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A Reencarnação de Zé

José Mojica Marins fecha a trilogia do Zé do Caixão com A Encarnação do Demônio. Rolling Stone invade o set e faz uma ponta

Alex Antunes Publicado em 22/09/2008, às 17h49

José Mojica mergulha na alma de Zé do Caixão e descansa antes de uma externa noturna para A Encarnação do Demônio
André Porto

É a vida o tudo e a morte o nada? Ou é a morte o tudo... E a vida o nada?", rosna o Zé do Caixão para a câmera, no início de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1966). A pergunta faz lembrar Tim Maia, outro gênio da raça, que certamente responderia com sua tirada filosófica predileta: "Tudo é tudo e nada é nada". Pois eles vieram do nada, deram tudo de si, e ao nada voltaram... Não! Zé do Caixão ainda está entre nós. Depois de quase 30 anos sem filmar, ameaçando aqui e ali com novos projetos que nunca iam em frente, o incrível Zé do Caixão - ou melhor, seu médium e criador, José Mojica Marins - parece que finalmente foi alcançado de novo pela roda do tempo.

Ele já tinha sido redescoberto na década de 1990. Um tempo após o lançamento de seus filmes nos Estados Unidos, ainda em VHS, os jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti escreveram sua biografia. E depois fizeram um documentário, sob o mesmo título do livro, Maldito (esse filme, mesmo tendo sido premiado no Festival de Sundance, nos Estados Unidos, ainda não teve lançamento comercial em DVD). À época, isso foi o suficiente para provocar uma certa febre de interesse em torno do personagem, inclusive no exterior, onde é conhecido como Coffin Joe. Entre seus fãs notáveis está gente como Mike Patton (ex-Faith No More), Robbie Zombie e o cineasta Roger Corman. Mas nada disso valeria a pena se o homem não voltasse a falar - o que, no caso dele, significa voltar a filmar. A câmera é sua confidente, o veículo de suas idéias. E o boca a boca, com um certo arrepio de medo e excitação que sempre o cerca, é o seu divulgador.

São seis horas da manhã e estamos na frente do Teatro Oficina (em São Paulo), em um dia no meio da semana. Da escuridão vão surgindo, uma a uma, as figurinhas: tatuados, alguns pierces e cortes de cabelo espertos, uns lenços e roupas meio hippies. A aparência "transada" e os olhares de sono denunciam: não são trabalhadores a caminho dos seus empregos - pelo menos não de um emprego normal. Os atores e performers entram bocejando em um ônibus grande. Um microônibus fica pra trás, à espera dos atrasados. Haverá atrasados, com certeza. Uma atriz anã. Uma atriz transexual. Quando soube que o Zé do Caixão (finalmente) faria um novo filme, mandei minha foto (maquiado, com olheiras, cabelos soltos e um sorriso sinistro) pedindo para fazer uma ponta. Foi assim que carimbei minha passagem naquele ônibus.

Dias antes, recebi um telefonema convocando para uma entrevista. Quando Bruna Marcatto, a moça da produção, me sugeriu, com uma certa cautela, que eu participasse da "Cena do Purgatório", e alertou que era "um pouco forte", eu sorri. "Alguns caras serão castrados", ela exemplificou. "Oba, pode me incluir." A produtora olhou para a minha pança e disse que era melhor eu fazer um dos "esfomeados". Depois, no set, vi que ser castrado nesse filme é uma coisa para gente em boa forma.

- Você tem problemas em se aproximar de carne?, perguntou a produtora.

- Não, tudo bem.

- Talvez a carne esteja podre...

- Ok!

- É que talvez você tenha que fingir que está comendo a carne podre.

- Certo, eu disse. Afinal é uma ponta em um filme do Zé do Caixão...

- Pode ter vermes...

- Ugh.

- ... Mas são vermes cênicos, ela se apressou em explicar. Os vermes verdadeiros só estarão perto, você nem precisa pegar neles.

Neste momento imagino o Paulo Sacramento, produtor do filme, lendo esta matéria, preocupado, jogando a revista de lado e dizendo: "Eu disse para aquele filho da mãe não contar nada, nem do roteiro nem das locações!". Calma, Paulo. Tenho de dar algum sabor (de verme) para a coisa toda. Sacramento, produtor dos premiados Amarelo Manga (de Cláudio Assis) e O Prisioneiro da Grade de Ferro (este último ele também dirigiu), é um dos principais cúmplices da volta do Zé. E está pisando em ovos: não quer perder de jeito nenhum a "assinatura" artística do Zé do Caixão, o grande charme improvisado de sua obra. Mas, com os outros associados do projeto, os irmãos Gullane, cujo faro indica o potencial de sucesso, ele tem de garantir que o dinheiro da produção seja corretamente empregado, em um filme industrial e bem-acabado. Mojica conta que Sacramento o via na televisão, quando era criança, e preferia acreditar que o Zé do Caixão não existia. "Mas um dia, quando o Paulo tinha 10 anos, vinha voltando da sessão de uma fotonovela e entrou exatamente no elevador em que eu estava, ainda caracterizado... Ele morreu de medo (risos). Felizmente esse medo se converteu, anos depois, em amizade. Acho que era algo que estava marcado para acontecer - ele ser um dos responsáveis pela minha volta." Sacramento é o responsável por decisões estratégicas, como a de rodar em película 35 mm - quando o bom senso e até o modismo apontariam para uma captação digital, mais ágil e barata. Porém ele também sabe que está ajudando a acertar as contas de Zé do Caixão com um dos mais adversos períodos para a identidade cultural do Brasil, as últimas três décadas. Como um Deus do Carma, Sacramento não pode errar em seus julgamentos. Quando o procurei e propus uma matéria de bastidores para a Rolling Stone (isso depois de já ter sido aprovado para o elenco), ele vacilou: "É muito cedo, o filme vai ser lançado daqui a um ano". "Pô, me deixa contar esta história, Paulo. Todo mundo ama o Zé."

A Encarnação do Demônio é a conclusão da trilogia iniciada com À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e do já citado Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. E promove o que pode ser chamado de "operação Batman" com o personagem - uma busca da seriedade, da densidade e da dignidade originais do Zé; longe da chacota do terrir dos anos 80 com que ele foi confundido. E da filmografia um tanto desigual em que Mojica usou depois o personagem, mas sem dar continuidade à sua história - resultado de uma maldição da ditadura militar, como veremos. "É para as pessoas terem medo, entende? É por isso que você não pode revelar nada importante." Ok, Paulo! E não, de maneira nenhuma eu poderia levar um fotógrafo à locação principal do purgatório. Talvez o Zé pudesse ser fotografado pela revista em alguma outra cena - como a do Cemitério da Vila Formosa (zona leste de São Paulo), fotos que agora ilustram estas páginas.

Assim que o ônibus dos atores partiu rumo a uma pedreira em Itaquaquecetuba, todos os passageiros acordaram e começa, então, uma sucessão de piadas internas dos grupos do Teatro Oficina e do Satyros (base do elenco dessa seqüência), e um verdadeiro torneio de imitações do falar característico do Zé ("praticameeeeente" era o que mais se ouvia). O mais engraçado era um certo Zé do Cachê, que misturava ameaças de não ter dinheiro para pagar com outras maldições mais metafísicas. Encontrei o Fioravante, ator do Oficina, conhecido meu de rituais de ayahuasca. Ele contou sobre o ensaio no dia anterior, o encontro entre o Zé Branco (o diretor de teatro Zé Celso Martinez Corrêa e seus cabelos) e o Zé Preto (o Zé do Caixão e sua capa e cartola negras). Zé Celso, no filme, encarna O Mistificador, papel que, segundo Mojica, seria originalmente interpretado pelo cineasta Luís Sérgio Person. Após uma viagem amena, o ônibus entrou por um portão no município vizinho a São Paulo e, duas curvas depois, descortinamos um cenário impressionante. Copio aqui a descrição que descobri no blog da atriz Patrícia Aguille, até porque não conseguiria fazer nada melhor: "A paisagem é, ao mesmo tempo, dantesca e desconcertante; rios e corredeiras com água contaminada por minérios pesados e enxofre. Montanhas de areia que lembram o Saara e mudam de cor em contraste com o azul do céu. No fundo, árvores verdes e altíssimas. Talvez para nos lembrar que estávamos somente ainda no purgatório...", escreveu ela, que postou o texto com uma ilustração do francês Gustave Doré para o Inferno de Dante Alighieri. A essa imagem sugestivamente apocalíptica, só me ocorre acrescentar o inquietante detalhe de três crucifixos, em uma colina, e meio boi fincado em uma estaca, no meio de um declive...

A produção avisou que não se deveria andar fora dos caminhos demarcados entre as crateras da enorme pedreira - além do teor ácido da água (testada em laboratório), há locais com areia movediça. Um membro da equipe que esteve lá antes teve de ser salvo: pisou no lugar errado e já ia afundando. O elenco desceu do ônibus tomado por uma certa seriedade (só quebrada pelo apetite com que o café da manhã, servido em uma tenda, foi atacado). O passo seguinte: vestir, maquiar e enlamear cerca de 60 pessoas, chamadas em grupos. Primeiro as ninfas, em seguida, os "atléticos". Fiquei à espera, tentando sapear por ali. A Bruna me deu uma dura, provavelmente achando que eu estava apreciando as garotas do elenco nuas.

Meu interesse mais sóbrio era o Zé do Caixão em pessoa, em uma tenda, onde eram colocadas unhas postiças (as suas enormes unhas reais foram cortadas há vários anos quando suas mãos começaram a atrofiar). A capa, a cartola e os anéis iam sendo escolhidos e ajustados. Zé Celso chegou em uma van e foi vestido com uma longa capa de retalhos com pequenos ex-votos ou amuletos pendurados, além de um cetro com uma caveira de cachorro no topo. Em uma tenda ao lado, a esguia musa fashion Geanine Marques, no papel da Morte, era apertada em um vestido negro de vinil, adornado com correntinhas, de textura áspera, com um aspecto gótico - um legítimo Alexandre Herchcovitch, como soube depois. Um dos atores, Kleber Soares, 20 e poucos, dos Satyros, era um dos que estavam entusiasmados com o visual de Geanine. Mas o melhor é que as ninfas (e também os fortinhos) foram reaparecendo, seminus, peitos à mostra, uma profusão de corpos para todos os gostos. Os dois Zés e as equipes de câmera e som partiram para uma parte mais funda das crateras, em vans, evitando as areias perigosas. Era mesmo o estranho mundo do Zé do Caixão que eu conheço: sexy e ameaçador.

Na noite anterior à filmagem, havia assistido a um filme do Zé do Caixão para me preparar. Escolhi (hum, na verdade esse era o único que tinha em casa) Delírios de um Anormal (1978). Supremo truque do Mojica: ele costurou as melhores cenas de que dispunha, material censurado inclusive, e criou um personagem - um psicólogo que acha que o Zé do Caixão vai roubar sua mulher - para "aluciná-las". O filme acaba funcionando como um enorme clipe do imaginário mojicano. Desde as mãos emergindo do solo do cemitério e as clássicas aranhas caranguejeiras entre os seios revelados por baby dolls diáfanos, filmadas em preto-e-branco sessentista, até os delírios cujas cores e conteúdo opressivo parecem copiados diretamente de uma bad trip de LSD. Mas a tal assinatura artística está lá, em todas as cenas. É possível até rir, por exemplo, da imagem bizarra de uma aranha cujo corpo é a cabeça de uma falsa loura - mas a mesma imagem, em still, tem uma estranha força arquetípica. Não é mais nem menos bizarra, por exemplo, do que os braços que saem das paredes para ameaçar Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo (1965), o clássico de Roman Polanski.

Fico imaginando o impacto dos primeiros filmes do Mojica exatamente quando o país mergulhava em um regime obscurantista.

O "maldito funerário" (sic) que assombrava a pacata cidadezinha com suas autoridades, seus mornos relacionamentos de conveniência, seu respeito aos tabus católicos é a própria imagem do tesão reprimido do Brasil. Se não é vida, que seja morte; se não é sexo, que seja estupro, parecia dizer Mojica. Cada dentada que ele dá em um naco de carne nos dias santos, rindo como um Exu, é um anseio de revolução, de um poder usurpado. E também é pop para caramba.

O detalhe é que, na primeira cena do novo filme, a última cena de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver será revisada e corrigida. Naquela ocasião, o blasfemo Zé do Caixão morria, sob os olhos do padre e da população da cidadezinha, clamando pela cruz - para absoluta confusão e frustração de seu público. Acontece que esse final "cristão" na verdade foi imposto pela censura, para permitir que o filme fosse lançado. E acabou correspondendo aos 40 anos de maldição... Agora, a produção descobriu o sósia perfeito do Zé do Caixão... nos Estados Unidos. É Raymond Castille, do Missouri, um coffinmaniac que postou na internet fotos tão perfeitas na caracterização que deixaram o próprio Mojica confuso. Ray foi "importado" para filmar planos que serão montados junto com as originais, em um confronto com o padre que tenha outro desfecho, corrigindo a versão "da ditadura". Xô, Jesus.

Pergunto para o Mojica se ele se sente vingado com a refilmagem dessa cena. "Vingado? Eu não diria isso... Claro que foi uma situação absurda ter que pedir a benção da censura... Mas o personagem, o Zé do Caixão, por tudo que ele pensa e significa... Acho que dá pra dizer que ele se sentiu vingado, sim."

Meu grupo na filmagem, o dos esfomeados, foi finalmente chamado para as tendas do figurino e maquiagem. O último seria o povo neoprimitivo, dos pierces e das tatuagens, que pertencia a um outro núcleo. Ganhei uma calça em farrapos; uma "camisa" que consistia só em um colarinho e duas tiras paralelas de tecido em que sobraram os botões e os buracos; e um trapo que já tinha sido um paletó. Abotoei o peito da camisa com cuidado e, ajudado por alfinetes de segurança, consegui fixar um punho de paletó em torno do pulso esquerdo. Ele ficou elegantemente pendurado ao resto da peça por um fiapo esfarrapado de manga. Eu estava gostando da coisa. Recomendaram que me cobrisse de bloqueador solar. Dali fui para o outro extremo das tendas, para ser enlameado por duas moças - lama limpinha, retirada de sacos lacrados, mas muito fria. O sol estava forte, mas o vento era gelado, dando uns calafrios esquisitos. Uma coisa infernal. A moça deu um último toque de lama no meu cavanhaque, rindo, enquanto o Fioravante passava por nós e desaparecia pelos fundos, como quem não quer nada, tentando escapar da camada de barro.

Uma moça de boina, charmosa, apesar de ser uma das poucas mulheres completamente vestidas por ali, veio nos explicar que a Liz Vamp, ou Mariliz Marins, filha do Mojica, ia fazer um aquecimento conosco, pois as tomadas com os dois Zés estavam demorando mais do que o esperado. A voz ribombante de Mojica às vezes vinha de lá debaixo, trazida pelo vento. Treinamos uns esgares e uns urros de fome com a Liz. Não explicarei o exercício que ela dirigiu entre as ninfas e os fortinhos. Apenas direi que das mais novinhas, como Ana Carina, dos Satyros, 18 anos, e Karina Bayma, 22, às atrizes já consagradas, como Sylvia Prado e a própria Patrícia Aguille (ambas do Oficina), todas exalavam uma sexualidade mortal. Mas não vou entregar o ouro. Só vou contar que alguns atores ganharam uma maquiagem no pênis, o que os impedia de andar livremente e urinar por algumas horas. Perguntei depois para um deles, o Samuel Costa (20 e poucos), como era a sensação.

- E para mijar?

- Nem dava, né? Na verdade não era possível nem andar direito.

- Alguém lembrou de te avisar disso?

- Sim. "Mije agora ou nunca." (risos)

- E deu pra agüentar?

- Foi incômodo, mas divertido. As ninfas são lindas e ótimas, isso ajuda. Ficamos cinco horas nisso.

- Cinco horas?

- É, foi rápido.

- Cinco horas, e você acha que isso foi rápido?!

Ele me respondeu com outra pergunta: - Você já foi em uma peça ou em um ensaio do Oficina?

"Vi ele no programa do João Gordo, e esperava coisa pior (risos). Incrível como com dezenas de pessoas juntas, conseguimos entrar no mesmo clima", diz Hevelin Gonçalves, dos Satyros. Regina Pereira, também do grupo, está estudando Bertolt Brecht. "É bem outra praia, né? Mas desde criança acho o Mojica muito autêntico, ele pertence à história do país." A artista plástica e estilista performática Patrícia Gerber também tem essa referência infantil: "Ele dizia: 'se você desligar essa televisão será amaldiçoado'. E eu obedecia, por via das dúvidas..."

Sylvia Prado conta que, no ensaio do Oficina, Zé Celso parecia estar com mais expectativa do que todos. "Jura? E você não estava nervosa?" "Bom, já tinha feito até um workshop com o Mojica antes. Na ocasião tomei um ácido e fui pra lá" (risos). O próprio Zé Celso confirma: "Comecei tímido. Mas depois fui incorporando o personagem - aquela roupa foi desenhada inspirada no meu cabelo, você sabia? E, de repente, me veio uma risada parecida com a do... Como se chama aquele vilão do Batman?"

Essa é a grande força pop do Zé do Caixão. Por exemplo, fazer o Zé Celso viajar sem escalas do Antonio Conselheiro de Os Sertões para... O Coringa. Zé Celso conta mais: "Eu já conhecia esse roteiro maravilhoso desde 69, quando eu e o Mojica aparecemos juntos em uma matéria da revista Manchete, sobre 'malditos'. Era uma cópia do roteiro naquele papel mimeografado em azul, não existia nem xerox na época. Eu lembro que naquela versão o Zé do Caixão tomava LSD e entrava pela privada - ele entrava literalmente pelo cano. Agora é ayahuasca, né?".

Zé Celso encerrou sua participação na seqüência dando um beijo em Morte-Geanine, em uma pequena subversão poética ao que estava originalmente no roteiro - graças exatamente ao fato de a água do local ser envenenada, o Mistificador foi poupado de um último banho. Zé Celso reserva um último elogio para Dennison Ramalho, o co-roteirista do filme: "Muito bom esse rapaz". Ele vem a ser o outro grande "culpado" dessa volta do Zé do Caixão. Amigo de Mojica há 11 anos, Ramalho teve o prazer de receber o mestre em Porto Alegre, em 1998, para ajudar na montagem de seu primeiro curta Nocturnu. Quando Paulo e Dennison conheceram o antigo roteiro de Mojica, o tal que ele tentava filmar há 40 anos, resolveram atualizá-lo e produzi-lo. "Reescrevemos esse roteiro para um Zé velho e irado, uma coisa Frank Miller", diz Dennison, "mas sem abdicar da ironia e de uma certa graça mórbida do personagem."

No momento em que escrevo esta matéria, ligo para Dennison e ele está atarantado com a morte do ator Jece Valadão, o eterno cafajeste. Jece havia feito apenas parte das suas cenas no filme como o Coronel Claudiomiro, e elas serão incorporadas, em vez de se fazer tudo de novo com outro ator. Mas o que ficou faltando de seu personagem exigirá alterações na história. "Esse tipo de 'intervenção satânica' desemboca sempre no rabo do roteirista - o meu roteiro morreu junto com o Jece", lamenta-se. Mojica diz que a decisão de manter Jece Valadão no filme era praticamente inevitável: "Ele está muito bem, tem cenas sensacionais do começo ao fim da fita. Criamos um outro personagem pra resolver o pouco que ficou faltando".

No momento em que os Esfomeados já estávamos lá embaixo no set, pendurados na ribanceira, prontos para escalar em direção ao boi, os Zés e a câmera estavam exatamente em cima, olhando pra nós. De fato o encontro dos dois Zés naquele cenário árido, contra o céu vazio, tinha algo de muito poderoso. Eles pareciam vir de um Brasil antigo, de um paraíso caótico com nomes que intrigam os gringos, como Guanabara e Tropicália, de um duelo ao sol de Glauber Rocha, cheirando a Carnaval e revolução. Olhando para os dois, fiz uma sacanagem: disse para o grupo de famintos imaginar que era o Lula lá em cima, de smoking, e não o Zé do Caixão. De fato, com sua barba cuidadosamente aparada, o Zé se parece muito com uma espécie de irmão gótico do presidente; até a voz é igual. Todo mundo caiu na risada. Tivemos que nos esforçar para recuperar a concentração; não podíamos rir quando a câmera rodasse.

Fizemos antes alguns pequenos ensaios. A ribanceira era íngreme, os torrões de areia se soltavam, havia um ator e uma atriz com mais dificuldade para se alçar cratera acima. E o Fioravante era um capeta: quando o Zé gritava ação, ele saía dando trancos e pernadas nos outros, fazendo com que quase rolássemos cratera abaixo. A sensação era de risco real (o que não deixava de ser bom para a interpretação - pelo menos acabou com as risotas). Mas ao mesmo tempo ele era incrivelmente atencioso e generoso: sempre pedia que os atores mais lentos se posicionem à frente no início do movimento, e tivessem uma boa chance de aparecer para a câmera. Fiel ao estilo Oficina, mas sem muita razão aparente naquele grupo específico, o Fioravante conseguiu uma calça que deixava o seu pênis completamente à mostra. Quando ele brigava com a atriz Ziza Brisola pela posse da carne ela sempre parecia meio inquieta. "Sou casada", ela rosnou para o impossível Fioravante, que sussurrava alguma coisa. Joguei um pedaço de couro de boi que o pegou bem no saco. Ele se dobrou, fingindo que estava sofrendo. É mesmo o capeta esse Fioravante.

Mais do que um mero grupo de figurantes, o que estava reunido ali na pedreira parecia um encontro de inteligências alternativas. E põe alternativo nisso. A transexual Savana Meirelles, por exemplo, é atriz dos Satyros - e andou aparecendo na mídia por ter se apaixonado por um ET que apareceu nu para ela. Essa sua história real de amor foi contada depois em uma peça do grupo, Transex, em que sua amiga tenta convencê-la de que o ET na verdade é um Exu. Savana, quando viu as cruzes do set, imediatamente pediu para ser crucificada ("além de um fetiche, é uma experiência mística"), e foi atendida. Substituiu o ator que faria o papel, e foi amarrada à cruz com os seios à mostra, torcendo para que os ETs aparecessem de novo, um de cada lado. "Foi um pouco ruim ficar pendurada - depois de cinco minutos começam a doer os braços, os peitos. Mas a emoção é maior do que o sofrimento", conta ela. "E o Mojica, quando me viu, gritou: 'Filma aquela mulher'! Ser crucificada em um filme do Zé do Caixão é muita felicidade."

Outra figura carimbada era a multimídia Milze Kobashigawa. "O pessoal do filme me descobriu no programa do João Gordo. Faço uma performance com cadeados nos pierces genitais e nos mamilos, outra em que uso um cateter na testa, ou outra ainda como parte de um zoológico humano. Nessa eu uso roupa feita com filmes, como escrava da imagem", explica Milze. Comentei que era curioso ela vir parar em um filme após usar roupa de filmes, e Milze contou que a vida dela é toda cheia de conexões desse tipo. Perguntei o que ela achava que provoca isso, e ela disse: "Física quântica". Na cena em que participa, Milze teve sua boca costurada - sem anestésico. "O cara que costurou esqueceu de trazer o anestésico. Mas no fim foi até bom, ficou mais realista."

A mais diáfana das ninfas tinha um sotaquinho diferente. Era Juliana Elting, de 28 anos, atriz alemã. Ela entrou para o Oficina em Berlim, no ano passado, e está no Brasil desde então. Já fala bem português. "É uma coisa muito engraçada quando se chega totalmente virgem em uma cultura diferente. Não fiquei nervosa porque não sabia que o Zé do Caixão era importante. Na verdade nunca vi nenhum filme de terror inteiro, já tentei ver e não consegui", conta ela, que também foi notada pelo Mojica em cena. "Ataca, loira! Ataca, loira!", foram os gritos de incentivo que ela ouviu enquanto atuava.

Alguns dias depois, no Cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. De dia é um cemitério humilde, com cruzes fincadas diretamente no chão. Mas, à meia-noite, com os túmulos e árvores recortados em silhueta contra a luz potente dos refletores filtrada pela neblina cênica, é um cenário maravilhoso. Mojica está dirigindo a atriz Guta Ruiz, maquiada como uma zumbi, e acompanhando a atuação dela pelo monitor. Guta avança diretamente para a câmera, onde supostamente está o Zé do Caixão, que estava sendo atacado. Ela escancara a boca. "Olha o Zé. Isso, vem vindo... Sorriso sádico, isso... Olha o Zé, você quer comer ele... AAAAAAAH. Valeu. Corta!" A equipe goza de satisfação. Mojica, nesta noite, parece mais firme. Quando ele mesmo representa, pergunta compenetradamente qual é o problema dos planos que têm de ser repetidos, para aperfeiçoar sua atuação. Lembro de Polanski, de novo, comentando na autobiografia Roman a dificuldade de dirigir e protagonizar ao mesmo tempo, coisa que ele fez em A Dança dos Vampiros (1967) e O Inquilino (1976). Pergunto para o Mojica se ele acredita que pode voltar a meter medo no povo. "Se eu posso? Tem cenas que fizemos que são tão pesadas, tão sangrentas, tão fortes que a própria equipe morreu de medo. Essa é uma fita que o cara vai assistir e ela vai prosseguir à noite, em forma de pesadelo."

Segundo a ninfa Veridiana Zurita, bailarina e performer, o momento que mais a emocionou nas filmagens na pedreira foi quando o grupo já estava no ônibus, e um gentil Mojica veio agradecer o trabalho e o esforço de todos em fazer aquele "purgatório que não tem nada da Bíblia, não tem nada de Dante, é um purgatório brasileiro". Na volta, o Fioravante engatou um papo comigo sobre os "heróis nacionais". Começamos com os mais institucionais, como Tiradentes, para chegar a umas especulações mais controversas, como Nelson Rodrigues. E, no entanto, tínhamos acabado de passar o dia com um dos maiores deles. Fioravante, meu chapa, Zé do Caixão é o nosso herói por excelência. Esse paradoxo ambulante que, para botar medo no público, semeia o maior alto astral no set. Que vocifera as piores maldições para a câmera, mas se despede do jornalista com um cândido "fica com Deus". E o Brasil é seu estranho mundo que está apenas saindo do purgatório.

Alex Antunes é jornalista e escritor, autor do livro A Estratégia de Lilith (Conrad)