Independência ou Morte

Entenda a trajetória política da Irlanda, uma ilha marcada pela fome, pelos conflitos religiosos e pela sede de unificação

POR Juliana Resende Publicado em 19/11/2008, às 15h48

A "Grande Fome" foi um divisor de terras na trajetória política da ilha da Irlanda somada à pobreza, à ignorância, à deficiência agrária e às péssimas condições sociais do então essencialmente campesino povo irlandês, que raramente recebia pelo que produzia em propriedades de ingleses, anglo-irlandeses e Ulster-escoceses. Enquanto a imensa maioria dos irlandeses adoecia e morria faminta, em plena segunda metade do século 19, navios e navios com grãos, carne e outros ítens continuavam sendo exportados para a Inglaterra - ao contrário da primeira escassez de comida, entre 1782-83, quando os portos foram fechados, mesmo sob protestos dos comerciantes, para que os insumos fossem consumidos na própria ilha. Na segunda e mais severa onda de inanição coletiva, a insensibilidade e ganância dos lordes e do governo britânico azedaram de vez as relações entre o que viria a ser a República da Irlanda e a Inglaterra. Ainda em 1847, William Smith O'Brien, líder do partido Young Ireland, um dos mentores da campanha pela anulação do Act of Union (algo como a carta de anexação da ilha toda pelo Reino Unido), clamava pelo fim da submissão não só econômica como política à Londres. Diversos atritos, sob a forma de revoltas de católicos e levantes nacionalistas, produziram faíscas que incendiariam o movimento republicano pela independência do Reino Unido. Em 1919, parlamentares irlandeses em Westminster declararam independência do Reino Unido, criando a República da Irlanda. Mas somente a então União Soviética a reconheceu internacionalmente.

Uma guerra civil pela independência foi deflagrada por dois anos, originando o Exército Republicano Irlandês (IRA) - hoje referido como "Old IRA". Acuado, o Reino Unido resolveu abrir uma concessão, mas nada que pusesse em risco a hegemonia do império. A autonomia - ainda não a total independência da Irlanda - foi condicionada ao "Tratado Anglo-Irlandês", que, em 1922, estabeleceu o autônomo Estado Livre da Irlanda (Irish Free State), uma monarquia constitucional ligada ao Reino Unido, como outros países subordinados ao Império Britânico (como Canadá, Austrália e Nova Zelândia), teoricamente valendo para toda a ilha. Mas, sob as leis do novo status político, a Irlanda do Norte optou por não estar subordinada ao Irish Free State, em uma manobra política condicional à retirada e pré-acordada dos britânicos - o que, para setores nacionalistas irlandeses mais radicais, foi, além de traição, uma grande roubada. Afinal, foi pela reunificação da ilha sob a égide do socialismo que o Provisonal IRA resolveu pegar em armas em 1969, reivindicando a saída dos britânicos da Irlanda do Norte, resultando em mais de três décadas de um abjeto conflito. Até a assinatura do "Acordo de Belfast", em 1998, que pôs, oficialmente, fim à guerra civil, a constituição da República da Irlanda - proclamada em 1937 - ainda clamava direitos sobre o território da Irlanda do Norte em dois artigos, retirados como parte do recente processo de paz. Mas essa continua sendo a bandeira do partido Sinn Féin, então braço político do extinto IRA - cujo fim das atividades foi anunciado oficialmente em 2005.

Urnas, não Armas

O maior desafio do nacionalismo deixou de ser fazer política trocando as armas pelas urnas, mas consolidar meios políticos e democráticos para que a luta por uma Irlanda unificada continue. "Esta é a Irlanda que vocês querem? Estamos satisfeitos com a Irlanda que temos [divida entre a República e Irlanda do Norte]?", exortou Gerry Adams, presidente do Sinn Féin, em convenção em um amplo salão do melhor hotel de Letterkenny, no condado de Donegal, na República, fronteira com o condado de Londonderry, Irlanda do Norte. Cerca de 500 irlandeses celebravam os 25 anos da greve de fome na prisão de Long Kesh, em Belfast (a "universidade do terrorismo", atualmente um museu), que marcou para sempre o movimento republicano. As greves de fome abrangem o sangrento período de 1974 a 1981. O que começou com o chamado "Protesto Sujo" (prisioneiros republicanos se recusavam a usar uniformes dos presos comuns e, enrolados em cobertores, deixaram de se lavar) culminou em uma comoção nacional e internacional, com a conquista de apoio nos Estados Unidos e na Europa. Vale lembrar que, antes desta greve de fome, o IRA estava enfraquecido politicamente e perante à comunidade católica, devido à escalada da violência sem precedentes e sem nenhuma contrapartida social.

"Foi nesse momento crítico que o movimento republicano percebeu que protestos pacíficos, desafiadoramente físicos e espiritualmente martirizadores, como a greve de fome, rendiam muito mais apoio popular que atentados perpetrados pelos IRA, que também matavam pessoas inocentes", explica Paul Arthur, professor-diretor do curso de Peace & Conflict Studies da Universidade do Ulster, uma das maiores autoridades na questão da Irlanda do Norte. "A causa republicana começou ali a construir seu capital simbólico", ressalta. Dez integrantes do IRA (todos presos em flagrante, incluindo Bobby Sands, eleito membro do Parlamento britânico mesmo encarcerado nos famigerados H-Blocks de Long Kesh) definharam até a morte negando a condição jurídica de criminosos comuns imposta pelo governo britânico - estavam encarcerados sob o regime de Internment Without Trial, medida adotada para prender sem julgamento gente sob suspeita de terrorismo. Os presos dos blocos H reivindicavam o status de prisioneiros políticos ou mesmo de guerra, não concedido pela Dama de Ferro, a hoje senil Margaret Thatcher, então empenhada em quebrar a espinha dorsal do republicanismo. "No entanto, ela não conseguiu atingir seu objetivo de criminalizar a luta por uma Irlanda livre", acredita o ex-prisioneiro Tony Kelly, que participou da greve de fome e discursou no evento.

Crime e Política

Os homens morreram em 1981. Sands foi primeiro, em 5 de maio. Chovia. Uma chuva fina, miserável. Mais de 100 mil pessoas acompanharam o funeral. Nas ruas de Belfast, uma ebulição acontecia a cada morte. A então primeira-ministra britânica se recusou a reconsiderar o status dos prisioneiros: "Crime é crime e crime não é política", dizia. Ela ainda não havia escapado de um atentado à bomba na convenção do Partido Conservador, em Brighton (Inglaterra,) em 1984, no qual cinco pessoas foram mortas, incluindo um parlamentar. "Mrs. Thatcher vai agora entender que a Grã-Bretanha não pode ocupar nosso país, torturar nossos prisioneiros, atirar nas pessoas nas ruas e ficar por isso mesmo. Hoje não tivemos sorte. Mas lembrem-se: só temos de ter sorte uma vez; vocês têm de ter sorte sempre", ameaçava o comunicado do IRA, assumindo a autoria do atentado. "O que o governo britânico realmente entendeu, a partir daí, foi que não poderia derrotá-los", diz Paul Arthur. "O único jeito era partir para a negociação, chamando também o governo irlandês a participar do processo, assumindo responsabilidades". Neste contexto, deu-se início aos vários acordos anglo-irlandeses até hoje contestados por extremistas tanto do lado dos republicanos, como do lado dos unionistas ou loialistas.

Paradoxalmente, vêm das bases políticas unionistas resquícios de alguns grupos paramilitares que têm tirado o sono das autoridades norte-irlandesas e britânicas. Em 2006, o ex-membro da Ulster Defence Association (UDA), Michael Stone, tentou invadir Stormont, a Assembléia norte-irlandesa, portanto explosivos. Ele está sendo julgado por tentantiva de assassinato dos líderes do partido Sinn Féin, Gerry Adams e Martin McGuinness, além do porte de armas. Na corte, Stone disse que fez uma "performance para que a política fosse levada mais a sério na província, um ato em prol do processo de paz". Com a fim do IRA como inimigo político, algumas dissidências de grupos terroristas que não se desmobilizaram partiram para a mais pura e simple bandidagem. A UDA anunciou que pediria 8,5 milhões de libras (cerca de R$ 42.5 milhões) ao governo britânico para que "todas as atividades criminais fossem encerradas" e para fins de "reabilitação da comunidade [protestante]", através da ONG própria Beyond Conflict. Um porta-voz do Departamento de Desenvolvimento Social do Reino Unido disse que nenhuma verba fora solicitada oficialmente. O deputado John Dallat, do Partido Trabalhista Social-democrata (SDLP), acha que a "sociedade democrática deve fazer uma contra-oferta à UDA: 'Desistam do crime e vocês podem ficar fora da cadeia'".

Em julho de 2006, grupos paramilitares loialistas provocaram distúrbios, incêndios, seqüestros e pânico em Belfast, depois que a parada orangista - evento de unionistas radicais que celebram a ascenção do rei protestante William of Orange ao trono britânico depois da batalha de Boyne, em 1690, contra o rei católico James, na Irlanda do Norte, em 12 de julho - foi desviada pela prefeitura de áreas católicas da cidade para evitar conflitos. "No mundo moderno o terrorismo não é mais aceitável ou justificável", afirma Tommy Kirkham, consultor unionista independente, que rompeu com o Ulster Political Reseach Group, alinhado à UDA.

Já o republicanismo, longe de ser uma causa perdida, para Gerry Adams "é sobre o futuro". Mas o futuro é agora e a ilha, apesar de eternamente ressentida, parece ter aceito seu destino partido. Mesmo porque, com tanto dinheiro e opulência circulando na República da Irlanda, fica difícil despertar instintos nacionalistas inspirados no espírito libertário dos "companheiros" que deram suas vida pelas conquistas de uma Irlanda que o Sinn Féin não cansa de louvar. "Eles poderiam ter vestido aqueles uniformes e serem taxados de criminosos, mas se recusaram". Parafraseando Bobby Sands, Adams lembrou que "o que seria perdido nos H-Blocks, seria perdido nas conquistas da República". Portanto, "graças a homens como eles", continua Adams, "somos a primeira geração de republicanos que tem um projeto político para uma Irlanda unida".

Se depender da robustez da economia da República - o país com a maior taxa de crescimento da Europa desde os anos 90 - como atrativo, isso pode até vir a ser realidade um dia. O 2008 Index of Economic Freedom, compilado pelo Wall Street Journal e a Heritage Foundation, ranqueia a República da Irlanda como o terceiro mais livre país para se fazer negócios em todo o mundo. No entanto, a Inglaterra, sozinha, costuma bater recordes em investimentos estrangeiros - em 2005 foram astronômicos US$ 219 bilhões -, enquanto a vizinha rebelde recebe bem menos (US$ 19,4 bilhões em lucros reinvestidos segundo o Unctad, World Investment Report 2005: Transnational Corporations and the Internationalization of R&D. Em contrapartida, entre 2004 e 2007, a República cresceu 4,95% enquando o Reino Unido ficou em 2,75%. Na República, o índice de mão de obra especializada é de 6.47 enquanto no Reino Unido é de 4.64, segundo o MD World Competitiveness Yearbook 2008. Os Estados Unidos, o Leste Europeu e a Alemanha são os que mais recebem cifrões da Irlanda, que se tornou o quarto investidor mundial em mercados externos. Graças à mais baixa alíquota do imposto sobre a renda de pessoa jurídica da União Européia (12,5%), as empresas norte-americanas em terras irlandesas apresentam a melhor performance. Leia-se Intel, Yahoo, Adobe, Microsoft, HP, Apple, Google, Amazon, Palm. A República atrai freneticamente o setor de tecnologia da informação. Moral da história: de dominados, os irlandeses passaram a dominantes.

"A Irlanda só conseguiu dar esse salto qualitativo porque investiu massivamente em educação. Esse investimento demorou a se pagar, mas chegou nossa hora", discursa a presidente da República, Mary McAleese, segunda mulher eleita para o cargo e primeira católica nascida na Irlanda do Norte a ocupá-lo. "A necessidade de adaptar as leis nacionais às da União Européia também contribuíram para as mudanças sociais, como maior participação da mulher na esfera pública e aceitação do planejamento familiar", completa, durante palestra na Queens University de Belfast, onde ela já foi vice-reitora. O divórcio só foi legalizado na República da Irlanda em 1995 e o aborto continua ilegal. Em 2005, a Associação Irlandesa de Planejamento Familiar (IFPA) lançou, junto à Corte Européia de Direitos Humanos, a campanha Seguro e Legal na República da Irlanda, defendendo a introdução dos serviços de aborto legal no país. Em 1992, foi decretada uma lei que permitia que as mulheres deixassem o país para abortar. Segundo o Ministério da Saúde do Reino Unido, em 2004 o país recebeu cerca de 6200 irlandesas para interromperem a gestação. Apesar de legalizado desde 1968 no Reino Unido, o aborto também é ilegal na Irlanda do Norte.

Direitos Civis: A Luta Continua

"Se depender dos fundamentalistas cristãos que nos 'representam' nesta política nonsense [a Assembléia norte-irlandesa está parada desde junho último, por conta de impasses entre interesses católicos e protestantes], nosso corpo será tratado sempre como commodity e nunca como algo que nos pertence e sobre o qual cabe a nós decidir", diz a ativista Bernadette Devlin McAliskey, uma das mais emblemáticas figuras políticas dos chamados "Troubles" - os anos de chumbo do conflito norte-irlandês. Ela foi a mais jovem mulher até hoje eleita para o parlamento britânico - tinha 21 anos, em 1969, considerado marco zero do conflito na Irlanda do Norte. Na época, Devlin chegou a ser presa por subversão da ordem e suspensa do Parlamento por manifestar suas opiniões. Mais tarde, rompeu com partidos republicanos mas ainda carrega o karma de ser considerada "cabeça" do IRA. Ela nega veementemente qualquer envolvimento com o terrorismo - o que ofusca e contribui, ao mesmo tempo, para sua lenda. "Nunca apoiei nenhum tipo de violência", garante. Em 1981, ela levou um tiro em um atentado assumido pelo grupo paramilitar Ulster Freedom Fighters e, em 2003, teve permissão negada para entrar nos Estados Unidos, por "representar uma séria ameaça à segurança da América". Sua filha Róisín, a quem deu à luz sem ser casada, em 1971, também seguiu carreira política e enfrentou uma gravidez na prisão, em 1996, condenada na Alemanha por participação em um atentado à bomba atribuído ao IRA. Em 2007, Róisín foi detida novamente, acusada de envolvimento em um atentado na cidade alemã de Osnabrück. Bernadette se ocupou, então, de uma extensa campanha em prol da inocência da filha. Hoje segue no ativismo pelos direitos civis, sem vínculo partidário, militando pela extensão da legalidade do aborto à Irlanda do Norte, por meio da campanha Alliance for Choice.

"Estão pedindo ao 'Talebã' para cuidar das mulheres da Irlanda do Norte", ironiza Devlin, em uma metáfora exagerada para denotar o conservadorismo na região: especialmente do DUP (Partido Unionista Democrático, sigla em inglês, o maior da Irlanda do Norte). Trata-se de mais sólido bastião protestante do Reino Unido, fundado pelo demonisado reverendo Ian Paisley e ao qual¬ pertence o primeiro ministro norte-irlandês Peter Robinson. Sua mulher, Iris Robinson, também política e membro da Assembléia norte-irlandesa, deixou claro a visão do partido quando, em junho de 2008, declarou à BBC Radio Ulster que "ficaria feliz se todo homossexual fosse tratado por um ótimo psiquiatra". Aliás, ela mesmo conhecia um - com o qual trabalha e cujo background cristão "tem ajudado a torná-los heterossexuais". Mrs Robinson considera a homossexualidade uma coisa abominável que a "enoja". A declaração provocou repulsa nos setores liberais de todo o Reino Unido, sendo rechaçada pelo Royal College of Psychiatrists, que emitiu nota oficial dizendo que homossexualidade não é uma desordem psiquiátrica. Ela ainda tentou se justificar dizendo que "assim como um assassino pode ser redimido pelo corpo de Cristo, um homossexual também pode".

Enquanto a "primeira dama" da Irlanda do Norte enfrenta processo por crime de ódio, o chamado "hate crime", o ex-skinhead, vocalista da banda Offensive Weapom e paramilitar Sam 'Skelly' McCrory, 43 anos, resolveu sair do armário. Ele, que chegou a ser um dos terroristas mais procurados de toda a Europa quando atuava no esquadrão de morte da loialista UDA, passou de um homofóbico convicto a ativista do movimento gay. "Era um maria-vai-com-as-outras", assume. "Fingia odiar católicos, negros, judeus e gays - mesmo sendo um deles. Estava me escondendo", revela, dizendo que o processo de paz o permitiu ser ele mesmo, também colocando um fim em sua guerra pessoal. Sua história veio à tona na famigerada prisão 'The Maze', em 1991, quando a carta de um amante caiu nas mãos de um guarda que a fez chegar a um então membro do IRA, Danny Morrisson. A intenção era desmoralizar o durão da UDA, mas o fato teria inspirado Morrisson para escrever o romance On the Back of The Swallow. Embora tenha matado e confessado a intenção de matar um 'soldado' do IRA e sua namorada, McCrory se declara "orgulhoso" de ter feito o que fez: "E o fiz porque estávamos sob o ataque de um violento republicanismo", justifica. Hoje, marcha por direitos civis dos gays - inclusive ao lado de republicanos.

Ativistas de ambos os lados e por diferentes causas ressaltam que é preciso ganhar corações e mentes da juventude irlandesa, de norte a sul - afinal, é na nova geração que se deitam as maiores apostas de mudanças comportamentais e de um futuro pacífico, onde diferenças sejam toleradas e respeitadas. Será? A chinesa Anna Lo, primeira MP (deputado) estrangeira a ser eleita para a Assembléia norte- irlandesa, ainda lembra da "raiva, humilhação e sensação de impotência" que sentiu, quando foi atacada e agredida fisicamente por uma gangue de punks no centro de Belfast, em 1997. "Foi naquele momento que decidi lutar pelo fim deste tipo de coisa por meio da política". Sua plataforma era pelo fim do sectarismo e pela a extensão do Racial Equality Act, lei de 1976, da Inglaterra para a Irlanda do Norte, como um meio jurídico de proteção às minorias étnicas. Em 2007, a despeito de ameaças veladas da organização racista White.org, ligada ao partido de extrema direita BNP (British Nacionalist Party) - "a tentativa de me intimidar só me fazia mais determinada", garante -, Anna Lo se transformou na primeira política de origem asiática (nasceu em Hong Kong) a ocupar uma cadeira no Parlamento britânico. Foi eleita pelo Alliance Party, uma alternativa entre os dois extremos políticos e também "a oposição", segundo ela, ao governo polarizado entre partidos católicos e protestantes.

Foram estes ferrenhos opostos que, em maio de 2007, puseram em prática o chamado "power sharing", a divisão do poder na retomada do governo na Irlanda do Norte, com o reverendo Paisley então como primeiro-ministro e o ex-líder do IRA, Martin McGuinness, como chefe do Executivo, pelo Sinn Féin. A "chapa" surpreendeu o mundo. Afinal era como se Tom e Jerry, Sharon e Arafat, Bush e Bin Laden estivessem reinando em comunhão. O parlamento norte-irlandês trabalhou por um ano, inclusive em cooperação do governo da República, até travar em torno de temas polêmicos como o comando da polícia - toda renovada como parte de acordos durante o processo de paz - e o ensino obrigatório da língua original irlandesa, o gaélico (como já acontece há tempos na República), nas escolas católicas e protestantes do norte - são ainda poucas as chamadas "mixed schools", escolas religiosamente mistas.

A Irlanda do Norte, apesar de ser parte do Reino Unido, tem leis independentes em alguns assuntos. "Os impasses políticos refletem os impasses sociais", analisa Anna Lo, para quem, mesmo lentamente, atitudes estão mudando no país. Ela considera sua própria eleição um reflexo do efeito da globalização, em um momento de transformação. "Não podemos mais afirmar que Belfast é a capital mais racista da Europa. O que se tem aqui são atitudes isoladas de segregação por raça, religião e sexualidade", acredita Anna Lo - uma dos dois MPs que apóiam a extensão da legalidade do aborto à Irlanda do Norte. "Muitas jovens estavam assinando a petição na nossa campanha pelas ruas", conta. Mas religiosidade cultural ainda faz do sexo antes do casamento um tabu, do divórcio um estigma e da homossexualidade algo que deve ser escondido. No entanto, foi em Belfast que o primeiro casamento gay no civil de todo Reino Unido aconteceu, em 2005. Na República da Irlanda, o reconhecimento legal da união de duas pessoas do mesmo sexo ainda está sendo discutido - a contragosto da Igreja Católica, cujo lobby fortíssimo, apesar do Estado laico, lembra muito o Brasil.

Os avanços sociais em toda a ilha estão ligados à Convenção Européia sobre Direitos Humanos, cujos artigos 8 e12 foram incorporados à lei doméstica do Reino Unido (Human Rights Act, de 1998, válido a partir de 2000). Assim, a diversidade sexual e religiosa foram alçados à condição de direitos, propagandeados em caras e abrangentes campanhas, embora ainda sejam motivo dos chamados "hate crimes" - nos quais aqueles relacionados ao racismo, que já foram campeões de ocorrência, mostram sinais de diminuição. De acordo com estatísticas do Police Service of Northern Ireland (PSNI), de 1o de abril de 2007 a março de 2008, incidentes sectários têm sido os mais comuns (1584), seguidos por aqueles de motivação racista (976), homofóbica (160) e religiosa (68). A violência doméstica também tem sido encarada de frente pela polícia devido aos números alarmantes -23.456 mil casos em 2006/07 contra 23.076 mil em 2007/08. "Esse é um dos motivos pelos quais nunca apoiei a violência como meio de alcançar um fim político", insiste Bernadette Devlin. "A maioria dos homens engajados na luta armada batia em suas mulheres", entrega. "E eu não alugaria meus ideais sob estas condições".