Saga de Sangue

Por Maurício Monteiro Filho Publicado em 22/12/2008, às 12h52

Darly Alves cumpre prisão domiciliar na fazenda Paraná

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Em busca da Xapuri de Chico Mendes, 20 anos após seu assassinato, nossos repórteres se deparam com mais um crime bárbaro envolvendo o clã dos Alves e a constatação de que a cidade do maior ambientalista brasileiro é o palco onde se desenrola a saga da família que inspira respeito pelo medo

É um dia normal na fazenda Paraná, que fica a uns 20 quilômetros de Xapuri, no Acre: um caminhão vem buscar algumas cabeças de gado recém-vendidas, cartuchos de armas de fogo estão espalhados pelo gramado, ontem houve um assassinato torpe na propriedade. Uma segunda-feira cinzenta como outra qualquer na vida do mineiro Darly Alves da Silva, de 74 anos, fala mansa, que cumpre regime de prisão domiciliar na propriedade.

Estou sentado ao lado dele, que é conhecido no Brasil por ter sido condenado como mandante da morte de Chico Mendes. Do outro lado, de chapéu preto e atento ao menor ruído, está Alvarino, seu irmão, que, apesar de ter se envolvido em tantos crimes como Darly, se não mais, nunca se tornou famoso. Talvez por ter fugido a vida toda.

Mas essa história - uma busca pela verdadeira face de Xapuri, 20 anos após a morte de Chico Mendes - tinha começado dias atrás.

Os 189 quilômetros da BR-317 entre Rio Branco, capital do estado, e Xapuri já começavam a ficar conhecidos. Era a segunda vez que fazíamos o mesmo percurso em dois dias. Mas, desta vez, a cabeça ia muito mais cheia. Nas últimas 24, um assassinato brutal parecia estar nos afastando de nosso principal objetivo no momento: entrevistar Darly.

Agora, são 11 horas da manhã de segunda-feira, 17 de novembro. Ontem, no mesmo horário, um tiro de espingarda .16 era disparado, pelas costas, na nuca da namorada de Darly, Francisca Vanderléia Martins, de 38 anos. Ela descansava numa rede, no alpendre de uma das casas da fazenda Paraná, propriedade de Darly, enquanto esperava cozinhar o doce de leite que fazia. As imagens forenses da vítima são capazes de embrulhar o estômago até dos policiais que cuidam das investigações.

Segundo o depoimento do próprio Darly, que cochilava em um quarto ao lado de onde ocorreu o assassinato, ele chegou a tempo de vê-la ainda agonizando, voltar a seu quarto, descobrir quem tinha matado sua namorada e retornar ao terraço, gritando - "Zezinho, mata eu, rapaz! Mata seu pai, safado, sem-vergonha! Matar uma pessoa que nunca te fez mal...Vem matar eu!" - e correr em direção à estrada em busca de socorro.

Zezinho é José Góes Neto da Silva, de 18 anos, um dos 26 filhos de Darly. O garoto, que fugiu para Rio Branco, foi encontrado pelo delegado de Xapuri, Mardilson Vitorino, comendo um lanche numa padaria, ainda no fim da tarde de domingo. Foi preso e levado a Xapuri.

Por conta disso, nossa madrugada tinha sido longa. Alternávamos entre procurar as repercussões do crime nos veículos de imprensa locais e nacionais e ligar para o advogado de Darly, que intermediava nosso contato com o fazendeiro fazia algumas semanas, na tentativa de salvar nossa entrevista. Às vésperas do aniversário de 20 anos da morte de Chico Mendes, já era esperado um enxame de jornalistas em Xapuri, repetindo exaustivamente as mesmas matérias que vêm sendo feitas a cada aniversário do assassinato do líder seringueiro. Até o dia anterior, nós - repórter e fotógrafo - éramos apenas mais dois deles. E parecia que a morte de Léia, como Darly chamava a mulher com quem namorava havia cinco anos, atrairia ainda mais holofotes para a cidade.

Por isso, nossa ida à fazenda Paraná era uma corrida contra o tempo. As várias ligações para o advogado de Darly não tinham ajudado nem um pouco a garantir que teríamos a entrevista. Passamos rapidamente por Xapuri, onde pedimos que um policial nos acompanhasse para indicar exatamente onde ficava a fazenda.

Os 4 mil hectares da propriedade se espalham dos dois lados da BR-317. Da porteira de entrada da sede, sem nenhum letreiro, se avistam algumas centenas de cabeças de gado. De resto, a fazenda parece desolada: algumas casas de madeira e trechos esparsos de mata. Darly demonstra orgulho ao falar de suas terras. "O primeiro pau que foi derrubado aqui fui eu. Comprei de uma vez 400 arrobas de arame, queimei tudo [a floresta], e fiz a cerca", narra, mostrando que considera vanguardismo o que para seringueiros e ambientalistas é uma ofensa...

Você lê esta matéria na íntegra na edição 27, dezembro/2008