Quebra de Protocolo

Garibaldi Alves, presidente do Senado, supera críticas pessoais (a sua falta de beleza) e esbanja aquela simpatia de político em campanha

Por Carol Pires Publicado em 14/10/2008, às 12h18

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"Eu não vou ser um hermafrodita ambulante", disparou Garibaldi Alves Filho em sua primeira entrevista coletiva informal após assumir a presidência do Senado Federal. Não, Garibaldi não tem tal distúrbio, foi apenas um embaralho na língua e a falta de costume com a perseguição dos jornalistas que cobrem o Congresso Nacional. Quando chocou a mídia com tal afirmação, queria negar o que há instantes tinha dito Lula (e muito antes cantado Raul Seixas): "Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante". Alves queria dizer que, sendo presidente de um poder, precisava ter equilíbrio. Por isso necessitaria de tempo para analisar as propostas do governo, sem perder opiniões pessoais. E que não seria como Lula, que preferia ser uma metamorfose ambulante a ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Quando se deu conta do erro, sorriu para o enxame de repórteres e disse: "Ah, errei. Como é mesmo que o presidente Lula disse? Metamorfose, é? Mas parece que a minha foi melhor".

Garibaldi Alves ficou sabido naquele instante em que as assombrações que pesavam o clima no Senado tinham ficado para trás. A tensão das denúncias contra Renan Calheiros, senador pelo PMDB de Alagoas, antecessor de Garibaldi na presidência do Senado, e tudo que com isso veio junto - as caras feias, as inimizades, os dedos em riste e a perseguição da imprensa ao ocupante da cadeira máxima do parlamento - tinham sido trocados por momentos de tranqüilidade.

Renan foi julgado por quebra de decoro parlamentar duas vezes. Da primeira por ter uma filha fora do casamento - fruto de um caso com a jornalista Mônica Veloso - e pagar a pensão da criança com dinheiro dado por um lobista da empreiteira Mendes Júnior. Foi depois apontado como dono de veículos de comunicação em Alagoas - as empresas estariam no nome de laranjas. Essa crise assolou o Congresso por sete meses. Calheiros foi julgado pelos colegas por duas vezes em plenário sob pena de perder o mandato e ficar inelegível por oito anos. Acabou absolvido. Na primeira vez, Garibaldi votou pela cassação. Na segunda, achou a denúncia vazia e absolveu o colega. Já era précandidato à cadeira que Renan só renunciaria semanas depois. Mas ele não pensava na presidência até então. A idéia surgiu como prenúncio dado aos predestinados. Dali foi preciso apenas ganhar o aval do cacique-mor do partido: o ex-presidente José Sarney, que só seria presidente do Senado por aclamação. Mas logo surgiram outros nomes dentro do PMDB cobiçando a vaga - Neuto de Conto (SC) e Valter Pereira (MS). A deixa de Garibaldi foi dada por Arthur Virgílio, do PSDB do Amazonas, líder do partido no Senado. Se Sarney saísse a presidente, Virgílio lançaria sua candidatura. Sarney não queria briga. Não tendo o que quis, escolheu Garibaldi Alves.

Então ele cortou o cabelo, clareou os dentes, comprou cinco ternos Brooksfield e saiu em busca de apoio. Foi eleito em 12 de dezembro de 2007, com 68 votos a favor, oito contra e duas abstenções (são 81 os senadores).

Quando recebeu a Rolling Stone para um café-da-manhã na casa oficial da presidência do Senado, na Península dos Ministros, em Brasília, parecia cansado e acanhado. Era uma quarta-feira, 8h30. Cansado ele estava mesmo, porque tenta, desde agosto, conciliar a campanha eleitoral no interior do Rio Grande do Norte (seu estado) com suas obrigações protocolares de presidente. Lá, no Norte, chega a percorrer 4 mil quilômetros por fim de semana. Está mais magro. E bronzeado. Anda acanhado porque dias antes tinha dado uma entrevista e não gostou do que leu depois. Não gostou por quê, presidente? "Ah, ficaram dizendo que eu era feio, dentuço, não sei o quê." Garibaldi é realmente dentuço. Porém, quando ri, com aqueles dentões brancos, alinhados um pouco para a frente, contagia os demais.

Penso em escrever sobre ele sem tocar no assunto da feiúra. Mas o próprio, no segundo seguinte a confessar o incômodo com a crítica, relembra a adolescência e dispara: "Eu era bem feio mesmo. Galã era o Henrique". O Henrique em questão é Henrique Eduardo Alves, deputado pelo Rio Grande do Norte, primo de Garibaldi e líder do PMDB na Câmara. Contam os dois que, nos tempos de calças curtas, foram juntos a um baile.

Você lê esta matéria na íntegra na RS Brasil 25, outubro de 2008