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Os Santos da Violência

Vítimas de crimes hediondos, crianças e jovens como Eloá Cristina, Isabella Nardoni e João Hélio protagonizaram bizarros espetáculos midiáticos, tornando-se mártires da violência no Brasil e alimentando a todos nós, consumidores de tragédias

Por Claudio Julio Tognolli Publicado em 08/01/2009, às 19h38

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Vejamos o capítulo "O Sertanejo", do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. O escritor descreve uma das figuras mais típicas da brasilidade como a quem "falta-lhe a aparência impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente".

Corriam dias de névoa fantasmal no ABC Paulista naquele 13 de outubro de 2008. Auxiliar de produção de uma fábrica da Bombril, Lindemberg Alves, filho de paraibanos, era algo parecido com esse sertanejo perdedor, para os amigos. Um derrotado de 22 anos de idade, que iria fazer de seu trabuco um instrumento de mil utilidades, como a buchinha que ele produzia na fábrica. Eis que, com o sangue inquinado de paixão por Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, decretou, segundo a amiga-refém Nayara da Silva (e já com a arma nas mãos), que naquele episódio passava de perdedor a "príncipe do gueto". Nesse momento de irresolução, Lindemberg está no pleno domínio de suas potências. Enganou a polícia primeiro, para depois enganá-la novamente. E assim converteu-se naquelas próximas linhas em que Euclides da Cunha relatava a transmutação do sertanejo fracote no nordestino homem-potência. "O homem transfigura-se. E a cabeça firma-se alta, sobre os ombros possantes, aclarado pelo olhar desassombrado e forte; e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e agilidade extraordinárias."

Naqueles dias em que Lindemberg saiu na mídia de todo o Brasil, ora tentando matar as duas meninas que mantinha como reféns, ora explicando, ao telefone e em tempo real, que era capaz de morrer e matar por paixão, o país já estava matizado e refervido de um novo estigma. Os vocábulos "menino" e "menina" passavam a desfilar nas notícias sobre martírios. Havíamos tido, no Rio de Janeiro, o menino João Hélio, arrastado à morte por bandidos. Em São Paulo, era o caso da menina Isabella Nardoni, supostamente trucidada pelos pai e madrasta, como vendeu a imprensa. Em Curitiba, logo depois, Rachel foi encontrada morta e esquartejada em uma mala. Em Goiás, uma menina era mantida amarrada pela tutora - e assim foi mantida, mesmo com o caso descoberto, até que a imprensa pudesse chegar para filmá-la ainda agonizante sob as cordas.

O finado e refinado diplomata José Guilherme Merquior, a quem o pensador francês Raymond Aron costumava chamar de o único brasileiro que "leu tudo e tudo entendeu", sempre dizia nada esperar da mídia. Achava-a efeitista, ou seja: as pessoas gostam da mídia porque, em geral, ela não produz significados, mas gera efeitos - sejam friozinhos na barriga ou pontadas pungentes nos corações. O ensaísta italiano Umberto Eco gosta de dizer que os martírios atraem porque, ao contrário das narrativas religiosas, cujos finais todos conhecem, jornais em geral vendem fins de histórias absolutamente insondáveis. Do outro lado, os que usam da mídia para lucrar popularidade sabem bem disso. O cineasta Alfred Hitchcock admitia que "não existe terror no estrondo, apenas na antecipação dele". O ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, gostava de dizer que "as pessoas reagem ao medo, não ao amor". E Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que "falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito". O niilismo coquete da mídia consiste em juntar tudo isso bem ajuntado e ofertar um pacote cujas decorações, ultimamente, têm sido ornadas dos vocábulos "menino" e "menina" ligados a situações de mártires ou martirizadores.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 28, janeiro/2009