A Revolução da Eleição 3G

Debate sobre o uso da internet dá início à disputa presidencial de 2010 e inaugura nova era das campanhas políticas no Brasil

Por Rodrigo Barros e Fernando Vieira Publicado em 09/11/2009, às 16h02

Acesse o site do seu candidato e tire suas dúvidas em um bate-papo via webcam. Conteste, opine. Salve tudo em seu aparelho portátil ou microchip subcutâneo. Se convencido, faça o download do "santinho-mail", use o cartão de crédito para doações e se engaje na campanha sem sair de casa. No dia de votar, conecte-se ao cartório eletrônico. Pela biometria, identifique-se online na urna virtual e dê um clique para votar. Confirme a escolha via celular, estando no Brasil ou no exterior. Exagero? Talvez não.

Em um futuro que se aproxima na velocidade de banda larga, todo esse processo já seria possível para o mundo da tecnologia. E para parte dele, no que se refere às possibilidades da internet, é uma realidade diante da nova legislação eleitoral. Visualizar essa potencialidade de funções é fácil, tanto para os antenados como para a chamada "geração net", que cresce em meio à web. Esse grupo, provavelmente, chegará às urnas por volta de 2016, exigindo um novo cenário.

A descoberta política do uso da internet é apenas o início de uma verdadeira revolução para o sistema eleitoral. Por enquanto, fica de fora a mudança no mecanismo de votação, como a dispensa do comparecimento pessoal até a urna eletrônica para votar, embora experiências com biometria - no caso, identificação pelas impressões digitais - já estejam sendo realizadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O impacto direto das inovações tecnológicas sobre o próximo processo é certo, e recai principalmente sobre o período pré-eleitoral, ou seja, no marketing político. Não há mais como ficar offline ou derrubar a conexão com o público eleitor.

Tirando lições do fenômeno Barack Obama, os "papas" da estratégia política passam a enxergar o ambiente virtual brasileiro com outros olhos. "O papel da internet nas últimas campanhas tem sido crescente, mas ainda é relativamente tímido em relação ao que pode ser daqui pra frente", analisa o publicitário Duda Mendonça, idealizador da estratégia de marketing que levou Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2002. A visão do marqueteiro petista é reforçada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada em setembro. O computador é hoje o produto preferido da lista de eletroeletrônicos para o lar brasileiro. Conforme o levantamento, de cada dez domicílios, três possuíam computador em 2008 - o valor cresceu de 26,7% em 2007 para 31,2% em 2008. Ou seja, quase 18 milhões de residências no total.

Na questão da conexão, também houve avanços. De todas as residências com computadores, 23,8% tinham acesso à internet em 2008. O percentual é maior do que os 20% de dois anos atrás. Pensando em números absolutos, os internautas que tenham feito pelo menos um acesso anual somavam 35,3 milhões em 2006, saltando para 53,9 milhões em 2008, segundo o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic). Outro estudo, este do Ibope Nielsen Online, também apresentou dados significativos: a quantidade de pessoas conectadas à rede no trabalho ou em residências, que era de 44,5 milhões, cresceu 5% e chegou a 46,7 milhões (dados até setembro). Outro dado interessante: 64,8 milhões de pessoas possuem acesso à internet em qualquer ambiente (residências, trabalho, escolas, lan houses e telecentros), considerando brasileiros de 16 anos ou mais, com posse de telefone fixo ou móvel.

Para Duda Mendonça, o fator mais importante, no entanto, é aquele que se esconde por trás da frieza dos índices. "O número de usuários da internet aumentou muito e, pela primeira vez, entre as classes C, D e E. Deixou de ser uma realidade somente das classes A e B", observa. O publicitário enxerga a web com um papel de maior destaque nas próximas campanhas, "alavancada pela novidade e pela potencialidade de imensa geração de fatos por minuto." Mas pondera: "Não acredito, entretanto, que a internet já seria a principal ferramenta capaz de decidir as eleições de 2010. A TV ainda tem e terá, por alguns anos, muita força".

A opinião do jornalista Luiz Gonzalez, da produtora GW Comunicação, segue a mesma linha. "A internet não é dispensável, é um instrumento importante", pontua. "Mas fundamental ainda é a TV." Marqueteiro da campanha de Gilberto Kassab à prefeitura de São Paulo, em 2008, ele vai além: "Sem a TV seria impossível fazer campanha no Brasil, um país de dimensões continentais e com 130 milhões de eleitores, com voto obrigatório".

Longe de ser uma relação conflitante que gerasse uma disputa entre mídias para protagonizar as próximas eleições, o fato é que mais uma frente de trabalho se abre para as campanhas com a presença do ambiente virtual. E as opiniões dos publicitários deixam clara a idéia de que a internet terá um tamanho maior, complementar e indispensável para cobrir os buracos deixados pela televisão.

"A TV tem um papel de fornecer argumentos que vão alimentar a discussão popular na rua, nas praças e nas fábricas, que é onde a eleição se decide", argumenta Mendonça. "Nesse raciocínio, vejo a rede como um potencializador da TV, estimulando o diálogo entre os eleitores de forma rápida, imediata." E, para ser mais específico na explicação - tal como habitualmente faz o presidente Lula -, ele recorre à metáfora: "A internet, portanto, é como se fosse um enorme botequim, uma hiperpraça, onde as pessoas interagem decidindo suas opções e preferências".

Se a expectativa depositada nessa nova ferramenta de propagação eleitoral é gigantesca, o desafio de fazer uma campanha virtual de sucesso no Brasil é ainda maior. A vitória de Barack Obama nas eleições dos Estados Unidos consagrou o uso da rede e deixou brilho nos olhos dos políticos por aqui - especialmente no que se refere à possibilidade de recolhimento de recursos via internet - e jogou nas costas dos marqueteiros e especialistas em tecnologia a responsabilidade de atingir resultados semelhantes. Difícil é encontrar um profissional desses meios que não tenha buscado informações sobre a estratégia do presidente democrata. A fama da equipe de novas mídias de Obama,no entanto, não apaga a história das corridas presidenciais anteriores. Afinal, foi justamente o candidato derrotado na última disputa norte-americana, o senador republicano John McCain, quem descobriu a internet como um meio para ficar conhecido, em 2000, quando utilizou banners em sites pedindo apoio à campanha.

Depois dele, surgiu o pré-candidato democrata nas eleições de 2004, Howard Dean, então governador pelo estado de Vermont, que se tornou o primeiro a conseguir extrair do uso da rede mais do que apenas divulgação. Durante as prévias do partido, Dean fez da internet um meio efetivo para mobilizar apoiadores pelo Estados Unidos.

Para isso, utilizou um serviço online e gratuito (Meetup), que permite aos usuários se organizarem em grupos de interesse e promoverem encontros no mundo real. Em seguida, o pré-candidato inaugurou um blog a partir de seu site que ia além das mensagens oficiais, alimentado e assinado por colaboradores de várias áreas. Sua equipe ainda participava de outros nichos virtuais de discussão política, onde trocava ideias e estimulava a criação de blogs de apoio. Além disso, Dean colocou em prática um mecanismo inovador para levantar fundos, ao permitir pequenas doações por meio do site. Com isso, conseguiu ainda que os doadores fizessem mais de uma contribuição durante a campanha - o que lhe garantiu US$ 53 milhões. Mas a estrutura online não encontrou correspondência nas demais frentes de trabalho, e ele acabou desistindo da disputa após perder algumas das eleições primárias.

Os erros serviram de lição para a equipe de Obama, que implodiu o recorde anterior de arrecadação via rede, alcançando a marca de US$ 500 milhões, em mais de 6,5 milhões de doações individuais. Obama aproveitou a estrutura online deixada por Dean e a ampliou do ponto de vista do uso das mídias sociais, como Facebook e MySpace, entre outras 15, focadas em públicos específicos de latinos, asiáticos e negros. Os resultados culminaram na criação de uma rede pessoal própria, MyBarackObama (MyBO), que somou dois milhões de perfis e mais de 400 mil posts em blogs, ajudando na realização de 200 mil eventos. O candidato também explorou o YouTube e o Flickr, sites de compartilhamento de conteúdo, além de conquistar um milhão de assinantes com o serviço de torpedos com informações sobre a campanha. Detalhe: no país, o usuário paga para receber mensagens via celular. Mesmo assim, o retorno foi enorme, com uma média de cinco torpedos mensais enviados para cada assinante.

Embora a estrutura impressione, o mérito da campanha de Obama não está no desenvolvimento e implementação das novas plataformas de comunicação. "O essencial no sucesso dessa estratégia foi ouvir", opina Antonio Graeff , diretor da agência Digital Brancaleone. "Qualquer um que queira se comunicar tem de pensar a comunicação como uma via de duas mãos. E o único meio de massa para isso, a um baixo custo, é a internet, porque permite ao eleitor falar com o candidato."

Graeff é autor do livro Eleições 2.0 (Publifolha), em que levanta dados das eleições presidenciais nos Estados Unidos, analisa as iniciativas e traça um paralelo com a internet e as mídias sociais no processo brasileiro: "No Brasil, a gente ainda não testou essas ferramentas em campanhas. Só vamos descobrir o que vão representar de verdade nas próximas eleições".

Mas há um grupo de políticos que já se movimentou de alguma forma. O pesquisador Francisco Brandão, da Universidade de Brasília (UnB), constatou um primeiro "boom" da internet junto aos aspirantes a cargos políticos em geral. O estudo mostra que o número de sites de campanha de candidatos a prefeito e a vereador passou de 2.218 em 2004 para 9.254 em 2008, um crescimento de 317%. Considerando a última eleição, nos municípios com mais de 100 mil habitantes, o levantamento apontou que 32% dos eleitos tinham um endereço eletrônico, enquanto que do lado dos candidatos derrotados o número era de 16%. Para Brandão, este é um indicativo de que a internet pode ter relação direta com a vitória nas urnas. "Este fator também é significativo, porque o internauta-eleitor, que busca informações online, geralmente tem poder de influência na decisão de uma outra parcela da população. É o chamado 'formador de opinião'", acrescenta.

Luiz Gonzalez, jornalista que trabalhou nas últimas campanhas tucanas desde 1994, lembra que as campanhas presidenciais em 2006 usaram, com a intensidade ajustada aos seus orçamentos, a maioria das novas ferramentas disponíveis. "As principais fizeram sites, colocaram áudio e vídeo, tinham um espaço noticioso importante sobre o andamento da campanha, dos apoios, dos comícios, das principais ideias e das propostas", ele comenta. "Fizeram também e-mail marketing. Houve pouco esforço de participação em blogs e chats, e quase nada em redes sociais, embora os principais candidatos tivessem perfis e comunidades no Orkut." Com a campanha do prefeito Gilberto Kassab, em São Paulo, já nas eleições de 2008, a participação em blogs e redes sociais foi incrementada.A campanha montou sua própria rede social, a K25, e buscou atrair de eleitores com a possibilidade de baixar papel de parede e animações do mascote que representava o candidato, o Kassabinho, em suas várias versões. Estavam disponíveis ainda as músicas usadas na campanha, que fizeram sucesso, principalmente as que ironizavam a candidata adversária, Marta Suplicy. Embora considere um avanço sua última experiência em campanha virtual, Gonzalez é sereno ao avaliar que, até hoje, o uso da internet em praticamente todas as campanhas funcionou "muito mais para o mal do que para o bem" - ou seja, para espalhar boatos e informações falsas.

Trazer a interatividade, principal característica da internet, para as campanhas eleitorais é o maior desafio que os políticos e suas equipes terão pela frente. Onde está o internauta- eleitor e como despertar seu interesse para a política? Qual a linguagem a ser utilizada? Qual o limite da privacidade? Essas são questões que serão respondidas no curso das eleições. Mas já é possível colher impressões a respeito de como será a exploração da nova arma de campanha.

Como a internet é um veículo participativo e de duas vias, ela favorecerá o contraditório, que é a essência do embate político. A facilidade, a instantaneidade e o baixo custo de participação vão estimular o engajamento nas discussões e a formação de comunidades, dentre outras iniciativas. Nesse sentido, a previsão é de que as principais mudanças estarão assentadas em duas características. Primeiro, o aspecto positivo: um eventual aumento da participação de eleitores engajados e com opinião. Segundo, um alerta para o político: a facilidade do exercício do contraditório. "O candidato que mentir, errar ou der mancada verá os adversários e os internautas desmentirem, apontarem os erros, criticarem. Tudo na hora, rápido, influenciando os próximos lances da disputa política", diz Luiz Gonzalez.

O marketeiro ainda diz que a complexidade do tema aponta, pelo menos, três direções quando se fala em uso da internet em campanhas: a) o de uso das campanhas, como sites, e-mail marketing, participação em redes sociais; b) o de veículo de comunicação e difusão de informações a partir dos portais jornalísticos, onde as campanhas não têm domínio, mas que influem decisivamente no comportamento e na escolha de uma parcela de eleitores; e c) o de ações individuais, ditas amadoras, ou independentes, de eleitores. Ou seja, gente que escreve, comenta e opina em blogs, redes sociais e sites pessoais.

A visão de Duda Mendonça é mais prática: ele considera a internet mais um veículo, que poderá ser usado de forma correta por alguns e de forma ainda muito primária por outros, e aqueles que tiverem uma visão estratégica e clara de prioridades saberão tirar mais vantagens, sobretudo potencializando a interatividade. "Dialogando melhor com seus eleitores, o candidato poderá construir uma aliança mais forte e permanente", afirma.

O atraso no desenvolvimento de campanhas virtuais tem, em grande parte, relação com a legislação proibitiva, em vigor até as últimas eleições. As mudanças trazidas com as novas regras sobre o uso de internet dão à mídia eletrônica um tratamento que caminha em direção à liberalidade. Ainda não se trata de uma liberdade total, diferente do modelo norte-americano, mas já é bastante coisa. A permissão da campanha política em sites, blogs, mídias sociais e e-mail é um avanço, inclusive com a autorização para manter os endereços eletrônicos vinculados ao candidato no dia da eleição. Em 2008, só eram permitidos sites oficiais, o que limitava o uso da rede, e com a obrigação de suspensão do ar até 48 horas antes do pleito.

Mais um avanço é que a rede também poderá ser utilizada para receber doações, sendo que o eleitor deverá usar o cartão de crédito para fazer as contribuições. A exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos, abre-se um potencial significativo para o aumento na arrecadação e, talvez, um engajamento maior das bases que, ao contribuir, se coloquem também como agentes fiscalizadores dos compromissos assumidos pelo candidato.

No caso de debates virtuais, também não há restrições, diferenciando-se da regra estipulada para rádio e TV, situação em que todos os candidatos com representação na Câmara Federal deverão ser convidados. "É impossível fazer analogia, querer comparar a internet a rádio e TV, a jornal e revista. Você desconfigura a natureza da própria internet", explica a advogada Patrícia Peck, especialista em Direito Digital.

Uma questão limitativa está na impossibilidade anúncios de candidatos na web. A situação é diferenciada

do tratamento dado aos veículos impressos, em que a propaganda paga é permitida. O advogado Alberto Rollo, especialista em Direito Eleitoral e presidente do Instituto de Direito Político Eleitoral e Administrativo, puxa o coro dos descontentes com toda e qualquer restrição. "O ponto equilibrado é o uso e o costume. À medida que você usa, se acostuma e conhece os limites. Em situações de abuso, existe a Justiça para coibir." O mesmo raciocínio tem o publicitário Décio Clemente, sócio-diretor da Dclemente & Associados. "A internet sempre serviu mais para difamar os políticos do que para divulgar. Ninguém deu bola até hoje para mensagens hipócritas e que só falam bem de um candidato, sem falar mal do outro", ele afirma. "Caberia apenas à fiscalização o papel de verificar o material impróprio, e à Justiça a tarefa de controlar os direitos de resposta."

Em termos de tecnologia, um ano é um prazo mais do que considerável. São inúmeros os lançamentos no decorrer de 12 meses. Portanto, muitas novidades podem aparecer na internet até as eleições. Pode ser até que sejam criados novos recursos que não estavam disponíveis na campanha de Obama. E se avançarmos 10, 20 anos?

Para Duda, o eleitor do futuro estará maduro e o processo colaborativo será uma realidade: "Imagino o eleitor participando da plataforma do candidato, discutindo e aprimorando ideias relevantes para a sociedade. É a construção de uma sociedade politicamente mais representativa".

Para Gonzalez, o tradicional santinho, de papel, é algo quase eterno. "O livro vai desaparecer? Os jornais impressos vão desaparecer?", ele questiona. "Se tudo isso acontecer, é possível que os jornais de campanha e os folhetos também não existam. Acho que algum material impresso sempre vai existir. Pelo menos até que todos portem equipamentos eletrônicos de leitura. Daí as pessoas lerão jornais e receberão o material de campanha também no equipamento, que será TV, celular, computador, tudo no mesmo aparelho. Será?"

"Toda a tecnologia para votação via internet ou celular já existe e poderia ser feita de qualquer lugar", acrescenta Graeff . "Os entraves de hoje estariam na segurança de dados do sistema." Mas ele se esquiva da tarefa de enxergar mais longe: "Cinco anos é muito tempo. Dez, um absurdo. Passou disso, é futurologia. E há histórias de gente muito esperta que falou coisas estúpidas".

Ele se refere a duas frases que teriam sido supostamente ditas no passado. A primeira, por Thomas Watson, fundador da IBM, em 1943: "Penso que há talvez no mundo um mercado para cinco computadores". A segunda, por Bill Gates, em 1981: "640 K de memória é mais do que suficiente para qualquer um". O dono da Microsoft já negou que tenha declarado tal frase. Mas o boato caiu na rede e foi parar em blogs, fóruns e comunidades. Assim como tudo que entra em contato com a internet, foi impossível conter a sua propagação.