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Homem-Problema

Drogas, dívidas, família: a obra e a vida de Marvin Gaye, gênio perturbado assassinado há 25 anos

Por Michael Goldberg Publicado em 12/06/2009, às 17h07 - Atualizado em 01/04/2014, às 13h49

Marvin Gaye no palco, em 1980; vida marcada por sucessos, excessos e dramas até o desfecho fatídico

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Era pouco antes do meio-dia de 1º de abril de 1984 quando começou a discussão que colocaria fim à vida de Marvin Gaye. Ele e a mãe, Alberta, de 71 anos, estavam conversando no quarto dele, que ficava no andar de cima do sobrado da família, em Los Angeles. Eles escutaram um grito ininteligível vindo do andar de baixo: era o pai dele, de mesmo nome, 70 anos. Estava aborrecido porque não conseguia encontrar algumas cartas que faziam parte de uma apólice de seguro.

Marvin pai gritou com a mulher de novo. O filho ficou irritado com o tom de voz e disse para que ele fosse até o andar de cima, para que a mãe pudesse entender o que ele estava dizendo. Quando o Gaye mais velho entrou no quarto do filho, berrou com a mulher mais uma vez. O mais novo explodiu: "Você não pode falar com a minha mãe desse jeito", disse, sério. Uma discussão barulhenta se seguiu. Marvin disse ao pai que saísse do quarto. Ele se recusou. Marvin empurrou o pai para o corredor, onde a discussão continuou. Finalmente Alberta interveio; o pai saiu pisando duro e o filho e a mãe voltaram para o quarto.

A essa altura, Gaye pai já não estava mais procurando os papéis do seguro. Buscava uma arma, e encontrou: um revólver calibre .38. Voltou para o quarto do filho e, a uma distância entre 1,20 e 1,80 metro, deu um tiro no peito do mais jovem. A bala atravessou o coração de Marvin. Alguns segundos se passaram. O pai se aproximou do filho moribundo enquanto a mãe olhava e atirou de novo, à queima-roupa, no ombro esquerdo dele.

Depois disso, Marvin Gaye pai desceu a escada, saiu de casa, jogou o revólver na grama e se sentou na varanda para esperar a polícia chegar.

Mesmo antes de o pai atirar a bala que colocou fim a sua vida, Marvin Pentz Gaye, 44 anos, queria morrer. "Ele estava desesperançado", diz um parente próximo que esteve com ele na noite anterior a sua morte. "Ele achava que todo mundo o odiava. Estava conversando com as fadas, pronto para cair fora. Estava em estado de espírito suicida."

Menos de três semanas antes do assassinato, Gaye tinha anunciado a um grupo de familiares e amigos que colocaria fim à própria vida. Segundo um amigo: "Eles estavam em casa, ele pegou uma arma e disse: 'Para mim, chega'. E encostou a arma na cabeça. Três pessoas correram até ele ao mesmo tempo e arrancaram a arma de sua mão".

De acordo com outro amigo, a vida de Gaye tinha se transformado em um pesadelo de uso excessivo de cocaína, de falta de dinheiro, de pagar pensão e, finalmente, de inimizade e desconfiança dentro da família. "Marvin não lidava bem com pressão", diz Curtis Shaw, ex-advogado e amigo de longa data do cantor. "Principalmente quando a pressão vinha da vida pessoal."

Durante a última semana de vida, Gaye passou a maior parte do tempo na casa dos pais em Los Angeles, no bairro negro de classe média de Crenshaw - a casa que ele tinha comprado para os dois mais de uma década antes, para a qual ele também se mudara em novembro de 1983. Na verdade, mal saía de seu quarto no andar de cima. "Ele achava que tinha gente querendo matá-lo", lembra um parente. Tinha medo de ser envenenado: no dia anterior a sua morte, pediu a um integrante da família que comprasse um cachorro-quente para ele - mas, ao recebê-lo, jogou-o no jardim.

"Ele era um louco", diz um amigo. "Sentava com as costas encostadas na parede, segurando uma pistola, e não deixava ninguém se aproximar. E daí, de repente, durante umas três ou quatro horas, ele descia e se transformava no outro Marvin."

A personalidade de Gaye era sempre instável - no ano passado [1983], referiu-se a si mesmo como esquizofrênico - e havia a tendência ao uso de drogas e a cometer ações extravagantes e ameaçadoras para ele mesmo. Depois do divórcio de Anna Gordy em 1976 - eles estavam casados havia 14 anos -, Gaye, desesperançado, tentou se matar no Havaí ao ingerir cerca de 30 gramas de cocaína pura em menos de uma hora. Ele se referia a momentos assim como suas "horas loucas".

Caçado pelo imposto de renda por US$ 2 milhões em tributos atrasados, forçado a declarar falência e brigando com a gravadora Motown, Marvin tentou deixar para trás todos os problemas com a mudança para a Europa em 1980, e acabou se fixando em Ostend, na Bélgica.

O exílio autoimposto funcionou durante um tempo; Gaye conseguiu controlar o uso de drogas e começou a exercitar-se regularmente. Em 1982, assinou com uma gravadora nova, a CBS, e começou a preparar um álbum novo, Midnight Love. Apesar de Gaye "cheirar cocaína de hora em hora", nas palavras de uma pessoa que esteve no estúdio, Midnight Love marcou um retorno brilhante e de muito sucesso; seu primeiro single, "Sexual Healing", chegou ao número 1 das paradas norte-americanas.

Parecia que Gaye estava com outro estado de espírito. Mais ou menos naquele período, tivera uma longa conversa a respeito de suicídio com Gordon Banks, seu cunhado e principal parceiro musical. "Conversamos muito tempo sobre Jesus e também sobre pecados que nunca seriam perdoados", conta Banks. "O suicídio era um desses pecados. Marvin não queria ir para o inferno. Ele não queria cometer suicídio."

No final de 1982, Gaye resolveu voltar para Los Angeles - não tanto para colher os benefícios de sua fama recém-reconquistada, mas sim para ficar com a mãe, que estava com uma doença séria nos rins ("Marvin tinha muito amor, mais do que o normal, pela mãe", diz o cantor e amigo Bobby Womack). Ele se mudou para uma casa em Hollywood Hills. Mas seus antigos amigos - sanguessugas e aproveitadores - apareceram sem ser convidados. Para fugir deles, Gaye se mudou para Palm Springs. Mas eles o seguiram até lá também - e o uso de drogas aumentou vertiginosamente.

"A certa altura, ele me disse que queria acabar com o hábito", uma namorada, Deborah Derrick, declarou ao jornal Los Angeles Times. "Ele passou quatro dias [sem usar drogas], e daí um amigo trouxe um pouco para ele..."

Suas finanças também estavam em mau estado. Gaye devia cerca de US$ 300 mil em pensões atrasadas para suas ex-mulheres, Anna Gordy e Janis Hunter. Enfrentava processo na casa das centenas de milhares de dólares que a ex-namorada Carole Pinon Cummings tinha iniciado neste ano [1984], alegando

que Gaye a espancara diversas vezes.

Uma pessoa próxima atribuía o estado financeiro desastroso de Gaye a sua mania de contratar familiares e amigos para desempenhar funções para as quais não estavam qualificados. "Delegar tarefas a pessoas incompetentes - foi isso que o levou à falência", diz Curtis Shaw. "Eu não consegui fazer nem com que Marvin contratasse um contador. Aliás, o juiz federal de falência disse a ele, no tribunal: 'Sr. Gaye, nós todos estamos nos esforçando muitíssimo para que consiga resolver todos esses problemas terríveis, mas eu já conheço o padrão'."

Mas nenhum problema parecia pesar mais a Marvin do que as confusões em família. Já era bem ruim o fato de sua mãe viver entrando e saindo do centro médico. Pior ainda a doença dela ter feito com que o pai de Marvin, o patriarca da família, com 71 anos, retornasse de Washington D.C., onde passara o ano anterior pregando. Pai e filho brigavam constantemente durante a juventude de Marvin Júnior. "Ele me disse que nunca recebeu do pai o amor que desejava", diz Shaw. "Ele disse: 'Ele não aceita o meu amor'."

Amor e respeito do pai eram preocupações de primeira ordem para Marvin. Quando chegou a hora de renovar com a Motown, em 1978, Marvin exigiu um bônus de US$ 1 milhão de assinatura de contrato - que fosse entregue em dinheiro vivo, em uma pasta executiva, na mão dele. A Motown não aceitou. "Eu perguntei a Marvin se ele estava louco", lembra Shaw. "E ele respondeu: 'Quero US$ 1 milhão para levar para o meu pai e dizer: 'Está vendo, aqui está 1 milhão. Só quero que você saiba como eu faço sucesso'."

Problemas em todas as frentes - relacionados a drogas, finanças e pessoas - se intensificaram em meados de 1983, quando Gaye saiu em turnê para promover Midnight Love. Decisões profissionais ruins e altos custos transformaram a turnê em fracasso financeiro; alguns críticos também a consideraram desastre artístico. Gaye parecia sem vontade ou sem capacidade de colocar para fora toda a força vocal que conquistara legiões de fãs.

"A turnê causou tantos problemas que foi ridículo", diz Banks, que trabalhou como diretor musical em boa parte dela. "As pessoas o forçavam a fazer turnês mundiais, a cantar em Las Vegas, a fazer mais do que ele podia. Não se preocupavam com ele. E ele era um homem de 44 anos, e estava fora de forma." E, como sempre, havia drogas. "Ele não fazia dois shows seguintes nem na noite depois de uma viagem. E ele ficava açodado. Era igual àquela música de Rockwell: Ele tinha medo de ir dormir porque alguém o observava."

Gaye ficou com medo de morrer depois de receber supostas ameaças; seus medos se intensificaram quando um "remédio" para dor de garganta, fornecido por uma pessoa de sua equipe, o deixou doente. Ele mandou colocar seguranças armados nas coxias enquanto ele se apresentava no palco. Vigias armados também ficavam de plantão na porta de seu quarto de hotel. Outros integrantes de seu séquito também carregavam armas. A turnê terminou em agosto de 1983. Em novembro, Marvin se mudou para a casa dos pais e começou a trabalhar em um novo álbum (ao morrer, a parte instrumental de nove músicas já estava pronta, e estava marcado para ele começar a fazer os vocais em 4 de abril). Ele também tentou se livrar do vício em drogas. "Ele percebeu o que aquilo fez com ele, como o deixava paranóico", diz Banks. "A mãe dele e todo mundo - inclusive ele próprio - espantaram todos os traficantes de drogas mais ou menos em novembro."

Mas, em pouco tempo, Gaye já tinha retomado alguns hábitos nocivos. "Ouvi boatos de que ele estava usando narcóticos pesados", declara um dos amigos do cantor. "De repente, Marvin vivia rodeado de armas."

O comportamento dele foi ficando cada vez mais inconstante. Em um dia, ele podia agir com doçura e leveza e, no seguinte, de maneira absolutamente incomunicável. No início do ano [1984], Bobby Womack convidou Gaye para cantar em seu próximo álbum, The Poet II. "Ele disse que tinha adorado a música, que era para nós nos reunirmos", Womack lembra. "'Ah, cara, que maravilha.' No dia seguinte, foi como se ele não tivesse dito nada. 'Eu falei com você ontem? Não, não falei com você ontem. Não, não, Bobby, você entendeu tudo errado. Olhe, deixe que eu dou um retorno a você...' E ele nunca mais ligou, não retornava as minhas ligações. Essa era a viagem dele."

"As últimas conversas que tivemos foram sobre drogas", conta Gordon Banks. "Cada vez que eu aparecia, ele perguntava se eu tinha alguma coisa. Eu não usava e, a certa altura, perguntei: 'Marvin, como é que alguém pode dar drogas a você? As pessoas amam você'. Ele ficou abalado com aquilo, e passou mais alguns dias sem usar. Marvin usava e parava - na minha opinião, usava mais do que parava."

Procurar ajuda profissional nunca entrou em questão. "Por mais problemas que se possa ter", diz Banks, "é difícil conversar com um total desconhecido sobre o que está acontecendo. Ele não era capaz de deixar que ninguém o colocasse em nenhum lugar. E ele não era capaz de se internar em lugar nenhum".

Marvin Gaye foi declarado morto no California Hospital Medical Center às 13h01. De acordo com o tenente Bob Martin, do Departamento de Polícia de Los Angeles, havia apenas três pessoas na casa dos Gaye quando ele foi morto. Várias fontes afirmam, no entanto, que havia outras pessoas na residência quando os tiros foram disparados. No pandemônio que se seguiu, amigos e integrantes da família se dispersaram; dizem que deram sumiço em drogas e apetrechos relacionados. "Limparam tudo", diz um amigo. "Quando a mãe começou a berrar 'Marvin levou um tiro!', todo mundo fugiu correndo!"

Durante a vida de Marvin Gaye, todo mundo quis tirar um pedaço dele. Sua morte não mudou nada: três dias depois dos tiros, enquanto 10 mil fãs passavam pela frente do caixão, um advogado que representava o irmão dele, Frankie, estava ao telefone com revistas nacionais, negociando supostamente por US$ 1 milhão os direitos para que a família contasse sua versão.

O corpo foi enterrado na quinta, 5 de abril. Depois de ler um trecho do Salmo 23 ("O Senhor é meu pastor..."), Smokey Robinson, Larkin Arnold (vice-presidente da CBS, que contratou Gaye) e Dick Gregory discursaram, cada um por sua vez. Stevie Wonder tocou uma canção chamada "Lighting Up the Candles". A banda de 35 integrantes apresentou um medley de seus maiores sucessos. "Eu gostaria que Marvin Gaye pai estivesse aqui", disse Gregory, "para que eu pudesse dizer que o amo".

Mas Marvin Gaye pai estava na cadeia. Exames mostram que ele não estava drogado quando matou o filho, mas há informações de familiares dando conta de que ele estaria senil e provavelmente perturbado. Ao ser preso, ele não expressou absolutamente emoção nenhuma. Na audiência para acusação por assassinato em 4 de abril, o advogado dele pediu adiamento porque o cliente não tinha "competência mental" para se apresentar perante o tribunal.

"Eu gostaria que o verdadeiro estado mental dele fosse divulgado", diz Banks, "porque ele realmente passou por muita coisa. Na verdade, as coisas estavam bem fáceis para ele. Ele não precisou fazer nada a vida toda. Ele não tinha as responsabilidades que Marvin tinha. Então, sabe como é, a atitude dele às vezes era tão arrogante quanto à de Marvin. Era como se fossem professor e aluno. Gente esperta".

Uma teoria defende que o cantor pode ter apressado a própria morte de maneira intencional. "Marvin achava que tinha chegado o seu momento", disse um amigo próximo. "Ele estava cansado de fugir. Quando ele atiçou o pai, o pai foi obrigado a tomar uma providência."

"É possível que o caso tenha sido esse", afirma Anna Gordy. "Quando eu soube [da morte de Marvin], entendi que era o desejo de Deus. Pensei a respeito do fato de que, estranha e ironicamente, foi a pessoa que ajudou a trazê-lo ao mundo (...) que Deus fez com que o tirasse deste mundo. É provável que haja algo aí."

Para a família e para os amigos - e para os milhões de pessoas que amaram esse homem por meio de sua música -, existe pelo menos um bálsamo: a esperança de que Marvin Pentz Gaye Jr., cuja vida sempre fervilhou de infelicidade, pelo menos agora esteja em paz. "Ah, eu sei que está", diz Anna Gordy. "Ele provavelmente está nos ouvindo conversar neste exato momento, divertindo-se com tudo, e pensando: 'Ai, meu Deus... eles realmente me amavam. O mundo me amava de verdade'."

"Tenho certeza de que sim. Tenho certeza de que sim, porque o Senhor não faria de outro jeito", ela completa.