O Evangelho de Madonna

A rainha do pop continua reinventando a si mesma e (ainda) usa sua habilidade para quebrar tabus para defender suas causas e continuar uma busca, pública, pelo seu verdadeiro eu. Até quando?

Por Rich Cohen Publicado em 14/12/2009, às 19h19

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O mundo é uma série de aposentos dispostos como círculos concêntricos ou cômodos dentro de cômodos, unidos por pátios e antecâmaras. No centro de todos esses cômodos, Madonna está sozinha, vestida de branco, sonhando com a África. Para chegar até ela, é necessário esperar por um sinal. Se você tiver o coração puro, começa a se deslocar na direção da rainha do pop e a se movimentar com rapidez. Em um instante está em Connecticut, imaginando se vai nevar; no momento seguinte, é acometido por uma força maior. Se vê, então, na estrada, passando em alta velocidade por cidades adormecidas, aproximando-se cada vez mais do centro, ao qual você chega com destreza e humildade, à maneira de um peregrino. E, como um peregrino, parte antes da primeira luz. Como um peregrino, tira os sapatos - para passar pela segurança no aeroporto. Como um peregrino, lê textos sagrados: perfis e resenhas, os primeiros, publicados no início da década de 1980, e os mais recentes, gerados há apenas um segundo, e isso constitui uma espécie de recorde, a boa notícia, o Evangelho de Madonna. Agrupados, esses manifestos representam uma crônica destes tempos - cada um deles é diferente, mas conta a mesma história, já tão estabelecida e arquetípica que beira o folclore: a menina dos subúrbios de Detroit (que aqui está valendo para representar qualquer lugar); os primeiros anos no Éden, as lembranças que ela descreve como "granuladas e lindas" (quando sua mãe era jovem e viva); a tragédia, a ferida que nunca se fecha (a morte da progenitora acometida por um câncer); e os dias vazios amaldiçoados por sonhos atormentados. "Você sente uma noção de perda e existe uma noção de abandono", Madonna explica. "As crianças sempre acham que fizeram alguma coisa errada quando os pais desaparecem." E o drama real continua com o segundo casamento do pai, a madrasta, o tédio; ela era a menina mais velha e, ainda criança, foi forçada a exercer serviços de adulto. Permanecem, dessa época, os segredos e desejos, as lembranças de sua vida solitária na frente do espelho. No ensino médio, Madonna era bonita, mas única. "Não combinava com o grupo dos populares", recorda. "Não era hippie nem drogada, então acabei sendo a esquisitona da escola. Eu me interessava por balé clássico e música. Era uma daquelas pessoas com quem os outros são maus. Quando isso aconteceu, em vez de me transformar em um capacho, resolvi dar ênfase as minhas diferenças, parei de raspar as pernas, tinha pêlos compridos embaixo dos braços. Simplesmente me recusava a usar maquiagem ou me encaixar no ideal do que era uma menina bonita convencional. Então, fui mais torturada e isso validou minha superioridade, me ajudou a sobreviver e a decidir dar o fora." Ela encontrou refúgio nas aulas de dança e foi para a Universidade de Michigan, mas só ficou um ano lá, porque logo se mudou para Nova York.

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Como estamos falando de mitologia, um curto período de dificuldades se seguiu pela ascensão rápida ao estrelato. Quando mesmo foi isso, 1982, 1984? O nascimento do videoclipe? O sucesso de "Borderline"? E assim, sem mais nem menos, todas as meninas queriam ser Madonna Ciccone, com magnificência de vagabunda, luvas de renda sem os dedos, barriga de fora e penduricalhos. Eis aqui minha citação preferida - trata-se de um editor da Billboard falando com Jay Cocks, em 1985, para a revista Time: "Cyndi Lauper vai ficar entre nós durante muito tempo. Madonna estará fora do mercado daqui a seis meses".

Senti a presença de Madonna assim que aterrissei em LAX (o aeroporto de Los Angeles). Parecia que ela tinha estado ali um momento antes e, de fato, enquanto esperava minha bagagem, dei uma olhada em um exemplar do jornal New York Post e me deparei com uma foto tirada no dia anterior de Madonna com David, seu filho, no colo. As câmeras pareciam estar a um palmo de seu rosto. "Os paparazzi andam fora de controle", ela comenta mais tarde. "Faz um bom tempo que não venho a Los Angeles e não assisto a televisão nem aqui nem na Inglaterra. Me disseram que agora existe um programa em que os paparazzi são as estrelas. É verdade? Que eles se filmam uns aos outros? E isso lhes dá ainda mais gás. Sempre achei que essa gente se mantinha à distância... é o que acontece na Inglaterra, porque lá é proibido fotografar crianças. Mas não aqui. Eles chegam bem pertinho e não se importam se assustam os filhos da gente ou não. Ser famosa mudou muito, porque agora existem tantas mídias - entre revistas, programas de TV e a internet - perseguindo a gente. Nós criamos esse monstro."

Fui levado às pressas do aeroporto para Century City, ao prédio novo da CAA, a agência de talentos que representa a artista. Assim que chego, me colocam em uma sala de projeção vazia - algo apavorante como é aterrorizante estar em uma igreja sem ninguém. As luzes se apagam e, durante 90 minutos, assisto ao documentário que Madonna escreveu e produziu, I Am Because We Are [Eu Sou Porque Nós Somos], um ditado da sabedoria popular africana que fala sobre como as crianças são influenciadas por tudo que acontece a seu redor. O filme em questão mostra o Malauí, uma pequena nação sem mar na África sub-saariana, assolada pela Aids, cheia de órfãos - um mundo sem adultos que se transformou na grande causa da vida da popstar em sua meia-idade. Aparentemente, ela espera chamar atenção para o problema deste país africano e também explicar sua obsessão pelas crianças sem mãe.

A abertura a mostra caminhando em uma multidão. Então sua voz, que é a voz do meio-oeste tingida com um brilho de Oxford, invade os ouvidos: "As pessoas sempre me perguntam por que escolhi o Malauí. Digo a elas que não escolhi, foi ele quem me escolheu. Recebi um telefonema de uma mulher chamada Victoria Keelan, nascida e criada no Malauí. Ela me disse que existem mais de um milhão de órfãos lá e não tem orfanatos para todos. Por isso, essas crianças moram nas ruas, dormem embaixo das pontes, se escondem em prédios abandonados, são abduzidas, seqüestradas, estupradas. Victoria me contou ainda que o país vive em estado de emergência. Parecia exausta e a ponto de chorar. Perguntei como poderia ajudar. Ela explicou: 'Você tem recursos e as pessoas prestam atenção ao que você diz e faz'. Fiquei envergonhada, nem sabia onde era o Malauí. Ela mandou procurar em um mapa e então desligou na minha cara. Resolvi pesquisar e acabei descobrindo muito mais do que tinha imaginado, sobre esta nação, sobre mim mesma, sobre a humanidade".

Até agora, Madonna só adotou uma criança do Malauí, David Banda, que se juntou aos seus outros filhos, Lourdes Maria e Rocco. Foi o nascimento de Lourdes, em 1996, que colocou a estrela no caminho que foi dar na África. "Quando se tem filhos, você sabe que é responsável por alguém. Percebe que está sendo imitada, que seu sistema de crenças e as suas prioridades têm influência direta sobre essas crianças, que são como flores em um jardim. Então, começa a questionar tudo, e o sofrimento de outras crianças se torna muito mais intolerável."

Mas se alguém ganhou na loteria, foi David que, em um momento, vivia na pobreza e, de repente, tinha sido levado de avião para um palácio no grande norte gelado. Ele aparece nas cenas do documentário, com suas pernas arqueadas e seu corpinho atarracado e nos enche de ternura à maneira que os meninos carentes costumam fazer com seu ar adulto, sábio. E esta adoção - o fato de Madonna entrar em um orfanato de crianças infectadas pela Aids e ter saído de lá com um menino sem o vírus e que não é órfão - desencadeou todo o furor, principalmente na imprensa britânica, que I Am Because We Are tenta abordar. Leis foram colocadas de lado e o pedido de adoção foi apressado. Foi como se a dinâmica do colonialismo ou da relação Primeiro e Terceiro Mundo estivesse sendo encenada entre esta superstar específica e a criança em particular. Então o pai de David, Yohane Banda, aparece. Ele conta aos repórteres que tinha colocado o filho no orfanato apenas em caráter temporário e que permitira sua adoção devido ao pedido das autoridades. "As pessoas do governo me disseram que seria uma coisa boa para o país. Explicaram que ele voltaria com estudo e poderia nos ajudar", declarou ao jornal The Christian Science Monitor. "A África não está muito bem", comenta Madonna, "mas, por outro lado, qual foi a contribuição daquele povo para a destruição do mundo? Nada comparado ao que temos, e nós temos tudo." Em outras palavras, Madonna leva o menino para sua casa e lhe dá tudo e recebe algo em troca: um totem vivo de como a vida era antes das máquinas.

A projeção tem fim e então sou conduzido ao escritório do empresário de Madonna, onde me acomodei em uma sala de reuniões para escutar Hard Candy. O dia foi longo. O vôo matutino, os artigos, o filme, o disco, a entrevista. Era como sofrer uma lavagem cerebral, como ter sido jogado dentro de um barril de Madonna. Foi meu processo de purificação e preparação, parecia um culto. É preciso se assegurar de que o súdito foi amaciado antes de se encontrar com vossa eminência. Exatamente o que a popstar esclarece depois: "Só queria que você soubesse onde minha cabeça está".

Madonna fez o álbum com Justin Timberlake, que assina cinco músicas em parceria com ela e canta em quatro, Pharrell Williams e o produtor Timbaland. "Não tinha idéia do que fazer. Só sabia que queria trabalhar em parceria com Pharrell e Justin. E nós não nos entendemos logo de cara, muito pelo contrário. Compor é uma atividade muito íntima. Você tem que ficar vulnerável e é difícil fazer isso com desconhecidos. Tive altos e baixos antes que todo mundo se sentisse à vontade, mas aprendi a gostar muito de Pharrell e Justin", rende-se a cantora. Muitas das faixas são híbridas, o superpop já tradicional de Madonna, bom para fazer ginástica, abrindo caminho para o hip hop branco, com Justin Timberlake despejando cascatas de rimas. Imaginei que os fãs iriam gostar, porque o disco é cheio de canções para tocar bem alto em uma aula de spinning. Mas Britney Spears não saía da minha cabeça. Quer dizer, aqui temos Madonna, cantando com Justin, cujo fim de namoro muito público com Spears marcou o momento em que a princesa do pop deu início a sua batalha contra as fúrias. E, é claro, também estava lembrando daquele MTV Video Music Awards em que Britney, já bem encaminhada na loucura, deu um beijo na boca de Madonna. À luz deste álbum, e de tudo que aconteceu, fiquei imaginando se, no decurso daquele encontro de bocas, Madonna, de algum modo, não havia extraído a alma de Britney ou implantado nela o chip da loucura. Quando comecei a fazer perguntas a respeito de Spears - especificamente em relação aos paparazzi - Madonna me detém (antes mesmo de eu dizer o nome da princesinha) e, com a mão erguida, reconhece: "É, eu sei, eu sei... Sei exatamente o que você vai dizer. É muito triste. E isso nos faz retornar a sua pergunta: Quando se pensa na forma como todos se tratam na África e na maneira como as pessoas causam dor e fazem crueldades umas às outras, voltamos para cá e vemos gente tirando fotos de artistas sendo levados para um hospital. As imagens são vendidas, tiram tanta energia disso, é uma crueldade horrível. Então, quem está na pior? Entende o que quero dizer?"

Fiz anotações enquanto ouvia Hard Candy. Durante a audição, minha mente saía vagando a esmo. De vez em quando, Liz Rosenberg (assessora de imprensa de Madonna de longa data), que usava óculos pesados com armação escura, aparecia para ver se estava tudo bem. Mais tarde, reexamino meus escritos e encontro algumas partes que valem a pena reproduzir:

- Madonna completa 50 anos.

- Ela fez sua fortuna vendendo sexo. O que vai vender quando a idéia de sexo com ela parecer só um fetiche?

- E se só existissem as músicas - nada de videoclipes, nem filmes, nem shows. Como avaliaríamos essa trajetória?

- Que paralelo pode ser traçado entre a carreira cinematográfica de Madonna e a de Elvis?

- Primeiro você fica sozinho em uma sala de exibição e assiste a Madonna em meio a africanos, depois fica sozinho em uma sala de reuniões e escuta Madonna cantando com rappers.

- Para chegar à rainha do pop é preciso passar por várias "salas"?

Este é um grande momento para Madonna. Há o documentário (I Am Because We Are), o disco (Hard Candy), o show [Sticky and Sweet Tour, que chega ao Brasil em dezembro com duas apresentações no Rio de Janeiro, dias 14 e 15, e três em São Paulo, dias 18, 20 e 21], o livro (Madonna - A Biografia do Maior Ídolo da Música Pop, de Lucy O'Brien) e também um longa-metragem de ficção, Sujos e Sábios (Filth and Wisdom), que ela co-roteirizou, produziu e dirigiu. É sua estréia como auteur. A primeira exibição aconteceu no último Festival de Cinema de Berlim, onde recebeu resenhas desprezíveis [um comunicado à imprensa virou motivo especial de chacota, porque citava o nome de dois heróis de Madonna, os cineastas Jean-Luc Godard e Pier Paolo Pasolini, com a grafia errada] e algumas positivas. "Madonna pode se orgulhar", escreveu James Christopher no jornal The Times, de Londres. "O filme dela tem uma ambição artística que simplesmente ultrapassou Guy Ritchie [o ex-marido]. Ela captura aquela maravilhosa natureza acidental quando a vida das pessoas se cruza por um monte de razões improváveis, porém louváveis. Dizer que é altmanesco seria um elogio exagerado, mas Sujos e Sábios mostra que Madonna tem potencial verdadeiro para dirigir."

"Filmes me inspiram desde que comecei a dançar e acho que dirigi-los era um dos meus desejos secretos, mas tinha medo de chegar e dizer: 'Quero ser diretora'", admite. "Daí, um dia, pensei comigo: 'Certo, pare de sonhar e realize.' Só não queria fazer do jeito de Hollywood e falar por meio de agentes. Resolvi que tudo tinha que ser gerado por mim, por isso escrevi o roteiro."

Sujos e Sábios tem como protagonista Eugene Hütz, o ucraniano que é vocalista da banda cigana-punk Gogol Bordello, cujo estilo vocal se encontra em algum ponto entre Joe Strummer e Borat. Ele é magricelo, ostenta um bigode elaborado e é tão carismático que amarra toda a narrativa, enquanto o enredo acompanha meia dúzia de personagens em busca da verdade. "Sinto que este trabalho sofreu séria influência de Godard", Madonna confidencia, "mas há vários outros que me inspiram, todos europeus mortos. Havia um cinema na Universidade de Michigan que passava filmes estrangeiros. Quando descobri Godard achei que tinha morrido e chegado ao paraíso. Conheci também [Federico] Fellini, [Luchino] Visconti, Pasolini, [Vittorio] De Sica e [Luis] Buñuel."

Sujos e Sábios se organiza ao redor das noções e crenças filosóficas que Madonna extraiu da Cabala, palavra em hebraico que significa "ensinamento". Os cabalistas acreditam que houve duas revelações no Monte Sinai: o que Deus ordenou que Moisés escrevesse nas tábuas e um ensinamento secreto, que foi então transmitido de pai para filho. A maior parte das religiões de celebridades - e foi nisso que a Cabala se transformou em Los Angeles - oferece níveis de compreensão distintos [um para as massas, outro para a elite]. Para Madonna, a Cabala, como é ensinada no Kabbalah Centre, teve a vantagem de, aparentemente, corroborar com o que ela já acreditava ser verdade: "não existe bem e mal, nem certo e errado". Todas as distinções desse tipo são artificiais. "Em última instância, tudo é bom", adverte. "As piores coisas que acontecem com você são sempre as melhores coisas que aconteceram. Se olhar para a sua vida e refletir: 'Bom, o que foi que aprendi?' O que realmente mudou, o deixou mais forte, são os tropeços, os acontecimentos ruins."

O que torna Madonna tão genial? Não é seu trabalho como cantora, nem como compositora, nem como diretora e muito menos como atriz; não são seus videoclipes, apesar de ter sido isso que Norman Mailer disse em 1994, quando a entrevistou para a revista Esquire: "Além de fazer os melhores clipes de todos, eles também transcenderam sua personalidade. Ela foi a maior artista da música e imagem, e talvez esta seja a nova forma de arte popular norte-americana". Analise a carreira dela desde o início. Não são das músicas que você lembra, ou pelo menos não é a primeira coisa que lhe vem à cabeça. Nem são os filmes, nem os clipes: são apenas cenas ou pequenos quadros, como uma série de caixas iluminadas, cartas com rostos em um baralho marcado. Madonna como menina de rua, cheia de penduricalhos; Madonna de Marilyn Monroe, coberta de cetim; Madonna como a virgem deflorada, contorcendo-se no palco, vestida de noiva; Madonna como São Francisco de Assis, chorando por coisas frágeis; Madonna crucificada, como o filho de Deus, mas melhor do que ele, afinal, por acaso Jesus desceu da cruz para cantar?

Madonna também lançou moda com imagens que fazem referência às Escrituras, imagens que reverenciam a cultura junkie e imagens que fazem referência a outras imagens - e essa é sua verdadeira genialidade. Não há nada além de imagens, tecidas uma após a outra, como almas voando de uma roda cheia de força. São lindos artifícios, enigmas, superfícies, máscaras. Então, você chega à conclusão de que apenas a primeira Madonna era de verdade - a menina sensual de rosto redondo com luvas de renda -, mas acaba percebendo que aquele visual vinha dos clubs e dos freqüentadores das casas noturnas no centro de Nova York, no finalzinho da cena de arte da década de 70. Então, apenas a Madonna antes de Madonna era real, a menina cuja mãe morreu, que deixou os pêlos crescerem, que atazanava o pai para matriculá-la em aulas de dança. Quando volta mais uma vez e olha com atenção, esses detalhes parecem tão vagos e genéricos que a nova teoria também se dissolve. É como uma banheira cheia de espuma em que você procura e nunca encontra a mulher nua. Acredito que Madonna tenha consciência disso, o que, em parte, explica seu interesse na Cabala, que é uma busca pelo atemporal, pela profundidade. Ela está à caça daquilo que pode ser recuperado, o que vai permanecer quando estiver com 65, 70 anos. Para uma estrela pop há, de certo modo, duas mortes - ou mais. Talvez uma estrela pop morra várias vezes.

A entrevista dura quase duas horas. Liz Rosenberg me conduz até Madonna. Percorremos um corredor sem nada que chamasse a atenção, dobramos duas esquinas, atravessamos uma porta e ali, finalmente, fica o aposento no meio do labirinto. Madonna está sentada com o tronco ereto no sofá de couro. Usa um vestido branco - pelo menos é o que acho que ela está usando. Sua beleza me deixa estupefato. Quer dizer, a gente só viu esta pessoa na TV ou em filmes, em duas dimensões, e agora ela está aqui. Além disso, na minha época de escola, saí com tantas meninas porque elas se pareciam com Madonna que tive a impressão de ter rompido minhas correntes e saído da caverna de Platão para, finalmente, me deparar com a realidade.

O cabelo de Madonna é loiro e está preso para mostrar seu rosto perfeito, de porcelana, como o de Grace Kelly, em Janela Indiscreta (1954), quando ela se aproxima para beijar Jimmy Stewart. É uma visão limpa em um mundo sujo. Ligo meu gravador. Liz Rosenberg está sentada em um canto trabalhando com seu BlackBerry. Madonna fala da África. "Se você tem um mínimo de compaixão, não pode ignorar o que está acontecendo. Precisa descobrir uma maneira de fazer parte da solução." Fala de Nova York, sobre como a cidade mudou: "Não é mais o lugar excitante que era. Ainda tem muita energia; ainda coloco o meu dedo na tomada. Só que não parece viva, não estala com aquela sinergia entre o mundo da arte, o da música e o da moda que acontecia nos anos 80." Fala da indústria fonográfica: "Bom, se tem uma coisa que não dá para fazer download, é de uma apresentação ao vivo. Gosto de me apresentar, e isso sempre vou ter". Fala da carreira duradoura: "Sinceramente, não é algo em que paro para pensar. 'Quem é meu modelo de conduta e quanto tempo vou conseguir que isso dure?' Simplesmente me mexo e faço várias coisas diferentes e retorno à música, tento fazer filmes e retorno à música, escrevo livros infantis e retorno à música." Fala sobre filhos, e de como isso muda tudo. Pedi a ela que citasse seus livros infantis preferidos. Ela respondeu O Ursinho Puff, Pippi Meialonga, Horrid Henry. Digo a ela que nunca li Pippi Meialonga.

"Você tem filha?", Madonna me questiona.

Não, três filhos.

[Ela olha para mim com ar acusatório]

Não fui eu que escolhi, simplesmente aconteceu.

"Você acha mesmo? Que simplesmente acontece?", indaga.

Acho que simplesmente aconteceu.

E ela: "Hm-hm".

Então, quem toma a decisão?, pergunto.

"Você. Você e sua mulher", ela responde.

Sobre o sexo dos nossos filhos?

"A sua alma escolhe".

Não. Você acredita nisso? Que no fundo eu queria meninos?

"Inconscientemente. Sim", ela conclui.

[Essa idéia me agrada. Ter três meninos. É como um pequeno exército].

"E todo o trabalho que eles podem fazer. Você pode ensinar a eles a construir casas, por exemplo", ela avalia.

Resolvo, então, discutir a Cabala. Madonna me fita, como se avaliasse a natureza do meu interesse, e só depois fala: "Muita gente entra para o grupo, mas não sabe o porquê. Fui criada no catolicismo e nunca me incentivaram a fazer perguntas, ou a compreender o significado mais profundo ou as implicações do Novo Testamento ou da história de Jesus, sabe como é? Então rejeitei aquilo. Quem vai querer fazer coisas só porque alguém mandou? Quando comecei a freqüentar aulas e estudar [a Cabala], foi por pura curiosidade. Disseram para mim que era a interpretação mística do Antigo Testamento." Ela explica que a Cabala é uma filosofia, uma maneira de compreensão, lições. Peço, então, para que explique um pouco desses ensinamentos. E vem a aula: "A Cabala diz que somos todos responsáveis por nossas ações, nosso comportamento e nossas palavras, e precisamos realmente nos responsabilizar por tudo que dizemos e fazemos. Quando você coloca a cabeça nisso, não consegue mais pensar na vida como uma série de acontecimentos aleatórios - começa a participar dela de uma maneira diferente. Sou dona do meu destino, estou no controle. Trago isso para mim, ou me impulsiono nesse sentido. Não dá mais para culpar os outros pelas coisas que acontecem com você." E continua: "E existe ordem no universo, apesar de parecer um caos. Nós separamos o mundo em categorias: 'isto é bom e isto é ruim'. Mas a vida nos engana, e uma série de ilusões nas quais investimos. Em última instância, esses investimentos não servem de nada a nossa compreensão. Porque o aspecto físico sempre vai colocar a gente para baixo. O que é apenas físico, não dura."

Ela pára, olha pela janela. Los Angeles está lá, com as colinas cravejadas de casas, marmorizadas por ruas e ardente de luz, subindo e descendo, terminando no mar. Parecia lembrar uma daquelas paisagens cristalinas em antigos quadros religiosos em que Jerusalém é igualzinha a Holanda, não porque o pintor era burro ou não conhecia o mundo, mas porque quando se acredita, qualquer cidade é Jerusalém. "É necessário chegar a um ponto em que você não se importe se todo mundo está puxando o seu saco ou se virou pau de açoite da imprensa", Madonna admite, "só tem que continuar fazendo seu trabalho e torcer para que alguém esteja sintonizado na sua freqüência." Ela então reconhece: "Se sua alegria deriva do que a sociedade pensa sobre você, a decepção é certa".

TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA VANITY FAIR. TRADUÇÃO: ANA BAN