A excêntrica família de Antônia

André Maleronka Publicado em 15/08/2007, às 11h50 - Atualizado em 28/08/2007, às 15h18

Da esquerda para a direita: Quelynah, Leilah, Negra Li e Cindy são guerreiras que deixaram sua marca no cinema e na cultura hip hop
João Wainer
Quatro mulheres negras se unem para contar uma história de coragem: elas são cantoras e querem viver do hip hop, um mundo dominado pelos homens. Ficção ou realidade, ninguém passará imune à invasão de Negra Li, Quelynah, Cindy e Leilah Moreno, mais conhecidas como Antônia, na TV e no cinema

Segundo o escritor inglês Oscar Wilde, "perdemos a capacidade de dar nomes suaves às coisas. Os nomes são tudo. Eu nunca me queixo das coisas. Queixo-me das palavras". E os nomes são femininos e importantes na história de Antônia. É assim que se chama o filme e seu protagonista, o grupo de rap e R&B formado por quatro mulheres negras da periferia de São Paulo, e também o subseqüente seriado de TV. Foi da cineasta Tata Amaral a idéia de realizar essa ficção, que se aproxima da realidade tanto por conta de sua matéria-prima quanto de seu resultado e intenções. É uma obra também construída com as quatro protagonistas - Negra Li, Cindy, Leilah Moreno e Quelynah - que batizaram elas mesmas suas personagens de Preta, Lena, Barbarah e Mayah, respectivamente. O esforço conjunto tornou-se um evento que pode dar novos nomes a coisas que já estão por aqui, já que fala do Brasil atual, de todos nós e para todos nós.

Antônia é fruto de um processo. O argumento inicial surgiu durante os trabalhos do documentário VinteDez, em 2001, que mostrava jovens da periferia entre 14 e 18 anos. "Percebi que eles se abrem para o mundo por meio do rap, se juntam em turmas e constroem afinidades de pensamento para atuarem frente ao mundo. Via rap essa história é contada, em um movimento que chamo de alquimia, porque absorve, transforma e devolve como arte", explica Tata. "Nas folgas, comecei a pesquisar a vida de algumas meninas como Dina Dee, Sharylane, Vanessa Jackson, e escrevi contos." Da pesquisa saiu também a videoinstalação Jukebox 2: Um Esboço para Antônia. Na segunda fase do projeto, cerca de 600 pessoas participaram de workshops de preparação de atores. Depois de observar "quem se entregava e quem conseguia improvisar dramaticamente nas situações propostas", Tata "via rima e voz". Foram selecionadas dez meninas que participaram de um workshop dramático. Cindy, que faz o papel de Lena, conta: "A gente que vem da rua acaba, muitas vezes, criando uma armadura para conseguir lidar com todos os problemas. E foi maravilhoso. Vi meninas que nunca assistiram a uma peça de teatro fazendo teatro, de verdade". Cindy sabe do que fala: "Comecei no palco, me firmei no teatro, e também foi lá que descobri que cantava". Ela é a caçula do quarteto, e está com seu primeiro disco pronto, produzido por Tchorta Borato e Marcel Ortiz, responsáveis também pelos dois últimos trabalhos de Leilah. "Eles não são produtores de hip hop, mas eu tô fazendo uma parceria, nós estamos fazendo uma troca. O hip hop só vai crescer aqui a partir do momento em que as pessoas entenderem que tem que ter uma ponte do lado de lá para o lado de cá." O ar de moleca que Cindy trouxera na sessão de fotos para a revista, contagiando suas companheiras e arrancando risadas de toda a equipe, havia desaparecido no momento em que liguei o gravador. "Infelizmente a gente não dá valor para as pessoas daqui. Porque eu admiro demais o Malcom X (líder negro norte-americano), mas nós temos Mano Brown, MV Bill, Gilberto Gil, que são grandes guerreiros do Brasil", diz, transformando sua alegria em força, do alto de seus 18 anos. A menina linda, de traços curvos e intensos, chegou nos testes vinda do Grajaú (zona sul de São Paulo) e criou "Lena, que é o apelido da Maria Madalena, uma mulher que admiro bastante. A Lena tem uma fraqueza em relação ao seu lado emocional, ela se deixa levar muito por isso, coisa que não pude ter, porque se tivesse, não estaria aqui dando essa entrevista".

Tata conta que o roteiro final "só terminou na montagem, porque as mudanças de cena não estavam exatas. Muitos diálogos foram editados, outros, mudados. Isso veio da rima, do improviso. Era dirigido, mas era delas". A entrada de Quelynah foi muito importante para o filme. "No início, o grupo eram só as três, mas queria que houvesse uma briga, uma espécie de cisão, e ela era a pessoa que poderia encarnar isso." "A Tata já tinha a história quase pronta, e não existia uma quarta personagem. Cheguei no teste, e ela gostou do que fiz. A Mayah tem muito de mim, de ser independente, de buscar as coisas. Ela quer ser uma estrela, quer cantar, quer ser reconhecida." Quelynah estava em um prédio de escritórios na alameda Lorena, nos Jardins, área nobre de São Paulo. A cantora de 25 anos é nascida e criada em Heliópolis, zona sul de São Paulo, e esse endereço é a sede da gravadora que lançou recentemente seu primeiro disco (homônimo), a independente Sonorabiz. "Defendo a feminilidade, sempre me apresentei de minissaia, salto alto e já enfrentei muito preconceito por isso. Quando entrei no rap, a cena feminina era mínima, até a Negra Li usava calça larga", diz, me olhando diretamente, como que para garantir que presto atenção no que declara, enquanto sua filha Mayah folheava revistas com vigor. Mayah foi o nome escolhido por ela também para o seu personagem em Antônia. Quelynah, apelido dado a Jaqueline por um tio, estava dispersa, transbordando expectativa: "Tô até indo ao psicólogo, porque sou muito ansiosa. Espero que essa seja a oportunidade do R&B se fixar na mídia. O hip hop e o R&B têm, na verdade, uma estrutura muito forte". Desde que o processo do longa-metragem começou, há cinco anos, sua vida mudou muito. Ela virou mãe, se separou do rapper Thaíde (que foi premiado pelo papel de Marcelo Diamante em Antônia) e colocou silicone. A diretora Tata Amaral comenta: "Ela se impõe no rap como mulher. Ela é muito feminina, até meio perua".

Todas as integrantes do segundo período de workshops participam do filme. Foi quando Tata definiu os papéis, e por sugestão do roteirista Roberto Moreira, o que seria história de apenas uma cantora virou a trajetória de um grupo. Por isso a vida e a obra das autoras se confunde. Não porque tenham passado exatamente pelos mesmos percalços, e sim porque são autoras: além de escolherem seus próprios nomes, como já haviam feito ao ingressar na carreira musical, improvisavam os diálogos, e assim as cenas foram desenvolvidas, com coisas que os não-atores traziam. Li: "O filme foi baseado nas nossas histórias. Achava que não tinha muito de mim, porque não sou mãe, mas a Tata falou que vê a Negra Li no filme. Aí comecei a pensar melhor. Sempre fui desconfiada. Nos testes para o Antônia, a gente já trouxe muito, colocava o nosso jeito. Na cena que vinha um produtor, a Leilah já falava 'Ah, então você quer trabalhar com o grupo!', a Quelynah também, aí a Cindy já ficava 'A gente quer contrato' e eu 'Não sei qual que é...'. Cada uma tinha um jeito no improviso. Por isso foi prazeroso".

Negra Li é uma das artistas mais importantes na história do rap nacional, uma das precursoras nos palcos e discos, ao lado do mítico grupo RZO. "Foi uma escola maravilhosa, porque eles não escreviam aquela coisa reta, tinham umas divisões bacanas nas métricas vindas dos caras em que eles se inspiravam, norte-americanos. Eu estava saindo de um grupo, no último show, em Taipas, era o segundo show do RZO que via, e ali eles me chamaram pra fazer uma música com eles, 'Paz Interior', mas fui indo aos ensaios e acabei ficando. O Helião falava: 'A gente nunca quis mina no grupo, teve até um debate para te convidar, mas você foi ficando porque é esforçada'." Tata concorda. "A Preta [personagem de Li] é muito batalhadora, era ela a Antônia sozinha, no começo. Escolhi a Negra Li porque ela tem esse perfil de guerreira."

Hoje "quero expandir meu trabalho. Minha filosofia de vida ainda é o hip hop, mas na minha escola [de música, onde estuda piano] conheci a MPB. Não posso ser obrigada a ficar numa coisa só, se é para ser Negra Livre [título de seu primeiro CD solo] vou fazer jus". Li estava gripada, e iria participar de um chat mais tarde (outra obrigação promocional da série, que recém-estreara), mas respondeu longamente, emendando um exemplo no outro, sentada em um sofá a 90 graus de mim, na sala de estar de sua casa. Essa disposição de lado trabalhou a favor, já que Liliane tem uma expressão séria, intimidadora até. Quando termina de falar, e te olha fixo, você tem a impressão que acabou de falar uma tremenda bobagem, mesmo que não tenha ainda aberto a boca pra fazer a próxima pergunta. Aí retoma a fala, e essa intensidade vira sentimento e sensação: empolgação, certeza, brincadeira, indignação. Essa alternância só deixa Li mais bela. Foi seu namorado, o cantor de reggae Jr. Dread, quem me deu uma carona do ponto de ônibus na rodovia Raposo Tavares até ali, e além da beleza, compartilha com ela o mesmo ar de tranqüilidade. "Paz Interior", como no nome da música em que a cantora apareceu pro mundo. "Preta é o apelido da minha amiga Adriana, ela é de Poços de Caldas [Minas Gerais], veio pra cá, passou o maior perrengue e tem uma história muito bonita. Ela que me falou desse projeto."

O filme tem uma virada dramática por conta de Leilah, que veio de São José dos Campos para trabalhar com música em São Paulo - "Cresci no coral da Igreja. Com 9 anos entrei na banda da minha mãe, de samba, partido alto e MPB, e não parei nunca mais" - e trouxe muito de si para Barbarah. "É o nome que gostaria de dar para minha primeira filha, sou devota de Santa Bárbara, que rege os trovões e relâmpagos, e eu sou tempestuosa." Apesar da sua cena de violência figurar previamente no roteiro, ela também figura no seu histórico: Leilah, que já treinou kung fu (assim como Tata) e judô ("Comecei quando vi o Aurélio Miguel ganhar a medalha de ouro") quebrou o nariz de um espectador que passou a mão nela depois de uma apresentação, mas ressalta: "Minha personagem vai presa, e eu não tenho nada a ver com isso". Ela acabou de se mudar com a mãe para o Jardim Bonfiglioli (zona oeste de São Paulo) e ainda não conhece muito bem sua vizinhança, mas sabe onde está pisando. A cantora, que é bem amiga de Negra Li, também tem um olhar intimidador, que ela regula com maestria em sua beleza doce, e já lançou três discos (Meus Segredos, Censurado e VIP). Sua garra e o apoio da mãe são constantes públicas desde que conseguiu seu primeiro contrato (com a Warner) no show de calouros do Raul Gil (procure pelo vídeo no YouTube)."Levanta a Mão", de seu último disco (VIP), figurou na trilha sonora da novela Cobras & Lagartos (da Globo). "Minha meta é cantar. Virei atriz por acaso. Mas sou cantora e atriz, não atriz e cantora."

As escolas e caminhos das quatro são diversos, e o ponto em comum em suas carreiras é a ponte entre o R&B e o rap, o guarda-chuva classificado por elas próprias como black music. Isso diz muito sobre a história da mulher no rap nacional - Li começou apenas cantando no RZO, depois passou a escrever rimas Quelynah e Leilah faziam backing vocals (Alexandre Pires e banda Altas Horas, respectivamente) e Cindy já cantou jazz na noite paulistana. Segundo Tata, a ponte entre o R&B e o rap vem com "Killing me Softly", que é outro ponto de inflexão no filme: "Percebi na pesquisa que essa música, não na versão original da Roberta Flack, mas na da Lauryn Hill, trouxe a melodia para dentro do rap. Antes elas só faziam sombra para o MC. A Lauryn Hill rimava e cantava essa balada que fez muito sucesso".

A trilha conduz a história, em uma variação do quanto de rima e o quanto de canto aparece em cada parte do filme sobre o grupo fictício. Leilah conta: "A primeira canção surgiu com eu e a Negra Li zoando, uma xingando a outra com musiquinha. Quando a gente viu, tinha saído uma frase bacana. Então a gente sentou e começou a escrever essa que virou o carro-chefe do filme. Depois as outras meninas colocaram as partes delas também, mas foi meio que assim". Negra Li: "Foi bacana, nós quatro não somos unidas, temos mais amizade entre as três, eu, a Cindy e a Leilah, mas quando a gente chegava para compor juntas, não tinha para ninguém. Se existisse o grupo, a gente conseguia fazer um CD cheio em duas semanas. Porque na hora de trabalhar sai bacana, é gostoso, flui. Uma ajudava a outra, se uma tinha idéia antes, a outra completava". Tata dava os argumentos e elas compunham, e até as dificuldades Leilah aproveitou: "Era aquela coisa meio mecânica, tem que fazer a música falando disso agora, e a gente tem uma hora para compor. Foi meio tenso, porque não gosto quando tenho prazo a cumprir. Mas foi bacana, a gente percebeu que consegue, por mais que seja rapidinho, fizemos umas superboas". "Elas escreviam o argumento e o [produtor musical] Beto Villares e o [rapper] Parteum costuravam vozes e rimas", diz Tata.

Com a certeza de mulheres que souberam escolher seus nomes para o mundo duas vezes, elas traçam suas carreiras e podem ser as imagens que mudarão o que quer dizer beleza e talento no Brasil. As sementes foram plantadas, e os rebentos estão na rua. Segundo sites de nomes, "Antônia" é guerreira famosa, gloriosa, um nome quem vem do latim Antonious e significa inestimável, o que não tem preço. Posto isso, e já que a Cindy pediu, Provérbios 22:1: "Mais importante do que todas as riquezas é a escolha de um nome".

Além de colocar nas rodas de discussão as representações das mulheres negras e artistas ao enfocar sua luta por espaço em um meio majoritariamente masculino e desprezado pela opinião pública, a diretora, o vértice formador da estrela Antônia (a canção tema do filme diz "Antônia brilha"), acredita no poder transformador da sua obra. Em sua produtora em Pinheiros ela falou com muito carinho sobre tudo: o filme (com estréia prevista para fevereiro de 2007), a série na Globo (que foi sucesso de público e crítica e deve chegar em breve com uma segunda temporada), seus companheiros de trabalho, a inteligência de Mano Brown e a imbecilidade (o termo é meu) da mídia em reportar as manifestações culturais da maioria no Brasil. Por isso o filme surgiu com dois propósitos: como uma parábola da vida de Tata espelhada na trajetória de Preta - "Queria contar minha história, a vinda da minha filha precedendo a profissão, quando querer ser cineasta e viver de cinema era ser marciano" - e como uma proposta de imagem afirmativa: "Chega de negro como escravo e ladrão. Todo dia de ensaio terminava com uma roda de freestyle, e nos improvisos percebi que elas valorizavam muita a batalha e o negro: cabelo, cultura". Cindy: "Antônia mostra que as meninas da periferia são bonitas, que elas podem alisar o cabelo, usar black power, tranças, podem ter fios louros sem problema nenhum. Isso se chama auto-estima. A gente ser vista como modelo de beleza é uma conquista. Infelizmente existem pessoas infectadas por esse vírus maldito que se chama preconceito que não conseguem ver beleza no negro. E isso pra mim não é surpresa, amo ser negra. A surpresa é a mídia aceitando essa diferença. Fico muito feliz. A gente, graças a Deus, agora tem oportunidade de cuidar do cabelo, de cuidar da pele, de malhar, de ir em uma clínica estética. Mas existem meninas que não têm essa possibilidade. Então em quem elas iam se espelhar? Numa beleza que não tem nada a ver com elas fica difícil".

Li faz coro: "Acho maravilhoso que as crianças e as adolescentes tenham outro modelo a seguir, eu não tive. Sempre quis ser Paquita e não podia. Quando a Adriana Bombom entrou [no Xou da Xuxa], fiquei muito feliz que tinha pelo menos aquele espaço para a dançarina que era como eu. Chorava muito quando era pequena porque não tinha exemplos. Eu espero que esse quadro possa mudar". Quelynah sonha: "Quero ver a gente saindo nas capas de revistas. Espero que vire uma brecha, porque espaço a gente já tem". Até nas revistas masculinas? "Olha, se pintar o convite, eu sou uma que, se tiver o hip hop envolvido, além de poses e outras coisas, com certeza eu tô lá". Leilah acabou de recusar o segundo convite do gênero: "Não tenho nada contra, mas não combina comigo", explica. "Eu não sairia, e não vou falar mal porque malho, cuido do meu corpo, se você tem todo esse trabalho e vai esconder é foda. Eu sou cantora e, se não puder continuar, tenho meu lado atriz. E como atriz acho que sou uma boa cantora, não me acostumei a me ver na TV", diz Negra Li, que toma fôlego e encerra a questão: "Por que eu vou sair na Playboy se em 2002, quando participei de um ensaio de moda lá, perguntei o quanto tinha vendido uma revista com uma negra na capa e eles me disseram que a branca que vendeu menos vendeu mais que a negra que tinha saído?".