A música ruiva

Com o lançamento de um novo disco – de músicas inéditas – e planos de mudança para um novo lar, Nando Reis expõe sua difusa personalidade

Por José Julio do Espirito Santo Publicado em 12/06/2009, às 15h39

Foto Ignacio Aronovich

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Na sala de estar, o clima é de expectativa e discreta comemoração. Nando Reis e o casal de fotógrafos encontram um assunto em comum, quebrando o gelo em meio aos cliques. Tanto ele quanto a dupla em breve terão novos lares e comentam sobre as dificuldades de se mudar. "Depois de dois anos de reforma,

acho que vou conseguir terminá-la agora", o músico fala, explicitando alívio. Sem deixar transparecer, a espera maior neste momento é pelo lançamento de Drês, o oitavo álbum da carreira "solo" do cantor e compositor paulistano de 46 anos - quarto que leva a assinatura de Nando Reis e os Infernais, explicando as aspas acima. Não menos autobiográfico do que os anteriores, mas com menos medo de expor sentimentos, o novo trabalho traz muitas faixas sobre uma recente paixão do artista. "As músicas que gravei dentro dos meus próprios discos foram feitas para as pessoas. Eu tenho essa relação música e musa", explica, citando como nasceram "Hi, Dri", "Driamante" e a faixa-título - homenagens à ex-namorada, a publicitária Adriana Lotaif.

Inaugurando uma carreira paralela aos Titãs com o disco solo 12 de Janeiro (de 1995, batizado de acordo com o dia do aniversário de Nando, nascido José Fernando Gomes dos Reis em 1963), o músico gravou apenas mais cinco álbuns de estúdio. Intervalos tão grandes entre lançamentos de trabalhos com músicas inéditas (Para Quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro, o segundo álbum, saiu cinco anos depois) tinham, a princípio, uma justificativa titânica: "Entre esses dois álbuns, o Titãs lançou Domingo e o Acústico MTV Titãs, que vendeu mais de 1,7 milhão de cópias", ele explica. Quando Infernal, seu terceiro álbum sozinho, foi lançado em 2001, Nando já era considerado um respeitável compositor de hits nas vozes de Cássia Eller e Marisa Monte e de bandas como Skank e Cidade Negra. A ruptura com a banda na qual cantava, tocava baixo e compunha, estava próxima. "Eu não conseguia mais dividir da forma como é necessário que se divida o trabalho com tanta gente. Não tinha tanta tolerância para trabalhar as músicas que eu não tinha exatamente o mesmo interesse e percebia que isso acontecia em relação às minhas músicas também", Nando confessa, justificando a saída. "É desgastante trabalhar numa banda com a premissa, com o funcionamento dos Titãs, em que todo mundo tem o mesmo peso, todo mundo é uma democracia. Entendo que eles tenham ficado com raiva de mim. E eu também fiquei, e aí as coisas degringolam um pouco, sabe? Assim, ninguém é tão camarada, ninguém tem mais aquela tolerância até porque já estávamos 20 anos juntos."

Embora sempre gesticulando quanto toca em assuntos delicados, Nando Reis parece nunca se alterar. Esse senhor ruivo, com uma discreta camisa jeans e exibindo um velho par de botas de couro, lembra mais um pacato cidadão irlandês no fim do expediente, feliz e sóbrio, contando casos da vida antes da primeira cerveja. Nada parecido com o maluco-beleza que cantava "Querem meu Sangue" há 25 anos. Sobre sua partida dos Titãs, pelo menos hoje, ele não mostra o mínimo ressentimento.

A história está registrada em Titãs - A Vida até Parece uma Festa, documentário dirigido por Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves e recheado de um quarto de século de imagens do grupo. "Sempre fui entusiasta dessa ideia do Branco", Nando diz, "e ele, muito gentilmente, sempre me convidou para ver os estágios da edição", completa, deixando implícito que as rusgas com os ex-parceiros são coisas do passado. Todos compareceram à estreia, inclusive o ex-baixista dos Titãs. "Foi emocionante, porque vi acompanhado de quatro dos meus cinco filhos e de minha ex-mulher [Vânia], que viveu esses 20 anos comigo", conta.

Embora tenha dado voz a uma música irônica sobre o tema - "Família", de Cabeça Dinossauro (1986) -, Nando sempre tornou pública a paixão pelos filhos. "Não sou um pai nada típico, bicho", declara. "Mas minha vida é bem próxima à de um homem comum. Acho a relação familiar fundamental. No fim das contas, é o que sobra." Duas músicas de Drês explicitam essa importância. "Conta" é, na definição do próprio autor, uma versão feminina de "Marvin" (de Titãs, de 1984). "E é um assunto mal resolvido dentro de mim. Não acho que existe resolução adequada para a morte, mas queria me apaziguar um pouco", confessa sobre a canção, um tributo sobre a perda de sua mãe. Já "Só pra So" é um presente para a filha Sophia Reis, atual VJ da MTV. "Falo sobre minha relação com ela", o pai fala, emendando um sincero mea culpa. "Parte de minha relação com meus filhos foi atrapalhada por minha própria dispersão. E isso envolve tanto distância quanto a minha forma de ser muito voltado para mim. E minha relação com bebidas e drogas, que já foi muito ruim. Isso teve um impacto muito negativo, principalmente com os meus filhos."

Sentado no sofá da sala de sua casa, um sobrado em uma rua sem saída na zona oeste de São Paulo, contido e até didático em suas observações, Nando Reis lembra pouco o baixista hiperativo que eu não raramente avistava em festas pós-shows na metade dos anos 90, com um ou mais companheiros de banda, sempre à procura de diversão. De fato, a pessoa na minha frente não lembra em nada alguém que se diz excessivamente atraído por excessos. "Sou um sujeito que precisa estar permanentemente em busca de um tal equilíbrio, [de modo que] só posso dizer que hoje é bem melhor do que já foi antes", dispara. "Volta e meia, tenho vontade de mandar tudo à merda e encher a lata. Ao mesmo tempo, não quero que isso não me seja permitido. E nem quero que isso seja à custa de estragos no meu trabalho, na relação com os meus filhos e com o mundo."

Em meio a muitos discos, numa sala adornada por máscaras africanas, quadros de artistas urbanos e primitivos e móveis de madeira maciça adquiridos ao longo dos anos, Nando se mantém equilibrado. Sentado em um enorme sofá de couro, mesmo local onde surgiram várias de suas composições, ele solta, com naturalidade incomum: "Sempre estive envolvido com essas coisas: bebida - continuei a beber - e drogas - não vou falar a respeito. Mas sempre usei e me atrai. Elas têm uma parte incrível, mas, por outro lado, elas quase me mataram. Então, quem sou eu para poder falar para os outros, a não ser que é uma merda de um negócio perigoso pra caralho. Pra caralho!"

Com sinceridade, o músico põe dois pesos na balança. "A droga já me levou a estados extremos", admite, "levando ao rompimento da minha autocensura, ao mesmo tempo que custou a perda da autocrítica - e já me comportei como um boçal. Também ao mesmo tempo, numa certa medida, isso me tirou da inércia da crítica pesada que tenho e me permitiu criar!"

Após sair do Titãs, em 2002, Nando continuou o processo incessante de colaborações. Em 2003, lançou A Letra A, já acompanhado pelos Infernais. Mas foi com MTV ao Vivo que o nome da banda passou a figurar nas capas dos discos. "Os arranjos a gente faz junto e a participação deles é determinante para o resultado", o líder justifica. Lançado em 2004, o álbum foi o ponto de inflexão ascendente para a carreira de Nando. "Até então, eu era uma figura difusa - ex-baixista dos Titãs, parceiro de Marisa Monte e Samuel Rosa, produtor de Cássia Eller, que também fez música para o Jota Quest e o Cidade Negra", ele lista. "Com o Ao Vivo, repatriei minhas músicas e desfiz a vaga impressão de que eu era 'MPB'. Eu precisava encontrar meu nicho, esclarecer minha identidade, mesmo que ela fosse múltipla. Brinco que é uma 'música ruiva'."

Esse admirável mundo novo, que fornece liberdade de escolha e facilidade de se ouvir qualquer coisa a nenhum custo, parece desconhecer o termo "direitos autorais e artísticos". Nando, que já esteve no Top 10 de maiores arrecadações do ECAD, se diz afetado pela pirataria, mas levanta uma questão que o entristece mais. "Se discos vendem menos, não é porque as pessoas baixam nem porque compram dos piratas. Isso já mudou", explica. "Talvez não tenha tanta gente interessada em discos inteiros. Isso, sim, acho um empobrecimento. A construção de meu esqueleto, meu gosto, minha vida, foi através de álbuns." Ele aponta para Off the Wall, de Michael Jackson, estrategicamente posicionado na frente de um baú de LPs com frente de vidro. "Esse tem 'Don't Stop 'til You Get Enough', que é excelente, mas gosto de ouvi-lo de cabo a rabo", admite. "É como dizer que livros são melhores porque são comprados em capítulos ou que livros de contos são melhores do que romances, porque o bom é um capítulo. Que merda!"

No jardim, Nando aponta uma planta da família das cactáceas que tomou o muro lateral de sua casa. Fico imaginando todo o transporte - milhares de LPs e CDs e uma planta enorme - a um novo lar, e se ele sentiria saudade daquele local. Ao longo da conversa, ele dera pistas sobre sua relação com o passado. "Lamento as pessoas que perdi, que teria enorme vontade de continuar vendo, falando... mas não tenho vontade de ser jovem de novo." E finaliza, como se revelasse um segredo: "Eu adoro ser um imbecil de 46 anos que às vezes se comporta como adolescente!"