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U2 - Em busca de hinos para o futuro

Como a maior banda do mundo reinventou sua alma

Por Brian Hiatt Publicado em 12/03/2009, às 08h34 - Atualizado em 04/04/2012, às 12h37

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Devia ser o suficiente, até mesmo para Bono. [Abraham] Lincoln às suas costas, [Barack] Obama à direita e 400 mil pessoas espalhadas no Monumento a Washington. Era uma chance de citar o famoso discurso "I have a dream" ("Eu tenho um sonho"), exatamente do lugar onde o líder Martin Luther King Jr. o declamou originalmente. "Nada mal", salienta Bono com um sorriso, balançando a cabeça no abarrotado trailer da banda nos bastidores. Seus olhos estão escondidos sob as lentes laranja dos óculos e seu cabelo curto tem partes raspadas de cada lado da cabeça - como pistas de corrida tendo seu cérebrocomo linha de chegada. "Aquela platéia! O fato de ter achado que tinha um elo com cada uma daquelas pessoas deve ser um sinal precoce, ou tardio, de megalomania."

Mesmo assim, Bono está desapontado porque seu plano original não funcionou: King no telão, seu discurso de 1963 ecoando de novo pelo National Mall - e quando todos ouvissem "Thank God almighty, we are free at last" ("Graças a Deus Todo-Poderoso, estamos finalmente livres"), o U2 entraria com "Pride (In the Name of Love)". Em vez disso, "Pride" ganhou uma introdução abafada, feita pelo ator Samuel L. Jackson. "Cancelaram ontem à noite", suspira Bono, ainda vestindo o traje do show, que inclui um cachecol com um poema de Rainer Maria Rilke impresso. "Estávamos com David [Axelrod] e Rahm [Emanuel] e a equipe de Barack Obama e eles disseram que queriam algo modesto. Legal que eles estejam sendo cautelosos- mas seria fantástico para a família de King se acontecesse da forma como pensei." The Edge, surpreendentemente zonzo pela injeção de adrenalina dada pela apresentação, entra na conversa: "Sei qual foi o raciocínio deles - mas não tenho certeza se concordo", avisa. "Obama é um cara modesto e tem tido bastante cuidado para não parecer pretensioso ou se auto-endeusar". Edge faz uma pausa e sorri, seus olhos brilham. "Nós não sofremos desse tipo de problema. Caímos de cabeça mesmo."

Há poucas semanas da performance pré-posse do novo presidente dos Estados Unidos, o U2 terminou seu 12º álbum de estúdio, No Line on the Horizon - uma fusão da iluminação espiritual da banda nos anos 80 com os sons retrofuturistas dos 90. O resultado é o conjunto de músicas mais emocionante e inovador da carreira do quarteto - dos polirritmos da faixa-título ao minimalismo fantasmagórico da canção final, "Cedars of Lebanon". E, apesar de viver em tempos onde, segundo Bono, "só garotas adolescentes e pessoas muito honestas" pagam por música, a banda não poupou nem tempo nem dinheiro na busca por sua visão ideal. "É mais fácil e barato gravar uma música hoje do que em qualquer outro período da história da indústria fonográfica", explica o baixista Adam Clayton. "A menos, é claro, que você seja o U2."

No Line foi concebido como um álbum de superestrelas enquanto projeto artístico, sem prazos determinados. Em dois anos de sessões esparsas, eles gravaram em lugares como: Londres, Nova York, Dublin e Fez (no Marrocos). Daniel Lanois e Brian Eno, produtores de longa data, acompanharam todo o processo e, pela primeira vez, puderam atuar como co autores- foi Lanois quem deu a idéia do coral em "Moment of Surrender", por exemplo. Apesar do sucesso dos últimos oito anos, o U2 resolveu entrar em estúdio para se arriscar. "Estávamos lutando pela nossa relevância", completa The Edge. "Não nos podíamos dara o luxo de não inovar." A banda entregou o álbum à gravadora um pouco antes do Natal, mas eles mudaram de idéia na última hora. A intenção era abrir com sua faixa mais estranha e experimental, "Fez - Being Born", mas acabaram decidindo colocar a pegajosa música-título em seu lugar - o que os obrigou a mudar toda a ordem. "Fiz as contas - havia cerca de 40 milhões de ordens possíveis", enumera the Edge, que divide com os companheiros a devoção retrô à quase morta arte de ordenar a sequência musical de um álbum a fim de elaborar um trabalho com começo, meio e fim. "É parte da razão pela qual demoramos tanto: estávamos lutando pela ideia de que um álbum ainda pode ser uma forma de arte sagrada."

Você lê esta matéria na íntegra na edição 30, março/2009