Liam Gallagher

O cantor do Oasis não obriga os filhos a amar os Beatles: “Eles ouvem o que quiserem”

Por Pablo Miyazawa Publicado em 28/08/2009, às 19h48

Durante os shows do Oasis, Liam nem olha para a cara do irmão, Noel: "Ele faz a parte dele, eu faço a minha.
Pronto. Funciona"
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Naquele fim de tarde, no amplo salão do hotel de luxo em São Paulo, a preocupação da gerente de turnê do Oasis era com a temperatura do ar-condicionado: "Liam está gripado", justificou. Não era desculpa: o vocalista surgiu pontual, vestido com uma camiseta da seleção brasileira (com seu nome escrito atrás), munido de lenços de papel e ligeiramente rouco. Rápido no discurso e conseguindo a proeza de ser afável sem esboçar um sorriso, ele não hesitava nem quando se via obrigado a citar Noel, irmão, parceiro e desafeto confesso.

Você assinou três músicas no último disco do Oasis. Como evoluiu como compositor?

Eu só fico treinando no violão, tá entendendo? Não me considero um compositor. Sou mais um cantor. Fico tocando, tentando encontrar as palavras. Vou tentando se estiver ficando bom, se eu estiver no clima. Há palavras a serem descobertas, mas não quero falar merda. Mas estou melhorando, sabe? Não vou deixar a música me frustrar, como rola com tanta gente. Compor é só uma fórmula.

E o violão, aprendeu como?

Praticando, cara. Sozinho, comigo mesmo. Nunca fiz uma aula.

Já tentou tocar nos shows?

Não, eu jamais faria isso. Eu pareceria um idiota tocando guitarra. Olha o Bon Jovi. Odeio aquilo. O Mick Jagger costumava tocar em shows e simplesmente parecia errado. Sei lá. E já tem guitarristas o suficiente nesta banda, sabe?

Você ainda curte shows? Sua atitude é a mesma de antes?

Sim. Muito. Eu gosto de olhar no olho do público, tento fazê-los reagir. Eles olham para mim, então eu olho para eles. Não olho no olho, mas através das pessoas.

Como é o público brasileiro?

São parecidos com os italianos e os ingleses. Cantam juntos, são apaixonados. Não é como nos Estados Unidos, onde só ficam sentados, aplaudindo. Um tédio. Até os japoneses agitam mais.

Você disse que tem dias que se cansa de ser você mesmo. Cansa ser Liam Gallagher?

De jeito nenhum, cara. Porque eu sou eu, simplesmente eu. É natural. Não fico reclamando disso, então nem dá para me cansar.

E qual é a melhor coisa de ser Liam?

Ser direto, sabe como é? Sem frescuras. Se me perguntam uma coisa, eu respondo. Sem papo furado. Essa é a melhor coisa de ser eu.

E o Liam de 1994, da época do primeiro disco...

Sou o mesmo. É a mesma coisa.

Não mudou de lá para cá?

Acho que não. Provavelmente mudei, mas não muito. Quer dizer, fiquei mais velho, tenho filhos, mais dinheiro... Talvez um pouco. Mas não muito. Mas não há o que mudar, cara. Sou perfeito.

O que o jovem Liam acharia da música do Oasis de hoje?

Iria curtir, cara. A música amadureceu, mudou um pouco, mas não muito. As pessoas são as mesmas, então acho que ele iria gostar.

Você, como fã de John Lennon, leu a biografia dele escrita pelo Frank Norman?

Eu não leio muito. Ganhei umas dez cópias desse livro no Natal. Mas o único que li sobre o John Lennon foi aquele escrito pela irmã dele [Imagine: Crescendo com Meu Irmão John Lennon]. Aquele é bom. Não gosto de ler sobre ele. Gosto da voz, da música. Não quero saber o tamanho do sapato dele, essas coisas não me interessam.

E quais eram seus interesses antes da música?

Só futebol, o dia inteiro. Eu saía de casa só para jogar bola. Só passei a me interessar por música aos 17. Daí eu vi os Stone Roses. A música era boa, então eu só segui esse caminho para ver no que ia dar.

Em relação à música, você procura ensinar seus filhos a curtirem as coisas certas?

Eu não quero interferir no caminho deles. Eles têm que curtir o que quiserem. Não vou obrigá-los a ouvir os Beatles. O Lennon [de 9 anos] até gosta de Prodigy.

E Jonas Brothers, você deixaria eles ouvirem?

Eles podem gostar do que bem entenderem. Porque se você tenta dizer a eles o que fazer, eles fazem exatamente o contrário. Deixo eles seguirem seus próprios caminhos.

O Oasis tem músicas no Guitar Hero. Os games são a salvação da indústria musical?

Espero que não, mesmo. Música não tem a ver com fazer dinheiro, tá entendendo? Música é música. Se render dinheiro, é bom pra caralho. Mas você não pode parar

de fazer música porque não está dando grana. A razão pela qual fazemos grana hoje são os shows, porque ninguém compra discos. Se ninguém mais comprar um

CD, não ligo - já vendemos 15 milhões. Nem dá para reclamar.

Já pensou em um disco solo?

Não tenho interesse. Tenho uma banda. Gosto de estar na banda.

É verdade que o Noel está fazendo um disco só dele?

Deve estar. Não ouvi falar nada. Ele faz o que bem entende, sabe?

Como você e o seu irmão lidam com o Oasis? Como um negócio de família, uma obrigação, um emprego fixo?

Não é um emprego fixo. Eu amo o Oasis, cara. É a minha família. Tenho orgulho do que a gente faz. Noel acha que a banda deveria seguir um determinado caminho, e eu penso diferente, porque somos diferentes. As pessoas mudam com o tempo, mas não acho que isso deveria mudar nosso estilo. A música do Oasis é simples e direta. Não tem que tentar mudar.

Você diz que Noel possui um ponto de vista diferente sobre a banda. Como assim?

É que ele é mais velho que eu, vai chegar aos 50 antes. Talvez ele tenha vergonha de estar no Oasis hoje em dia. Eu não. Eu adoro.

Mesmo não se falando fora dos palcos, a química funciona ao vivo. Como explicar?

A gente não se fala no palco. Ele faz a parte dele, eu faço a minha e pronto, é isso. Funciona.

Paul McCartney e Ringo Starr tocaram juntos em Nova York. Você assistiu?

Não.

Muitos se emocionaram com o reencontro dos ex-Beatles.

Talvez. Não eu. Tipo, não eram os Beatles de verdade, sabe?

Se o convidassem para cantar em uma "reunião dos Beatles", você aceitaria?

Duvido, cara. Aí seria exagero.

E se encontrasse John Lennon ao vivo, o que lhe diria?

[Pensa] Não sei, cara. Não curto esse tipo de pergunta porque é fácil dizer bobagem. E, como isso jamais aconteceria, então... sei lá.