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Marina Silva para Presidente?

A ex-ministra do Meio Ambiente embaralha a corrida presidencial sem ligar para as pesquisas

Por Andrea Jubé Publicado em 09/10/2009, às 10h01

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A senadora Marina Silva recebeu a Rolling Stone em seu apartamento funcional na Asa Sul, em Brasília, no final de semana em que tomou a decisão que marcaria o resto de sua vida. O semblante abatido, ainda que sereno, denunciava o sofrimento que a afligia: decidir sobre seu desligamento do Partido dos Trabalhadores, casa que a abrigou durante 30 anos de militância política.

Embora fizesse um calor de 35 graus lá fora, ela sentia leves calafrios. Uma moça adentrou a sala para levar-lhe uma echarpe verde-musgo que prontamente ajeitou sobre os ombros. Xales e echarpes compõem o visual da "doce senadora da floresta" - codinome que ganhou de Ziraldo - que invariavelmente se cobre para espantar um frio que, muitas vezes, só ela sente.

Marina, que é morena como na música de Caymmi, é de uma delicadeza física desconcertante. Lembra um bibelô desses que se seguram com cuidado porque, se caírem, despedaçam. Sua fragilidade reflete os efeitos da contaminação por metais pesados (como mercúrio), provavelmente contraída nos tratamentos contra a leishmaniose. Ela luta contra esse mal há 20 anos. Hoje, aos 51, vive sob rígida dieta da qual foram banidos alimentos artificiais e enlatados.

Mas se engana quem se deixa levar pela aparência frágil da ex-ministra do Meio Ambiente. Ela vira uma onça em defesa das causas ambientais. Foi assim que conduziu até onde pôde o mais bem-sucedido plano de combate ao desmatamento já implantado no país. Quando os tensionamentos com outros ministros cujos interesses se chocaram com a área ambiental se tornaram insustentáveis, ela não titubeou. "Perco o pescoço, mas não perco o juízo", declarou. E entregou o pescoço.

Marina deixou a pasta do Meio Ambiente em maio de 2008, vencida pelas resistências contra sua política ambiental que buscava integrar todos os ministérios. Foi acusada de "travadora do desenvolvimento" e se indispôs com os ministros da Agricultura, Reinhold Stephanes, da Casa Civil, Dilma Rousseff e do Desenvolvimento Estratégico, Mangabeira Unger (que depois também deixaria o governo).

Já no Senado, não disfarçou a profunda tristeza com a Medida Provisória 458, que permitiu a regularização de posses de até 1,5 mil hectares na Amazônia. "Como vou estar feliz se o governo que apoio publica uma MP como essa?", teria desabafado a um amigo em junho, quando a chamada "MP da grilagem" foi aprovada. No final, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou um dos dispositivos criticados por Marina, mas o apelo dos ambientalistas era para que pelo menos três fossem excluídos da lei.

A desilusão a consumia havia meses. Marina abria seus dissabores à família e aos amigos próximos. Descartava disputar seu terceiro mandato ao Senado no próximo ano. Pensava em fundar um instituto para se dedicar à militância em prol do desenvolvimento sustentável e à mudança de mentalidade da sociedade, das empresas. Foi nesse contexto que o PV renovou o convite que há anos lhe fazia sistematicamente.

"Deixar o PT foi uma decisão difícil e dolorosa. Marina é uma mulher muito sentimental", testemunha o deputado Fernando Gabeira (RJ), com quem a senadora agora divide sua nova legenda, o PV.

Dos rincões da floresta Amazônica, Marina despontou para a política nacional e a cena internacional como um gigante. Agora chega para desarranjar um cenário eleitoral que o presidente Lula já havia traçado como um plebiscito informal, em que o eleitor votaria na melhor administração dos últimos 16 anos, optando pelo candidato(a) do PT ou do PSDB.

"A chegada dela anima a campanha e traz para o centro do debate a questão ambiental, que, em geral, é secundária para os partidos", analisa o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ). "A Marina é maior que o PV. Mas o partido vai crescer com sua candidatura. Vamos atualizar nosso programa e ampliar a militância", anseia o líder do partido na Câmara, deputado Zequinha Sarney (MA).

Marina sabe que enfrentará dificuldades como a falta de alinhamento partidário. O PV fez alianças com o PSDB e o DEM em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas marcha com o governo do PT na esfera nacional. "O PV é um caleidoscópio ideológico com zonas cinzentas. A filiação da Marina será um teste para sua propalada e improvável refundação", desafia Chico Alencar.

O partido comanda o Ministério da Cultura, que já teve à frente o músico Gilberto Gil, sucedido pelo também "verde" Juca Ferreira. Aliás, após a notícia de que Marina seria sua companheira de legenda, os jornalistas acorreram até Gil, perguntando-lhe se ele aceitaria ser candidato a vice em sua chapa.

"Uai! Claro que existe possibilidade de dizer sim. Existe possibilidade de dizer não, existe possibilidade de tudo. Mas só quero dizer a ela, se ela me convidar", foi a resposta. Mas um dirigente da Executiva Nacional destaca que o cargo de vice deve ir para outro partido, porque o PV precisa se coligar a outras legendas para aumentar o tempo de propaganda no rádio e na TV.

Um amigo, acriano como ela, que a conhece há mais de 30 anos, dos tempos em que ela militava ao lado do líder seringueiro Chico Mendes, afirma que Marina traz dentro de si a "força dos espíritos da floresta". "Os espíritos vão conduzi-la até a Presidência da República", profetiza.

Não se pode esperar menos de uma mulher que, estando na floresta, sabe com antecedência se vai chover pelo movimento das formigas. E cuja trajetória de vida levou o jornal britânico The Guardian a elegê-la como uma das 50 pessoas capazes de ajudar a salvar o planeta.

Na entrevista a seguir, Marina não confirma a candidatura presidencial, mas admite que é o palanque por excelência para debater os grandes temas e apresentar propostas para o país. Ressalta que as pesquisas não a influenciam, relata como conduziu o plano que em três anos reduziu o desmatamento no país em 57% e faz um alerta sobre o consumismo exagerado: "A relação do homem com o consumo faz dele uma espécie de exterminador do futuro".

Pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), coordenada pelo professor Antônio Lavareda, a apontou com 24% a 27% das intenções de voto em diferentes cenários. Na pesquisa Datafolha, entretanto, a senhora aparece com 3% da preferência do eleitorado. Como recebeu esses primeiros levantamentos sobre seu ingresso na corrida presidencial?

Avisei o PV que não iria me ater a essa história, porque, na minha vida política, se me ativesse a pesquisas nunca teria feito nada. Se a pesquisa tiver um traço para mim não tem problema. O que eu quero é discutir a questão programática e uma eleição para a Presidência da República é o espaço para se debater o novo acordo que a sociedade fará em torno das prioridades do governo que será eleito. Mas não coloquei a questão da candidatura como prioritária e sim a refundação programática do partido.

O que a atraiu no convite do PV?

A oportunidade de fazer uma militância política voltada para a defesa da sustentabilidade em todas as suas dimensões. Esse é o desafi o estratégico do Brasil e do mundo. Neste momento, o Brasil é o país que tem melhores condições de dar esse passo, sabendo que é um processo de médio e longo prazo. Mas é preciso ressaltar que nenhum partido, nem o PV, terá hegemonia sobre essa questão. Ela tem de ser de todos os partidos, empresas, Organizações Não Governamentais.

Que país segue, atualmente, um modelo de desenvolvimento sustentável que mereça ser copiado?

Não existe uma política de desenvolvimento sustentável em nenhum país. Alguns países europeus se dispuseram a assumir metas de redução de carbono, os Estados Unidos entraram na cena. Talvez durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no período em que estive no ministério e estabelecemos as diretrizes da política ambiental, a questão da sustentabilidade tornou-se central. Nossa proposta é de que fosse uma política transversal, praticada em todos os setores do governo.

A falta de adesão a essa política gerou tensões entre a senhora e outros colegas de ministério.

Os tensionamentos que aconteceram são naturais. Isso nunca esteve presente, essa possibilidade de dialogar diretamente com a dinâmica do processo de desenvolvimento. Quem colocou essa questão foi o Ministério do Meio Ambiente. Mas foi apenas um começo. Os setores de infraestrutura, de agricultura, ainda veem a questão ambiental como um empecilho à sua realização. Mas isso não acontece só no governo, ocorre também em outros países.

Quais foram suas principais realizações à frente do ministério?

Destaco o plano de combate ao desmatamento. Foi uma realização do conjunto do governo, porque envolveu 13 ministérios e dá frutos até hoje. Começou a ser concebido num momento de expansão do desmatamento. Assumi a pasta em 2003. De 2001 para 2002, saltou de 18 mil km2 para 21 mil km2. Em 2004, atingiu 27 mil km2, o segundo maior da história. O primeiro maior foi entre 1994 e 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso: alcançou 29 mil km2. O plano começou a ser implementado em 2005, quando o desmatamento voltou ao patamar de 18 mil km2. Em 2007, atingiu 11 mil km2 e continua caindo.

A que fatores a senhora atribui o sucesso deste plano?

À compreensão de que o desmatamento não poderia ser enfrentado apenas com as tradicionais ações de comando e controle do Ministério do Meio Ambiente ou com ações isoladas do Ibama. Deveria ser um esforço conjunto do governo. São três eixos de ação: combate às práticas ilegais, apoio às práticas produtivas sustentáveis e ordenamento territorial e fundiário.

Mas falhas no programa foram um dos fatores que a levaram a deixar o ministério, não?

De fato, em 2007, percebemos que havia o risco de que o desmatamento voltasse a crescer até 40%. Isso porque os outros eixos - apoio à produção sustentável e ordenamento territorial - não tinham caminhado com a mesma intensidade que o combate às práticas ilegais. No caso, o Ministério da Agricultura não encaminhou as questões que lhe diziam respeito nem os outros setores. Avançaram algumas questões, mas não com a ênfase devida.

A partir daquele ano, os tensionamentos entre a senhora e outros ministros se acentuaram?

No momento em que você combate as ações ilegais, aumenta a pressão por alternativas. Como elas não foram encaminhadas por quem de direito, voltou o velho paradigma na forma de desmatar, de fazer pecuária extensiva, de explorar madeira ilegal. Contra-atacamos com moratória nos 36 municípios que mais desmatavam, a criminalização de toda a cadeia produtiva (de quem derrubava a quem produzia e comprava), todos responderiam por crime ambiental. Ao mesmo tempo, uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) vedou a concessão de crédito aos produtores que não tivessem reserva legal, ou seja, área de preservação permanente em suas propriedades. Não é que não se possa plantar, construir estradas ou hidrelétricas. É como tudo isso é feito.

A Conferência de Copenhague agendada para dezembro (em que os países participantes vão debater um novo acordo para conter o aquecimento global, em substituição ao Protocolo de Kyoto) colocará a agenda ambiental no centro do debate político?

Não é a conferência em si que traz para a sociedade a preocupação ambiental. O caminho é inverso e o medo é de que as respostas sejam aquém do esperado. A opinião pública internacional tem um nível tão elevado de informação e, ao mesmo tempo, de preocupação, que já desenvolveu um olhar de cobrança para os resultados de Copenhague. O desafio será de que países ricos e

emergentes assumam metas que nos levem a determinado resultado até meados do século. O objetivo é impedir o aumento de temperatura acima de 2 graus para que seja possível estabilizar a temperatura da Terra.

Em que condição o Brasil chegará à Conferência de Copenhague?

Estamos bem melhores que em 1992. O Brasil é uma potência ambiental com uma extensa matriz energética renovável. A Eco 92 foi um momento fundante desse processo de luta pela preservação ambiental. Foi como se estivessem todos na linha de saída. Agora temos de ir até a linha de chegada. Lá todos têm que chegar com o dever de casa feito para alcançarmos os resultados necessários.

O que teremos para mostrar como realização?

O fato de termos um plano de combate ao desmatamento que vem reduzindo-o desde 2004 é positivo. Esse enfrentamento é tão importante que a Noruega contribuiu com repasse de recursos (cerca de US$ 300 mil) para o Fundo Internacional da Amazônia, estimulada pela redução de CO2, considerado o estágio ao qual pudemos chegar.

O que mais o Brasil pode fazer?

A contribuição do Brasil pode ser bem maior, porque ele pode assumir metas e, ao assumi-las, liderar um processo junto aos outros países emergentes, sobretudo Índia, China e México.

Que marcas deixaram na senhora suas origens em um seringal, no coração da floresta Amazônica?

Não há nada que faça parte da minha história que não esteja presente no que sou hoje. Obviamente que toda essa carga de vivência me deu a capacidade de transitar nos dois universos. Favorece muito ter um olhar integrador. O problema é que a gente vive num mundo dicotomizado, as pessoas acham que quando se coloca algum senão para algo, não dá para realizar. Ora, você pode fazer agricultura, desde que respeite a reserva legal. Pode construir uma hidrelétrica, desde que respeite a capacidade de suporte daquele ecossistema.

O que os jovens brasileiros têm a aprender sobre meio ambiente e desenvolvimento sustentável?

Crianças e adolescentes são muito sensíveis à questão ambiental. É como se percebessem rapidamente o que está em jogo, enquanto os adultos precisam de teses para se convencerem de que há um problema e que ele precisa ser resolvido logo. Os jovens sabem que o futuro deles pode ser negativamente afetado. Há uma contradição, entretanto, porque, embora tenham essa consciência, não desejam mudar alguns aspectos de suas vidas, como o consumo exagerado.

Falta consciência da relação entre consumo e meio ambiente?

Crianças e adolescentes são muito expostos ao consumo e cada vez mais isso é estimulado pela mídia. Esse público é muito vulnerável à propaganda, que os induz a consumir mais e mais. Quanto mais se consome, aumenta a pressão sobre os recursos naturais. Os jovens precisam fazer essas conexões.

Então a proteção ao meio ambiente também implica alterar nosso estilo de vida?

Para enfrentar a crise ambiental que atravessamos, temos que repensar não só a nossa forma de produzir mas também de consumir. Isso envolve uma mudança cultural. Nossa cultura é a do consumo. Somos instados o tempo todo a trocar de carro, de geladeira, de celular, de computador. Temos que trocar, trocar, trocar. Essa relação do homem com o consumo acaba fazendo dele uma espécie de exterminador do futuro.

De que forma o consumismo influencia o aquecimento do planeta?

A extração desmedida dos recursos naturais para um padrão de consumo que é insustentável leva ao esgotamento da capacidade de suporte do planeta. Para sustentar esse padrão elevado de consumo, é preciso aumentar a produção de energia fóssil. Essa forma de energia produz muito gás carbônico, cujo aumento leva ao aquecimento do planeta. As práticas da economia do século 20 não podem ser as do século 21, nem de produção nem de consumo.

O que a senhora faria a mais pela questão ambiental caso seja eleita presidente?

Não vou me colocar no lugar de candidata, como se tivesse resposta para tudo. Estou querendo pensar o país. É o que venho construindo ao longo de minha trajetória de forma discreta. Pensar num instituto, trabalhar a mudança de mentalidade, a consciência das empresas, dos governos. Chegou a hora de investir em inovação tecnológica, em recursos para desenvolvermos um novo modelo de economia, diversificar a matriz energética, investir em energia limpa e renovável. Esse é o desafio do nosso país.