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A única coisa que assusta o ex-campeão dos pesos-pesados Mike Tyson é o homem que ele costumava ser

Por Peter Travers Publicado em 24/09/2009, às 12h23

Mike Tyson está prestes a subir no ringue mais uma vez. Mas não é qualquer tipo de ringue. O boxeador que levou a coroa de campeão do mundo com meros 20 anos, após uma estonteante série de nocautes no primeiro assalto, aposentou-se do esporte em 2005. Hoje, seu oponente é a sombra do personagem que ele foi no passado - o pior homem do planeta, que brigava, enchia a cara, usava drogas, mordia orelhas, sofria de doenças sexualmente transmissíveis e foi preso, acusado de estuprar uma miss. E todos esses aspectos do ex-campeão estão em exposição em Tyson, um documentário brutalmente franco, dirigido por um amigo dele, James Toback - ainda sem previsão de lançamento no Brasil.

Correndo de um lado para o outro em Nova York em uma tarde de abril, Tyson planeja vestir seu "terno da sorte" dali a algumas horas e se dirigir para a festa da estreia do filme. Não para o filme, só para a festa. Mike está nervoso demais para assistir ao filme novamente. "Não gosto daquela pessoa que eu vejo", diz. "Tenho medo daquele cara." Tyson pede desculpa pelo homem que era naquela época - menos pelo estupro, que ele nega com veemência. "Eu nunca entendi por que as pessoas pensavam tão mal de mim. Agora eu olho para o filme e penso: 'Era por isso'."

Em breve, Tyson vai ver muito mais dele mesmo. Está negociando com o ator Jamie Foxx para interpretá-lo em uma produção biográfica de Hollywood. Ele também aparece representando a si mesmo em Se Beber, Não Case, uma comédia em que ele se derrete por seu tigre de estimação, nocauteia de brincadeira uma pessoa que visita sua casa e faz um solo de bateria imaginária hilário para a música "In the Air Tonight", de Phil Collins. "Foi divertido", Tyson reconhece. Mas entrar no circuito das festas da cidade e refletir sobre o passado não é divertido. "Se eu começar a acreditar que sou o máximo, como as pessoas ficam me dizendo, me transformo em um monstro", diz o pai de seis filhos [a entrevista foi realizada antes de 25 de maio, quando Exodus, 4 anos, filha de Tyson, morreu]. "E não quero perder a minha namorada. Não quero me afastar dos meus filhos. Não quero passar por tudo aquilo de novo. Quando eu tento recapturar as lembranças, tenho vontade de viajar. Recorro às drogas. Recorro à bebida."

Mesmo depois de passar por temporadas em programas de desintoxicação e até mesmo de se converter ao islamismo, Tyson conhece as tentações. "Chega ao ponto em que a coisa quase ultrapassa o céu", diz. "E a gente quer sentir aquela viagem de novo." Assim sendo, hoje ele foge da tentação em sua casa de Las Vegas. "Acordo de manhã, brinco com as crianças enquanto a mãe delas toma banho e faz tudo o que precisa fazer, devolvo as crianças, desço para a sala e passo quatro ou cinco horas sentado no sofá, assistindo à televisão. O que eu mais assisto são noticiários e [as séries] Forensic Files e Cold Case. Com relutância, assisto a alguns reality shows, como For the Love of Ray J e Tough Love. Depois disso, passo duas ou três horas fora de casa. Daí, volto. Janto." Exercício? "Não. Essa é uma parte da minha vida antiga. Os meus amigos dizem que eu deveria fazer isto. Eu engordo, eu sei. Mas fico com coceira quando vou à academia."

E assim é: lá está ele, o Kid Dynamite, transformado em um senhor caseiro que toma conta de seus pombos. O quê? Ele não tem mais nenhum tigre de estimação? "Já tive quatro ou cinco a certa altura. Eu dormia com eles. Mas ficaram grandes demais, e houve um incidente quando uma pessoa foi atacada por um, de modo que precisei mandar todos para um zoológico." Ele começou a criar pombos - "a minha paixão" - na infância passada no Brooklyn. "Eu tinha 12 anos, vivia na rua, quando conheci Cus [D'Amato, seu empresário já morto]. A minha concepção de paixão era roubar, fazer as coisas que os garotos da parte pobre da cidade fazem, destruir o bairro. Daí a luta me pegou." Ele pensaria em voltar para o ringue? "Nunca pensei em voltar. Quando me aposentei das lutas foi algo muito importante na minha vida. A única desvantagem foi que não tive nada para usar como substituto."

Antes de Tyson sair para a estreia, dou feliz aniversário adiantado a ele. Em 30 de junho, ele vai completar 43 anos - pouca idade para um homem que viveu tanta coisa. "Nem penso mais em aniversário desde que completei 40 anos", diz. "Eu me sinto muito velho. Hoje sou mais uma babá do que qualquer outra coisa." Já em relação a encontrar aquela elusiva paz que ele tanto procura, confessa: "Até agora, minha paz tem sido tédio, na maior parte do tempo. Mas estou cuidando disso".

Arquivo RS

Em 1989, Mike Tyson ainda era invencível: milionário, idolatrado com 37 vitórias e nenhuma derrota, o peso pesado espantava o mundo com performances enfurecidas dentro e fora dos ringues, porém, quando entrevistado por um dos maiores especialistas em boxe do mundo, o lutador baixou a guarda e revelou sua verdadeira face. Leia trecho da entrevista.

Tradução: Ana Ban