O Cantor do Brasil

Dez anos sem Nelson Gonçalves, o mito sem medo e sem limites da música brasileira

Por <b>Cristiano Bastos</b> Publicado em 12/12/2008, às 15h13

Rio de janeiro, 16 de abril de 1998, quinta-feira. No apartamento da filha e empresária, Margareth, o cantor Nelson Gonçalves atende ao telefonema do presidente da gravadora BMG (antiga RCA Victor), Luiz Oscar Niemeyer. A ligação trazia boas-novas. Uma festa, em alto estilo, programada para dali a alguns dias, celebraria os triunfantes 58 anos do astro na companhia. Recorde inigualável da fonografia brasileira - quiçá, mundial. Em seguida, Nelson recebeu felicitações pelo álbum Ainda É Cedo, que, editado havia três meses, já vendera mais de 150 mil cópias. Foi o último, porém, de uma odisséica carreira de sucessos. No sábado, dois dias após o telefonema de Niemeyer, nocaute: aos 78 anos, o coração impávido do "Metralha" beijava a lona: a morte desferia seu golpe baixo contra o maior cantor do Brasil. "Fui à padaria, e quando voltei, meu pai não estava mais lá", retrata a caçula Margareth. O boêmio tinha jurado cantar até 2001. Desta vez, porém, se fora para sempre.

Os dez anos sem Nelson serão bem recordados com o lançamento de jóias revolvidas diretamente de sua majestosa arca de sons e histórias. Certamente, a peça de maior valor documental é o DVD Eternamente Nelson - Especial e Registros Raros da Carreira de Nelson Gonçalves, espetáculo de gala produzido pela Rede Globo cujo som e imagem (de 1981) foram remasterizados. Os extras são "de verter lágrimas": clipes do Fantástico, aparições na TV e duetos com artistas como Martinho da Vila e Alcione - fora os francos (e divertidos) causos sobre vida e obra que ele desfia dentro de um ringue, seu habitat fora dos palcos. A Sony/BMG, detentora dos fonogramas do cantor, também prepara reedição especial de seu primeiro LP, Nelson Interpreta Noel (1954). Contudo, o regalo mais intimista do pacote é a publicação de O Canto que Me Embalou - Poemas para Meu Pai, Nelson Gonçalves, livro escrito por Marilene Gonçalves, sua filha com a primeira esposa, Elvira Molla, em que reparte detalhes subjetivos da sua intimidade paterna. Da educação sexual à literária, o pai ensinou-lhe tudo, reverencia a filha mais velha: "Fomos morar juntos quando ele se divorciou de Lourdinha Bittencourt. Nos domingos, a gente ia à TV Rio para ver as lutas de boxe. Íamos a pé, conversando. Papai me contava sobre os randevus da Avenida Atlântica e o que as meninas virgens faziam lá... Ele falava comigo como se fosse um amigo e não como a filha de 17 anos".

Você lê esta matéria na íntegra na edição 27, dezembro/2008