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Sexo, Drogas e Scorsese: Woodstock no Cinema

Com uma edição de 40 anos do filme, a equipe original olha para o passado

Por Andy Greene Publicado em 30/09/2009, às 11h05

Público ouviu muita música, mas viu os anos 60 morrerem
MICHAEL OCHS ARCHIVES/GETTY IMAGES

Alguns instantes depois de filmar um casal fazendo sexo no mato no festival de Woodstock, em 1969, o câmera David Myers deu de cara com um faxineiro de meia-idade que limpava um banheiro atolado com uma bomba de sucção gigante. "É difícil acompanhar o ritmo", ele diz. "Me sinto feliz de fazer isso por essa molecada. Meu filho está aqui, e tenho outro no Vietnã também." Enquanto o homem se encaminha pro próximo banheiro, um hippie alto sai de dentro de uma cabine fumando um cachimbo, olha pra câmera e diz: "Sem filmar. Quer um pouco?"

Em junho, 40 anos depois do festival, o filme Woodstock, vencedor do Oscar, está sendo relançado em DVD e Blu-ray, com som 5.1 surround e duas horas de performances inéditas de Grateful Dead, The Who e Creedence Clearwater Revival. O diretor Michael Wadleigh, que comandou uma equipe de 70 pessoas, diz que a cena do banheiro é emblemática do que há de melhor no filme. Apesar das performances de Sly and the Family Stone, The Who e Jimi Hendrix, são os momentos não musicais que fazem de Woodstock um documento definitivo da contracultura em seu ápice. Freiras sorridentes fazem o sinal da paz para a câmera, policiais chupam picolés ao lado de hippies e idosos locais se juntam pra ajudar a alimentar o exército de fãs. E, como todos os aspectos de Woodstock, a existência do documentário em si é um milagre.

Dias antes do festival em Bethel, no estado de Nova York, os produtores Michael Lang e Artie Kornfeld assinaram um contrato com Wadleigh. O diretor montou às pressas uma equipe que incluía um jovem Martin Scorsese como diretor-assistente. "Acho que aquela foi a segunda ou a terceira vez que o Marty saía pra conhecer o país", diz o supervisor de som e música L.A. Johnson, que agora trabalha para Neil Young.

A preparação em cima da hora causou sérios problemas, desde pouca quantidade de filme (eventualmente mandavam, de outros lugares do país e de helicóptero, material virgem), até conseguir fazer a equipe chegar ao local do festival, devido a um congestionamento de mais de 30 km. Mas Wadleigh diligentemente organizou suas tropas, posicionando uma equipe em frente ao palco enquanto outras faziam reconhecimento de campo em busca de personagens interessantes. Scorsese, na lateral do palco, trabalhava desesperadamente para organizar a equipe por meio de um sistema primitivo de fones. "Quando a música começava, eu não conseguia ouvir nada, então tirava os fones", diz Chew. "O Marty é um cara impaciente, ele começava a gritar. Eu não conseguia ouvir uma palavra, e acho que nós estragamos a cena inteirinha." As frustrações de Scorsese aumentavam enquanto o final de semana avançava. "Uma hora o Marty tentou tirar um cochilo numa barraca embaixo do palco", diz Perry. "Ele esbarrou na armação, e a coisa toda veio abaixo. Ele tinha claustrofobia e começou a gritar para que alguém o ajudasse. Mas aquele não era o Martin Scorsese ainda, aquele era só um babaca de Little Italy." Quando os shows do dia acabavam, a equipe dormia embaixo do palco ou no chão da coxia. Na segunda noite, um médico deu uma injeção de B-12 em todo mundo. "Depois da 20ª ou 15ª injeção, percebemos que o cara estava usando a mesma agulha em todo mundo", diz Johnson.

Nem todos queriam ser filmados. O The Who inicialmente recusou: Pete Townshend expulsou Wadleigh do palco, então as câmeras não estavam filmando quando Abbie Hoffman pegou no microfone depois de "Pinball Wizard" e Townshend o acertou com a guitarra. Mais adiante na apresentação, a equipe começou a filmar sorrateiramente, gravando uma versão incrível de "See Me, Feel Me" enquanto o Sol nascia ao fundo. Em meio a todo o caos, ninguém pediu aos artistas para assinar autorizações de imagem. Então Jerry Wexler - que havia escolhido as atrações para a trilha sonora que sairia em disco pela Atlantic Records - teve que ir atrás de um por um. Albert Grossman, que agenciava The Band e Janis Joplin, viu uma oportunidade para se aproveitar da situação. Como resultado, Joplin e The Band não saíram no filme nem na trilha sonora - apesar de as filmagens de Joplin estarem incluídas na versão do diretor.

Quando o concerto acabou, Wadleigh e sua equipe tinham 125 km de filme pra editar - nada sincronizado com o som, que foi gravado em separado - o processo de edição levou dois meses para unir filmagens e gravações. Ao fim do festival, Wadleigh sentiu que estava vendo o fim dos anos 60. "Eu fui lá e comecei a filmar como se aquilo fosse uma guerra", diz. "Vi ali que muitos dos nossos ideais não iriam vingar."