pop é. Mas se você quer criar algo que é único artisticamente, criativamente,e inspirador, você não pode fazer seguindo um plano de negócios.

Você conhece Black Tide?

Sim, tem algo especial naqueles garotos.

Você os conhece pessoalmente?

Não, eu não os conheço pessoalmente, mas eu os vi tocando no Cream Music Awards e eu vi como eles se relacionam um com o outro, eu pude notar pela personalidade deles e pela maneira que eles interagem e na atitude que há algo ali. E o fato de eles serem tão jovens e serem capazes de reconhecer algo dentro deles e coletivamente como uma banda é muito legal. E há bandas por aí que são tão populares quanto, mas não têm isso, pelo menos aparentemente. E com eles é tão claro. Eles são uma banda jovem, eles estão se tornando o novo Led Zeppelin, pelo que eu sei. E faria sentido se eles realmente se tornassem. Eu vejo algo ali, eles têm essência. Está funcionando para eles e eu espero que eles vão adiante para criar...

Você se lembra das três vezes em que esteve no Brasil?

Ah, sim. Foi fantástico. Absolutamente. Há muito para se gostar do Brasil...

Você tem alguma memória específica?

Ah... (pausa). Muito sexo, drogas e rock'n'roll. Eu sou casado e tenho filhos agora, então... (risos), vamos dizer apenas que eu me diverti muito no Brasil. Eu sou muito fã da música, Tom Jobim, João Gilberto...

Você deveria ir assistir a um de seus últimos shows no Brasil...

Eu acho que ele é um compositor e violonista fenomenal. Há muito coisa ali. Eu adoro a vibe da bossa nova.

É algo novo para você? Há quanto tempo você tem ouvido bossa nova?

Dez, doze anos... Há alguns outros artistas que eu gosto, mas eu não poderia dizer os nomes agora... E também, você pode surfar no Rio de Janeiro e eu adoro surfar. Você surfa?

Não.

Eu gosto muito de surfar e eu sei que tem muito surf no Brasil. Eu passo parte do ano no Hawai porque minha mulher é hawaiana e eu conheci tantos surfistas brasileiros na água, surfando comigo... Com tanta água, eu só penso em ir para o Brasil e surfar.

Quanto tempo vocês vão trabalhar com esse disco? Quando você vai tirar férias agora?

Em dois anos. Nós queremos visitar o maior número de lugares possível. Tomara que a gente possa visitar o Brasil logo porque já faz muito tempo. Muito tempo. E nós sempre nos divertimos muito lá, nós precisamos retornar logo.

Você poderia comentar o trabalho com Robert Trujillo?

Eu gostaria que Robert tivesse sido o baixista depois de Cliff Burton (morto em um acidente de carro em 1986). Ele é um grande baixista, um grande compositor, ele é uma pessoa maravilhosa, ótima energia, superpositivo, muito concentrado e um ótimo surfista (risos). E, sim, Trujillo cumpre muito bem esse papel. Ele é energizante e inspirador para nós, eu sinto que nós somos uma banda, enquanto no penúltimo disco, durantes os anos mais tensos, nós éramos três caras e Bob Rock tocando baixo. Jason, ele é um cara incrível, mas havia que a musica que ele escreveu não era muito boa, ele sempre tinha alguns problemas, sempre reclamando ele nunca foi verdadeiramente um dos caras, ele nunca se sentiu que era um de nós, ele pensava diferente, ele tinha um processo de pensamento diferente, enquanto nós três estávamos completamente conectados. E com Robert, fiquei muito feliz de poder escrever minhas músicas para guitarra de novo. Nesse disco, eu estava tocando alguma coisa no estúdio e Robert, "o que é isso que você acabou de tocar?". Poderia não ter ido a nenhum lugar, mas Rob tocava comigo no momento. Eu realmente acho que nós atingimos nosso objetivo com esse disco.

Para você, qual é a principal diferença entre o público do Reading, o público de Leeds e os públicos da Europa continental e norte-americano?

Há uma grande diferença entre esses públicos, que respondem de maneira diversa e têm maneira diferente de se expressar. O público europeu [continental] tem a tendência de cantar junto, de ser mais vocal, acho que isso talvez venha das torcidas [dos clubes] de futebol. Os Estados Unidos não têm isso, então, estão menos dispostos a cantar junto ou cantarolar, ou qualquer coisa do tipo. Eles são mais a fim de estar em um show e perder completamente o controle, e fazer festa, e pular, e fazer moshes, e se divertir dentro de toda a experiência. Em Dublin (capital da Irlanda) há mais consciência e eles prestam muito mais atenção a detalhes minuciosos, o que também acontece com os ingleses, que dedicam muita atenção aos aspectos musicais. Os ingleses também gostam de fazer mosh e atuam com diferentes rodas aqui e ali. Os norte-americanos têm uma tendência de lutar uns contra os outros, o que pode ser um problema para nós porque não queremos ver nossos fãs se batendo. Enquanto, na Europa, as rodas são muito respeitosas. Se alguém está no mosh e vai ao chão, eles a levantam!!! Isso não acontece nos Estados Unidos. É cada um por si.

Você costumava ir para as rodas quando você era jovem?

Eu costumava ir a festivais, mas festivais na minha época eram uma coisa bem diferente, não havia rodas, as pessoas costumavam ficar chapadas e dançar, sabe, isso era o tipo de experiência que eu tinha quando eu era garoto. Hoje tudo mudou. Quando eu era mais novo, as pessoas costumam chapar até cair, a cultura jovem era diferente.

E como você vê a mudança da cultura jovem daqueles tempos e dos tempos de hoje? Você acha que a experiência em relação à música mudou?

Isso é muito difícil de explicar. Novos ou velhos as pessoas ainda apreciam nossa música e uma paixão pelo que nós fazemos, mas é muito difícil dizer se eles sentem de uma maneira diferente. Os garotos de 14 anos de hoje em comparação aos garotos de 14 anos de dez anos atrás, é uma comparação difícil de fazer...

Você tem contato com fãs dessa idade?

Sim, sim. Nós temos reuniões de confraternização com os fãs depois de cada show, entre 20 e 30 pessoas aparecem no backstage depois de cada show, nós conversamos com eles, tiramos fotos... E para nós isso funciona como um conduite para o público e fazemos isso depois de cada show, de cada concerto, em todo lugar que vamos. É ótimo porque esse tipo de interação é importante porque muitos fãs mandam cartas dizendo que há uma enorme barreira entre eles e nós.