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Muito Longe de Cannes

Com o petróleo, o município paulista de Paulínia quer se transformar na meca do cinema nacional

Por Adriana Douglas e Anna Virginia Balloussier Publicado em 30/09/2009, às 11h40

O tapete vermelho em Paulínia, mais cheio de celebridades do que de público, não esconde as reais aspirações do festival
ALINE ARRUDA/DIVULGAÇÃO

Era uma vez uma cidade pequena, sem uma única sala de cinema. Com pouco mais de 60 mil habitantes, Paulínia não foge à regra. Mas o município, a 118 km da capital paulista, se envaidece com comparações - hiperbólicas - que vão de Cannes a Hollywood, passando por Bollywood. Daniel Filho filma seu novo longa no novato polo cinematográfico da região, e Selton Mello deve fazer o mesmo. Some a isso os cafunés da classe artística e a ampla cobertura midiática do Festival Paulínia de Cinema, que realizou sua segunda edição no mês passado. Sem uma sala de cinema local, as projeções do evento aconteceram no Teatro Municipal da cidade, com pilares gregos de gosto questionável que entregam a vontade de virar Olimpo para o cinema nacional.

Por que Paulínia caiu nas graças da indústria cinematográfica nacional? A resposta está no polo petroquímico local, que garante à cidade a 7ª renda per capita do Brasil. Só para prêmios, são R$ 650 mil, a maior premiação distribuída no circuito de festivais no país. Isso tudo sem contar o parrudo orçamento do Fundo Municipal de Cultura: R$ 15 milhões (em 2009), equivalente a 1,5% dos impostos, sendo que R$ 10 milhões são destinados para um edital e o restante para o festival. Com a maior concentração de artistas por metro quadrado do Brasil, o Rio de Janeiro separa apenas 0,06% do arrecadamento municipal para a Riofilme, cerca de R$ 60 milhões.

As recentes tentativas de deslanchar berços cinematográficos no país nem sempre foram felizes, lembra José Joffily, diretor do melhor filme deste ano segundo o júri do festival, Olhos Azuis. "O polo de Vitória fez Vagas para Moças de Fino Trato [de Paulo Thiago] e Lamarca [SérgioRezende]. O que mais? No Rio teve matéria no jornal para falar do polo na Barra da Tijuca, que hoje cai aos pedaços. O do Ceará está indo mal das pernas." Para o cineasta, o problema é que iniciativa existe de sobra, mas falta mesmo a continuação dos projetos. "Em qualquer país do mundo, os filmes são produzidos em parceria com a TV. Aqui, o investimento só vem depois de ter o produto pronto, ninguém quer saber de risco."

Por que Paulínia teria chances de triunfar quando outros polos cinematográficos brasileiros beijaram a lona? "As pessoas não vão querer vir para Paulínia só para dar um tapa na grana", aposta Joffily. Nem teria por quê, segundo ele: "O dinheiro está lá, a temperatura é boa e não tem engarrafamento. No Rio, a TV já prostituiu todas as locações". O crítico Rubens Ewald Filho, curador do festival, é mais romântico: "O polo busca um panorama do cinema brasileiro sem preconceitos". E o leque é realmente amplo, vide a exibição do documentário Moscou, de Eduardo Coutinho, da ficção Destino, de Lucélia Santos, uma coprodução com a China que foi massacrada por público e mídia em sua estreia no país, mais o pragmatismo de Heitor Dhalia, escolhido para abrir o festival com sessão hors-concours de À Deriva. "É muito difícil captar dinheiro no Brasil. Nisso, Paulínia vale", afirma Dhalia.

Premiado pelo júri popular com o documentário Caro Francis, sobre o jornalista Paulo Francis, Nelson Hoineff conta que, como muitos ali, no primeiro momento, ele ficou ressabiado com o evento, mas mudou de ideia. "Em Paulínia, temos uma ação consolidada", diz, referindo-se a estruturas como estúdios, escola de cinema e de animação. "Não pareceu uma ação política", conclui.

Mas, no dia do encerramento do festival, o prefeito José Pavan Júnior (DEM), que vinha recebendo tapinhas nas costas por ter dado continuidade ao projeto iniciado pela gestão anterior de Edson Moura (PMDB), teve mandato cassado após denúncia de compra de votos (a ordem judicial foi revertida semanas depois). Ao se misturar política e cinema, fica fácil entender por que o projeto de consolidação tanto do festival quanto do polo cinematográfico precisa de mais do que boas intenções. Por depender dos incentivos do município, o evento pode sofrer com os tropeços políticos. "Não sinto segurança de dizer que o festival vai durar, pois vem da esfera pública. Logo, está sempre fadado a mudanças de rumos bem radicais", pondera Eduardo Valente, diretor de No Meu Lugar, um dos concorrentes do ano.

Era uma vez uma cidade pequena, sem uma sala de cinema. Com a mesada do petróleo, Paulínia pode mudar o final desse conto - se o jogo político não interferir antes.