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Comemorando o Caos

Nação Zumbi e convidados tocam a íntegra do álbum Da Lama ao Caos (que completa 15 anos), em show no Festival de Inverno de Garanhuns

Por José Julio do Espirito Santo Publicado em 09/10/2009, às 09h43

Jorge du Peixe à frente do Nação

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Ninguém na banda sabe dizer o dia em que aconteceu. Igual à maioria esmagadora de lançamentos do mercado fonográfico nacional, não há registros precisos de seu nascimento (leia-se o dia em que passou a ser vendido em lojas de discos). Fato é que faz 15 anos que Chico Science & Nação Zumbi viu seu álbum de estreia, Da Lama ao Caos, decorando vitrines e prateleiras. Mais do que o début de uma banda (na época, em vinil, cassete e CD), o trabalho pode ser considerado um pontapé inicial de algo maior. Junto com Samba Esquema Noise, primeiro álbum do mundo livre s/a, mas com um alcance muito maior, Da Lama ao Caos foi o cartão de visitas do movimento manguebeat, que chegava ao Sudeste como a maior fonte de renovação no rock nacional.

Nada mais justo comemorar o aniversário com uma série de shows com as primeiras músicas, tocadas na ordem em que aparecem no disco.

No Estúdio Nimbus, em São Paulo, a Nação Zumbi prepara em dois dias de ensaios o show-homenagem a ser apresentado no Festival de Inverno de Garanhuns, um megaevento artístico anual que agita a "Suíça pernambucana", a fria cidade no meio do agreste. Um a um, os integrantes da banda chegam com uma calma impressionante para o último ensaio, contrastando com a agitação do estúdio e como se em menos de 24 horas toda uma trupe de músicos, equipe técnica e convidados - Fred Zeroquatro, Otto, BNegão, Edgard Scandurra e Arnaldo Antunes - não fosse partir na longa viagem. A explicação para a vibe pacata: várias músicas de da Lama ao Caos são constantes em shows da banda. E mais: de quando em quando a nostalgia paira, como se cada um mentalmente folheasse um antigo álbum de fotografias. Nesse estado, quase meditativo, Gilmar Bola 8, o comandante do trio de alfaia que dá um poder sonoro sem igual à Nação Zumbi, volta mais para trás e relembra a pré-história da banda. "Eu conheci Chico quando trabalhávamos na Emprel, a empresa de processamento de dados da prefeitura de Recife", ele explica. "Um dia o vi batucando na mesa e a amizade começou. Eu tocava num bloco afro que ensaiava no Daruê Malungo". A sede da pioneira ONG que atende a comunidade de Campina do Barreto, em Recife, abrigava os ensaios de Lamento Negro, conjunto de Gilmar. Chico Science & Nação Zumbi surgiu do amálgama dessa banda com o Loustal, antigo grupo de rock de Chico Science com o guitarrista Lúcio Maia e o baixista Alexandre Dengue. Misturas incongruentes e geniais como, no caso, maracatu com o rock, eram coisas que sempre fascinaram Chico. "Volta e meia, ele me apresentava bandas que misturavam estilos e eu pirava", Lúcio conta, durante um intervalo de ensaio enquanto esperam a chegada de Arnaldo Antunes e BNegão (que ainda tocaria na mesma noite em outro palco do festival com sua banda, BNegão & os Seletores de Frequência). "E se existia uma coisa que Chico sabia fazer era business", revela Dengue. "A gente até tinha um apelido turco para ele. E, por onde ele andava, vivia com os bolsos cheios de demos." A fitas de demonstração às quais Dengue se refere eram de uma coletânea de faixas do mundo livre s/a, do Loustal e do recém-criado Chico Science & Nação Zumbi.

A primeira gravadora a assinar um contrato com a banda foi a Sony, que na época tinha um selo para artistas emergentes, o Chaos. Era uma época em que estar em uma major ainda trazia enormes vantagens em relação ao mercado independente. Durante a primeira excursão a São Paulo, feita junto com o mundo livre s/a, houve o primeiro paparico. "A gente fez um só show no Aeroanta, organizado pelo DJ Magoo, então funcionário na Brasil 2000 FM, além de participações em programas de TV - Fanzine, com Marcelo Rubens Paiva, e Programa Livre, com Serginho Groisman", Dengue explica em detalhes, considerando a viagem um ponto crucial na carreira da banda. Eles já tinham uma minuta de contrato da gravadora Tinitus em mãos e estavam tentados a assinar com ela. No show, além de Pena Schmidt, o big boss do extinto selo independente, havia gente da Sony e da Warner. Todas na paquera com a sensação pernambucana.

Uma das primeiras sugestões da gravadora foi a produção de Liminha. A banda tinha o norte-americano de alma brasileira Arto Lindsay em mente para produzir o disco. As gravações de Da Lama ao Caos começaram no Rio de Janeiro, em setembro de 1993, mas logo foram interrompidas porque Lúcio teve de voltar para Recife - tinha pegado caxumba. "A gente chegou lá de alma aberta. Nada carrancudos", Lúcio explica como acataram a indicação. "Chegamos lá como todo nordestino quando chega no Sul: humilde, com medo de mexer nas coisas. Liminha deu uma sacudida na gente." De uma forma similar, a banda sacudiu a cabeça do produtor acostumado ao rock brasileiro dos anos 80. "É muito louco o som de vocês. Não tem agudo. Não tem prato, não tem nada", Dengue recorda ouvir de Liminha. "Porra, é tudo desmembrado na bateria. A única coisa que tem junto é o baixo e a guitarra. O resto é tudo desmembrado." Ele se referia à ausência do instrumento. No lugar, três alfaias e uma caixa tocada por Canhoto, antigo membro da banda, no estilo de banda marcial. Pupillo viria a colocar uma bateria na banda a partir de Afrociberdelia.

No aeroporto de recife, de volta ao presente, Fred Zeroquatro, vocalista do mundo livre s/a e uma das peças-chave no manguebeat, junta-se ao grupo para pegar a estrada em direção à terra do presidente Lula e chegar ao Festival. A longa viagem dá margem a conversas sobre o novo álbum do Maquinado, projeto paralelo de Lúcio, a excursão ao Canadá para a qual o mundo livre s/a está se preparando, geniais sons de dancehall ouvidos no laptop de BNegão e as vezes em que Ira! e Arnaldo Antunes cruzaram caminhos com a Nação Zumbi. E a cada parada dá a sensação de uma romaria musical a Garanhuns, missão anual que a banda cumpre há dez invernos em dez festivais. Desta vez, acompanhada de bons amigos. Entre eles, o irrequieto e divertidíssimo Otto, tirando comentários da manga sobre tudo o que passa em seu campo de visão para no futuro - às vezes, no próprio instante - fazer música com eles.

Poucos minutos antes da 1h da manhã, Paulo André, antigo empresário de Chico Science & Nação Zumbi, visita o camarim e inicia uma conversa sobre os formatos em que o álbum Da Lama ao Caos saiu e as diversas edições gringas. "Eu tenho a prensagem japonesa, a europeia e a que foi feita nos Estados Unidos", ele comenta com o orgulho de ser um dos responsáveis por ela. Em um canto, quieto (mas sorridente), Jorge du Peixe se concentra para entrar no palco. Ele parece não pensar mais no peso que foi substituir Chico Science no vocal. "No início, existia uma comparação e isso me deixava inibido. Nossos timbres de voz são parecidos." Futura e, em especial, Fome de Tudo, os álbuns mais recentes da Nação Zumbi, deixaram as comparações no passado.

Na madrugada, a arena principal montada no centro da cidade está lotada de gente que, mesmo conterrânea, em grande parte conheceu Chico Science & Nação Zumbi depois de ela ajudar a tornar Recife um importante polo musical, depois de ela suar a camisa em festivais em outros continentes ou até mesmo depois de ouvir "A Praieira" em novela da Globo. Como vai acontecer em outras cidades, incluindo São Paulo, no dia 17 de setembro, a promessa é cumprida faixa a faixa, com timbres de guitarra mais elaborados, samples mais absurdos, mas com aquele mesmo ritmo único, que pesa uma tonelada.