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Céu

Querendo tempo para curtir a vida, Céu retoma a carreira sem acelerar demais

Por Paulo Terron Publicado em 07/12/2009, às 18h44

Céu acha que "Um pouco de leseira não faz mal a ninguém"
MARCELO GOMES

Mãe recente - de sua primeira filha e de seu segundo disco, Vagarosa -, a cantora Céu agora luta contra a rapidez do mundo moderno. Assumindo seu "espírito hippie", ela acha que anda faltando amor e gentileza à humanidade

Entre o seu primeiro disco e este novo, passaram-se cinco anos - mas você passou esse tempo trabalhando. Não é estranho ver todo mundo dizendo que demorou?

Acho que talvez não pareça tanto, sabe? Teve o lance do Sonantes, que é um disco inteiro no qual eu canto bastante, participei da composição... Então tem coisas que talvez não apareçam tanto. E teve também o fato de eu ter tido uma filha, né? Eu quis parar e me dedicar, não fiquei na paranóia de voltar. Virei um bichinho.

O fato de as músicas de Vagarosa serem mais lentas é reflexo dessa introspecção?

Não sei, cara, acho que eu sou esquisita no sentido que... não acho [as músicas] tão lentas. Entendo você achá-las lentas, as pessoas acham isso. O nome é porque as coisas andam muito rápidas e isso faz com que você não viva o seu presente. O disco vem muito de eu querer voltar a uma essência contemplativa. Um pouco de "leseira" não faz mal a ninguém.

As pessoas que estão no disco novo são as mesmas do anterior. O que fez com que este soasse diferente?

Eu mudei! [risos] Não, eu não mudei completamente, sou muito parecida com a pessoa que lançou o primeiro disco. Mas você muda. Como diz na [faixa] "Bubuia", "não estamos aqui só a passeio". Essa é a sensação que eu tenho. Mais uma vez eu tinha a necessidade de fazer o que fosse sincero e honesto, tentando não pensar em o que esperavam de mim.

Você se sentia pressionada?

Olha, sempre tem um pouco, né? Pelo menos [pressão] de selos. Sou associada a muitos selos fora [do Brasil]. Então só daí já tinha uma pressão. "Pô, e aí? Sua fila está andando..." Tinha um pouco isso. E também de público. No MySpace eu converso diretamente com os meus fãs e eles perguntavam. Mas nunca foi algo que pesou. Pelo menos eu não senti dessa maneira, foi assim que tentei conduzir o trabalho.

Por o mundo ser tão rápido hoje, você não teve medo de ficar para trás?

Desde o começo eu tento manter o foco do meu trabalho agindo pela honestidade comigo mesma. Pode parecer, às vezes, muito arriscado - e é mesmo. Posso me dar muito mal. É totalmente imprevisível. Mas a música também precisa disso, ela é uma matéria viva. É energético, preciso agir de maneira honesta.

Então você separa a música de todo o resto que vem junto - divulgação, vendas etc.?

Eu separo, mas as pessoas que trabalham comigo ficam um pouco preocupadas [risos]. Tento preservar isso para não fazer uma coisa falsa, cara. No Vagarosa eu refleti muito sobre isso. Pensei, "posso ficar mais dura, mais pobre, mas estou tentando fazer de coração". Sem ser piegas - ou já sendo completamente -, para mim a música vem direto do coração.

Vai ser mais difícil viajar e divulgar seu trabalho agora que você teve uma filha?

Ficar longe... Não rola! É uma coisa a se pensar. Mas filho é algo que só serve para agregar, não para complicar. Agora preciso ver se vai ser bom levá-la em tantas viagens. Fiquei uma semana fora e não a levei, mais por causa da gripe [suína]. Nas próximas já está tudo certo para levá-la.

Você já pensou em fazer letras em inglês para as suas músicas que saem lá fora?

Nos Estados Unidos teve o lance do [primeiro CD a ser distribuído pela rede de café] Starbucks, que ajudou muito. Em cada esquina tem um, tenho plena consciência de que ajudou. No princípio até pensei "nossa, cafezinho, CD... Que doideira!", mas eu fiz o meu trabalho. Então não penso em fazer música em inglês, não. E não condeno [quem faz], quero deixar claro. Se um dia eu vier a fazer, não vai ser para conquistar um mercado - provavelmente seria porque tem um milhão de músicas norteamericanas, jamaicanas, africanas de que eu gosto. Música é livre. A gente rotula, embala e vende, mas ela está cada vez mais sem fronteira.

Você também vai fazer uma turnê patrocinada pela Natura. Como se sente a respeito desse tipo de parceria?

Estou feliz. Por enquanto só tive experiências respeitosas. Nunca pediram para mudar o repertório, cantar em inglês ou falar da marca. Eu estou começando [a carreira] e é um momento de crise mundial, todo mundo sabe que a música está em um período transitório. Está difícil demais viver disso, vender discos.

Incomodou ver o disco na web antes do lançamento?

Cara, eu... Eu achei ótimo [risos]. O que eu vou fazer? Nadar contra a maré? Não tem jeito, as coisas estão mudando e é isso. Agora vamos tentar nos adaptar. Tem gente que vai ganhar dinheiro, gente que vai perder. Onde é que eu vou me enfiar? Isso que preciso me perguntar, porque eu também tenho contas para pagar.

Várias pessoas me disseram que Vagarosa é um "disco de maconheiro". É?

[Gargalhadas] Ó o cara querendo me pegar feio aqui! Claro que tem [a ver]. É o beat, a Jamaica. Olha, eu tomo isso como um elogio. Eu curto música jamaicana e tem essa referência, o grave, o dub. E este disco... Tem uma história que eu queria contar, não foi uma coisa "pô, vamos ficar aqui parados..." O Vagarosa fala sobre as coisas que acontecem naturalmente com você, o químico. Eu queria passar essa sensação da revolução por meio do amor, da gentileza. Está faltando amor, as coisas andam muito zoadas. Muito hippie?

Eu ia perguntar isso: você aceita o rótulo de hippie?

Vou fazer o quê? Não me sinto hippie. Esse movimento, a meu ver, traz uma coisa um pouco ingênua. Quer dizer, não exatamente ingênua porque tinha muita coisa acontecendo. Só que depois ficou só o ranço.

A caricatura.

Isso. A essência da história é linda. Tudo bem, pode me chamar assim. Minha alma é hippie.