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Britney, o Retorno

Por <b>Jenny Eliscu</b> Publicado em 09/01/2009, às 14h47 - Atualizado em 10/05/2012, às 10h40

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Depois de um período conturbado, a princesa do pop está de volta ao trabalho e se diz cada vez mais longe dos problemas. Mas Britney Spears, que, segundo seus pais, é "uma criança adulta vivendo a agonia de uma crise de saúde mental", paga um preço alto para manter sua vida sob controle (dos outros); veja vídeo com os bastidores, no fim deste texto

As pessoas próximas de Britney Spears sabem de uma coisa muito bem: quando ela está loira, fica feliz. Quando ?ca morena, é sinal de tristeza; se escolhe o cor-de-rosa, está louca. No segundo semestre de 2008, o cabelo dela voltou a um dourado brilhante enquanto ela passava o tempo indo e vindo de sua mansão em Beverly Hills, com muita diligência, para ensaiar coreogra?as e gravar, na preparação para seu novo álbum, Circus. Foi uma transformação comple-ta, depois de um ano em que passou um mês em um programa de desintoxicação, viveu uma batalha brutal de guarda sobre os ?lhos com o ex-marido, Kevin Federline, e foi na direção de um colapso de enormes proporções – e muito público – que culminou em duas internações psiquiátricas. “Hoje eu me sinto uma velha”, Britney confessa, enquanto a manicure aplica diamantes falsos e um cor-de-rosa de menininha em suas unhas roídas. “É verdade! Vou para a cama às nove e meia toda noite, e não saio nem nada, sabe como é? Sou uma velha caquética.”

O sono de beleza lhe fez bem. Estamos em um estúdio em Hollywood. Ela usa jeans preto, saltos plataforma e um casaquinho com capuz ofuscante – há anos Spears não se parece tanto com ela mesma. Está maquiada, mas as cores estão desbotadas na medida certa para parecer que são de ontem. A cantora pensa em se livrar dos apliques que usa desde que raspou a cabeça, em 2007, e quando conta as tatuagens que tem – “Sete! Ai, Meu Deus, caramba!” – se joga no sofá em meio a risadinhas e chuta o ar. A princesa do pop sempre foi assim: bobinha, adorável, humilde. Nunca foi muito articulada, mas sempre tenta ser solícita. Nesta noite, está ouvindo os mixes e terminando de trabalhar em uma faixa chamada “Lace and Leather” [renda e couro]. Pergunto como sabe quando uma música vai fazer sucesso. “A gente só ouve e fica: ‘Ai, Meu Deus’. E, se outra pessoa gravar essa música, dá vontade de morrer, sabe como é? Esta que estou fazendo hoje, acho que é boa, é esquisita, diferente e de menininha de verdade”, responde. “Meio safadinha”, adianta o empresário dela, Larry Rudolph, 45 anos, sentado ali perto, usando camiseta e jeans. “Um pouco safaditcha”, a cantora concorda, em tom meio acanhado.

Spears também está diferente desde a última vez em que a vi em 2006, quando passamos um tempo em um quarto de hotel em Nova York, assistindo a American Idol, enquanto Sean Preston, um dos filhos dela, engatinhava na cama perto da TV. Ela está mais tímida, mais cuidadosa, distante – como a velha Britney, mas com o volume mais baixo. Seu último sucesso, “Piece of Me”, falava de sua imagem pública [“I’m Miss Bad Media Karma / Another day, another drama” – “Eu sou a Senhorita Carma Ruim da Mídia / Mais um dia, mais um drama”], mas ela diz que não tem certeza se está disposta a incluir algo assim tão revelador em Circus. “É assustador se expor. Mas não dá para fazer nada pela metade.” E então, como se tivesse mudado de idéia no meio da frase, completa: “Às vezes, quando você mete as caras, não tem como fracassar”.

Entre todas as coisas que Britney perdeu nos últimos tempos, o que mais a abalou foi a perda da guarda dos filhos, Sean Preston, de 3 anos, e Jayden, de 2. “Cada vez que eles vêm me visitar, fico pensando em como são pessoas especiais”, admite. Atualmente, vê os meninos três vezes por semana, com uma noite passada em sua casa. “Eles já estão na escolinha! Fui lá buscar os dois na sexta... vê-los naquela classe pequenininha. Eles são meus, e isso é simplesmente louco. E as coisas que saem da boca deles agora – estão aprendendo muito, a gente nunca sabe o que vão dizer; e são tão inteligentes e, ao mesmo tempo, tão inocentes. Estão obcecados por monstros. Toda noite olhamos para fora de casa e precisamos mostrar para eles que não tem nenhum monstro por lá. Que está escuro, mas não tem nada lá, sabe?”

Desde criança, na infância passada em Kentwood (Louisiana), Brit sonhava em ter filhos. Considerou a experiência “a coisa mais próxima de Deus”, como disse em uma nota em seu site para os fãs, em 2004. “Para ser uma mãe boa de verdade, acho que a criança precisa que esse seja seu emprego em tempo integral. Quero criar meus filhos e compartilhar todos esses momentos preciosos com eles.” Entretanto, as coisas não aconteceram como ela imaginava. “Não achei que meu marido fosse me abandonar”, explica, sem demonstrar emoção, e dá risada para quebrar a tensão. “Senão, ficaria com os meus filhinhos 24 horas por dia, sete dias por semana. Mas como eles são quase gêmeos, um cuida do outro. Acho que se parecem comigo”, ela fala enquanto seu humor passa de afável a amargo, quando se distrai pensando em Kevin Federline – que só vê quando um dos dois pega os meninos. “Eles não se parecem em nada com o pai”, prossegue. “E é estranho... porque estão começando a aprender palavras como ‘idiota’. E Preston agora solta aquela que começa com ‘F’ de vez em quando. Ele não aprendeu isso com a gente. Eu digo isso, mas não perto deles.”

Claro que Britney também não se revelou exatamente um modelo de mãe e foi seu próprio comportamento instável que a fez perder a guarda. Durante a segunda visita de Britney à ala psiquiátrica, quando seu pai, Jamie, tentou convencê-la a deixar que ele tomasse as rédeas de tudo, também lhe disse que a ajudaria a pegar os filhos de volta. Ele e o advogado Andrew Wallet entraram com um mandado de tutelagem que os faz responsáveis pela supervisão das finanças e da vida pessoal dela – hoje Britney tem mais ou menos tantos direitos legais quanto tinha desde que trabalhava no Clube do Mickey. Ela é observada dia e noite por seguranças que Jamie contratou (e que são pagos por ela); também há boatos de que as ligações são monitoradas de perto e que Britney não tem permissão para dirigir seu próprio Mercedes. Uma fonte ligada ao entourage da artista conta que, recentemente, Jamie despediu um segurança que deixou a cantora usar o telefone dele (os representantes dela negam a alegação). “Não existe emoção, não existe paixão”, Spears conta em um raro arroubo em Britney: For the Record, documentário exibido nos Estados Unidos em novembro do ano passado pela MTV (no Brasil, foi veiculado no Sony, na primeira semana de dezembro). “Quando você vai para a cadeia, sabe que vai ter a hora de sair. Mas, nesta situação, nunca termina. Se não estivesse sob tantas restrições, me sentiria tão livre...”

Há anos, Britney se desentende e faz as pazes com os pais. “Ela tinha medo de que eles levassem embora tudo que tinha trabalhado para conquistar”, esclarece um ex-amigo. No entanto, os reais problemas são mais profundos: como a mãe, Lynne, documenta em seu recente livro de memórias, Through the Storm (através da tempestade), o alcoolismo de Jamie levara a “brigas de derrubar e sair arrastando pelo chão” durante a infância de Britney, e ele, com freqüência, se ausentava de casa, em bebedeiras. Em 2000, Britney mandou construir uma casa em Kentwood para Lynne. Seus pais se divorciaram em 2002, mas nunca romperam relações completamente – fontes próximas de Brit dizem que ela se sentiu traída pelas reconciliações deles. “Às vezes, ligava para a mãe e Jamie atendia”, recorda uma fonte próxima. “Ela se sentia como se estivessem se aproveitando dela.”

Sob o comando de Jamie, no entanto, a carreira de Britney se ergueu dos mortos. Em abril, ele recontratou o ex-empresário dela, Larry Rudolph, um homem do Bronx sem meias-palavras que começou a trabalhar com Direito no setor do entretenimento antes de descobrir Britney, em 1995. A cantora tinha rompido com Rudolph em abril de 2007, acusando-o de se juntar aos pais dela para forçá-la a se internar para uma desintoxicação. Rudolph compara sua relação com Britney à de Elvis Presley e o “Coronel” Tom Parker, mas ?ca pouco à vontade quando lhe perguntam como Jamie a ajudou a melhorar. “Não posso falar sobre ele, porque não tenho permissão”, justi?ca. “Só posso dizer que, de maneira geral, existe uma estabilidade na vida dela agora que acredito ser positiva.”

Semanas depois da implementação da tutelagem, Britney voltou a malhar. Ela e o pai foram passar férias na Costa Rica com Mel Gibson, outro que recentemente passou por processo de desintoxicação, e a mulher dele, Robyn. Por seu bom comportamento, ela conquistou a ampliação das visitas aos filhos. E, no início do segundo semestre de 2008, com cerca de 30 músicas gravadas, Britney Spears estava oficialmente de volta à ativa. “Algumas pessoas questionam a posição dela como ícone neste momento”, Rudolph declarou, algumas semanas depois de ela receber três prêmios da MTV no VMAs. “Mas este álbum diz a todo mundo que ela está aqui para ficar. Circus vai consolidar a posição dela como lenda.”

Em setembro de 2008, “Womanizer” (mulherengo), o primeiro single de Circus, estreou na primeira posição do Hot 100 da Billboard e, em novembro, o vídeo foi o clipe mais assistido no YouTube, com cerca de 16 milhões de acessos. Circus, lançado em 2 de dezembro, aniversário de 27 anos de Britney, traz o pop clássico da cantora, atualizado com um tipo de som kitsch para a pista de dança e um toque de eletro (que ela já explorou em seus dois trabalhos anteriores). Além de colaboração do produtor Dr. Luke, que escreveu hits de pop-rock para Kelly Clarkson (“Since U Been Gone”) e Katy Perry (“I Kissed a Girl”), ela voltou a se juntar ao produtor de “...Baby One More Time”, Max Martin, e também aos principais responsáveis pelas batidas de Blackout (2007): Danja e a dupla de produção Bloodshy e Avant. E Circus também tem uma balada épica de contorcer as entranhas: “Out from Under”, um cover produzido por Guy Sigsworth e anteriormente gravado por outra cantora para a trilha sonora de Bratz (2007), mas a situação expressada em versos como “I don’t want to feel the pain (...) I’ll get it all figured out, when I’m out from under” [não quero sentir dor (...) vou resolver tudo quando sair de baixo

“Ela sempre escolhe as faixas que não se parecem com nada já feito”, conta a compositora Nicole Morier, de Los Angeles, que escreveu nove canções com Spears em meados de 2008. “Britney não tem medo de dizer o que pensa nem de experimentar. É uma menina gentil e quietinha, mas está disposta a agarrar as coisas com unhas e dentes.” Apesar de as contribuições de Spears como compositora variarem de uma faixa a outra, Morier diz que uma das coisas de que mais gosta na cantora é que ela não quer provar que é capaz de compor sozinha. “Ela é profissional”, Morier prossegue. “E conhece suas limitações.”

“Tentamos manter o padrão o mais elevado possível para esses hits”, diz a relações-artísticas de Britney, Teresa LaBarbera-Whites, que passou o pente-fino em centenas de demos à procura das faixas de Circus. “As pessoas têm que escutar no rádio e dizer: ‘Certo, ela conseguiu de novo!’. Queira você reconhecer ou não, já dançou pelo quarto de sutiã e calcinha ouvindo as músicas dela ou já cantou junto no carro. Todo mundo fez isso. Então, a gente quer colocar para tocar sabendo que as pessoas vão chapar com isso, porra.”

Capitalizar na fascinação do público com as provações pessoais agitadíssimas da princesa do pop pode ser uma estratégia lucrativa para as revistas de celebridades, mas a marca Britney Spears sempre tem melhor desempenho quando ela está loira. A ampla maioria de seus milhares de jovens fãs pelo mundo só deseja que sua Brit seja feliz – sentimento que expressam em letras maiúsculas e muitos pontos de exclamação em message boards e sites de fãs. As pessoas que estão em posição de lucrar se Circus for um sucesso – incluindo a própria cantora – têm muito a ganhar ao apresentar a imagem daquela Britney que nós tanto amávamos. E ela mostrou sinais de ser altamente funcional: ?lmou dois vídeos, fez o documentário da MTV e se juntou a Madonna e se apresentou para 50 mil pessoas no Dodger Stadium, em Los Angeles. No primeiro semestre de 2009, espera-se que dê início a uma turnê que terá cenário de circo de verdade, completo, com contorcionistas e animais vivos.

Quando fui apresentada a Jamie Spears no backstage dos Video Music Awards, ele me cumprimentou com um aperto de mão e disse: “Cuide bem da minha menina”. O “senão você vai ver só uma coisa” estava implícito. Homem que mais parece um urso com olhos azuis penetrantes, Jamie – e os advogados do mandado de tutelagem – di?culta conversas profundas com a ?lha dele. Entrevistar Britney é um processo de microgerenciamento rigoroso – nunca ?camos juntas sem mais ninguém presente e minhas questões tiveram que ser submetidas à aprovação. Entre os temas aceitáveis estavam o álbum novo dela, os ?lhos e praticamente nada mais. Brit não responderia nada a respeito do ano que passou e vetaram uma pergunta tão direta quanto: “Você tem opinião formada sobre a eleição presidencial?”.

Jamie se recusou a ser entrevistado, e, quando conversei muito brevemente com Lynne, ela se ateve a amenidades. Perguntei como se sentia ao ver a ?lha em espiral descendente de longe, na época em que as duas mal se falavam, e ela respondeu: “Nem preciso dizer que ?quei com o coração apertado e magoada por causa da minha ?lha. Mas esse capítulo está acabado, ?car remoendo e pensando demais nesse tipo de coisa não é saudável”. Com seu jeans True Religion e o cabelo curto com luzes, ela poderia ser Sarah Palin em uma sexta-feira casual, falando naquele tom lento e condescendente de uma professora de jardim de infância. “Nós olhamos para a frente e não há nada além de coisas boas e maravilhosas no futuro”, prevê Lynne. “Fiquei preocupado quando vi várias das coisas por que ela estava passando”, completa Rudolph, que também observou de longe a queda de sua pupila. “Mas isso tem a ver com a jornada de Britney – que a levou para este lugar agora que é muito melhor. Quer dizer, ela ainda não chegou lá, está se recompondo, está produzindo, e tem uma relação fantástica com os ?lhos. Ela é muito feliz hoje.”

Quando o mandado de tutelagem foi instaurado, em fevereiro de 2007, Jamie e Lynne divulgaram um comunicado descrevendo Britney como “uma criança adulta vivendo a agonia de uma crise de saúde mental”. O plano original era que essa fosse uma medida temporária, porém os advogados de Jamie retornaram aos tribunais repetidas vezes para fazer com que o alcance e a duração do acordo se estendesse para garantir a ele maior autoridade sobre suas decisões legais e pessoais (é muito raro que qualquer adulto jovem que não sofra de alguma doença muito grave tenha seus direitos atribuídos a um tutor. Mas o sistema de tutelagem não segue os mesmos padrões de evidência exigidos pelos tribunais criminais, e muitas pessoas que estão sob esse tipo de tutela na Califórnia e em outros lugares reclamam que a lei lhes nega injustamente suas liberdades civis). No dia 28 de outubro, os advogados venceram a ação para transformar a tutelagem em permanente – isso signi?ca que, se o mandado não for contestado, pode continuar valendo até a morte de Jamie.

Britney perdeu o direito de contratar seu próprio advogado; em vez disso, é atendida por Samuel Ingham III, indicado pelo tribunal. Ele recebe até US$ 10 mil por semana para representá-la e não apareceu no tribunal para apresentar objeções, apesar de ela inicialmente ter rejeitado a providência. No dia 6 de fevereiro – o mesmo dia em que o hospital da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, lhe deu alta antecipada porque os médicos disseram que ela tinha se estabilizado o su?ciente para que não pudessem mais segurá-la contra sua vontade –, Spears entrou no carro de um paparazzi e foi ao hotel Beverly Hills para uma reunião com seu empresário na época, Howard Grossman, e depois para o escritório do advogado Adam Streisand, que tinha contratado para lutar contra a instauração da tutelagem. Em um e-mail de linguagem forte datado de 2 de fevereiro, Streisand escrevera aos advogados da tutelagem de Jamie: “Fui informado de que vocês ligaram para Ron Rale [ex-advogado de guarda de Spears] e disseram a ele que Britney foi considerada inapta. Isso é falso, todos sabem disso. A?rmaram ainda que o Dr. Rale não tem direito de se reunir com sua cliente sem a aprovação dos tutores temporários. Isso não é verdade”. Ele então acusou a tutelagem de orquestrar “nada mais do que uma tomada de controle hostil da nossa cliente por motivos impróprios”. Alguns dias depois, no tribunal, Streisand disse que Britney “exprimiu desejo muito forte de que seu pai não fosse indicado como tutor. Ele se afastou dela e isso estava lhe causando ainda mais estresse”. O tribunal, no entanto, concordou com os advogados de Jamie, que argumentaram que Britney não tinha competência para contratar seus próprios dwfensores; derrubaram a petição de Streisand para que a tutelagem fosse coexercida por Grossman, e Streisand se afastou do caso.

No dia 14 de fevereiro, o irmão de Britney, Bryan, 31 anos, venceu sua ação pedindo para ? car responsável pelo fundo que Britney tinha estabelecido em 2004 como receptor principal de seus ganhos. Britney e Bryan eram muito próximos na época, e ela o nomeou sucessor cogestor do fundo. Bryan argumentou que a indicação de tutores para a irmã provou que ela não era capaz de controlar o fundo. Mais ou menos na mesma época, a cantora pediu a uma amiga que ?zesse uma ligação conjunta ao advogado Jon Eardley para discutir a possibilidade de contestar a tutelagem mais uma vez. “Só quero minha vida de volta”, dá para ouvir Britney dizendo em uma ?ta da ligação (no mundo dela, as pessoas gravam seus telefonemas). “Quero ter a possibilidade de dirigir meu carro. Quero poder morar na minha casa sozinha. Quero poder dizer quem vai ser meu segurança.”

Está claro que a tutelagem ajudou a devolver à vida de Britney certa medida de normalidade. Hoje ela tem acesso aos ?lhos, voltou a trabalhar e já não passa mais as noites em disparada por Los Angeles, seguida por uma matilha de paparazzi. Mas será que a cantora está realmente feliz ou pelo menos bem ajustada? É difícil dizer. “Britney vive em um mundo que poucas pessoas são capazes de imaginar”, Rudolph observa. “Todo mundo pensa: ‘Ela é rica e famosa. Deveria ser feliz. Não deveria reclamar’. Ela realmente não ?ca reclamando, mas as pressões que existem sobre alguém como ela são impensáveis para um cidadão comum. São reais e podem acabar com a gente de um jeito que ninguém é capaz de imaginar. O trabalho dela é ser Britney Spears e, infelizmente, isso também se in?ltra na vida pessoal e cria a situação estranha de precisar ter seguranças ao redor de si o tempo todo. Não é algo que aconteça naturalmente e acho que ela luta com isso em seu cotidiano.”

Rudolph diz que o próximo passo na recuperação de Britney é um namorado novo – “é uma garota que gosta de relacionamentos” –, e ela já começou a sair com alguns pretendentes. Por enquanto, ainda não apareceu nenhum vencedor na corrida para se tornar o próximo Sr. Britney Spears. Em um encontro recente – com o assistente dela, Brett, e Adam Leber, colega de Rudolph a reboque –, ela disse ter pedido a sobremesa primeiro para acabar logo com aquilo tudo. “Chegamos lá e já vimos que estava ruim”, ela comenta, soltando-se um pouco. Meninos sempre estiveram entre seus temas preferidos de conversa, e Britney relaxa imediatamente com a chance de falar mal do candidato. “Ele parecia uma versão mais velha do Harry Potter, só que mais magro”, conta. “E nós simplesmente começamos a dar gargalhadas, por isso precisei pedir a sobremesa primeiro. E, no outro encontro que tive, o cara era alto, de verdade, e muito mais velho. Logo antes de a gente chegar lá, o Brett ?cou: ‘Como você acha que ele vai ser?’. E eu: ‘Aposto que é um tipão maneiro de Los Angeles’. E era mesmo. A gente ?cou tentando fazer perguntas: ‘Certo, você gosta de artes marciais, de que tipo de arte marcial?’. E ele: ‘Ah, de todos’. Daí ele veio dizendo que ia para Bagdá ensinar aos soldados. E comecei a pensar: ‘Será que esse cara só está falando merda?’. O que ele faz? Mas você sabe como nós somos bobos, então só dávamos risada.”

Em alguns momentos, o véu de Britney se ergue o su?ciente para que se veja a antiga fagulha dela. Na última vez que a vi, ela estava coberta de suor, usando um top sem manga incrustado de strass e calça de plush azul, treinando passos para o vídeo de “Circus” na Academia Internacional de Dança de Hollywood. Ela está tranqüila, rodeada por sete bailarinos, todos suando igualmente para aprender a mesma coreogra?a. Ela toma emprestado um boné vermelho de um dançarino com cara de bebê chamado Tucker, coloca-o no lugar da cartola que vai usar no clipe e joga o boné longe com bravata ?ngida. Mais tarde, esforça-se para descobrir como fazer estalar seu chicote de domador de leões. “Não quero que seja assim tão forte”, reclama e cora depois de algumas tentativas frustradas, então ergue o braço cheia de con?ança e... thwack! Ela cai na gargalhada, rindo de si mesma.

Naquele momento de faz-de-conta, ?nalmente parece feliz, liberada por sua capacidade de se transformar em outra pessoa. Até Britney reconhece isso. Ela descreve para mim uma canção que compôs em 2007, “sobre a farsa de quem atua ou faz performance”, como prefere explicar. “Por meio disso, você cria seu próprio mundo. A música fala sobre como outras pessoas entram no mundo de alguém sem terem sido convidadas. É complicado, mas dá para ver que fui eu que escrevi, porque é minha voz, e isso faz toda a diferença.”