Complexo de Axl

Kim Neely Publicado em 09/02/2009, às 18h37 - Atualizado em 06/02/2013, às 11h49

O palco era o local ideal para exorcizar todos os demônios

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Em 1992, o líder do Guns N’ Roses buscava entender seu passado triste com a regressão. Conhecido pelo pavio curto, ele respondeu acusações de racista, misógino e homofóbico e quis garantir a verdade em entrevistas. No fundo, buscava a paz e reconhecia: “Quando dizem que Axl Rose é um bebê chorão de 2 anos de idade, estão certos”

Esticado no chão de um quarto de hotel em Las Vegas, Axl Rose acabou de falar sobre falta de privacidade. Agora, como que para ratificar sua afirmação, alguém bate na porta. O músico se levanta para atender e dá de cara com duas fãs sem fôlego e cuidadosamente bem arrumadas que conseguiram furar a segurança do Guns n' Roses. "Espero que você tenha ideia dos problemas em que nos metemos só para te dar um oi", diz a primeira. "Só vim porque ela me arrastou", complementa a outra. "Não sou tão fã de Guns nem nada". Dada a reputação de pavio curto de Axl, a reação mais previsível seria de irritação. Mas ele recepciona as meninas como uma dona-de-casa recebendo garotos à porta no Halloween. As convida para entrar e, sorrindo, faz algumas perguntas: "Vocês moram por aqui? Como se chamam? Como descobriram onde eu estava?"

Conforme a história vai sendo revelada - as duas fingiram ser garotas de programa para conseguir o número com a recepção -, Axl parece genuinamente encantado, bem como suas visitantes. O líder do Guns se comporta como o anfitrião perfeito - faz piadas, oferece jantar e até ri das cutucadas das duas, que questionam: "E aí, vai chegar no horário para o show amanhã ou não?" Quando foram embora, tive a nítida impressão de que aparecer sem ser convidado pode, curiosamente, ser a coisa mais natural do mundo.

Axl Rose está com um ótimo humor. Encontrá-lo nesse estado justamente no horário marcado para a entrevista é praticamente uma bênção para quem já viu seu outro lado. Quando se sente pressionado ou irritado, falar com ele é como tentar se esquivar de balas. É particularmente desconfortável estar sozinho em uma sala com Axl e notar as nuvens negras que, repentinamente, se acumulam sobre seu rosto por causa de algo recém-dito. Mas Rose pode ser um desconcertante - e formidável - entrevistado quando está no dia certo. Relaxado, parece se deliciar com os desafios que a entrevista apresenta e é quase impossível irritá-lo. Conte que boa parte do público o acha mimado e ele irá te surpreender ao concordar com a afirmação. Quanto mais polêmico o assunto, maior a convicção demonstrada na resposta. Durante esta conversa, Rose abordou alguns temas especialmente complicados. Falou do pedido de demissão do guitarrista Izzy Stradlin, no fim do ano passado (1991); comentou sobre seus atrasos, seus constantes embates com a mídia, sua reputação como misógino, homofóbico e intolerante; resgatou memórias altamente perturbadoras envolvendo seu pai biológico (tentamos encontrá-lo, sem sucesso. Seus familiares acreditam que esteja morto) e fez sérias acusações a seu padrasto (O irmão de Axl, sua irmã e um amigo da família confirmaram as alegações. Sua mãe e seu meio-irmão se recusaram a comentar).

Ao relembrar seu passado mais remoto, Rose falava mansamente, compenetrado, mostrando a rara vulnerabilidade que fez com que Sinead O'Connor dissesse um dia que o cantor é o tipo de pessoa que "dá vontade de levar para casa e servir um prato de sopa". E é essa fragilidade surpreendente combinada ao temperamento explosivo que já se tornou sua marca registrada o que faz de Axl uma figura tão interessante. Na tarde deste encontro, sua irmã, Amy, de passagem pelo Mirage Hotel, parou para ver os tigres brancos que são mantidos em exposição e comentou o quão fascinante era o fato de que eles podiam ser tão ferozes e tão gentis ao mesmo tempo. "Igual a Axl", alguém comenta, distraído. Amy gargalhou, percebendo que, mesmo sem querer, havia descrito o irmão.

O que as pessoas pensam de você hoje em dia?

Não tem meio-termo, ou são fãs ou me odeiam.

Sente que a opinião pública sobre você mudou?

Quase tudo o que sai na imprensa é negativo. Mas estamos ganhando mais fãs que gostam do nosso som. Sinto uma boa vibração vinda da plateia.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 29, fevereiro/2009