Quando a Arte Imita a Vida

Drama arquitetado para tocar as massas, Lula: O Filho do Brasil sonha com bilheteria histórica e é criticado por possível influência nas eleições de 2010

Por Cristiano Bastos Publicado em 11/01/2010, às 10h42

QUASE VERDADE: Ruy Ricardo interpreta Luiz Inácio em Lula, O Filho do Brasil: apesar de fiel a fatos históricos, filme faz concessões para garantir clima de leveza

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O antropólogo norte-americano Joseph Campbell, autor da obra O Herói de Mil Faces, a vida inteira empertigou- se em decifrar personagens identificados à mitologia universal, um fenômeno que batizou de "a jornada do herói"."Oculto por trás de um milhar de faces, emerge o herói por excelência, arquétipo de todos os mitos", ele escreveu a respeito, no livro publicado originalmente em 1949. As hipóteses norteadas por Campbell elucidam muitas das razões pelas quais a cinebiografia Lula, O Filho do Brasil, sobre a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vem causando rebuliço no terreiro da política nacional meses antes de entrar em cartaz. Indiferente de época ou local, conforme ensina Campbell, o enredo dessa jornada sempre é o mesmo: o herói parte de seu mundo, aventura-se em terras distantes, enfrenta inimigos e provações. Depois, regressa transcendido para casa, munido das informações que o levam a sublimar a existência ordinária.

Secularmente, a humanidade vem contando e recontando as mesmas histórias. Não à toa, O Herói de Mil Faces está à cabeceira dos cineastas George Lucas, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg. O livro também fez a cabeça de Fábio Barreto, diretor de Lula, O Filho do Brasil, que já planeja uma minissérie mais abrangente sobre o presidente-personagem: "Lula provocou uma revolução no Brasil, porque libertou o povo de seu complexo de inferioridade". É esse o aspecto mais importante, defende Barreto, e não o fato de ele ser "'o cara' do Obama, das Olimpíadas ou da Copa do Mundo".

Para o antropólogo Roberto Da Matta, O Filho do Brasil é uma tentativa de santificação que "ultrapassa os limites de bom-senso do liberalismo": "Por que Lula transformou-se num herói exclusivo? O PT é avesso ao rodízio de heróis. Só podem ser os deles." Na apreciação de Da Matta, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso igualmente cumpriu a trajetória do herói; todavia, o estadista teria sido severamente "demonizado" pelo Partido dos Trabalhadores. Ignoraram, segundo ele, a histórica estabilidade fiscal-monetária cimentada nos anos de governo FHC: "Uma forma de demonizar é esquecer", alude o antropólogo, que não tem dúvidas: a força do filme será imensa no pleito de 2010. "Achei a história superinteligente: Lula não chega à presidência. Essas coisas amedrontam-me. É assim que se constroem seres humanos intocáveis."

Carlos Gerbase, professor de cinema da PUC-RS, alega que a imagética popularidade de Lula (que subiu para 78,9%, de acordo com a última pesquisa CNT/ Sensus), a qual enseja o debate sobre a recém-lançada cinebiografi a, não deriva de sua obra política, tampouco dos erros ou acertos de sua administração. A explicação "semiótica", na visão dele, não é racional. "Inconsciente coletivo, irracionalidade e 'forças subterrâneas' são acionadas sempre que o ser humano vai tomar uma decisão, o que inclui escolher seu presidente. Lula é 'quase invencível' porque está prestes a cumprir uma jornada inteira como herói", Gerbase explica.

Sem focar-se exatamente na carreira partidária do presidente da República, Lula, O Filho do Brasil - filmado em dois estados (Pernambuco e São Paulo), sete cidades e 70 locações ao custo de R$ 16 milhões - viaja pelos itinerários da trajetória humana de Lula: o longa enquadra as profundas transformações pessoais sofridas pelo ex-metalúrgico, do ingrato sertão pernambucano, onde nasceu, à periferia de Santos, onde cresceu, aos tempos do sindicalismo no ABC paulista. Além disso, outras situações arquetípicas da vida do protagonista são retratadas, como o simbolismo do recebimento do diploma de torneiro mecânico no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), em 1961; a eleição para a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista, no final dos anos 70; o célebre discurso (sem sistema de som) em São Bernardo do Campo, quando os 80 mil operários reunidos no estádio da Vila Euclides repetiram em uníssono suas palavras, a fim de que todos ouvissem sua mensagem. Na trilha sonora, canções de Tim Maia e Roberto Carlos são o contraponto romântico ao chumbo militar e, além de tudo, ajudam a suavizar passagens traumáticas da biografia do presidente. Uma dessas passagens, contida no filme, é a morte de sua primeira mulher, Lurdes (interpretada por Cléo Pires), e do bebê que ela gestava.

Apesar do quorum oposicionista ainda não ter assistido à película, a possível influência que Lula terá sobre a sucessão presidencial de 2010 já divide a opinião de analistas políticos, oposição e governo. Posicionado ao centro dessa querela, o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE), conterrâneo do presidente, presume que o filme terá dois efeitos nas eleições: "Será neutro ou, quem sabe, até negativo para a candidatura de Dilma Rousseff . É mais provável que seja negativo. Mitificando Lula, o filme distancia a ministra do presidente", teoriza. Sem o carisma e sem a história de vida do estadista, demarca Jungmann, Dilma não se encontra "à altura de receber a transferência de devoção, isto é, de votos do 'mito' Lula". Opiniões não faltam - e os meios para propagá-las também não. A senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) declarou, por meio do Twitter, que o longa "confunde ficção com realidade": "Se no tempo de FHC ousassem fazer um filme sobre a sua história, o PT iria fazer passeatas na frente dos cinemas. A exibição de Lula, O Filho do Brasil, neste momento, pode ser legal, mas não é moral", escreveu. Demóstenes Torres, senador pelo DEM de Goiás, preferiu não comentar o teor da fita antes de assisti-la. Entrementes, sugeriu o senador, o filme poderia ser exibido após o término do governo Lula: "A Justiça deve atuar para coibir a antecipação de campanha".

A ideia para a produção do longa surgiu em 2007, quando a possibilidade de um terceiro mandato presidencial ainda se mantinha de pé. A centelha do projeto foi o livro Lula, O Filho do Brasil, da jornalista Denise Paraná - originalmente uma tese de doutorado que resultou no homônimo roteiro -, 100% financiado pela Fundação Perseu Abramo, instituição pertencente ao PT. Para David Fleischer, cientista político norte- americano e professor da Universidade de Brasília (UnB), caso o novo mandato fosse possível, Lula seria reeleito em 2010 impulsionado por seus 80% de popularidade. O filme, portanto, se tornaria dispensável "artífice" eleitoral: "O longa açoda mais ainda o culto à personalidade de Lula, entretanto não surtirá impacto sobre a candidatura de Dilma Roussef ", prevê.

Desde 2002, quando o volume Lula, O Filho do Brasil (resultado de mais de 100 horas de entrevistas que Denise realizou com Lula) foi publicado pela primeira vez, a obra ganhou três reedições patrocinadas pela editora Perseu Abramo. Recentemente, a editora Objetiva transpôs o estudo para uma versão light, sem academicismos e mais fidedigna ao roteiro de cinema. Nilmário Miranda, presidente da Fundação Perseu Abramo e ex-Secretário Especial de Direitos Humanos, elogia a "maturidade" do atual presidente ao rejeitar a opção do terceiro mandato, cuja manobra política implicaria em uma mudança drástica na Constituição. Portanto, como Lula não é candidato, o filme não serviria para somar votos: "Dilma nem é personagem do filme", realça Miranda. O presidente do PT, Ricardo Berzoini, acredita ser pouco provável que o eleitor associe política a um filme que sequer retrata a vida partidária de seu famoso protagonista. "Óbvio que é sobre a vida de um homem que os brasileiros conhecem bem, hoje com alto grau de popularidade", ele reconhece. Berzoini afirma que Lula não carece mais de aprovação ("é muito difícil ultrapassar 80% de popularidade") e que são "normais" as investidas da oposição contra a película. "Tudo vira motivo quando faltam argumentos", dispara o político, que, aos adversários, sugeriu que realizassem um filme sobre FHC.

No exame de João Francisco Meira, presidente do instituto de pesquisa Vox Populi, a premissa de que o filme irá influenciar o vindouro pleito, além de exagerada, é ingênua. Mesmo que atinja média de cinco milhões de espectadores, como ambicionam seus produtores, Meira destaca que o eleitorado brasileiro é composto por mais de 130 milhões de pessoas. No máximo, calcula, o fi me tocaria 2% ou 3% desse eleitorado. "Nem todos vão sair do cinema com sua posição política alterada: na prática isso não existe", diz, Na interpretação de José Ferreira da Silva, o "Ziza", irmão de Luiz Inácio (também apelidado de Frei Chico), sempre será dado caráter eleitoreiro a tudo o que Lula fizer: "Se ele erra, toma porrada. Se faz coisa boa, idem". Tal consciência, em seu julgamento, faz parte do processo cultural da classe política nacional: "Tudo é político", sintetiza Ziza, que é retratado no filme.

Glória Pires, cuja dramaticidade conferida ao papel da mãe de Lula garante momentos de excelência artística da produção, enxerga na "mensagem" do filme muito mais humanidade do que política. Na pele de Dona Lindu, a atriz acha que as especulações em torno de Lula criam "confusão". Em especial para famílias de retirantes, Glória interpreta o filme como uma "injeção de auto-estima". "A história comprova que é possível agir contra circunstâncias desfavoráveis", ela defende. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, produtor e pai do diretor Fábio, enxerga na aventura uma "obra de arte", cujo enredo estaria mais para a clássica história do pobre menino que alcança a majestade. "As pessoas interpretam. Lula não é candidato a nada. Sua história não quer dizer que o credencie como um ser onisciente e onipotente." Barretão ainda afirma que o filme vem sendo contestado até por certas alas do PT, por não tratar de política e, tampouco, da fundação do PT. "Estamos levando fogo dos dois lados", afirma.

Para Denise Paraná, que trabalhou como assessora de Lula em 1990, o impacto do filme sobre as eleições será nulo. Ela conta que a ideia para seu livro (cujo enfoque foi a personalidade de Luiz Inácio da Silva de 1945 a 1980) raiou quando escrevia sua tese de doutorado sobre outro tema. "Um dia, Lula botou água em um copo e, espantado, falou: 'É água mineral'. Respondi: 'Água da torneira é muito ruim'. Ele disse: 'É porque tu não sabe o que é tomar água do chão junto com o gado'." Denise então pediu a Lula que, se ele concordasse em ser entrevistado, ela abandonaria a tese na qual vinha trabalhando. "Só se você me ajudar a entender como eu nasci e surgi", ele respondeu. "Ao contrário do que a imprensa afirma, ele nunca pediu nada, seja para fazer a tese ou para realizar o filme", garante. Falando de Pernambuco, terra natal do presidente, o ator Ruy Ricardo, que encarou a missão de interpretar Lula nas telas, ainda fala, anda e gesticula como o personagem. "É uma história necessária", ele diz, rechaçando a suposta influência da obra no resultado das eleições presidenciais: "Se o filme tivesse sido lançado há dois anos, diriam a mesma coisa. Que opção temos? Não contar a história? É uma história mais brasileira do que política".

O pleito presidencial de 2010, provavelmente, não privará o cineasta Fábio Barreto de suas noites de sono. Por enquanto, o que pode ameaçar a tranqüilidade é a quantidade superlativa de negativas avaliações de Lula, O Filho do Brasil colhidas na imprensa. Desde a conturbada pré-estreia, que abriu o 42° Festival de Cinema de Brasília, as críticas choveram de todas as partes. Barreto, contudo, não se importa. "Não tenho muito que responder à crítica", diz. "É meu melhor filme, o mais maduro até agora. Em Recife, foi ovacionado de pé. Essa informação, porém, não saiu em lugar algum."

Na capital federal, o diretor mede - mesmo a despeito dos aplausos mornos recebidos pelo filme ao término da sessão -, a receptividade foi favorável: "Estou muito feliz porque, para o bem ou para o mal, o filme foi assunto. Não tenho medo da crítica, sou gato escaldado".

No entanto, para garantir leveza ao filme, Barreto fez concessões a alguns episódios controversos que constam na biografia do presidente: como o fato de, aos 29 anos, ele ter abandonado a então companheira Miriam Cordeiro quando ela completava seis meses de gravidez. A passagem, descrita no livro de Denise Paraná, foi cortada do filme. Outros fatos, por sua vez, foram amenizados. Um deles é aquele no qual Lula reage com frieza diante da morte de um gerente de fábrica que, tendo matado um operário, foi arremessado por grevistas do alto de um sobrado. Na dissertação original, Lula confessa que chegou a pensar que aquela seria uma "reação por justiça". Apesar da violência com que é apresentada no filme, a cena mostra Lula questionando aos brados o irmão Ziza: "Aquele desgraçado tava melhor do que nós? Precisava jogar ele lá de cima?"

A verossimilhança histórica de certas passagens, como aquelas que se desdobram no campo minado da ditadura militar, quando Lula liderava o movimento sindical, também não foram poupadas pela crítica. Barreto defende-se: "Discordo que o filme abrande esse capítulo da história. E, ainda assim, não é um filme sobre a ditadura. É a respeito de Lula e sua mãe, embora se fale dos milicos o tempo inteiro". Ainda na questão das "inverossimilhanças", há quem ache natural que o roteiro valha-se de ingredientes para chamar atenção do espectador. "A narrativa é uma coisa; o filme é outra", arrazoa Ziza. A história contada na película, na ótica da personagem que "esteve lá", é realista. Nem todas as passagens, porém, observa o irmão de Lula, são totalmente verazes. "Não se pode voltar ao passado. Mas nada foi inventado. Aliás, os arrochos que nossa família enfrentou foram muito piores." Mas a crítica não é a principal inimiga do filme. Para o diretor, os políticos "falam mais besteira ainda". "Tasso Jereissati, por exemplo, disse que o filme entrará em dois mil cinemas quando, na verdade, são 500 salas", Barreto contesta. O senador Álvaro Dias (PSDB/PR) também declarou que a produção gastou dinheiro público, porém, contesta o cineasta, o orçamento do filme não conta com tostão algum dessa fonte. "A grana vem de empresas privadas; elas põem seu dinheiro onde bem entenderem." O Barreto pai completa que, em 2003, sua empresa, a LC Barreto, começou a imaginar o filme ao adquirir direitos do livro Lula, O Filho do Brasil Foi ele, aliás, quem fez a primeira leitura do estudo de Denise Paraná.

A captação de recursos de Lula, O Filho do Brasil, que abriu mão de leis de incentivo de renúncia fiscal, ocorreu de pouco em pouco. Pelo menos 50% do dinheiro gasto na produção teria sido oriundo da economia do cinema. A Europa Filmes, maior investidora, entrou com R$ 2,5 milhões. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) - instituição na qual Lula formou-se torneiro mecânico em 1963 - engordou o orçamento com mais R$ 2 milhões. Prevendo o sucesso, a Rede Globo comprou os direitos de exibição na TV aberta; o Canal Brasil adquiriu os direitos para exibição no circuito fechado. Por conta das eleições, o filme só irá ganhar as telinhas a partir de 2011.

A engenharia financeira que alavancou o filme, assegura Barretão, não dependeu só de investidores "extracinema". Muitos investimentos vieram de linhas de financiamento contraídas pela LC Barreto. Nenhum banco, segundo o cineasta, pôs dinheiro no trabalho. "Nossos investidores são empresas que têm noção de marketing", diz. Rebatendo acusações de que - para os padrões nacionais - o orçamento do filme é perdulário, Barretão cita Hollywood. Ele lembra que Velocidade Máxima, por exemplo, captou US$ 60 milhões só em merchandising: "No Brasil, isso vira crime!", ele protesta, afirmando que, no país, ocorre um natural deslocamento de verbas publicitárias que migram indiretamente para o "mercado dramatúrgico": "São mais de R$ 7 bilhões que estão sendo aplicados na TV e no cinema!"

Até agora, o orçamento de O Filho do Brasil é o maior que um filme brasileiro conseguiu reunir em todos os tempos. Desde a realização do roteiro, filmagem e finalização, custou R$ 12 milhões; os demais R$ 4 milhões custearão as etapas do lançamento comercial. A produtora-executiva Paula Barreto relaciona os altos custos à utilização de mais de 120 atores e à contextualização das diferentes épocas retratadas. "As cenas de multidões, no estádio e na igreja, e a da inundação, na qual pusemos uma favela dentro de um lago regado à chuva artificial, foram muito onerosas", ela cita. Paula recorda ainda que uma cena de desabamento - que, em um só dia, consumiu R$ 100 mil - acabou ficando de fora da versão final porque os produtores julgaram- na "surreal demais" - apesar da veracidade dos fatos. Dos R$ 12 milhões iniciais, R$ 3 milhões ficaram na pós-finalização do filme (imagens, trilha, edição sonora); o restante dos R$ 9 milhões foi dividido entre desenvolvimento de roteiro, preparação e filmagem. O dinheiro, ainda assim, faltou. "Estamos saldando dívidas de produção", explica a produtora, que acredita que as obrigações acumuladas serão pagas com o retorno financeiro do longa a partir de 1º de janeiro, data marcada para a estreia em circuito comercial. "Até agora, e apesar de todas as polêmicas", ela confessa, rindo, "Lula, O Filho do Brasil está no devedor."