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Os garotos bilionários da internet

Os jovens responsáveis pela nova explosão da internet estão prontos para dominar o mundo - isso se não afundarem antes

David Kushner Publicado em 22/09/2008, às 17h47

Steve Chen (à esquerda) e Chad Hurley, os criadores do YouTube, foram disputados e acabaram vendendo sua idéia para o Google
Brent Humphreys

"Alguém chamou uma stripper?" Já passa da meia-noite no Redwood Room, um clube refinado de São Francisco (Califórnia), e um travesti altíssimo com um vestidinho vermelho mínimo e um chapéu preto de plumas aproxima-se, com muita afetação, de uma mesa cheia de rapazes bem nervosos. Ali do lado, um grupo de garotas gostosas de microssaia em uma despedida de solteiro entram no recinto pisando firme. A futura noiva exibe um véu incrustado de camisinhas que brilham no escuro. Uma das amigas dela parece carregar um vibrador enorme. Outra simula um boquete em um fulano sentado em um trono de rei gigantesco na entrada. Tais exibições seriam consideradas pela maior parte dos homens como alguma espécie de oportunidade. Mas os jovens mais ricos do bar se encolhem na mesa deles como os nerds do filme Mulher Nota 1000 (1985) na festa de formatura da escola. Quanto mais a cena enlouquece, mais alheios eles ficam. Como nenhum deles aceita a oferta do travesti, ele dá um abano de desdém com a mão superdimensionada envolta em uma luva e retorna para o meio da multidão. Em um movimento que parece ensaiado, todos os caras da mesa pegam suas respectivas bebidas. "Não posso gastar dinheiro com travesti hoje à noite", um diz, com cara de legume. "Meu investidor não ficaria nada feliz."

Filhos do Vale do Silício em ascensão, esse pessoal tem bilhões de dólares para torrar. Cada um deles encabeça um fenômeno online que está transformando radicalmente nossa cultura. O rapaz de 22 anos ruivo e magrinho, usando jeans esfarrapados e chinelos zebrados da Adidas é Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, uma rede de relacionamentos que vale até US$ 2 bilhões. Esquentando uma bebida na mão à sua frente está Blake Ross, o "Assassino da Microsoft", um rapaz que sua de nervoso aos 21 anos com um bigodinho púbere e uma camisa cor de vinho engomada, abotoada até o pescoço. Ross criou o Firefox, o navegador da internet alternativo que já foi baixado 200 milhões de vezes no mundo todo e que lhe valeu o título de "O Próximo Bill Gates".

Quando a garçonete serve mais uma rodada, Seth Sternberg, de 27 anos, um arrumadinho de cabelo encaracolado, fundador do Meebo (a sensação das mensagens instantâneas nos Estados Unidos), informa que Chad Hurley, co-fundador do YouTube, a usina viral de vídeos que foi vendida ao Google, acha que vai dar uma passada mais tarde - se conseguir escapar da mulher e dos filhos. "Agora o Chad tem família", Sternberg caçoa, fazendo o gesto de cortar a garganta. "Quando isso acontece, o cara está fora do grupo."

De tempos em tempos, um terremoto abala a cultura pop e expele suas crias na forma de um grupinho poderoso, e é isso que está acontecendo na Califórnia. Como a compra do YouTube em outubro sinalizou, o Vale do Silício (região que concentra as empresas de informática dos Estados Unidos) está pegando fogo mais uma vez. Investidores animadíssimos já injetaram US$ 13,4 bilhões em novos sites. Ron Conway, o "Poderoso Chefão do Vale do Silício", descreve o clima de festa como algo que beira a euforia. E os prodígios largados neste bar são a principal razão disso tudo. "Por meio destes empreendedores, enxergamos o futuro", diz Conway. Juntos, eles representam um lugar onde todo mundo está o tempo todo: online. Hoje, a internet mistura-se à vida das pessoas tornando-se uma extensão das nossas várias atividades - dos divertimentos que escolhemos às redes sociais que formamos. E neste mundo atual mais vibrante, agora são os internautas que mandam. Com um computador barato, softwares grátis, acesso à internet por banda larga e uma quantidade suficiente de bebida energética, qualquer garoto com um sonho pode fazer tudo acontecer, é a idéia do "faça você mesmo". "O que falta à velha guarda é que eles não entendem que, para nós, isto não parece uma revolução", explica Ross. "É só uma questão de bom senso."

Mas há um preço a pagar quando se vira o mundo de cabeça para baixo. Como esses rebentos do pós-declínio da internet sabem muito bem, o futuro não é obrigatoriamente ilimitado. Todos eles lembram o que aconteceu: na década de 1990, ocorreu a primeira explosão do Vale do Silício. Naquela época, iniciativas de encher os olhos - como o Pets.com, o Kozmo e o Napster - se consumiram sem um plano de negócios viável. Esta nova turma está se esforçando para não pecar pelo excesso, pela indulgência e por vender suas idéias cedo demais. "Conhecemos as razões por que a geração anterior a nós entrou pelo cano", diz Zuckerberg. E é por isso que eles se reuniram aqui hoje à noite. Este é um dos primeiros encontros de uma sociedade secreta, que pode ser apelidada de "Valley Brats" ("Pirralhos do Vale"). Com intervalos de algumas semanas, eles se reúnem para beber, planejar a dominação global, fazer amigos e, principalmente, agir como os garotos que são. "Cansamos de andar com caras mais velhos", diz o fundador do grupo, Rob Pazornik, 26 anos, criador de um site de compras chamado LicketyShip. "Parece que a gente está saindo com os amigos dos nossos pais."

Por trás dessa fraternidade de nerds existe um grupo de ambiciosos recém-formados que estão sendo forçados a crescer em velocidade aceleradíssima. O futuro agora está sobre os ombros deles, e eles estão fazendo o que podem para se manter fiéis a suas visões de grandeza e sobreviver. "É realmente muito estressante", diz Ross. "As pessoas ao nosso redor enxergam figuras icônicas, mas somos apenas universitários que se viram enfiados à força neste papel." Quando o Google entregou US$ 1,65 bilhão para o YouTube em outubro, fez com que o mundo voltasse a atenção mais uma vez ao Vale do Silício. E com razão: Hurley e Steven Chen (o terceiro co-fundador, Jawed Karim, está agora na Universidade de Stanford estudando para se formar em ciências da computação) tiveram a ascensão mais rápida da história da internet, passando para o clube dos bilionários em menos de um ano. Eles se conheceram trabalhando nas fileiras de base do PayPal (o site de pagamentos online): Hurley, que ocupava a posição de designer gráfico, e Chen, com a função de técnico, passavam noites em claro trabalhando para lançar um site. A idéia surgiu depois de fazerem um vídeo em uma festa e perceberem que não havia nenhuma maneira de disponibilizá-lo online. Então, eles resolveram a questão: "Removemos as barreiras para que as pessoas pudessem colocar seus vídeos na rede". Nada demais. E, assim, a corrida do ouro do norte da Califórnia recomeçou com força total.

Quando se chega ao Vale do Silício, a primeira coisa que se nota é que aquilo, afinal de contas, não é exatamente um lugar. As sedes dos sites espalham-se por prédios espelhados ao longo de 75 quilômetros da Highway 101, na extensão de São Francisco a São José. Pessoas apressadas com fones prateados com Bluetooth na orelha passam zunindo umas pelas outras em carrinhos reluzentes. Tirando um pit stop ocasional no café de beira de estrada Peet's Coffee & Tea, são apenas nerds desconhecidos que se cruzam no meio da noite. Se você quiser fazer amigos - pessoas em quem realmente possa confiar -, então é preciso se esforçar muito. Se não acredita, pergunte para os Brats. Eles vieram de todos os cantos do Vale para embeber seus nachos no mesmo potinho de molho nesta noite. Zuckerberg opera o Facebook de um escritório na University Avenue, uma via arborizada, cheia de bares e restaurantes perto da Universidade de Stanford, em Palo Alto. Ross trabalha sozinho em seu apartamento apertado em Mountain View, 15 minutos mais para o sul. Todd Masonis, de 26 anos, com a barba por fazer e olheiras escuras, é o codificador gênio do Plaxo, a caderneta de endereços esperta da internet, que funciona ali pelo caminho. A turma do YouTube rala em um loft infestado de ratos em cima de uma espelunca que serve pizzas meia hora rua acima. Não é exatamente a Terra de Oz mítica com que eles sonhavam quando crianças. Steve Chen, 28 anos, co-fundador do YouTube, relembra: "Eu achava que, aqui, havia arranha-céus feitos de chips de silício".

Bebericando drinques no Redwood Room, eles trocam histórias a respeito do caminho que percorreram. De algum modo, cada um deles demonstrou um desdém saudável por tudo o que já está estabelecido. "Seria possível para alguém com mais experiência criar o Facebook ou o YouTube?", pergunta Chen, que usa o cabelo escuro arrepiado e brincos de argola prateados nas orelhas. "[Os mais velhos] têm um certo receio de fazer algo que não foi testado. Nós estamos dispostos a experimentar e assumir riscos." Quando chegaram na rabeira da explosão do mercado no final da década de 1990, eles logo perceberam que seus predecessores pareciam mais interessados em colocar dinheiro no bolso do que em abrir novos caminhos. "Os planos de negócios deles eram umas aberrações", diz Pazornik. "E o excesso era completamente fora de controle." Pazornik, um rapaz de maxilar quadrado com um boné da Universidade de Yale com a aba para trás, ergue a voz acima do hip hop que toca no bar e conta para o pessoal uma história que serve como aviso. Certa noite, em 2000, ele foi a uma festa de nerds. Uns caras que tinham fundado um site transformaram um galpão em uma rave para criar bochicho ao redor do novo produto que estavam oferecendo. Contrataram dançarinas, DJs, montaram uma iluminação cafona. Para o grand finale, máquinas de gelo seco cobriram um palco de fumaça. E daí os donos da festa apareceram empurrando um carrinho com uma caixa roxa vazia. O grande plano era vender as tais caixas, pela internet, que serviriam para colocar na frente de casa para recolher os pacotes entregues pelo correio. Sim, era uma idiotice. Pazornik se lembra de ficar olhando, boquiaberto, para aquele excesso todo - as gostosas, as luzes, os investidores de risco puxando o saco - e só pensar em uma coisa: "Que loucura".

Na linguagem dos nerds, um bochicho que nunca se materializa é chamado de vaporware (algo como "artigo de vapor"). Os Brats emergentes compartilham a paixão por criar algo duradouro e encontraram seu público ao atender a uma necessidade pessoal. Ross, um prodígio sincero e autodidata, criou o Firefox depois de frustrar-se com os incessantes pop-ups e vírus associados ao navegador de internet onipresente da Microsoft, o Internet Explorer. Zuckerberg fez o Facebook para que os alunos pudessem manter contato depois que sua universidade, Harvard, ficou enrolando com a promessa de montar uma lista de alunos. Pazornik criou o LicketyShip, um site de compras que oferece entrega no mesmo dia, depois de ficar sem tinta no meio da impressão de um trabalho semestral em Yale. "A gente quer virar a mesa", diz Pazornik. "Criamos tecnologia explosiva."

E, em um flash de acaso feliz, as paredes ao redor de cada um desses Brats desabaram na cabeça deles - e, claro, alguns saíram arranhados. Ross, que sonhava em escrever livros infantis, desenvolveu o Firefox em associação com legiões de codificadores na comunidade do software livre na internet. Quando a versão 2.0 estreou em outubro, foi baixada mais de dois milhões de vezes nas primeiras 24 horas. De repente, parecia que todos os excessos dos sites na internet de que Ross ouvira falar tinham caído em cima dele. Investidores de risco o levavam para jantar em lugares chiques. Ele foi capa da revista Wired. Nesse ínterim, uma reação violenta começara entre os nerds do software livre que ficaram ressentidos com a maneira como a mídia centrou tudo em volta de Ross, o prodígio. "Sugerir que Blake criou sozinho o Firefox é simplesmente uma caracterização errônea do pior tipo", escreveu em seu blog Chris Messina, um codificador de alto nível que trabalhou na criação do Firefox. "E a reportagem ignora a realidade. Na verdade, open source [código aberto] é um modelo disponível e alternativo para o desenvolvimento de um produto de alta qualidade que vai ao encontro das necessidades dos usuários do mundo real." Ross não aceitou bem as críticas. "As pessoas imaginam que devo estar aproveitando tudo isto, mas é muito difícil aproveitar uma coisa quando você sabe que existe toda uma comunidade de pessoas aborrecidas por não estarem ganhando tanto espaço na imprensa quanto você."

Zuckerberg, um garoto tímido da aristocrática Dobbs Ferry, no estado de Nova York, enfrentou ainda mais dificuldades com o sucesso do Facebook. "Não existem muitos executivos-chefes de operações com 22 anos", diz. "Então não tenho muita gente com quem conversar." O que começou como brincadeira no alojamento da faculdade se transformou em uma operação de grande porte em Palo Alto. A imprensa começou a ligar. Gente poderosa e cheia de dinheiro passou a rodeá-lo. Mas cada vez que Zuckerberg dispensava mais uma oferta de compra, as pessoas ou achavam que ele enlouquecera ou que estava ficando ganancioso. Em outubro, rumores deram conta de que o Yahoo e o Google tinham demonstrado interesse, com cifras que ultrapassavam os US$ 2 bilhões. Mas Zuckerberg nunca deixou de afirmar que sua única intenção é tentar construir o melhor site, mais simples possível - por enquanto, sem nenhuma interferência externa. "O importante é me concentrar em construir algo a longo prazo", explica. "Algo que independe dos números que as pessoas ficam arriscando." Mas, com tanta gente duvidando, tanto dentro quanto fora da empresa, manter o clima de festa pode ser "emocionalmente arrasador", relata. Para compensar, ele agarrou-se ao estilo de vida universitário: continuou morando em um apartamento de estudante com pouca coisa além de um colchão no chão e um abajur. Não deu certo. Incapaz de dormir, saía de carro sozinho ouvindo seus CDs do Weezer, tentando encontrar alguma calma na nova vida cheia de altos e baixos, como um passeio pelo Himalaia.

Um por um, esses brats deixaram para trás suas cidadezinhas de fim de mundo e dirigiram-se para o vale a fim de mudar o mundo. Mas, cada vez mais, parecia que estavam no meio do mar. No início deste ano, a onda de entusiasmo ao redor desta nova geração começou a se formar. E os empreendedores na crista dela chegaram à conclusão de que estava na hora de colocar o bote salva-vidas em ação. Em fevereiro, Noah Kagan, sócio do OneClickTennis, um site que reúne os praticantes de tênis da região de São Francisco, criou um grupo de jovens executivos-chefes chamado Entrepreneur27 ("Empreendedor27"). Foi lá que os convidados especiais da reunião, Pazornik, Ross e Masonis, acabaram se conhecendo pessoalmente. E quanto mais conversavam, mais descobriam coisas em comum. "A gente podia sair para comprar um carro amanhã", diz Pazornik. "Mas preferíamos mudar a maneira como as pessoas vivem." Também compartilham respeito mútuo. "O Blake tinha feito uma coisa fortíssima e surpreendente", diz Pazornik. "Ele foi sozinho contra a Microsoft!". Sternberg idolatrava Zuckerberg. "O Mark tem uma visão clara de seus usuários", diz. E todos eles tinham algo a aprender com Masonis, que já navegava pelas águas turvas dos investidores de risco havia mais tempo do que qualquer um deles. Então, Pazornik teve uma idéia: formar um grupo.

Depois de Pazornik lançar a idéia de uma sociedade secreta, os Valley Brats se encontraram pela primeira vez como grupo fechado em junho, em uma espelunca de Palo Alto. No começo, eles ficavam conversando sobre amenidades, trocando histórias a respeito de suas experiências como nerds celebridades. "Falávamos sobre sessões de fotos", conta Ross. "Sessões de foto são um saco", Zuckerberg concorda. Conversavam sobre as pressões e sobre o fato de que receber milhões dos investidores de risco não deixa ninguém rico. Da mesma forma como acontece na indústria da música, os investidores de risco querem alto retorno para seu investimento e isso significa que os inventores têm de ficar ganhando centavos até sangrar.

Em conjunto, eles valem aproximadamente US$ 4 bilhões, mas poucos chegam a ganhar na casa das centenas de milhares de dólares por ano. Com medo de queimar todos os cartuchos, os Brats não saem por aí pedindo champanhe Dom Pérignon: competem para ver quem consegue gastar menos. Matt Sanchez, um rapaz de 25 anos responsável por um site chamado VideoEgg, está enterrado em empréstimos universitários. Pazornik se deu ao luxo de comprar um saco de pancada de US$ 40. Zuckerberg gastou em um amplificador de US$ 100. Ainda assim, todo mundo - dos pais até os aspirantes a nerds do Entrepreneur27 - parte do princípio de que eles estão cheios da grana. "É ridículo", afirma Ross. "Minha mãe acha que receber US$ 10 milhões [de investidores] me deixou rico."

Hoje em dia, quando não estão juntos como grupo, eles se encontram informalmente pela cidade. Pazornik e Sanchez logo se tornaram os líderes: são sociáveis e tranqüilos. Zuckerberg e Ross, os mestres Jedis residentes: são quietos e sorrateiros e têm experiência a respeito de como se concentrar em construir um produto e ao mesmo tempo resistir aos apelos de vender cedo demais. O poderoso e persuasivo Sternberg e o gênio nerd bitolado Masonis, amigos desde a escola primária no estado do Connecticut, formam um "estranho casal dinâmico". E eles chegaram a um consenso e resolveram convidar os criadores do YouTube para entrar no grupo. "Os dois fizeram uma coisa fantástica, viral, onipresente", diz Masonis. "Estou louco para saber como eles conseguiram."

Em um certo dia quente em San Mateo (Califórnia), a meio quarteirão do loft do YouTube, Chad Hurley entra em um bar para respirar um pouco. "Gostoso e fresquinho", ele diz, suspirando. Com o cabelo loiro mais para comprido e sua fala despreocupada, ele parece uma versão inteligente de Jeff Spicoli - o personagem de Sean Penn em Picardias Estudantis (1982). Assim como Zuckerberg e Ross antes deles, Hurley e Chen passaram a maior parte deste ano sendo cortejados por todos os protagonistas financeiros do setor. Sem publicidade, o site deles atingiu a marca de 100 milhões de visualizações de vídeos por dia, o que corresponde a 60% de todos os vídeos assistidos online. Em julho, Hurley foi de jatinho à festa anual do banco de investimento Allen & Co., em Sun Valley, nas montanhas do estado do Idaho, onde foi tratado como o garoto de ouro da noitada. "Só estamos preocupados em construir uma ótima empresa", dizia. Então, é claro, ele e Chen venderam tudo.

Agora, o resto dos Brats está lidando com os resquícios da negociação - e nenhum deles mais do que Zuckerberg. Por enquanto, ele concentra seu tempo em adicionar novas ferramentas ao Facebook, inclusive uma que distribui notícias customizadas aos membros, e continua repetindo a ladainha antivenda que se tornou parte da personalidade coletiva deste grupo: "Depois que alguém vende, acaba com a credibilidade de todo mundo", Zuckerberg declara alguns dias depois do acordo do YouTube. "Ninguém percebe que eu já poderia ter muito dinheiro e simplesmente não saber o que fazer com ele. E eu ainda durmo em um colchão no chão." Em particular, alguns dos jovens bilionários dizem à voz pequena que talvez os donos do YouTube tenham vendido cedo demais. Apesar do enorme investimento do Google, o YouTube tem falhas bem documentadas - principalmente o fluxo de material com direitos autorais que acaba entrando no site. Mark Cuban, empreendedor da internet, disse que quem comprasse o YouTube seria "um idiota". Chen e Hurley ainda não elaboraram uma resposta convincente a respeito da viabilidade em longo prazo do YouTube; os dois reconhecem que não tiveram muito tempo para refletir. "Sempre ficamos fazendo malabarismo com, tipo, oito bolas ao mesmo tempo", diz Chen. Julie Supan, diretora de marketing do YouTube, apressa-se em distinguir os caras de outras iniciativas online. "Não nos vemos como se fôssemos a internet 2.0", ela diz. "Somos a internet 3.0!".

Os Brats não se ressentem com o sucesso do YouTube: na verdade, têm medo dele. "Nesta cidade, as pessoas só se importam com o bochicho e com o ímpeto", diz Masonis. E isso pode elevar as expectativas a alturas suicidas. A pressão só começa a subir a plena força quando os investidores de risco e números na casa das dezenas de milhões começam a aparecer. Ninguém sabe melhor disso do que Roelof Botha, de 33 anos, sócio da Sequoia Capital, uma das mais antigas e maiores empresas de investimentos de risco do Vale do Silício. A tela de plasma no lobby gelado e cheio de janelas da empresa mostra um mosaico com os rapazes geniais que a empresa financiou ao longo de suas mais de três décadas de existência - o pessoal da Apple, do Yahoo, do Google e, mais recentemente, do YouTube. A empresa tem motivo para impressionar: imbuído da tarefa de encontrar a próxima geração de magnatas, Botha enfia milhões em novos sites da internet. Mas, como já trabalhou como executivo-chefe de finanças no PayPal, durante a época da bolha e também a do declínio, ele sabe muito bem que a história pode simplesmente estar se repetindo. "Há dinheiro demais atrás de negócios de menos", diz Botha. "Empresas que não deveriam receber financiamento estão sendo financiadas. As avaliações estão se elevando a níveis irreais." Se uma empresa está avaliada em US$ 2 bilhões, então os investidores esperam que o retorno seja compatível ao investimento. "Todos os investidores de risco já estão enxergando cifrões de novo", Ross observa. "Isso é bom para levantar dinheiro, mas é ruim porque todo investidor de risco está atrás de mais um enorme gol de placa no mesmo espaço de tempo que o YouTube conseguiu se firmar. Existe mais pressão para que se tenha um grande plano de escape bem rápido." Quanto mais os padrões por toda a região sobem, mais as pessoas temem outro colapso.

Mas, mesmo poucas semanas antes do pacto com o Google, os caras do YouTube continuaram a agir de maneira pacata. Depois do almoço de Hurley no bar esportivo, ele volta caminhando devagar para o escritório do YouTube, no mesmo quarteirão. Enquanto o resto dos Brats se apóia em sua fraternidade improvisada, o YouTube é a realidade - e isso pode explicar por que Hurley e Chen, apesar de serem convidados para as reuniões dos Brats, ainda não chegaram a aparecer. As instalações do YouTube ficam dentro de um imenso loft bagunçado que parece um alojamento estudantil fantasioso. Há um quadro de Hendrix na parede, gostosas com jeans que realçam a bunda nos PCs, uma mesa de air hockey em uma sala de reunião.

As estrelas salpicam o céu do Vale do Silício e os Brats estão apenas começando. Pazornik e Sanchez avisam que está na hora de uma partidinha de sinuca em uma espelunca ali perto. Zuckerberg brinca com a bateria do celular na mão. Ross, que só há pouco completou a idade legal para beber nos Estados Unidos, pára assustado em uma esquina e vasculha a carteira em busca de seu documento de identidade. Naquele exato momento, milhões de pessoas experimentam o novo mundo online que eles estão inventando. Sessenta milhões de mensagens voam de um lado para o outro no Meebo. O Firefox já foi baixado mais de 200 milhões de vezes em dois anos. O Facebook tem mais de 11 milhões de usuários. Cem milhões de vídeos estão sendo assistidos pelo YouTube.

Trata-se de uma evolução no estilo de vida, pura e simplesmente, e é isso que realmente atrai os Brats. Eles não querem dominar a antiga mídia nem roubar coisas online. Não é o caso de se vender ou de embolsar uma bela grana ou de ser processado. O negócio é olhar ao redor e ver o que está faltando. Aí, é só ligar seu computador e inventar algo para atender a esta necessidade. "É por isso que é legal estar com esses caras", diz Zuckerberg. "Os jovens são meio toscos. Não têm a experiência e o preconceito necessário. Então, muito do que pensam tem a ver com o que estão tentando fazer - e com a falta de alguém para dizer ou mostrar que aquilo não pode ser feito. Estamos neste caminho porque nós mesmos nos colocamos aqui." O grupo avança no meio da noite, e ele se apressa para juntar-se aos outros.