Uma Mulher Afiada

Fernanda Machado é um sex symbol relutante e uma atriz por convicção. Global em franca ascensão, a jovem estrela de Tropa de Elite não esconde a preferência pelo cinema ou pelo teatro: “A TV é o exercício da frustração”

Por Daniel Benevides Publicado em 12/06/2009, às 12h05 - Atualizado em 28/10/2016, às 12h51

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De repente, no meio da balbúrdia de cliques que já se acumulavam por horas sábado adentro, Fernanda Machado leva as mãos para trás da cabeça a pedido do fotógrafo. Um gesto comum, mas decisivo. Foi a chamada epifania. Com os cotovelos para cima, a curta jaqueta à Michael Jackson ergue-se e revela as curvas da cintura, numa postura ao mesmo tempo desafiadora e convidativa. Os olhos já não parecem fixar a lente fria da câmera, mas alguém de verdade, uma lembrança, uma fantasia. Quem? Não importa. A sensualidade de Fernanda havia surgido na sua forma mais intensa, a boca entreaberta prometendo segredos, a pele exposta como se pudesse ser tocada. O experiente fotógrafo sabe disso e dá um grito divertido de satisfação. O trabalho estava feito. Fernanda ri, relaxa, volta a si do transe provocado pela própria concentração. Tinha ultrapassado a barreira do pensamento. Por segundos, havia esquecido que estava num grande e frio estúdio branco na Vila Madalena, em São Paulo, com 15 pessoas em volta e uma expectativa eletrificando o ar. O instinto afiado em 16 anos de formação no teatro e depois na TV e no cinema não falhara.

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De volta ao seu jeito natural de menina-moça, Fernanda equilibra-se nos saltos altos, ajusta a justíssima calça Pierre Balmain e vai até a mesa onde a equipe reunida está selecionando as fotos. Nesse momento, ela não é mais a relutante mas indubitável sex symbol, a jovem estrela de Tropa de Elite ou a atriz global em franca ascensão, sucesso como a barraqueira Laís em Caras e Bocas, atual novela das 7. Ela é mais uma no grupo, palpitando em tudo com distanciamento crítico, apontando para o que considera seus defeitos, concordando sem modéstia nem imodéstia com os elogios.

Sua risada ecoa na manhã do dia anterior, pouco depois de abrir a porta de seu pequeno apartamento na Barra da Tijuca, Rio, ao responder se tinha mania de limpeza. Eu tinha acabado de sentar à mesa, quando ela tirou um pano da manga com rapidez incrível e o passou sobre o tampo de vidro, limpando uma suposta mancha com graciosa eficiência. Lembrou um pouco a Monica do seriado Friends. "Sou muito prática e faço questão de ser independente. Eu mesma lavo minhas roupas, passo, cozinho e faço compras e faxina. E ainda conserto qualquer coisa, chuveiro, geladeira..." Olho para ela, admirado e, antes que possa dizer alguma coisa, completa, orgulhosa: "Tá vendo essas paredes, as portas, o teto? Fui eu que pintei". Honesta, faz questão de avaliar com justiça o resultado: "Mas não ficou bom, acho que vou pintar de novo".

Ela está com um jeans apertado, descalça, com uma blusa branca caindo obliquamente, revelando um ombro. No rosto só havia vestígios da água da pia, que enxuga casualmente com uma toalha. Enquanto fala, emendando as frases com lúcida feminilidade, anda, carregando o laptop aceso e resolvendo coisas. O sol entra pela varanda e acaricia o tapete felpudo entre os móveis brancos, de bom gosto. Tudo é meticulosamente arrumado de forma quase abstrata, impessoal. Chama a mãe, Alenice, professora e assistente social aposentada, que entra na sala com a mesma dinâmica: falante, natural, simpática. Está claro que sua boa forma é também genética, já que a mãe mal aparenta os 56 anos.

Antes de tudo, é preciso entender sua beleza, ao mesmo tempo angulosa e suave. Como disse o crítico Kenneth Tynan, "muito se escreve sobre o que os atores sentem, mas pouco sobre sua aparência". No conjunto, o rosto, de beleza evidente, universal, intriga: os traços, desenhados na ponta de um lápis fino, parecem estar em constante embate, ainda que em perfeito equilíbrio. O queixo desafiador e o forte maxilar disputam a preferência de quem a vê com o jovial e petulante nariz arrebitado, a boca posicionada entre a contenção atenta e o sorriso aberto, as maçãs salientes e uma testa suave, plácida. Os olhos são brilhantes, alertas, alternadamente meigos e felinos, um exemplo de metonímia, a parte representando o todo. Cercados de longos e sedutores cílios, formam, com o par marcante de sobrancelhas, a arquitetura de uma expressão magnetizante, entre a inocência e a malícia, da qual é difícil se desviar. É como se misturasse a Branca de Neve com a madrasta, não má, mas sedutora. Ou como na descrição que o mosqueteiro Athos faz de Milady, no clássico de Dumas: "Através da ingenuidade própria de sua juventude transparecia um temperamento ardente".

Percebo que estou olhando para ela com atenção pensativa, admiração distraída. Chacoalho um pouco a cabeça e pergunto o que vamos fazer, meio por inércia, pois já sei que o dia será cheio. Ela tem marcada uma entrevista para o Fantástico, duas cenas para a novela, almoço, entrevista para uma revista e gravação de vídeo com amigos. Mas a agenda não parece desanimá-la - ao contrário. Logo ela revela o segredo de tanta energia: um estranho suco verde com couve, pepino, maçã, cenoura e gengibre. "Quer?", ela pergunta em tom divertido, sabendo que há boas chances de eu não gostar. Encaro. E não é que é bom?

Diz então que vai tomar um banho e se arrumar para irmos ao Projac, nos domínios da Vênus Platinada. Sento no sofá com a mãe, que começa a contar, sem afetação coruja, como era Fernanda na infância, enfatizando o principal: que ela sempre quis ser atriz, desde pequenininha. Do quarto vem a voz de Fernanda. "Eu tinha 1 ano quando meus pais me levaram a uma festa junina. Lá tinha um palco e eu não queria sair dali." Então ela surge, já pronta, para a minha surpresa (não tinha passado mais do que cinco minutos). Vendo meu espanto, explica: "Lavei os cabelos ontem à noite". E continua, olhando de vez em quando para a mãe, que assente, afirmativamente: "Aos 4, fui a uma festa de casamento e dancei num palco sem parar - eu suava, pingava. Acho que é vocação mesmo."

Fernanda arrias machado, ou laís, ou selminha, ou Maria, ou Sonia, ou entre tantas, a sofrida Joana de Paraíso Tropical, começou a fazer teatro aos 12 anos, na escola Santo Inácio, em Maringá, norte do Paraná, onde nasceu, a 10 de outubro de 1980. "Foi a primeira vez que tive contato com a arte. Aprendíamos coisas bem avançadas!" Seu ritmo era devorador, o que explica tanta resistência na exaustiva rotina. "Eu ensaiava balé da 1 às 6 e ensaiava teatro das 7 às 11. Quando chegava, tava na adrenalina e ia dormir só à 1. O problema é que eu acordava às 6 para ir à escola."

Tinha sotaque carregado, "com aquele 'r' do interiorrr de São Paulo. E tinha também aquele 'e' arregalado, pronunciado com rigor, do Sul do país, de leitE quentE. Quis perder. Desde cedo se policiava para falar mais acariocadamente. Meticulosa, gravava suas falas e as ouvia. Ficou com um acento indefinido, límpido, "correto". Sua voz também era "fininha" e só ficou mais encorpada com muito treino.

Na escola, diz que era "safa" e que "lia Ibsen na aula de Química". O pai, Fernando, contador, um tipo silencioso e afetuoso, a quem ela é muito apegada, queria que fosse advogada. Mas, como lembra a mãe, "a gente percebia a vontade, a determinação de ser atriz; e também o quanto ela era responsável". Muito unida, a família foi junto para Curitiba, acompanhar a filha no vestibular para a Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Ela tinha 17 anos e passou aparentemente sem muito esforço. O namoro, com um rapaz de Maringá, estranhamente chamado Alison, acabou pouco depois, vítima da distância. Ele quis segui-la, mas ela não deixou. Era o primeiro namorado, um rito de passagem, que tinha começado aos 15 anos. Com ele teve a famosa primeira vez, aos 18. "Queria ter todas as certezas do mundo e por isso quis que fosse muito especial. E foi."

Pergunto, certo da resposta, se ela era muito assediada pelos meninos da cidade. Como muita mulher linda, diz que não, que era uma patinha feia. "Eu não era uma menina bonita, era meio gordinha, Fernantinha de vencer na simpatia. Foi por causa do balé que resolvi emagrecer. Mas era gordinha na boa, tipo Little Miss Sunshine, 'sou gordinha, mas sou feliz!'" Ela conta que era zoada pelos amigos do irmão mais velho, Ricardo, hoje um engenheiro. "Quando eu ia nadar, diziam: 'Lá vem a baleia, vai esvaziar a piscina'." Ela ri e se diverte com a lembrança. Olho para o seu rosto impressionante e pergunto, desconfiado, se ela não está exagerando. "Verdade!", ela responde, com a natural satisfação de quem sabe levar com bom humor qualquer provocação. E acrescenta: "Depois da minha 'transformação', cheguei a ser paquerada por um cara que não tinha me reconhecido. Você precisava ver a cara dele quando disse que eu era a 'baleia' da piscina!" A transformação consistiu em perder nove quilos e chegar aos 56 atuais, que checa, dia sim, dia não, na balança do banheiro. E também cortar os cabelos castanhos que lhe chegavam na cintura para a altura da orelha, "com a frente acompanhando o queixo, num estilo meio Chanel". Além disso, usou aparelho para corrigir o diastema que marcava seu sorriso com a curiosa fenda no meio dos dentes da frente (é de se perguntar se ela fez bem: como toda marca especial, o diastema pode ser um charme. É só pensar na cantora Vanessa Paradis).

Decepcionou-se com o primeiro ano de faculdade. "Faltava professor, sala, equipamento." Mas persistiu, mesmo depois de três meses deprimida. Morando com uma veterana estudante de odontologia, aprendeu logo a extrair o máximo do curso, principalmente das aulas do mímico Beto Meira, que tinha sido aluno de Marcel Marceau. Ele foi tão importante que virou seu companheiro pelos próximos cinco anos (curiosamente, anos depois ela interpretaria a estudante Lorena, que tem um caso com o professor bem mais velho, num episódio da minissérie Queridos Amigos). Meira também havia sido seu professor na escola. Foi quando vaticinou: "Se quiser mesmo, você vai ser atriz daqui a dez anos e uma boa atriz daqui a 20."

Fez várias peças nesse período. Numa delas, Adágio nº 6, já se colocou com disposição para a ousadia. Logo no acender das luzes, para aflição dos pais católicos, que acompanhavam todos os passos da filha, ela aparecia agarrando outra mulher, entregue às delícias do jogo sensual. Lembrei da frase que usou para dizer como encarava a seção de fotos: "Tem de estar aberta a tudo, sem restrições". Os pais, no entanto, aguentaram firmes, e continuaram apoiando. Viram Fernanda em O Homem Elefante e também em A Metamorfose, baseada em Franz Kafka, um de seus prediletos, de quem diz ter lido tudo, com preferência para o breve Carta ao Pai, uma indicação do professor/namorado. Mas não a viram em Longa Viagem do Comandante Fulano de Tal, uma adaptação de textos de Bertold Brecht. "Era muito forte", explica, "havia uma cena em que eu era estuprada". A peça marcou também sua atuação como figurinista, com menção elogiosa na Folha de S.Paulo e indicação para o prêmio local Gralha Azul. "Era todo feito de materiais recicláveis", conta. "Fiz um vestido longo para a atriz principal usando plástico-bolha." Em todas essas peças, como em tudo o que faz, mergulhava de cabeça, participando da montagem do cenário, ajudando como pudesse. "Na semana de estreia virava bicho: ficava com a unha estragada, a mão machucada..."

Nessa época também trabalhava para se sustentar. "Queria muito ser profissional, mas nunca vendedora de loja, coisa que me dava arrepios. Queria fazer mesmo o que eu gosto, o que eu acredito. Então dava aulas de expressão corporal para crianças carentes. Fazia também teatro para empresas. Acordava às vezes às 4 da manhã para ir a uma fábrica da Votorantim, O Boticário ou da Coca-Cola improvisar sobre as medidas de segurança para os trabalhadores. Arrumei emprego para muito colega assim. No fi m das contas, até nos divertíamos um pouco."

Mas o caminho natural era o Rio. Depois de encerrar o curso com uma tese sobre Brecht ("a ideia do distanciamento tem a ver com a verdade e postura crítica do ator"), vendeu sua moto, comprou um carro e partiu para a cidade onde badalava não apenas o plim-plim das empresas Marinho, mas também oportunidades no teatro e no cinema. Depois de interpretar a Selminha de O Beijo no Asfalto, foi chamada para fazer oficina de atores na Globo. O primeiro teste, para a novela Começar de Novo, de 2004, foi com o galã da época, Erik Marmo. "O engraçado é que eu vivia tão ocupada que não fazia ideia de quem ele era. Acho que isso me deu uma certa vantagem sobre as outras atrizes, que ficaram um pouco nervosas na presença dele."

A partir daí, fã de TV Pirata e da novela Que Rei Sou Eu?, começou a trabalhar sem parar na telinha. Seguiram-se as novelas Alma Gêmea, de Walcyr Carrasco, em que fazia a ardilosa alpinista social Dalila, e Paraíso Tropical, de Gilberto Braga, seu primeiro sucesso, pelo qual é reconhecida até em Portugal, onde a abraçaram em lágrimas. Na sua tradição de personagens dramáticas, difíceis, ela encarnava a pobre Joana, que se afogava nas dores de amor para emergir decaída, como prostituta. "Foi aí que comecei a fazer ioga, pois ficava tão fragilizada com a energia negativa da Joana que precisava recuperar meu equilíbrio."

Olhando para ela, ao mesmo tempo que se maquia com agilidade surpreendente, diante de um espelho mínimo, fica claro que seu equilíbrio está tinindo. Antes de sairmos para o Projac, ela me mostra anotações "Não sou de ficar decorando as falas. Gosto de estudar a personagem, imaginar de onde veio, para onde vai." Imagino-a debruçada sobre o roteiro como uma arqueóloga examinando uma pedra coberta de cuneiformes, procurando decifrar o texto para além da superfície. "Então faço esse resumo para não ficar carregando o roteiro pra lá e pra cá".

No caminho, noto que ela dirige bem. Ela ri e diz que está ficando "meio desleixada no volante, no melhor estilo carioca". Num sinal, surge o inevitável garoto com um rodinho. Fernanda fica meio mal e mostra que não tem nada, virando a bolsa de moedas para baixo. "Encontro sempre esse garoto, mas não acredito em dar dinheiro. Acho que não é nossa função. Quando andava com minha mãe em Maringá e víamos um garoto pedinte, chamávamos a van da prefeitura para que ele fosse melhor encaminhado. A maioria dos problemas do país seriam resolvidos com educação."

Chegamos finalmente na globolândia. depois de passar pelas catracas, Fernanda me puxa pela mão e me apresenta a todos como seu amigo. Fico completamente à vontade, não me sinto, afinal, um jornalista enxerido, intruso. A maquiadora passa por ela e ri com simpatia: "Já veio pronta, né?" Fernanda é mesmo muito prática. E muito popular entre os colegas de trabalho, da faxineira ao diretor. Ela vai se trocar e me deixa numa salinha com sofás beges, uma televisão ligada, alguns figurantes e um bebedouro. Dou uma olhada na planilha de gravação e localizo o nome dela. São só duas cenas. Em pouco tempo ela volta, transformada na suburbana Laís, radiante, com shortinho, salto alto, cabelo armado e camisa de babados. Mesmo toda essa armadura kitsch não arranha sua beleza. Quando entramos no set de Caras e Bocas, desviando de colunas falsas, cabos e câmeras, o clima festivo é geral. Estamos no núcleo rico da novela, a casa da vilã interpretada por Déborah Evelyn. Fernanda cumprimenta efusivamente um por um, Evelyn, Maria Zilda, Marcos Breda. Mas para o diretor Jorge Fernando reserva um abraço especial, daqueles que despertam sorrisos em volta. Começam os ensaios. Primeiro, Jorge orienta os atores com as falas e movimentos. Conduz a situação com experiência, sabe mimar os atores sem estragá-los. Em seguida, repetem a cena para testar o posicionamento das câmeras. Depois gravam. Para felicidade de Fernanda, tudo sai praticamente de primeira, uma versão mais precisa e divertida da própria vida. "Sempre gosto mais dos primeiros takes, acho que têm mais frescor."

No intervalo, no corredor, topamos com Rodrigo Lombardi, o Raj de Caminho das Índias. Com indumentária típica, ele pega um cafezinho e conversa com Fernanda animadamente. Me encorajo a falar com Jorge Fernando. Para ele, "Fernanda já está no primeiro time, pode fazer agora o que quiser". Referindo-se à bela e destrambelhada Laís, ele emenda: "Como ela sempre fez papéis dramáticos, pesados, faltava fazer comédia, ser meio Sandra Bullock, entender esse timing diferente, esse pensamento mais rápido". Na semana anterior, protagonizou cenas de pastelão explícito: levou quatro tortas na cara. "Fiquei com chantili até no ouvido!" Crítica e autocrítica, acha fundamental se ver na tela. "Aprendi a fazer televisão me assistindo. Nas primeiras novelas eu odiava tudo! Agora que estou um pouco melhor, presto atenção também na trilha e na edição. Queria poder palpitar mais, como no teatro ou no cinema. A TV é o exercício da frustração."