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Jim Carrey

Ele protagoniza filme comparado – sem pretensões – ao que a nova presidência representa para os Estados Unidos: "A era do sim"

Carolina Requena Publicado em 10/02/2010, às 11h38 - Atualizado em 10/10/2016, às 18h15

"Precisava deste filme para expressar como me sinto em relação à vontade de me jogar na vida", Carrey explica por que aceitou rodar a comédia Sim Senhor.
Melissa Moseley/Warner Bros. Pictures/Divulgação

"Ah, que bom, meu xixi chegou!", exclama Jim Carrey, 47, ao microfone, quando um assessor põe à sua frente um jarro com um líquido dourado. "Estou reciclando", ele amarra a piada, arrancando gargalhadas dos jornalistas na entrevista de lançamento da comédia Sim Senhor, em Los Angeles. Influenciado pelo papel de um homem que, por meio de uma seita, passa a dizer sim para tudo, ele reconhece: "Todo tipo de auto-ajuda é bom".

Quem é o cara mais engraçado do cinema?

O Marlon Brando, porque ele era muito desrespeitoso com o momento. Sempre. E isso me faz gargalhar. Alguém que se permite fazer isso [arregala os olhos para o teto e segura o queixo]... E é maluco, porque ao mesmo tempo se trata de respeito. Você chega a um nível de domínio que pode pensar: "Vou me permitir, vou fazer o que quero e deixar rolar". Mas, entre os comediantes, Buster Keaton.

Você se importaria em contracenar com Adam Sandler ou Ben Stiller?

Não, adoro a idéia de alguém fazendo coisas engraçadas à minha volta. [Em Sim Senhor], o elenco todo mandou muito bem. Adoro ver essas pessoas em ação me fazendo rir, e isso também tira um pouco da pressão sobre mim. É divertido, é como jogar tênis... Eu trabalharia com todos esses caras, adoraria.

Você foi indicado cinco vezes ao Globo de Ouro e ganhou por dois papéis dramáticos. As grandes premiações não valorizam papéis cômicos?

Hum, não gosto de acreditar em limitação, então diria: "Não". Acho que as coisas são tão limitadas quanto a mentalidade das pessoas. Se a consciência coletiva... Se eles não reconhecem papéis cômicos, é nosso dever virar e dizer: "Não existem barreiras". Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), por exemplo, ganhou o Oscar.

Você prefere ser um ator dramático ou um comediante?

Gosto de ser os dois, completamente atracados, e então, saio correndo para a casa e arranco meus cabelos, dizendo [os dedos lutando sobre a mesa]: "Você é engraçado, você é dramático, você é engraçado, você é dramático, você é engraçado, você é dramático, ooooooh, pooow!". É isso o que tento fazer. É muito difícil. Mas, sabe, é só criatividade. Comigo é "O que tem no cardápio?" Não prefiro um gênero ao outro, mas me diverti muito fazendo Sim Senhor. Todo mundo separa comédia e drama, mas eles vêm da mesma coisa, de uma vontade de expressar algo, provavelmente uma dor. Os filmes são feitos por pessoas que sentem dor para outras pessoas que também sentem dor.

Você acha que Sim Senhor vem a calhar na época que vivemos? [Os outdoors do filme dizem "A era do sim começou"]

É sobre abraçar a vida... E isso é positivo, é bom.

Você já recorreu a qualquer tipo de auto-ajuda?

Todo tipo de auto-ajuda é bom. Sou a favor de as pessoas recorrerem a tudo o que estiver ao alcance delas. Adoro a seção de auto-ajuda da livraria. Não devemos parar nunca de comprar livros de auto-ajuda e ouvir diferentes filosofias até descobrir o que precisamos. Em algum momento, você terá sua própria percepção, construída a partir de um bilhão de respostas, dadas por um bilhão de pessoas. É sempre bom, é um ótimo caminho.

O que te faz dizer sim para um filme?

Dinheiro puro [gargalhadas]. Não. O filme encontra você, penetra na sua consciência, você lê o roteiro e é como gostar de uma mulher, você não sabe por que gosta, muitas vezes até o fim do processo. Precisava desse filme para expressar como me sinto com relação à vontade de me jogar na vida, de mostrar algo positivo sobre o universo. É meio brega, mas é isso aí.

Você se arrepende de ter dito sim para alguma coisa? E de ter dito não?

Bem, na maioria das vezes, as coisas de que você se arrepende são aquelas para as quais você diz "não", porque quando você diz "sim", pelo menos terá um aprendizado. De ter dito "sim"... Bom, eu fui casado duas vezes, foi difícil [risos], e uma vez pus minha língua em uma bateria de barco. Alguém disse "faz isso", e eu fiz. [Expressa um choque com a cara]. Foi horrível.

Você faz comédia física. Se preocupa com ferimentos?

Fraturei três costelas na cena [de Sim Senhor] em que trombo com a bandeja da garçonete e caio. Eu tinha um plano para aquela cena. Já fiz muitas quedas, mas naquele momento específico, algum pensamento invadiu minha cabeça na metade do tombo, do tipo:"Não seria incrível se eu conseguisse encaixar todos os meus membros no quadro?". E bati no chão com tanta força, sobre o ombro, que fraturei três costelas.

No dia do salto de bungee jump [para o filme], você hesitou?

De manhã me questionei e, na hora do salto, à beira da ponte, experimentei um dos sentimentos mais incríveis da minha vida, tive uma superdescarga de adrenalina e até me esforcei para me lembrar da cara da minha família, porque pensei: "E se eu morrer?". Daí tive um travamento geral. Um travamento anal.