Guerrilha nas Panelas

O trivial variado dos programas de culinária na televisão brasileira diversifica seus temperos para agradar ao telespectador

Por Carina Martins Publicado em 09/11/2009, às 14h11

Ana Maria Braga e Paulo Tiefenthaler, exemplos da culinária popular moderna na televisão
ILUSTRAÇÃO: GERSON NASCIMENTO, COM FOTOS DE DIVULGAÇÃO

Quando a tv passa a abrigar um programa de culinária em que o apresentador cozinha com a pança peluda de fora e a toalha amarrada na cintura, é sinal definitivo de que o gênero se diversificou. Afinal, nada mais diverso da formalidade da antiga aula para donas-de-casa de Ofélia do que um marmanjo de ressaca rolando pelo chão antes de chegar ao fogão para o macarrão salvador. É exatamente o que acontece no Larica Total (Canal Brasil, sextas-feiras, 00h30), que aborda uma autodeclarada "cozinha de guerrilha" para a luta diária dos solteiros e fóbicos de panelas em geral. Prestes a estrear a segunda temporada como seu quase alter ego Paulo Oliveira, o ator Paulo Tiefenthaler explica que apesar de misturar ficção, improviso, humor e até autoajuda, a definição do programa é mesmo de culinária: "A gente faz comida que é para valer, para inspirar as pessoas que têm medo'.", diz. "O programa tem acertado em cheio essas pessoas que ficam repetindo o mantra 'não sei cozinhar'". Na primeira temporada, os pratos foram do básico arroz ao já célebre "frango totalflex", sempre levando em consideração habilidade, higiene e variedade de ingredientes bem mais próximos da realidade do que do ideal. Como ele mesmo aprendeu uma ou outra coisinha no programa, Paulo avisa que as receitas da nova temporada já estão um pouco mais elaboradas. Os guerrilheiros podem esperar salada caesar, pesto e uma carne assada que quase o fez "chorar de alegria". Mas o clima segue o mesmo: "As reuniões para definir os programas são feitas na minha casa, cozinhando, bebendo e enlouquecendo", explica Tiefenthaler, que elogia o trabalho dos colegas, mas confessa que o roteiro acaba sendo um guia para a materialização do apresentador figura. Tão parecido com ele, aliás, que faz desconfiar. "Ele é um personagem social meu que existe há muito tempo", admite. "Agora estou me sentindo bem mais vazio."

E embora a existência na madrugada de um canal fechado signifique, como o próprio apresentador admite, mais telespectadores no YouTube do que na TV, o Larica Total segue alguns dos segredos dos grandes ao agregar itens de entretenimento e focar em um público que conhece, já que essa adaptação é um dos principais motivos apontados para a longevidade do gênero na TV. Ana Maria Braga, ícone dos programas de culinária há mais de uma década, acredita que a resposta para o sucesso imortal dos programas de culinária reside na "agilidade das produções em se adaptar aos diferentes tipos de público". E para haver esse movimento é preciso também saber exatamente o que as pessoas querem - não confundir com o que dizem que querem. "Vamos adaptando o gosto à resposta do ibope. Qualquer tipo de ingrediente mais caro ou diferente vai mal. Comida diet e light pedem muito, mas não querem ver", entrega. Segundo ela, os telespectadores buscam coisas que acreditam poder fazer em casa, e que despertem vontade: "Eles adoram ver um chocolate babando, tem um componente de sonho também".

A adaptação é a palavra-chave na TV aberta, que não pode se dar ao luxo de segmentar o público. "A culinária é sempre um bom produto. No cabo americano, existe mais de um canal totalmente dedicado a esse segmento. É um bom mercado, mas sozinha ela pode ficar segmentada e na TV aberta isso é suicídio", explica Boninho, diretor do Mais Você, de Ana Maria Braga (Globo, de segunda a sexta, às 8h15), responsável por um incremento ainda maior das atrações de entretenimento do programa, que até reality show já abrigou. A apresentadora concorda com a impossibilidade de uma atração exclusiva para o assunto nas grandes redes. "Pelo menos no meu estilo de trabalho eu não vejo essa possibilidade, a culinária tem de vir permeada de outras coisas." No caso do Larica, essas outras coisas são o esbarrão na teledramaturgia e o carisma do protagonista/apresentador/chef. "O Larica tem um outro tom, o Paulo é mais um animador que cozinheiro, mas o programa cumpre de maneira divertida a sua proposta", aprova Boninho.