Cinco contra todos

Por Cameron Crowe Publicado em 11/11/2009, às 15h50

LÍDER DO GRUPO - Pearl Jam, com o cantor Eddie Vedder à frente, na época do lançamento de Ten, o disco que os levou ao estrelato mundial

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EM 1993, O PEARL JAM EMERGIA DO TURBILHÃO DO ESTRELATO TENTANDO LIDAR COM OS PROBLEMAS DA FAMA. CAMERON CROWE (DIRETOR DE QUASE FAMOSOS, E QUE HOJE PREPARA UM DOCUMENTÁRIO SOBRE OS 20 ANOS DA BANDA) ESTAVA LÁ E CONTOU A HISTÓRIA NAS PÁGINAS DAROLLING STONE EUA

Existem dois Eddie Vedders. Um é quieto, tímido e quase inaudível quando resolve falar. Amável e amado. O outro é torturado, amargamente realista, um homem capaz de apontar as injustiças e comprá-las internamente. Em um dia de calor e vento no fim da primavera em São Rafael, Califórnia, é fácil perceber qual Eddie Vedder está jogando basquete do lado de fora do Site, estúdio de gravação onde o Pearl Jam está finalizando seu segundo álbum. É o Eddie torturado, aquele com uma profunda ruga de preocupação encravada entre as sobrancelhas. "Sua vez", diz Jeff Ament, o baixista do grupo. Ele lança a bola para Vedder, que arremessa. A bola entra na cesta e pinga para longe. Quando Ament recupera a bola, Eddie já desapareceu para dentro do estúdio. Ele está com a cabeça em uma nova música, "Rearviewmirror". É o último dia de gravação no Site, e o destino da faixa está na balança. É uma música sobre suicídio... mas é muito "pegajosa".

A escolha de estúdio parecia perfeita em fevereiro, quando a banda resolveu gravar o novo álbum por aqui. O idílico complexo localizado nas colinas nas cercanias de São Francisco oferecia privacidade e condições para a concentração total. É uma área maravilhosa, em que os moradores olham para o horizonte verdejante e dizem coisas como "George Lucas é dono de tudo o que está à esquerda". Este é o lugar onde o Pearl Jam encararia o desafio de gerar o sucessor de Tem, um dos álbuns de estreia mais bem-sucedidos da história do rock. Só há um problema. "Odeio esta porra de lugar", diz Vedder, parado na sala azul onde está prestes a cantar. "Tive sérias dificuldades." Ele coloca a folha com a letra da música em um pedestal entre duas guitarras verde turquesa. "Como se faz um disco de rock em um lugar assim? Talvez os roqueiros antigos amassem isso aqui. Talvez eles precisassem do conforto e do relaxamento. Talvez eles quisessem fazer música de restaurante." Frustrado, Vedder balança a cabeça. Ele tira sua camiseta preta, desconfortável em sua própria pele. Um longo instante se passa. Finalmente, o produtor Brendan O'Brien fala pelo comunicador. "Pronto para começar?" "Claro", diz Vedder, virando as costas para o microfone. Ele coloca os fones de ouvido e por um bom tempo o único som audível na sala é o de seu pé batendo, marcando o ritmo.

Em outra parte do edifício, Ament, o artista da banda, se prepara para uma reunião sobre a capa do novo álbum. Por meses a regra não oficial foi "não se fala a respeito". Concentre- se na gravação. Esqueça das pressões do outro lado das colinas. Mas agora a decisão precisa ser tomada e a banda começa a se reunir lentamente para ver as ideias de Ament. "Andei pensando em janelas", diz Ament, lutando contra o nervosismo, passando seus esboços para os outros membros. A escrita de mão distinta de Ament adorna todas as camisetas da banda e os encartes de álbuns. Na mesa à frente deles está um apanhado complexo de suas fotos e rascunhos. "Legal", diz, Vedder mansamente, recém-vindo do estúdio e ainda sob o desgaste emocional das gravações. Stone Gossard e Mike McCready, os guitarristas da banda, estudam as ideias com entusiasmo crescente. Confiante, Ament prossegue. Ele gosta da ideia de contradição. Imagens conflitantes. Os cinco membros debatem a ideia até que ela se forme. Contradição. Há o silêncio que sempre precede uma grande ideia. "Então 'Daughter' deve ser o primeiro single?", pergunta casualmente o baterista Dave Abbruzzese. De repente, o clima pesa na sala. Os outros quatro membros avançam sobre Abbruzzese. "Que single? Uma reunião de cada vez! O que você quer dizer com single?", Abbruzzese dá de ombros. Talvez ainda seja muito cedo para mencionar o proibido. "Quando era mais jovem e ouvia que uma banda havia vendido milhões de discos, achava que os integrantes se juntavam e ficavam pulando, comemorando por pelo menos um minuto", conta o baterista com seu sorriso texano aberto, "e dizendo 'Uau, não acredito'. Mas não é assim que acontece [nesta banda]. Eu pelo menos piro. Pulo sozinho" Para Abbruzzese, que é coautor da faixa de abertura, "Go", às vezes é difícil assistir ao modo como seus companheiros de banda lidam com o sucesso. "Há muita intensidade na hora de tomar decisões", diz empolgado. "E acho ótimo. Mas de vez em quando preferiria que todo mundo desencanasse um pouco. Que tomássemos uma decisão errada!" Ele olha para a mesma floresta verdejante sobre a qual Vedder tinha reclamado não muito tempo antes. "Olha esse lugar! É um paraíso."

No início do processo criativo, as músicas do novo álbum, Pearl Jam (mais tarde o nome do disco seria mudado para Vs.), surgiam como uma enxurrada. A primeira semana de gravação no Site gerou "Rats", "Blood", "Go" e uma versão potente e mais lenta de "Leash", favorita dos fãs nos shows mas gravada somente agora, pela primeira vez. E então a banda empacou. Vedder se enfiou em São Francisco, dormindo frequentemente em seu caminhão no intuito de preservar seu espírito de luta. De tanto andar pelo mato, pensando, chegou a sofrer contaminação por hera venenosa. "Ele precisa estar no mesmo espaço de suas músicas", conta Ament. "Não demorou até que entrássemos nos eixos de novo." O segundo álbum marca o

território da banda. É uma declaração sobre a importância da música quando comparada à idolatria. Mas o fardo

da popularidade do Pearl Jam recaiu com muito mais força sobre Vedder, que passou boa parte de suas férias pensando sobre os efeitos inerentes ao fato de pertencer a uma banda de tanto destaque. Vedder - em uma atitude contrária a seu comportamento tradicional - chegou até a se envolver em uma briga de bar, defendendo a banda (com um tom de voz que lembra Tom Waits, ele me oferece um trecho de uma música ainda não gravada e que ele escreveu tendo como base o acontecido: "Gave myself a black eye/To show off just how I was feeling"- "Me dei um olho roxo/Para mostrar como estava me sentindo").

"Vamos tocar 'Black'", diz Gossard. Está na hora de um ensaio em Seattle, é junho de 1993. Mais tarde, no verão do mesmo ano, o Pearl Jam viria a fazer uma breve turnê europeia, só por diversão, abrindo para Neil Young e U2, e por isso alugou o Moore Theatre para ensaiar. Meio sério, Gossard pede que as luzes do teatro vazio sejam diminuídas (elas são). Ele começa a tocar os simples acordes da introdução da angustiante canção dedicada a uma exnamorada. Então, com as mãos nos bolsos, Vedder entra nos versos. Ele se entrega por inteiro para mil assentos vazios. Quando a performance termina, há uma vibração nítida no ar. A banda está cheia de energia. No coração do Pearl Jam está o relacionamento entre Gossard e Vedder. "Somos quase opostos em vários aspectos", diz Gossard, cujo humor afiado é bem diferente da fria ironia de Vedder. "Quero dizer, comece qualquer assunto e vamos ter opiniões completamente diferentes. Ficamos sempre cada um de um lado do espectro, assim sempre conseguimos encontrar de algum modo um ponto médio entre os dois. Meu objetivo, o que realmente quero, é não precisar tanto dele. Porque muitas pessoas que não o entendem precisam de verdade."

Mais tarde, Vedder pega um jarro de cerveja em um bar vizinho, o Nightlite, e relaxa depois do ensaio. Ele reflete sobre ter cantado "Black" pela primeira vez em meses. "Há certas músicas que vêm da emoção", diz. "Não tem nada a ver com melodia ou tempo ou mesmo com palavras; tem a ver com a emoção por trás da canção. Não dá para cantar com cinquenta por cento do potencial. Você tem que cantar com sentimento. Como 'Alive', 'Jeremy' - e 'Black'. São músicas que me estraçalham." Ament está sentado ao lado. Os dois não saem juntos socialmente desde a turnê do Lollapalooza de 1992. Eles dividem a camaradagem fácil dos amantes da música. "Minha relação com a banda", conta Vedder, "começou com um caso de amor com Jeff ao telefone". Logo os dois músicos estão relembrando o início de carreira do Pearl Jam, há apenas dois anos e meio.

Tudo começou com uma despretensiosa fita intitulada Stone Gossard Demos 91. As revistas para guitarristas só descobriram o fato recentemente mas a maior parte das músicas do Pearl Jam começou como um riff de Gossard. Uma das antigas favoritas era uma música chamada "Dollar Short", faixa incompleta que havia começado a compor ainda no tempo em que ele e o baixista Ament faziam parte do Mother Love Bone. Os dois haviam formado a banda - vista como a grande promessa do hard rock de Seattle - depois do fim de seu projeto anterior, o Green River, grupo pioneiro do grunge. Quando o vocalista e compositor do Love Bone, Andrew Wood, morreu tragicamente em 1990, vítima de uma overdose de heroína, Ament - nascido em Montana, filho de um barbeiro - passou a tocar pela cidade com a banda War Babies e retomou a sua outra paixão, as artes gráfi cas. Gossard - nativo de Seattle, filho de advogado - raramente deixava a guitarra de lado, tocando o tempo todo, se afastando da atmosfera viajante do Mother Love Bone e se aproximando de um groove mais pesado. "Dollar Short" resumia bem essa nova tendência.

Eventualmente, Gossard chamou McCready, um guitarrista solo explosivo que ficou tão decepcionado com o fim de sua própria banda de Seattle, a Shadow, que iniciou um processo que o levaria a se tornar um republicano - literalmente. Havia cortado seus cabelos, estava trabalhando em uma locadora de vídeos e lendo um livro do ultraconservador Barry Goldwater. "Estava me tornando um conservador extremista", diz McCready, "porque estava muito deprimido". Gossard o via como a arma secreta da banda que queria formar. "Independentemente

do que você esteja tocando", diz Gossard, "Cready chega e liga tudo no 220". Conforme o som de Seattle ganhava força - o Nirvana estava prestes a assinar com uma grande gravadora, a Sub Pop Records florescia -, Gossard e McCready faziam jams no sótão da casa dos pais do primeiro. O mesmo lugar já havia servido como sala de ensaios para o Green River e o Mother Love Bone. Quando Ament se juntou a Gossard e McCready, a inspiração surgiu de novo. "Soube que tínhamos uma banda", conta McCready "quando começamos a tocar 'Dollar Short'". O baterista Dave Krusen se juntou ao grupo mais tarde, tocando em Tem, mas logo deixou a banda para cuidar de problemas particulares. Foi substituído por Abbruzzese, que tocava com uma banda de funk e coapresentava um programa de rádio, Music We Like, em Houston. No começo, Abbruzzese estava reticente em tocar rock em período integral; depois de dois shows, já tinha tatuado o boneco de palitos, desenhado por Ament para ser o símbolo do Pearl Jam, em seu ombro.

Ouvir hoje as demos originais de Gossard não é muito diferente de ouvir , Tem sem os vocais - poderoso, mas incompleto. A parte que faltava, descobriu-se depois, estava em São Diego. Nativo de Evanston, Illinois, Vedder - mais conhecido na cena musical de São Diego como "o cara que nunca dormiu" - havia trazido uma certa ética de trabalho do meio-oeste à ensolarada comunidade praiana. Trabalhando duro em uma companhia de petróleo para financiar sua carreira paralela como cantor e compositor, Vedder havia feito amizade com Jack Irons, ex-Red Hot Chili Peppers. Irons entregou a ele a fita demo de Gossard.

O cassete de Seattle tinha cinco faixas instrumentais, mas havia algo em uma música em particular que aflorava coisas em Vedder que ele havia contido por muito tempo. Tudo se juntou quando estava surfando em uma manhã enevoada, a manhã em que "Dollar Short" se tornou a música chamada "Alive". Vedder correu de volta para o apartamento de sua namorada de longa data, Beth Liebling. A partir dos versos escritos em post-its roubados do trabalho, Vedder gravou sua voz sobre três das instrumentais. Juntas, as três contavam uma história que, conforme Vedder relembra hoje, "eram baseadas em coisas que aconteceram e em algumas que imaginei". A fita no estilo "miniópera" ainda teve um design feito por Vedder, xerocado no trabalho e intitulado Mamasan. Sentado em seu apartamento em Seattle, Ament ouviu o cassete três vezes e pegou o telefone. "Stone", disse ele, "melhor você vir até aqui". Quando chegou a Seattle, Vedder já havia escrito "Black". Tudo o que ele tinha pedido na longa conversa telefônica com Ament foi para não perder tempo. Ele queria ir direto do aeroporto para o ensaio e fazer música. E foi isso o que aconteceu. A primeira que tocaram juntos foi "Alive". Em uma semana já eram uma banda completamente funcional. E as comportas criativas de Vedder estavam totalmente abertas. Muitas de suas canções, de "Why Go" a "Oceans", eram histórias verdadeiras sobre pessoas que ele havia conhecido. Algumas delas continham charadas, mensagens particulares para si mesmo ou para amigos. As letras impressas no encarte de Tem são apenas parciais, mas não se pode discutir a dor de Vedder ao cantar versos lancinantes como "Daddy didn't give attention/ To the fact that Mommy didn't care" ("Papai não dava atenção/ Ao fato de Mamãe não se importar"). "Não sei de onde vêm todas essas canções", diz Ament. "Alive" deu o tom de tudo que viria posteriormente. A primeira música de Tem foi a primeira a chamar a atenção para a banda. Era o estouro criativo de Vedder e o primeiro vídeo da banda celebrava uma performance catártica ao vivo da música. Em uma resenha para o Los Angeles Times, o escritor Chris William chegou até a compará-la a "My Generation" (The Who). Hoje, "Alive" é o hino da Geração X, mas essa noite, sentado no Nightlite, Vedder revela o real significado da música. "Todo mundo escreve a respeito como se fosse um tipo de afirmação à vida - fico muito grato", diz com um meio sorriso. "É uma ótima interpretação. Mas 'Alive' é... é uma tortura. Por isso é tão foda para mim. É a razão pela qual eu provavelmente deveria aprender a cantar de outro jeito. Seria mais fácil. É... é demais para mim." Vedder continua: "A história da música é que uma mãe está com o marido e ele morre. É algo intenso porque o filho se parece com o pai. E ele cresce para se tornar esse pai, a pessoa que ela perdeu. Seu pai está morto e há essa confusão, sua mãe, seu amor, como ele a ama, como ela o ama. Na verdade, mesmo casando com outro cara, não há ninguém que ela tenha amado mais do que o pai de seu fi lho. Sabe como é, primeiro amor e tal. E o cara morre. Como você pode tê-lo de volta? Mas o filho parece muito com ele. É incrível. Então ela o quer. O filho está alheio a tudo isso. Ele não sabe que porra está acontecendo. Ele ainda está lidando, ainda está crescendo. Ele ainda está lidando com o amor, com a morte do pai. Tudo o que ele sabe é 'Ainda estou vivo' ['I'm still alive', trecho do refrão da música]". "Suspicious Minds", de Elvis, explode na jukebox enquanto Vedder prossegue. "Já o segundo verso é 'Oh she walks slowly into a young man's room... I can remember to this very day... the look... the look' ('Oh ela entra lentamente no quarto de um jovem... me lembro até hoje... o olhar... o olhar'). E não digo mais nada. E porque estou dizendo 'o olhar, o olhar' todo mundo acha que a ligação é com 'em seu rosto'. Mas não. O olhar é entre as pernas dela. E aonde você chega com isso? É de onde você veio. Mas ainda estou vivo. Sou o amante que ainda vive. E toda a conversa sobre 'You're still alive, she said' ('Você ainda está vivo, ela disse'). E suas dúvidas: 'Do I deserve to be? Is that the question?' ('Eu mereço estar? Essa é a dúvida?'). Porque ele está fodido para sempre! Então agora ele não sabe como lidar com

isso, e o que ele faz? Começa a matar pessoas - isso acontece em 'Once'. Ele se torna um assassino em série. E em 'Footsteps', a última música da trilogia (que foi lançada no Reino Unido como lado B do single de "Jeremy"), é quando ele é executado. Isso é o que acontece. O assassino do Green River... e em São Diego havia outro assassino de prostitutas. De alguma forma eu me identifiquei com isso. Creio que é algo que acontece mais do que pensamos. É o modo moderno de se lidar com uma vida ruim." Então ele sorri e diz: "Fico feliz de ter me tornado um compositor".

Sentado ao lado de Vedder, Ament escuta como um irmão fascinado. Talvez ele esteja se lembrando da primeira impressão deixada por Vedder logo que chegou a Seattle. Amigos antigos se lembram de um Vedder diferente do de hoje em dia. Um surfista desesperadamente tímido, um cara com muito coração e pouca ironia. Um amigo até o chamava de Santo Eddie. "Ele foi genuinamente amável e tranqüilo quando o encontramos pela primeira vez", conta Ament. Nos primeiros shows da banda, Vedder estava tão retraído que quase não levantava o olhar. "E em certo momento ele mudou". Um dos fatos marcantes nessa virada aconteceu em uma casa noturna chamada Harpo's, em Victoria, na Columbia Britânica. Era a perda da virgindade do Pearl Jam, a primeira vez da banda longe de Seattle e de sua plateia de amigos. Mas o público canadense estava mais interessado em encher a cara. No meio do show, Vedder decidiu provocar o público para acordá-lo. Desatarrachou a pesada base do pedestal do microfone o atirou por sobre a cabeça de todos, como um frisbee letal. O disco metálico acertou a parede no fundo do bar. E eles acordaram. Na mesma época a banda voltou de uma turnê pela Europa e gravou uma edição do Acústico MTV. Houve um momento particularmente inesquecível no fim de "Black". "We belong... together... together" ("Nós pertencemos... um ao outro... um ao outro"), cantava Vedder. Era algo simples, um cara sentado em um banquinho, rasgando seu coração, se afogando emocionalmente, bem ali, na sua frente. Depois do Acústico, as cartas para o Ten Club, o fã clube da banda, quase dobraram. Muitas falavam de "Black" e começavam de uma maneira assustadoramente similar: "Recentemente estive considerando a hipótese de suicídio, mas ouvi sua música..." Vedder respondeu a boa parte das cartas, às vezes saindo do escritório da banda exausto. Mas havia mais trabalho a ser feito. Quase imediatamente, o Pearl Jam retornou à Europa para tocar nos grandes festivais de verão para platéias que iam de 30 mil a 50 mil pessoas. Era o batismo de fogo. "A coisa toda culminou na Dinamarca", diz Ament. "Os dinamarqueses, acho, estavam jogando contra a Itália em um campeonato e por isso a cidade estava enlouquecida. O Nirvana estava tocando lá e eles também tiveram que lidar com a fama. Tocamos para 70 mil pessoas. Eddie foi para a plateia, como sempre faz, voltou e a equipe de segurança não sabia quem ele era. E começaram a bater nele. Foi durante 'Deep'. Me lembro que paramos e eu estava pronto para entrar no meio, vendo toda essa confusão acontecendo... e Eddie e Eric [Johnson, gerente de turnê ], brigando. E Mike estava no meio e Dave também."

Sentado no Nightlite, Ament se recorda do fim dessa turnê de 1991. A banda viu seu álbum de estreia vender milhões. Só Billy Ray Cyrus os impediu de chegar ao primeiro lugar nas paradas, felizmente guardando ao menos uma marca a ser batida no futuro. O Pearl Jam tinha sido planejado para crescer aos poucos. Em vez disso, a banda atingia as alturas, como se estivesse amarrada a um foguete. Houve inúmeras reuniões para discutir o assunto: "Onde traçamos o limite?" A linha foi traçada em "Black". Eddie Vedder se recusou a transformar a música em clipe, ignorando os conselhos do mundo corporativo, que defendia que a faixa era, como relata Vedder, "maior que 'Jeremy', maior que eu ou você". Vedder bateu o pé e a banda o apoiou. "Algumas músicas", diz ele, "não são feitas para serem tocadas entre o hit número 1 e o hit número 3. Se você começa a fazer essas coisas, acaba destruindo a obra. Não é para isso que compomos. Não escrevemos para fazer hits. Mas aquelas frágeis canções acabam sendo esmagadas pelos negócios. Não quero ser parte disso. Não acredito que o resto da banda queira fazer parte disso".

Até um mês antes do lançamento o álbum se chamava Five Against One (Cinco Contra Um). O nome surge durante uma reunião em um quarto de hotel em Roma enquanto a banda aprova a mixagem final. Já é possível ouvir alguns resmungos vindos da gravadora. Poderiam aumentar o volume do vocal de Eddie? E há o problema do clipe. Podemos escolher o diretor? E as entrevistas para a imprensa. Vocês têm que fazer algumas. As respostas para as perguntas são Na verdade não, Não e Depois. Decisões precisam ser tomadas o tempo todo, mas o Pearl Jam pretende fazer as coisas do seu jeito. O título do álbum parece adequado. A frase vem de uma música nova, "Animal". "Para mim, o título representa muitas das dificuldades que você enfrenta quando está tentando gravar um disco", diz Gossard, que escolheu o nome. "Sua própria independência - sua própria alma - contra todo mundo. Nesta banda, e acho que no rock em geral, a arte de se comprometer é quase tão importante quanto a arte da expressão individual. Você pode ter cinco grandes artistas na banda, mas se eles não conseguem se comprometer e trabalhar juntos, você não tem uma grande banda. Pode significar algo totalmente diferente para Eddie. Mas, quando ouvi a letra, fez muito sentido para mim." Ao ser questionado sobre sua infância, Vedder permanece reticente. Ele conta uma história sobre o tempo em que trabalhou de garçom em Chicago. De ter se mudado para São Diego, comprado pufes para a sala e seu primeiro aparelho de som ruim. Também conta que costumava gravar os shows aos quais ia, coisa que ainda faz usando um gravador de bolso. São pequenos fatos que soam perfeitos para sustentar o mito populista em crescimento que é Vedder, mas, quando as perguntas citam diretamente seu tempo de criança, o vocalista se torna evasivo. De suas memórias mais antigas ele diz apenas: "Estou confuso. Misturo muita coisa. Não sei o que está acontecendo agora". Ele ainda responde às cartas dos fãs, embora com menos frequência, e o gerente de turnê, Eric Johnson, às vezes chega ao escritório em Seattle tarde da noite e encontra Vedder ligando para fãs com problemas. Mas como Vedder cuidadosamente disse para um fã após um show em São Francisco certa vez: "Não estou dentro de sua cabeça. Mesmo. Não conheço todos os seus pensamentos íntimos". O fã pareceu muito desapontado. Vedder, por outro lado, aprendeu qual o efeito que se causa no público ao se escrever sobre pessoas com a personalidade avariada. "Fiquei espantado e um pouco incomodado ao ver que tantas pessoas se identificaram", conta Vedder. "Todo mundo está ferrado. Na real, agora estou entendendo mais todos esses canais de televisão religiosos. Todo mundo precisa de alguma coisa." Ele faz uma longa pausa. "Não devia haver nenhum Messias na música. Não me importo em idolatrar apenas a música. Já fiz isso. E junto vem um pouquinho de admiração por quem a fez - ou espanto, ou sei lá o que - mas nunca pedi um pelinho do nariz de Pete Townshend."

Hoje, em Dublin, no dia anterior ao show do Pearl Jam para um público estimado de 50 mil pessoas no Castelo Slane, Abbruzzese para e observa cerca de 30 ou mais jovens de Dublin cantando resolutamente versões de "Black" e "State of Love and Trust". O clima ensolarado da Itália já se foi. Este é um lugar de chuva, rostos pálidos, discussões românticas e embriagadas pelas ruas. É como estar em casa. Nos bastidores do show, no dia seguinte, há poucas das convenções tradicionais de um show de rock de grandes proporções. Nada de open bar, música alta, guarda-costas ou supermodelos.

O relacionamento de Vedder com Beth Liebling, uma escritora, é o mais forte em sua vida. Eles estão juntos há nove anos. Talvez em breve, diz o vocalista, eles se casem. E, quando for a hora de iniciar uma família, ele acredita que será um pai dedicado. "O melhor pai é aquele que ao resolver ter filhos entende que isso significa dar uma chance a outra pessoa, e que para isso precisa fazer todo o possível para impulsionar essa criança ao máximo para que ela possa brilhar de verdade", explica. "Sinto como se, nos últimos 20 anos, isso tivesse se perdido." Sentado à sombra do Castelo Slane, construção de 200 anos, o sol brilhando em seu rosto, Vedder é questionado sobre sua própria juventude. E seu pai? "Não conheci meu pai verdadeiro", conta. "Tive outro pai, com quem não me dava bem. Um cara que eu achava que era meu pai. Tivemos brigas muito feias. Eu era muito independente desde muito novo". Na época ele ainda era Eddie Mueller. Após morarem brevemente em São Diego, seus pais voltaram para Chicago. Vedder, que subsequentemente assumiu o nome de solteira da mãe, decidiu ficar para investir em sua carreira musical. Houve uma despedida dura de seu padrasto e os dois não se falaram mais depois disso. Mais tarde, enquanto Vedder vivia em São Diego, sua mãe veio de Chicago para visitá-lo com notícias importantes. "Ela veio com um propósito específico", diz ele,

"para me contar que aquele cara não era meu pai. Me lembro de ter dito algo como 'Eu sei que ele não é meu pai, ele é um cuzão'. E ela disse 'Oh Eddie, ele não é mesmo seu pai". "No começo fiquei bem feliz, mas aí ela me contou quem era meu pai verdadeiro. Eu tinha encontrado com ele umas três ou quatro vezes. Era um amigo da família, um amigo distante. Morreu de esclerose múltipla. Por isso, quando o encontrei, ele estava no hospital. Estava de muletas ou em uma cadeira de rodas." Vedder começa a cutucar seu tênis detonado. De algum modo, a meio mundo de distância, as palavras fluem com facilidade quando ele se recorda do que ele chama de "o dia em que descobri". "Havia um piano na sala", conta, "e me lembro de querer saber tocar alguma música alegre. Fiquei feliz por um minuto e depois fiquei mal. Tive de lidar com o fato de que ele estava morto. Meu pai verdadeiro não estava mais na Terra. Tive que lidar com a raiva por não terem me contado antes, enquanto ele ainda estava vivo. Era um grande segredo. Segredos são más notícias. Segredos sobre adoção e qualquer coisa do tipo precisam ser contados, não podem ser mantidos escondidos. Se você faz isso, a coisa só fica mais feia, tenebrosa e terrível. Musicalmente, tentei pensar qual seria o meu objetivo e vi que mais do que qualquer coisa minha meta era deixar para meu filho, se tivesse um, algo que ele pudesse escutar".

O pai biológico do vocalista também era músico, tocava órgão e cantava em restaurantes. Quando Vedder

descobriu a verdade, outros parentes se pronunciaram. "Havia umas coisas que eles sempre quiseram dizer", relembra, "como 'É daí que vem seu talento musical' e eu dizia 'Vá se foder'. Na época eu tinha 14 ou 15 anos e não entendia que porra estava acontecendo. Tinha aprendido a tocar guitarra, economizado todo o meu dinheiro

para comprar equipamentos e alguém vem me dizer que meu talento vinha dele? Um músico quebrado fazendo shows de segunda categoria? Vá se foder." Vedder conta tudo isso calmamente, mas o tempo não foi suficiente para amenizar seus sentimentos a respeito. Não é de se surpreender que Quadrophenia, álbum clássico do The Who que conta a história de um jovem inglês sem afeto, tenha se tornado como O Apanhador no Campo de Centeio para Vedder. A música salvou sua vida, como ele mesmo diz, mas as turbulências de sua juventude continuam alimentando seus trabalhos. É um círculo doloroso. "Meus pais têm muito orgulho de mim hoje", diz. "E, de qualquer forma, fico agradecido que eles tenham me dado uma vida que valesse a pena escrever a respeito."

O público de Dublin é firme, agitado, alimentado pela fúria e pela cerveja. Van Morrison toca para a plateia de sua cidade natal e é recebido como um tio querido. Poucos minutos depois do fim de sua apresentação, a plateia avança para a frente ansiosa com a entrada do Pearl Jam. "Adoro esse tipo de pressão que fica no ar", diz McCready, espiando a massa fervente de fãs irlandeses. Algum tipo de estranheza vindo da plateia, boa ou má. É disso que gostamos."

O Pearl Jam entra no palco e a plateia se espreme mais perto, sobrecarregando as grades. O clima na parte da frente é brutal e os seguranças precisam retirar algumas pessoas desmaiadas antes que a primeira nota seja tocada. Vedder entra com uma máscara de gorila, a arranca e começa a cantar "Why Go". É um público que se entrega ao perigo e, em troca, recebe o melhor que o Pearl Jam pode oferecer. No palco, os músicos, de modos diferentes, pulam de alegria, "pogam" e giram, quase acertando a cabeça uns dos outros com seus instrumentos. O público volátil não assusta Vedder; ele canta com seriedade para os rostos igualmente sérios que o escutam como ele costumava escutar o The Who - de corpo e alma. Ele para na beira do palco, apenas observando-os e se volta para dividir o momento com Liebling, que filma tudo usando uma câmera super 8. É o show que a banda esperava, um lampejo do futuro. "Se tudo acabasse amanhã", diz Abbruzzese, "eu seria o frentista mais feliz que alguém já viu". O melhor de tudo é que o Pearl Jam não é mais uma banda com um único e enorme álbum de sucesso no currículo. "Não existe uma escola que te ensine sobre algumas das bizarrices que acontecem nesta vida", diz Vedder. "Todas as coisas estranhas. Mas alguns caras podem ajudar um pouco. O conselho de Bob Dylan foi 'Vá a Dublin'. Mandei uma cartão-postal para ele hoje. Dizia: 'Fui'."