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Trinta Mil por Um

Biografia ajuda a entender o fenômeno de público que foi o cantor Wilson Simonal, o homem louvado por 30 mil vozes uníssonas no Rio de Janeiro

Redação Publicado em 09/10/2009, às 09h51

Simonal divide o palco com Sergio Mendes e o Brasil '66, no Maracanãzinho

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Em 1969, Wilson Simonal parecia ter uma força indomável. Convidado para fazer uma das apresentações de abertura para o show que deveria consagrar o "exportado" Sergio Mendes, no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, o cantor roubou a cena no que hoje é considerado o ponto alto da carreira dele. Esse episódio marcante da música brasileira - que ficou praticamente esquecido por muitos anos - é contado neste capítulo do livro Nem Vem que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal (Globo Livros), do jornalista Ricardo Alexandre, publicado com exclusividade pela Rolling Stone Brasil

O empresário Ricardo Amaral, dono da boate Sucata e futuro "rei da noite", com as casas Hippopotamus, Papagaio e Resumo da Ópera, procurou o departamento de marketing da Shell. Sua ideia era trazer Sergio Mendes e seu grupo Brasil'66 para uma turnê pelo Brasil em meados de 1969. Não uma temporada, como ele fizera um ano antes, com apenas meia dúzia de apresentações no eixo Rio-São Paulo, mas uma turnê nacional, consagradora, a ser lembrada pelo niteroiense como sua redenção em um país que não o valorizara como o pianista de jazz de antes nem como o popstar de então. A Shell era a porta certa para bater: desde que patrocinara o programa Jovem Guarda em 1965, sua comunicação voltara-se quase que totalmente para a relação com o jovem, em especial por meio da música e da contracultura. Naquele ano de 1969, por exemplo, estava no ar uma série de comerciais estrelados pelos Mutantes. A petrolífera era também uma das poucas multinacionais a anunciar no jornal satírico O Pasquim desde o seu primeiro exemplar.

Com o patrocínio da Shell, Ricardo Amaral conseguiu agendar com Sergio Mendes nada menos do que 17 apresentações no Brasil num período de 20 dias, por um cachê equivalente a 1 milhão de dólares, "o maior já assinado por qualquer artista, brasileiro ou estrangeiro". O contrato incluía a vinda do Brasil'66 e do Bossa Rio, um show transmitido pela TV Tupi gravado ao vivo no Clube Monte Líbano, em São Paulo; apresentações também em Belo Horizonte, em Brasília e na Niterói natal do músico, no Estádio Caio Martins. Mas a Shell impôs uma condição: a realização de uma apresentação "a preços populares" no Maracanãzinho.

Tanto Ricardo Amaral quanto os tour-managers de Sergio Mendes ficaram em dúvida: apesar do sucesso internacional e dos ginásios lotados na França e no Japão, Mendes não era um ídolo popular no Brasil. Mas o pessoal de marketing da Shell insistiu, argumentando que não faria sentido um investimento tão grande para uma turnê que aconteceria basicamente em boates da moda para o público adulto endinheirado. Era preciso uma repercussão maior, atingindo principalmente os jovens, o público-alvo da Shell. Por "pessoal de marketing da Shell" leia-se o diretor de propaganda da companhia, Renato Moreira Jardim (um sociólogo vindo da USP para dar sustentação de pesquisa e credibilidade às campanhas), e o publicitário João Carlos Magaldi, ex-sócio da agência Magaldi, Maia & Prósperi, que agora atuava como freelancer para a Standard, cuidando especificamente das campanhas, das ações e dos eventos da Shell. Ficou acordado então que o tal "show popular" no Maracanãzinho seria "engordado" por uma série de atrações de abertura, algumas com conexões com Sergio Mendes, como Jorge Ben Jor, Marcos Valle e o Bossa Rio, outras associadas à Shell, como Os Mutantes, e ao menos uma sem conexão formal nem com uma marca nem com outra, mas que poderia ser interessante para atrair o público variado e jovem: Wilson Simonal, que faria o show imediatamente anterior ao de Mendes. Ficou combinado também que, caso a venda de ingressos fosse frustrante, a Shell compraria todos os tíquetes e os usaria em promoções nos postos de gasolina. Todos toparam e o tal show popular foi marcado para o dia 5 de julho de 1969. Para aumentar a expectativa, o show ganhou status de "concerto de despedida", o último da turnê.

Como sempre acontece em eventos internacionais feitos para repercutir, cada passo de Sergio Mendes era transformado em acontecimento, com ampla cobertura da imprensa. Dizia-se que o pianista estava trazendo em mãos as fitas originais de seu novo álbum, Crystal Illusions, para entregar pessoalmente ao povo na fábrica da Odeon; os jornais alimentavam o mexerico de que César Mariano não havia gostado do arranjo que Mendes fizera para "Pretty World", sua versão para o inglês de "Sá Marina", que era a faixa de trabalho do Brasil'66 na época. Em vez de se hospedar em um hotel, Mendes ficou no apartamento de Danuza Leão, uma cobertura em Copacabana, onde recebeu a imprensa. Antes de seu primeiro show em São Paulo, Simonal lhe ofereceu uma feijoada no alpendre de sua casa em São Paulo, evento que entupiu a rua Pedroso de Alvarenga, tamanha a aglomeração de repórteres, fotógrafos e curiosos. Com tanto factoide, a Shell não precisou comprar nenhum dos ingressos para o evento do Maracanãzinho. Trinta mil "populares" estariam lá para prestigiar o show do astro brasileiro mais famoso do mundo.

No dia do show, o Maracanãzinho era o Coliseu. Um barulho infernal sobrepujava com folga o som que vinha do palco - especialmente insuficiente nas delicadas harmonias de Marcos Valle ou nos desvarios psicodélicos de Gal Costa. Amáveis, as 30 mil pessoas aplaudiam e se divertiam como se aquilo fosse um sábado na praia, mas sem a menor intimidade com os acordes dissonantes ou com as páginas da Cashbox que Sergio Mendes comprava para divulgar seu trabalho. Mas tudo era festa. Até um vendedor de biscoitos foi aplaudido feito artista quando puxou um mar de braços com um saquinho branco. Já era noite quando Wilson Simonal e o Som Três subiram ao palco. "Me lembro como se fosse hoje da expressão no rosto do Simonal no momento em

que ele subiu as escadas em direção ao palco do Maracanãzinho e percebeu que enfrentaria 30 mil pessoas", lembra César Mariano. "E 30 mil pessoas que estavam ali para assistir ao Sergio Mendes."

O receio fazia sentido, mas a fome daquelas pessoas por Simonal, todo mundo poderia supor, era grande. De Cabral a Simonal era a guinada mais franca de Simonal em direção ao gosto popular. Era um show sem medo de ser encerrado por "Meu limão, meu limoeiro", sem vergonha de enfileirar todos os hits, sem pudores em lançar, por duas horas, todos os ganchos possíveis para o fã carioca que o acompanhara na Excelsior por tantos anos - e que já não o via na telinha havia certo tempo. Ao mesmo tempo, depois de meses no Toneleros e Ginástico, algumas semanas no Bela Vista em São Paulo e outras no Canecão, o show estava fazendo parada na pequena e sofisticada boate Sucata, para um público carioca com dinheiro para gastar. Se De Cabral a Simonal já era um show repleto de apelo popular, o condensado de seis ou sete músicas que o cantor preparou para o Maracanãzinho tinha um poder de fogo concentrado.

A panela de pressão foi para os ares logo na música de abertura, "Meia-Volta (Ana Cristina)", uma midtempo escrita por Antônio Adolfo e Tibério Gaspar na sombra de "Sá Marina". Simonal acenou ao público, agradeceu os aplausos e abriu a boca para cantar: "Pelo

Olhar de Ana Cristina..." e 30 mil pessoas encheram seus jovens pulmões para cantar todo o resto da música: "...já passaram tantas dores/ que seus olhos de menina/ já nem sonham mais..." O resto do show no mesmo clima de karaokê. Só sucessos - "Sá Marina", "Mustang Cor de Sangue", "Zazueira" -, pouco papo, nada de truque de ilusionismo e um número de encerramento para deixar saudade: "Meu Limão, Meu Limoeiro", com Simonal dividindo em vozes, brincando com a plateia, pedindo para subir e descer o tom, ensaiando o contracanto. Era um perfeito show para estádios, com pessoas que de outra forma talvez nunca tivessem a oportunidade de assistir a um de seus ídolos. E era uma época em que não havia shows para estádios no Brasil. Ao fim de "Meu Limão...", o público estava nas mãos de Wilson Simonal, como estivera durante todo o show.

A eletricidade corria por aquelas arquibancadas. Simonal agradeceu a ovação, anunciou a grande atração da noite, Sergio Mendes e o Brasil'66 e, tremendo de nervosismo, voltou aos camarins. Em meio aos aplausos, começou a irromper o pedido de bis, cada vez mais alto e mais impaciente. Ouvindo aquilo, Sergio Mendes pediu para que suspendessem a montagem de seu palco. Simonal, ainda mais nervoso, voltou, arrastado pelos seguranças, fez seu bis sob uma plateia ainda mais ensandecida e voltou ao camarim aos prantos, debaixo de aplausos e gritos por um novo bis. Não poderia haver novo bis. No camarim, Simonal "quebrou": andando de um lado para o outro, chorando compulsivamente, ouvindo por trás das portas fechadas os gritos de 30 mil hunos e visigodos bradando seu nome, balbuciava pela mãe, dona Maria. À sua volta, o Som Três e a banda se dividiam entre tentar acalmá-lo, em vão, e comemorar o feito da noite. Simonal pegou um telefone e ligou para Tereza, em São Paulo:

"Eles querem que eu volte pro palco!", foi o que a esposa, assustadíssima, entendeu, entre soluços e gemidos, do outro lado da linha.

E então desmaiou. Enquanto os técnicos de Sergio Mendes preparavam seu equipamento, Simonal estava ali, desacordado, amparado por dois enfermeiros que tentavam fazê-lo recobrar a consciência. O show do Brasil' 66 começava com o padrão de qualidade que atravessou continentes, com seu ritmo marca registrada, com a graça das vocalistas americanas e a segurança dos músicos brasileiros. A animação da plateia era grande, mas perto do que Simonal havia acabado de fazer o show do Brasil'66 parecia o recital de um quarteto beneditino. Depois de uma, duas, três músicas, não surgiu nenhum hit-de-levantar-ginásio como os que o público havia cantado alguns minutos antes. De repente, inconfundível, vem a introdução de "Sá Marina", o dedilhado clássico bolado por César Mariano. Enfim, a plateia irrompe em delírio. Mas... o que aquelas moças estão cantando? "Why don't we take a little piece of summer sky/ hang it on a tree"? O que aconteceu com a moça brejeira que descia a rua da ladeira? Antes que ganhasse força, surgiu do nada um esboço de vaia e o clamor popular:

"Simonal!"... "Simonal!... SIMONAL!... SIMONAL!" sempre mais forte, marcial, impiedoso. Cada vez mais, as 30 mil jovens vozes engoliam o som dos mirradíssimos alto-falantes do Maracanãzinho.

Sergio Mendes, o astro internacional, o orgulho brasileiro, o artista-empresário, cidadão de Beverly Hills e popstar maquiavélico, teve de chamar o crioulo de Areia Branca para o palco para dobrar 30 mil "populares" e levá-los ao delírio. E veio "Sá Marina" em português, conforme todo mundo ouvia no rádio havia exatamente um ano. "E fez o povo inteiro cantar." Graças a Simonal, tudo terminou bem. Sergio Mendes acabou levantando a plateia com seu grande hit mundial "Mas que Nada" e foi aplaudido, como merecia - o que deixou mais estranho ainda o fato, depois do show, o niteroiense trancar-se em seu camarim. A repercussão do brilho de Simonal transformou o evento em algo ainda maior do que de fato foi. Nelson Motta foi direto ao ponto em sua coluna no jornal Última Hora: "na despedida de Sergio Mendes, o maior mesmo foi Simona". Os outros jornais sempre falavam no "maior coral do mundo". Os diários do interior falavam em 40 mil pessoas, depois 50 mil. Alguns diziam que Sergio Mendes havia sido vaiado. O Pasquim, provocando a velha antipatia contra o bossa-novista-vendido-ao-sistema, tripudiou: "Simonal jantou Sergio Mendes". E aquela entrou para a história da música popular brasileira como a noite em que Wilson Simonal jantou Sergio Mendes.

Décadas depois, César Mariano diz que ainda é capaz de relembrar os cheiros e as sensações daquele 5 de julho de 1969: "Até aquele show, eu tenho certeza, o Simonal não tinha a menor noção do alcance e do poder de sua música. Ele tinha noção, isso sim, de que estava ganhando dinheiro, de que podia se vestir bem, que estava cada vez mais cercado de bajuladores. Mas mantinha-se totalmente distante de qualquer consciência de manipulação daquilo. Ele já era Simonal, mas ainda não tinha tido uma consagração como aquela, palpável, de seu tamanho. É preciso entender que nós fomos contratados pela Shell para abrir um show, tocar meia dúzia de músicas para abrir um show de uma fantástica atração internacional. E fomos felizes da vida, porque o Sergio Mendes era amigo do Simonal. Era uma honra pra gente. E naturalmente, na-tu-ral-men-te, por vontade do povo, a consagração do Sergio Mendes não aconteceu. E você via o poder daquele cara, negro, magrinho, no meio de um palco enorme, no meio de uma multidão. Ele não conseguia sair! Foi muito forte, terrível. Tem de ter muita estrutura para suportar um negócio desses, do dia pra noite se transformar numa celebridade nacional. E essa coisa te dá um poder: 'puxa, antes quando eu fazia assim, não acontecia nada, agora acontecem... coisas'. E o Simonal nunca foi um cara de grandes estruturas. Ele era um sujeito simples, que, numa atitude teatral, interpretava um cara bacana. O que ele passou, e nós passamos com ele naquele lugar, não é para qualquer um. Qualquer coisa que ele viesse a fazer depois daquilo, qualquer coisa que ele tenha feito, provocado por aquilo, é pouco."