Pulse

O Garoto que Ouvia Demais

Ele era um jovem cego, revoltado e sozinho. Até descobrir que possuía um dom assustador que o fazia se sentir poderoso e o colocaria na mira do FBI

Por David Kushner Publicado em 09/10/2009, às 10h12

Cego de nascença, Matt Weigman surpreendeu sua mãe por conseguir distinguir luzes aos quatro anos de idade.

Ver Galeria
(5 imagens)

Começou com uma ligação para o número de emergência. "Escuta aqui", ordenava a pessoa, com a voz frenética ao telefone. "Tenho duas pessoas de reféns! E você sabe o que acontece com reféns? Não é como nos filmes, tá entendendo?" "Ok", disse o telefonista. "O nome de uma delas é Danielle. E estou com o pai dela também", continuou a voz do outro lado da linha. "Estou fazendo isso porque o pai dela estuprou minha irmã." A voz, que se identificou como pertencente a John Defanno, disse que estava com Danielle (18 anos) e seu pai amarrados na casa deles, no subúrbio de Colorado Springs, Colorado. Ele havia surrado o mais velho com sua arma. "Está sangrando muito", avisou Defanno. "Tenho uma arma. Se algum policial entrar nesta casa armado, atiro neles. É melhor alguém mandar alguma ajuda, porque eu estou ficando louco aqui." O atendente tentou mantê-lo na linha, mas Defanno o interrompeu. "Não vou mais falar", disse. "Você tem o endereço. Se não me ajudarem agora, nos próximos cinco minutos, juro que atiro nessas pessoas." O telefone ficou mudo.

Policiais correram até a casa, prontos para um tiroteio com um suspeito homicida. Mas, quando chegaram, não encontraram ninguém armado, reféns ou sangue. Danielle e seu pai estavam bem e seguros em casa - sozinhos. Nunca haviam ouvido falar de John Defanno por uma simples razão: ele não existia. "John Defanno" era, na verdade, um adolescente de 15 anos chamado Matthew Weigman - um menino gordo, solitário e cego, que vivia com a mãe na vizinhança humilde de East Boston. Pessoalmente, Matt era um rapaz tímido e envergonhado, de cabeça raspada e que passava dias enfurnado no quarto, passando 20 horas por dia falando em linhas de chat telefônico gratuito. Ao telefone ele se tornava o "Pequeno Hacker", o mais talentoso dos membros de um bando de passadores de trotes conhecidos como "phreaks". Para castigar Danielle, que o tinha irritado no chat, Matt havia ligado para a emergência e se feito passar por um psicopata, adulterando sua identidade telefônica para parecer que a chamada vinha de dentro da casa dela. É um truque conhecido como "swatting" - mobilizar esquadrões da SWAT para se vingar de seus inimigos - que caras como Weigman já haviam usado para acionar mais de 200 batidas policiais em dúzias de cidades nos Estados Unidos.

"Quando eu era moleque, trote era só pedir uma pizza e dar o endereço do vizinho", conta Kevin Kolbye, um agente do FBI encarregado de investigar os casos. Como um vilão dos quadrinhos, transformado por um trágico acidente, Weigman descobriu ainda muito novo que sua audição aguçada lhe dava superpoderes ao telefone. Era capaz de imitar qualquer voz, memorizar números de telefone pelo som das teclas e decifrar o sistema de funcionamento do sistema telefônico pelas frequências e pelos cliques de uma chamada, o que ele chama de "canções". O conhecimento lhe permitiu "hackear" celulares, desativar linhas e até grampear telefones fixos. "Era uma sensação de poder enorme para um garoto", ele conta. "Se alguém dissesse algo ruim sobre mim, eu apertava um botão e me vingava." Mas, no fim, os que estavam próximos de Weigman temiam que o dom se tornasse o motivo de sua desgraça. "Matt nunca teve a intenção de se tornar quem se tornou", conta Jeff Daniels, ex-aplicador de trotes, que ficou amigo de Weigman em um chat. "Quando você é um garoto cego, gordo, careca, tem uma família ferrada e descobre que tem a habilidade de fazer algo que te faz sentir melhor, o que você espera que aconteça?"

Matthew Weigman nasceu cego, e esse nem era seu único problema. Sua família era um caos. Seu pai era um alcoólatra drogado que o arrastava pelo chão, puxando-o pelos cabelos e chamando-o de "cego bastardo". Deixou a família quando o garoto tinha 5 anos, largando ele, seu irmão mais velho e a irmã para viver com os trocados de sua pensão por invalidez e com o que sua mãe conseguia trabalhando como assistente de enfermagem. Para Matthew, cada dia era uma luta. "Havia dias em que eu odiava ser cego", . Na escola, enquanto andava pelos corredores tateando com sua bengala, os outros garotos tiravam sarro de seus olhos, que rolavam descontrolados. "Crianças podem ser cruéis, porque elas não entendem o que estão fazendo", diz ele. "Não conseguem nem imaginar as consequências do que fazem, e isso fica na sua cabeça."

Aos quatro anos, Matthew surpreendeu sua mãe ao perceber os pisca-piscas na árvore de Natal. Depois disso, passou a discernir fracas luminosidades - e explorou essa habilidade como pôde. Cozinhava para si mesmo sentindo o espaço da cozinha e se recusava a parar, mesmo depois de ter se queimado. Chocou os irmãos ao montar em uma bicicleta e sair pela rua, usando os vultos que era capaz de enxergar como guias. Também aprendeu sozinho a andar de skate. Para alimentar sua confiança, o novo marido de sua mãe deixou que ele, aos oito anos, dirigisse seu carro em um estacionamento vazio. "Fez com que me sentisse muito melhor", se lembra Matthew. "Pensava: 'Estou fazendo algo que as pessoas que enxergam fazem'."

E havia algo que ele podia fazer até melhor que as pessoas que enxergavam: ouvir. Weigman ficou obcecado por vozes, música e sons. Podia imitar perfeitamente os personagens que ouvia na TV e tocava de ouvido suas músicas preferidas em um teclado. Também costumava discar números aleatórios no telefone, só para ouvir quem atendia - e que tipo de reação conseguia obter. Ele se lembra da primeira vez em que ligou para o número de emergência, aos cinco anos, e os convenceu a mandar um policial até a sua casa.

"Aconteceu alguma coisa?", perguntou o policial.

"Não", respondeu Matthew. "Só estava curioso. Queria saber o que o telefonista ia fazer." O policial o repreendeu severamente. "Não vou fazer mais", disse ele.

Mas o menino estava fisgado. Na vida real, ganhava peso e lutava para encontrar seu lugar. Aos dez, entretanto, encontrou a fuga ideal: o bate-papo telefônico. O serviço - precursor das salas de chat na internet - permitia que várias pessoas conversassem ao mesmo tempo pelo telefone. Comparada aos chats via vídeo ou texto, as linhas telefônicas têm um apelo único: oferecem a cobertura do anonimato, combinada com o imediatismo visceral das vozes humanas. Uns ligam para socializar, outros em busca de sexo.

Na esperança de dar a Matt um círculo social que fosse além dos confins de seu quarto, um amigo deu a ele o número de um serviço gratuito chamado Studio 55. Assim que ligou pela primeira vez, um novo mundo se abriu. Ele descobriu que conseguia decifrar cada ambiente a partir de seu som, independentemente do quão baixo ou distorcido. Muitos dos usuários eram párias sociais e renegados: ex-presidiários, vagabundas e desempregados que não tinham nada melhor para fazer o dia todo além de falar merda para um bando de estranhos. Pessoas sem vida. E foi aí que Matt teve um estalo: ninguém pode ver um ao outro. São todos vozes sem corpos. "Agora somos todos cegos", disse ao telefone, para o grupo ouvir.

Burlar sistemas telefônicos não é algo novo: a prática ("phreaking", em inglês), que começou há mais de 50 anos, é a mãe dos hackers de computador. Em 1957, um garoto cego de oito anos, Joe Engressia, acidentalmente descobriu que conseguia assobiar na exata frequência - 2.600 hertz - usada para controlar as redes telefônicas. Steve Wozniak, um autodidata tecnológico, que viria a inventar uma empresa chamada Apple com seu amigo Steve Jobs, certa vez usou uma série de apitos agudos para fazer uma chamada internacional para o Vaticano, a fi m de passar um trote no papa. Enquanto escutava o chat, Matt começou a apertar números aleatórios em seu telefone, só para ver o que acontecia. Certa vez, segurou o botão asterisco e ficou surpreso ao ouvir uma voz computadorizada dizer "moderador ligado". Ele não tinha ideia do que aquilo queria dizer. Mas, quando apertou a tecla jogo-da-velha, a voz subitamente começou a falar o número de telefone de cada pessoa na sala de chat. Ele havia descoberto uma ferramenta secreta usada pelos administradores da linha para monitorar o sistema. Agora, toda vez que alguém o destratasse, ele poderia sorrateiramente acessar a ferramenta e ameaçá-los, ligando para a casa de cada um deles.

Aos 14, Matt ludibriava empresas telefônicas para conseguir informações restritas, como números de identificação e senhas reservadas a supervisores. Isso lhe deu acesso total ao sistema. Se ele ouvia a voz de um supervisor uma vez, se tornava capaz de imitá-lo com precisão assustadora ao ligar pra qualquer um de seus subalternos. Se ouvia alguém discando um número, conseguia memorizá-lo pelo tom das teclas.

Uma de suas estratégias favoritas era pegar o nome de um técnico de telefonia que estivesse atendendo sua casa e então imitá-lo ao telefone para conseguir códigos e outros dados através de companheiros de trabalho, incapazes de perceber que estavam sendo enganados. Certa vez, ligou para uma empresa de telefonia se fingindo de mulher, dizendo que precisava verificar a identidade de um técnico que estava à sua porta. Convencido, o operador forneceu o número de identificação do técnico, sua linha direta e informações-chave restritas a supervisores, que Matt mais tarde usaria para fins nefastos, como mandar cortar a linha de algum rival.

Parecia não haver limite para o que era capaz de fazer: desligar linhas, descobrir números não listados, escutar conversas no telefone fixo como se usasse um grampo - algo que só "phreaks" veteranos eram capazes de fazer. Celebridades eram um de seus alvos. Matt diz ter hackeado e ligado para os celulares de Lindsay Lohan ("Ela estava bêbada e meu amigo tentou fazer sexo por telefone com ela") e Eminem ("Ele mandou eu me foder"). No ano passado, durante a campanha presidencial, Weigman ouviu um vídeo no YouTube, do filho do político republicano Mitt Romney ligando para o pai. Ele prestou muita atenção aos tons, decifrou o número do celular do candidato e ligou. "Mitt Romney!", disse. "Como vai, cara? Concorrendo à presidência?" O político mandou que ele enfiasse o telefone no rabo. E desligou.

Além de se valer de sua audição aguçada, Matt pegou dicas valiosas com companheiros de atividade, através das linhas de chat. Uma das mais importantes foi aprender a mascarar seu número quando fazia uma chamada. Utilizando serviços caseiros ou comerciais legalizados, como o SpoofCard, podia escolher que número apareceria na tela do telefone chamado quando ligasse. Liberado para uso comercial - permitindo que, por exemplo, um médico possa esconder seu número de casa ao ligar para um paciente. Alguns serviços permitem que quem liga altere sua voz - de masculina para feminina -, assim como seu número.

Matt passou seu primeiro trote para a SWAT aos 14, quando forjou um chamado de emergência vindo de uma loja de conveniência no fi m de sua rua. "Escuta", disse ao atendente, "está acontecendo um assalto aqui! Preciso que vocês venham já!" Então desligou e telefonou para seu irmão, que estava vigiando do lado de fora da loja. "Meu Deus, cara!" contou seu irmão. "Tem polícia para todo lado!"

"Sério?", respondeu Matt, extasiado. Pelo telefone, ele ouvia as sirenes gemendo na escuridão.

Weigman passava horas falando bobagem nos chats. Quando alguém o desafiava ou o irritava, respondia forjando ligações de emergência e mandando equipes da SWAT para a casa de quem o havia ofendido. "Fiz isso umas 50 ou 60 vezes", conta.

Passou boa parte do seu tempo em linhas de chat que atraíam vagabundos, phreaks e garotas oferecidas, que Matt chama de "groupies de hackers". Os homens do chat competiam para ver quem "pegava" mais. Quando questionado quantas vezes havia feito sexo por telefone, ele disse: "Ah, por Deus, cara. Muitas".

Matt percebeu que um dos participantes conseguia se dar bem com as groupies de hackers muito mais que qualquer outro. Stuart Rosoff , um homem de meia-idade, de Cleveland, tinha começado como um adolescente fazendo chamadas obscenas e acabado como presidiário cumprindo três anos de prisão. Acima do peso, desempregado, Rosoff entrava nos chats em busca de garotas.

Era também membro de uma gangue de phreaks apelidada de Gangue da Demolição (Wrecking Crew). Quando não conseguia o que queria no chat, Rosoff se revoltava. Não demorou, entretanto, até que as habilidades de Weigman suplantassem as de Rosoff no chat. O adolescente começou a ameaçar o mais velho, desconectando seu telefone e descobrindo seus dados pessoais para usar em atos de chantagem e vingança. Os phreaks chamam isso de "jogo da informação", e Matt era um mestre no assunto. Rosoff logo foi reduzido a nada nos chats, implorando ao garoto que o deixasse em paz. Quando Weigman entrava no chat, costumava anunciar sua presença em tom intimidador: "Como vão, seus filhos-da-puta?" Ele podia ser um garoto cego e gordo

no mundo real, mas ao telefone era quem quisesse ser.

Enquanto sua reputação crescia, o hobby tornou-se uma obsessão. Em um só mês, fez cerca de 40 mil ligações, que variavam de 40 segundos de duração a várias horas. Largou o colégio e passava o dia ao telefone. Sua mãe estava orgulhosa porque ele era bom em algo e feliz porque havia feito amigos, mesmo que fosse apenas pelo telefone. "Ela não me repreendia por causa da minha situação social", diz. Matt também estava usando sua recém-descoberta habilidade de fazer compras debitadas em cartões de crédito clonados. Também se tornou mestre no que os passadores de trote chamam de "engenharia social" - aprender o jargão das agências telefônicas e usá-lo para manipular funcionários.

Conforme seu poder crescia, ele também mudava. Incapaz de suportar as gozações e a pena por ser cego, tornou-se desrespeitoso e cruel. Usando o telefone para atingir os outros, direcionava a raiva que sentia do mundo contra seus próprios companheiros. Para provar seu talento, colocou na mira um homem de 37 anos chamado Jeff Daniels, que havia sido preso por hackear telefones quando adolescente. "Ele ligava para o proprietário de onde eu morava e dizia que eu era um assassino e molestador de crianças", declara Daniels.

Ainda assim, havia algo que atraía a simpatia pelo garoto. "Para mim, ele era só um menino", diz. Por ter estado na cadeia, não desejava que Matt cometesse os mesmos erros que ele havia cometido. Para isso, atraiu a atenção do adolescente do único modo possível: vencendo-o em seu próprio jogo. Quando Weigman se recusou a cessar com os ataques telefônicos, Daniels conseguiu informações detalhadas sobre o garoto, incluindo seu número do Seguro Social. Isso fez com que ganhasse o respeito de Matt, e os dois tornaram-se amigos. Conversavam por horas à noite. O rapaz se abriu, contando sobre sua vida miserável, chorando ao dizer o quanto desejava ver o mundo com seus próprios olhos. Seu peso flutuava da gordura aceitável até a obesidade extrema e ele passava cada vez mais tempo trancado em seu quarto, ouvindo Nirvana e Muddy Waters.

Daniels insistiu que ele largasse aquele papo idiota de macho das linhas de chat e parasse de atrair a atenção para si mesmo. Matt concordou em fechar a boca e cunhou sua nova postura com um novo apelido. De agora em diante ele não seria mais o "Pequeno Hacker". Seu novo nome seria "Silêncio".

Em uma noite de junho de 2006, James Proulx estava assistindo à TV à 1h da manhã quando um esquadrão da SWAT cercou sua casa, no Texas. Proulx abriu a porta e foi confrontado por dois policiais apontando suas armas diretamente para ele. Havia razão para a suspeita. Um chamado de emergência havia vindo daquela casa; um homem se identificando com seu nome disse que estava drogado e que tinha reféns. Exigiu US$ 50 mil para que pudesse fugir. Também dizia ter matado a própria esposa.

Como a polícia logo descobriu, ele tinha sido outra vítima de trote. A filha de Proulx, Stephanie, 28 anos, frequentava as linhas de chat. Quando ela brigou com Weigman e seus amigos, eles resolveram contra-atacar. "Se uma garota não quisesse fazer sexo por telefone com Matt", recorda ela, "ele a chamava de puta e mandava um esquadrão da SWAT para a casa dela."

Certa tarde, não muito depois do trote em Proulx, Matt chegou em casa e encontrou sua mãe conversando com um homem. Ele se apresentou como agente Allyn Lynd, do esquadrão cyber do FBI, responsável pela investigação de crimes virtuais. Ele havia passado dez anos combatendo phreaks e hackers. Agora, com a ajuda de Stephanie Proulx, pretendia chegar à Gangue da Demolição - e queria a ajuda de Matt.

Lynd explicou que diversos dos frequentadores das linhas de chat estavam sendo investigados pelos trotes contra a SWAT. Por ser menor, Weigman não seria acusado - desde que colaborasse com as autoridades. Percebendo que essa era a chance de mudar de vida, Matt confessou seu papel nos ataques telefônicos.

As capacidades auditivas de Weigman haviam sido desde sempre o centro de seus golpes. Agora, ele dava uma amostra direta de seus poderes ao agente. Em certo momento, o celular de Lynd tocou. "Não posso falar agora", o agente respondeu para quem estava do outro lado da linha. Quando desligou, o garoto voltou-se para ele, do outro lado da sala. "Ah", perguntou, "era Billy Smith, da Verizon?"

Lynd estava chocado. William Smith era um investigador de fraudes da operadora Verizon que estava trabalhando com ele no caso da SWAT. Weigman não só sabia tudo sobre o homem e seu papel na investigação, mas também havia sido capaz de identificar Smith simplesmente pelo sotaque da voz no celular - um som inaudível para qualquer outra pessoa. Weigman surpreendeu Lynd novamente ao desfilar uma lista de nomes de outros investigadores trabalhando para outras companhias. Matt, descobriu-se, passou semanas identificando funcionários das companhias, ganhando a confiança deles e obtendo informações relacionadas à investigação que o FBI fazia contra ele.

Lynn jamais havia visto algo parecido. "Ele me deixou de boca aberta", confessou mais tarde.

Mas a decisão do adolescente de se endireitar não durou. "Dias depois de ter concordado em cooperar, já estava de volta aos chats e cometendo crimes novamente", diz Lynd. Matt não gostava da sensação de ficar longe da única comunidade que tinha. Também estava obcecado. "Ele não é um criminoso - é um viciado", diz o amigo Daniels. "Viciado em ser alguém capaz de obrigar qualquer garota a fazer o que ele quiser pelo telefone."

Quando o FBI finalmente pegou a Gangue da Demolição, a reputação de Matt cresceu mais. Gravações e detalhes de seus trotes vazaram e se espalharam online. A atenção só fez com que Weigman se tornasse mais paranoico e vingativo. Ele ampliou sua campanha de intimidação, alertando suas vítimas que qualquer cooperação com os investigadores seria a garantia de novos ataques. Ameaçou enviar a SWAT para a casa de uma mulher e acabou fazendo uma chamada dizendo que havia uma bomba na enfermaria onde a mãe dela trabalhava, em retaliação por uma conversa com agentes do FBI. Também ligou para uma mãe de família na Flórida, dizendo que mataria seu bebê afogando-o na privada caso ela desse seu nome aos investigadores.

Em 2007, Rosoff e outros participantes do chat se declararam culpados pelos trotes feitos contra a SWAT. Em um acordo que limitou sua sentença a cinco anos de prisão, Rosoff entregou seu rival, dizendo que Matthew Weigman havia ajudado "na escolha dos alvos, na execução e na obtenção de informação que facilitaria os ataques".

Mas Weigman ainda era menor de idade e o FBI não queria ir atrás dele. De certo modo, estavam lhe oferecendo um tempo. Desde que se mantivesse limpo, não seria acusado. Tudo o que tinha que fazer era se afastar - até o dia 20 de abril de 2008 - quando fizesse 18 anos. A partir daí, Matt seria julgado como adulto caso cometesse qualquer crime.

Eem abril daquele mesmo ano, o telefone tocou na casa de Billy Smith, o investigador de fraudes da Verizon que estava trabalhando com o FBI. Quando Smith tirou o fone do gancho, não havia ninguém do outro lado da linha. Nas noites seguintes, o fato se repetiu várias vezes. Até que em uma noite, sua mulher notou algo estranho: o número de quem discava era o mesmo de Smith no trabalho, mesmo considerando que o marido estava em casa.

Smith mudou o número de casa, mas não fez diferença. O telefone tocava a qualquer hora - desta vez marcando o próprio celular de Smith como ponto de origem. Weigman, o agente descobriu mais tarde, estava usando sua habilidade e seus contatos para intimidá-lo. E ele conhecia o caso de Weigman bem o suficiente para saber onde isso iria terminar: em um ataque da SWAT.

Um dia, Smith chamou uma agência de viagens e comprou uma passagem para que sua mulher fosse visitar seu filho na Georgia. Então, ligou para o filho para informá-lo da visita. Minutos mais tarde, o telefone tocou. Desta vez, o número indicado era o do telefone de seu filho. Mas quando Smith atendeu, percebeu que não era ele. Era Weigman, que estava usando suas conexões dentro das companhias telefônicas para rastrear cada ligação feita ou recebida por Smith.

Então, em um domingo de maio de 2008, Smith estava em seu quintal quando um carro parou. Dele saíram três jovens, incluindo um com olhos estranhos. "Sou o Matt", o garoto disse a Smith.

O rapaz tinha vindo de carro desde Boston, com o irmão e um amigo de chat. Parado ali, podia distinguir a fi gura de Smith contra a luz branca e ouvir o familiar sotaque do investigador - aquele que havia identificado com tanta facilidade no celular do agente Lynd. Matt disse a Smith que não estava lá para ameaçá-lo - só queria persuadi-lo a encerrar as investigações. Depois de anos intimidando os outros, era Matt quem agora se sentia intimidado. E ele queria que isso parasse.

Mas Smith não caiu na conversa. Entrou em casa e chamou a polícia. Weigman não fugiu. Contou aos policias que tinha feito coisas "não muito legais" - os trotes contra a SWAT. Mas, depois de uma vida sendo motivo de abusos, Weigman não conseguira se ver como qualquer coisa além de vítima. Era só um jovem garoto cego, e aqui estava ele sendo intimidado de novo.

Menos de duas semanas depois de o adolescente ter aparecido na casa de Smith, a polícia bateu à porta de Matt e o prendeu. Logo, se viu sendo interrogado por um agente do FBI. Ouvia na escuridão enquanto o agente ligava para um número em seu telefone. Meia hora depois, disse o número em voz alta - e sabia até de onde era. "É o número do escritório do FBI aqui em Boston", disse, para o surpreso agente. Mas agora o adolescente já tinha 18 anos e seus poderes não poderiam mais salvá-lo. Em janeiro, declarou-se culpado das acusações de conspiração com intuito de fraude e por intimidar uma testemunha federal. Em junho, foi condenado a 11 anos de prisão.

Hoje, sentado em uma cela em Dallas, Weigman não se parece nem um pouco com o psicopata intimidador que frequentava chats. Vestido com um macacão laranja, está mais magro e tem fala mansa, a cabeça se mexendo conforme fala. "Não sou um terrorista", diz ele. "Sou só um cara que gosta de computadores e telefones. Usei meu talento para fazer certas coisas de um jeito errado. Só isso." Enquanto reconta sua história, reproduz sem esforço as vozes das pessoas que encontrou pelo caminho. Cada som do ambiente atrai uma fração de sua atenção.

"Se eu tivesse sido só um pouquinho mais maduro, se pudesse ter raciocinado direito, acho que tudo teria ficado bem. Se, quando eu era jovem, tivesse contado com uma figura paterna na minha vida", ele gagueja e então se recupera. "Nunca me incomodei com a ausência do meu pai", diz, "mas por dentro isso me desestabilizou um pouco".

Apesar de tudo, Matt ainda é um adolescente. Enquanto expressa seu remorso pelos trotes, ainda guarda uma satisfação em contar seus feitos - seja atormentar celebridades, seja brincar com as companhias telefônicas como se fossem um videogame. "O sistema telefônico e sua infraestrutura é muito fraca", conta. "Eu tinha acesso a todas as redes. Podia ter desativado áreas inteiras." Então ele segue se candidatando com sinceridade a um futuro emprego. "Adoraria trabalhar para alguma dessas empresas, fazendo o que faço, só que legalmente", diz ele. "Não é pelo poder. Sei que o sistema de telecomunicações pode ser crucial para qualquer companhia." Neste meio-tempo, o garoto está livre para treinar suas habilidades. Embora não possa ligar para chats, seu acesso ao telefone não é bloqueado na prisão. Para alguém que se autodescreve como um viciado, parece quase cruel. É como prender um viciado em crack com um cachimbo e uma pedra. Poderia ele usar o telefone da prisão do mesmo modo que usava o de casa? Conseguiria hackear além de sua cela até o mundo lá fora? Matt balança a cabeça e aperta as mãos. "Tenho certeza de que conseguiria."