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Insustentável Sem-Vergonha

Com a fama de maníaco-depressivo (drogas! drama!) e o dom para misturar moda refinada com cultura popular, Marc Jacobs construiu um império. Agora, o maior estilista norte-americano embarca na transformação mais ambiciosa que já fez na vida: a de si mesmo

Por <b>Vanessa Grigoriadis</b> Tradução: Ana Ban Publicado em 08/01/2009, às 16h45

Em uma noite fria de Nova York, Marc Jacobs fuma um cigarro em frente ao Museu do Brooklyn. Ele tem o cabelo tingido de preto-azeviche, usa um terno verde-berrante e exibe brincos de diamantes com um número excepcional de quilates. "Eles custaram US$ 50 ou US$ 100 mil, não sei", comenta o estilista, abanando a mão para não dar importância ao fato. Lá dentro, acontece uma festa gigantesca em homenagem a sua colaboração com o artista japonês Takashi Murakami, com quem ele criou uma linha de bolsas. Mas Jacobs prefere ficar na porta fazendo comentários sobre as celebridades. Ele tira uma câmera do bolso. "Preciso de algumas fotos para o MySpace", explica. "Eu me sinto muito solitário, e o MySpace me ajuda."

É difícil imaginar Marc Jacobs sentindo-se solitário, mesmo que haja algo de très tragique em um gay de 45 anos que ama o MySpace. Como se estivesse aproveitando a deixa, Kristin Davis, a morena de Sex and the City, passa apressada. "Eu amo Marc", ela se derrete. "Ele é muito gentil, generoso e honesto." Anna Wintour, editora da Revista Vogue e uma de suas defensoras mais antigas, dá um beijo na bochecha dele. "Marc sempre apoiou as artes, esta noite fecha o ciclo", ela completa. Na sequência, Kanye West agarra Jacobs em um abraço de urso. "Este cara é o meu ídolo. Ele é muito cool." West passa rápido por modelos de fibra de vidro em dimensões gigantes que mostram uma mulher lactante, cujas excreções formam uma corda de pular, e um rapaz se masturbando, cujo esperma delineia um laço de caubói improvável. "Adoro as esculturas dos peitões e do cara segurando o pênis", ele solta, cheio de animação. "Quero isso no meu apartamento. Assim, quando as pessoas entrarem, vão saber que tudo é possível."

De certa maneira, Marc Jacobs foi quem possibilitou essa cena. Com seu gosto por moda refinada (Louis Vuitton) e celebridades populares (Lil' Kim), ele ajudou a disseminar o atual entusiasmo pela perversidade na arte e a "fofura explícita" (ursinhos de pelúcia!) combinados com o cool clássica (Sonic Youth). Assim como West e Murakami, Jacobs tem a fome do artista pop de ser adorado pelas pessoas certas, e por todas ao mesmo tempo.

Hoje à noite, essa sensibilidade moderna ganha sua celebração. Já rumo aos 50 anos, o criador (mitificado pela mídia) se transformou em um dos raros estilistas cuja estética transcende as roupas que produz, cujo nome é conhecido das massas e cujo alcance se estende muito além de uma marca. Jacobs já não veste mais as pessoas para o mundo: ele tem papel ativo na criação do estilo de hoje. "É isto que está acontecendo na moda dos Estados Unidos neste momento: a garotada parece tão animada e esquisita", Jacobs se pronuncia, referindo-se ao público presente ao museu. Ele faz uma pausa e volta com um raciocínio à la Warhol: "Parece que todo mundo devia ter um contorno preto ao redor de si, como um desenho".

No início desta década, o criador ganhou destaque essencialmente por transformar meninas andróginas de sapatilha e meninos de óculos com camisa enfiada para dentro da calça em uma coisa sexy e por popularizar visuais pudicos como o de Chloë Sevigny. Hoje, está à frente de um negócio multibilionário, com marca própria e na posição de estilista-chefe da Louis Vuitton. É considerado o único designer norte-americano que interessa, já que Calvin [Klein], Ralph [Lauren] e Donna [Karan] foram deixados de lado. Há muito tempo a cineasta Sofia Coppola é sua musa, e entre as outras "Marcoletes" estão Courtney Love e Winona Ryder (famosa por ter roubado roupas dele da loja Saks). "Adoro anjos caídos", Jacobs já declarou. "Existem garotas que cometem erros, e eu simplesmente gosto disso. É muito difícil ser alguém em público e ser humano e honesto ao mesmo tempo. Estou falando de um anjo obscuro, uma alma despedaçada."

Você lê esta matéria na íntegra na edição 28, janeiro/2009