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A Rainha e os Velhos Tempos

Dias após completar 51 anos, Madonna reflete sobre três décadas de provocações, escândalos e sucessos

Por Austin Scaggs Publicado em 11/01/2010, às 10h40 - Atualizado em 27/03/2012, às 10h38

Madonna em 1984, um ano após ter lançado seu primeiro disco

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Na frente da casa de Madonna, em Londres, há uma placa dizendo que uma pessoa famosa talvez tenha pensado em morar ali um dia. Hoje, essa pessoa está em um intervalo da turnê Sticky & Sweet, e a casa está agitada de tanto movimento. No porão, editores montam dois novos videoclipes. Em um hall de paredes azuis - com uma pintura feita por um mestre antigo que retrata o Carnaval de Veneza -, outros funcionários andam de um lado para o outro: um assistente, um pedreiro, uma empregada e a personal trainer de Madonna, que está irritada com uma foto de tabloide nada lisonjeira que mostra os tendões em evidência nos braços da estrela. "Recebo centenas de e-mails de gente do mundo inteiro que quer ter esse corpo", ele reclama. Mas, no mundo de Madonna, depois de 27 anos de escândalos e provocações, uma foto ruim não chega a ser realmente uma preocupação. Ao longo das últimas três décadas, ela vendeu mais de 200 milhões de discos (mais do que qualquer outra artista mulher, de longe); a turnê Sticky & Sweet é oficialmente a que mais rendeu lucros brutos para qualquer artista solo, com arrecadação de US$ 408 milhões. Apenas alguns dias antes da nossa primeira entrevista, 80 mil fãs em Varsóvia (Polônia) cantaram "Parabéns a você" para ela. Madonna, que completou 51 anos, segurou as lágrimas e disse ao público: "Eu adoro o meu trabalho. Este é o melhor presente de aniversário que já ganhei".

CONFIRA AQUI as perguntas e respostas que ficaram de fora da edição impressa da Rolling Stone Brasil.

Durante duas longas entrevistas, que continuaram dentro de uma suíte de hotel em Budapeste (Hungria), Madonna - uma artista que quase nunca olha para trás - escavou fundo seu legado musical. Criada em Detroit, ela viu seu mundo se sacudir aos 6 anos, quando a mãe morreu. Sempre extrovertida, se apresentou pela primeira vez em um show de talentos no ginásio, com o corpo todo pintado. Ela desafi ou o pai severo quando largou o curso de dança na Universidade de Michigan e se mudou para Nova York em 1978, onde passou a ganhar a vida como modelo viva ao mesmo tempo que se apresentava em clubes como o CBGB. O álbum de estreia, Madonna (1983), trazia os sucessos "Holiday" e "Lucky Star", e ela foi catapultada para a fama um ano depois, com a força de Like a Virgin - e de sua apresentação explosiva no Video Music Awards da MTV.

VEJA as capas de Madonna para a Rolling Stone.

Um quarto de século mais tarde, Madonna continua a se reinventar. Ela acaba de lançar Celebration, um pacote de dois CDs com seus sucessos, com 36 singles e duas músicas novas, incluindo "Revolver", colaboração com Lil Wayne. Abre com "Hung Up", hit de 2005. "Porque é uma música foda", Madonna explica - mas também porque foi o maior sucesso mundial que ela já teve, chegando ao topo das paradas em 45 países.

Quando ela surge nesta manhã, o rosto está corado de fazer ginástica e ela veste um top preto com estampa de coração e uma correntinha de cabala no pulso esquerdo. Ela não está usando maquiagem e sua voz só tem um vestígio fraco do sotaque britânico que ela adotou no decorrer da última década. Desde que se divorciou do diretor Guy Ritchie, ela voltou para Nova York, onde comprou uma casa enorme no Upper East Side. Há 20 anos, ela parecia incapaz de segurar a língua para falar sobre os, digamos, detalhes íntimos de seu casamento malfadado com Sean Penn. Mas agora ela é um pouco mais cautelosa para esclarecer os parâmetros exatos das minhas perguntas e para calibrar suas respostas - ela atribui o cuidado, em parte, à cabala. "Não acho que eu tenha sido cruel, mesquinha nem desalmada no passado, mas naquele tempo eu era capaz de fazer fofoca ou de falar mal dos outros, ou de dizer coisas sem pensar nas consequências", ela diz. "[A cabala] transformou a minha maneira de encarar a vida, de modo que eu naturalmente vou mudar a maneira como penso sobre a vida: não pensar como vítima, assumir responsabilidade pelas minhas ações e pelas minhas palavras."

RELEMBRE o texto "O EVANGELHO DE MADONNA", capa da Rolling Stone Brasil em novembro de 2008.

Você foi criada em Pontiac, nos arredores de Detroit. Suas primeiras influências musicais vieram de festas no bairro em que você morava, que tinha muitos negros. O que você lembra dessa época?

A Motown estava em todo lugar. Stevie Wonder, Diana Ross e Jackson 5, cresci ouvindo isso. Mas, quando eu estava na escola, nos mudamos para um subúrbio de classe média branca. Não tinha mais festa na casa das pessoas, não tinha mais música tocando alto no vizinho. Eu me senti isolada, e foi aí que criei meu próprio mundo. Foi aí que resolvi ser dançarina profissional. Fiquei mais introvertida

e saía escondida de casa para ir a shows. Naquele ponto, eu já sabia que a música tinha poder, mas não era capaz de articular isso para ninguém.

Quais foram os primeiros shows que você viu?

O meu primeiro show foi David Bowie, quando eu tinha 15 anos. Tinha mímicos no palco. Foi demais. Eu gostaria de ter visto ele como Ziggy Stardust. Meu segundo show foi Elton John, e o terceiro foi Bob Marley. Nada mal, hein?

Não mesmo. Você bebia nos shows?

Quando eu ainda estava na escola? De jeito nenhum. Eu era a maior nerd. Para falar a verdade, só fui beber depois que me divorciei pela primeira vez [de Sean Penn], quando eu tinha 30 anos.

É interessante você citar Bowie como influência.

É que todo mundo acha que eu nasci dentro de uma discoteca. Os meus irmãos mais velhos ficavam no porão escutando The Who, Rolling Stones e Bob Dylan, "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin, "Baba O'Riley", do The Who.

RELEMBRE AS FOTOS dos shows da turnê Sticky & Sweet em São Paulo.

Você cantou "Baba O'Riley" em um show de talentos da 7ª série.

Pedi para as minhas amigas pintarem corações e flores fluorescentes no meu corpo. Coloquei um shortinho e uma blusinha que deixava a barriga de fora, e simplesmente enlouqueci. Usei uma luz estroboscópica e uma luz negra. Tenho certeza de que todo mundo achou que eu era maluca. Foi a primeira vez que subi em um palco. Acho que foi o início das minhas performances provocadoras. Simplesmente fui lá e fiz. Depois, nenhuma menina queria falar comigo, e os meninos começaram a olhar esquisito para mim.

Você ainda se acha nerd?

Quando eu era criança, não me achava cool, não me encaixava em nenhuma turma. Mas "nerd" não é uma palavra que qualquer pessoa use para me descrever, tirando talvez Stuart Price [produtor de Confessions on a Dance Floor], que uma vez disse: "Sabe, no fundo você é uma nerd, e ninguém sabe disso". Eu tomei como elogio. Eu sou bobona, CDF, nerd e nada cool.

Você se mudou para Nova York depois de largar os estudos na Universidade de Michigan para dançar. Como passou de dançarina para cantora?

Foi só uma questão de circunstância. Como eu era dançarina, comecei ir a audições de musicais, e isso me forçou a cantar. A maioria das pessoas que participavam das audições era muito mais profissional do que eu - levavam partituras que davam para os pianistas, mas eu simplesmente ia lá e cantava alguma coisa que conhecia do rádio, como uma canção de Aretha Franklin ou alguma outra coisa ridícula e vergonhosa.

Em 1979, você estava morando no Queens com Dan e Ed Gilroy, que tinham uma banda chamada Breakfast Club, na qual você tocou. Foi nessa época que você escreveu sua primeira música.

Ela se chamava "Tell the Truth". Devia ter uns quatro acordes, mas tinha versos, ponte e refrão, e foi uma experiência religiosa. Eu tinha resolvido que, se ia ser cantora, teria que conquistar a posição. Precisava aprender a tocar um instrumento. Nós morávamos em uma sinagoga abandonada no Queens e, em troca de aulas de música, eu posava para Dan, que era pintor. Eu era a musa dele, e ele me ensinou a tocar uns acordes de guitarra. Quando eles estavam fora, trabalhando, eu tocava bateria. Aprendi escutando discos de Elvis Costello. Daí, um dia, compus uma música e as palavras simplesmente saíram. Fiquei, tipo: "Quem está escrevendo isto?" Quando o baterista deles desistiu, eu fiquei com o lugar e, uma noite no CBGB, eu implorei para eles me deixarem cantar uma música e tocar guitarra. Aquela posição na frente do microfone parecia cada vez mais convidativa.

Em 1982, você foi contratada pela Sire Records com base na força de músicas como "Everybody", que se transformou em seu primeiro single. Como foi a primeira vez que você se ouviu no rádio?

Eu morava em Upper West Side, na rua 99 com a Riverside. Eram umas sete da noite e o rádio estava ligando no meu quarto, e eu ouvi "Everybody". Eu disse: "Ai, meu Deus, sou eu saindo daquela caixa". Foi uma sensação maravilhosa.

Você ligou para o seu pai?

Não acho que tenha ligado para o meu pai. Acho que ele não teria se impressionado muito.

Como você comemorou?

Na época, eu andava com muitos grafiteiros, Futura 2000, Keith Haring e Jean-Michel Basquiat. Jean- Michel me apresentou a Andy Warhol. Eu me lembro de estarmos em um restaurante japonês e Jean-Michel me disse que estava com inveja de mim por eu estar no rádio. Porque ele achava que a minha forma de arte era mais acessível, e que mais pessoas seriam expostas a ela. Andy disse a ele para parar de reclamar.

Haring, que morreu em 1990, e Basquiat, que morreu em 1988, foram os artistas que definiram a geração deles. Como vocês se conheceram?

Eu fui apresentada a Keith por uma pessoa que morava comigo, mas eu já tinha visto o trabalho dele na rua, no metrô e em prédios. Daí começamos a freqüentar juntos o Danceteria, o Mudd Club e o Roxy [casas noturnas lendárias de Nova York]. O pessoal da Rock Steady estava sempre por lá. A gente dançava, assistia as equipes de break dançando lá e na rua.

Você fazia grafite?

Muros, trens de metrô, calçadas...

Qual era a sua assinatura?

Boy Toy.

Fala sério! Quem inventou?

Talvez tenha sido o Futura. Ele é inteligente. Ele pintou todo o meu quarto e o dono do apartamento não ficou nada feliz. Nós tínhamos um grupinho - [a atriz] Debi Mazar fazia parte dele. Nós nos autodenominávamos Webo Girls - tipo huevos, garotas com culhões.

Você tem quadros de Warhol, Haring e Basquiat?

Tenho algumas obras de cada um deles. Keith e Andy fizeram quatro quadros para mim quando eu me casei com Sean. São fotos minhas na capa do The New York Post,, quando aquelas minhas fotos pelada saíram na Playboy e na Penthouse. A manchete diz: "Não tenho vergonha". Então eles pegaram capas do jornal e pintaram por cima. Estão na minha casa em Los Angeles - é um momento de divisão de águas. Também tenho uma jaqueta de couro que Keith Haring pintou, e da qual eu nunca vou me desfazer.

Desde o início, a transformação da sua imagem tem sido uma constante. Entre os dois primeiros álbuns, você passou por uma grande reinvenção, de punk morena e frequentadora de casas noturnas a loira de vestido de noiva. De onde isso saiu?

Não sei. Acho que as músicas que eu comecei a compor tinham um caráter mais sedutor, e eu inconscientemente me transformei naquilo. Também teve a ver com o fato de eu estar fazendo mais ensaios fotográficos. As pessoas me produziam e me vestiam. Antes disso, eu fazia tudo sozinha. Não tinha maquiador, eu pegava minhas meias-calças de dança e amarrava na cabeça e colocava uns terços no pescoço. Depois disso, era [o fotógrafo] Steven Meisel e gente da moda me enfiando em corseletes. Acho que as pessoas deram ênfase demais à coisa toda da reinvenção da minha imagem, e isso sempre foi muito menos calculado do que todo mundo pensa. É simplesmente evolução e as coisas pelas quais eu me interesso, os livros que eu leio ou os filmes ou as roupas que eu vejo. Pode me chamar de "Zelig". Não era nesse filme de Woody Allen que ele assumia a personalidade de qualquer pessoa com quem ele conversasse? Acho um tédio ficar sempre igual. Nós, garotas, gostamos de mudar de visual.

Quando você entrou para o Rock & Roll Hall of Fame, fizeram um vídeo da sua carreira. Quando você subiu no palco, fez uma piada sobre "meus cortes de cabelo horríveis". Qual é o estilo de que você menos gosta quando olha para trás?

Acho que é o momento da combinação de batom roxo com suéter verde limão fluorescente. E tantos penteados. Tudo bem, era a década de 80. Foi a era do cabelo ruim, vamos encarar.

Mas tem algum momento em que você olha e pensa: "Caralho, como eu era gostosa"?

Até parece que vou confessar uma coisa dessas! E depois serei aniquilada pelos próximos dez anos por isto? Não vou responder.

Tem uma história famosa de um show seu no Radio City Music Hall em 1985, em que a platéia inteira era de clones de Madonna. Isso existiu desde o início?

Aquela turnê foi uma loucura, porque passei de tocar em bares para ginásios. Eu me apresentei num teatrinho em Seattle, e as meninas usavam sainha com meia-calça cortada embaixo do joelho, luvas de renda, terços, laços no cabelo e brincos de argola grandes. Depois desse, todos os shows foram transferidos para arenas. Eu nunca fiz turnê de ônibus. Dizem que é divertido.

Você não escreveu "Material Girl" nem "Like a Virgin". Quais foram as suas primeiras impressões ao ouvir essas músicas?

Eu gostei das duas, porque eram irônicas e provocadoras ao mesmo tempo, mas também não tinham nada a ver comigo. Eu não sou uma pessoa materialista, e certamente não era virgem, e, aliás, como é que alguém pode ser como uma virgem? Eu gostei do jogo de palavras, achei esperto. É tão nerd, é bacana.

Você não é materialista?

Eu acho que tenho sorte por poder comprar um quadro de Frida Kahlo e de poder morar em uma casa bacana, mas sei que sou capaz de viver sem isso. Eu sou criativa, e, se for parar em uma cabana de madeira no meio da floresta, também vai servir. Essas coisas não são obrigatórias para a minha felicidade. Foi isso que eu quis dizer quando falei que "não sou uma pessoa materialista".

Você sentiu que essas músicas seriam sucessos?

Não. Elas simplesmente fizeram sentido para mim. Nunca fui boa para avaliar se as coisas vão fazer sucesso ou não. As músicas que considero as mais retardadas que já fiz, como "Cherish" e "Sorry", que foi um grande sucesso do meu último disco, acabam sendo os hits. "Into the Groove" é outra que eu me sinto uma retardada quando canto, mas parece que todo mundo gosta.

Como você reage a críticas? Quando suas fotos nua apareceram em revistas você se rebelou.

Aquela foi a primeira vez que eu tive consciência de estar dizendo "vão se foder" com a minha atitude. Você está tentando me colocar para baixo por causa disso? Não vou permitir que a opinião pública dite o que eu sinto a respeito de mim mesma. Não vou pedir desculpa por nada que eu tenha feito.

Seu ex-empresário, Freddy DeMann, achou que a sua carreira tinha acabado depois da performance de "Like a Virgin" no Video Music Awards de 1984. Você ficou preocupada?

Ele ficou branco feito um fantasma. Ficou muito decepcionado comigo, porque eu estava rolando no chão, o meu vestido subiu e deu para ver a minha calcinha. Onde eu estava com a cabeça? "Fiquei sem sapato, não sei como pegar de volta e calçar, e vou me jogar no chão." Foi um monte de coisas. Foi assustador e divertido, e eu não sabia o que aquilo signifi aria para o meu futuro. Milhões de coisas se passaram pela minha cabeça.

Não só as suas performances eram provocadoras. Você não escreveu "Papa Don't Preach", mas é impossível imaginar outra pessoa a cantando. Por que essa música chamou a sua atenção?

Simplesmente encaixou com minha atitude de fazer frente a autoridades masculinas, seja o papa, ou a Igreja, ou meu pai e o jeito conservador e patriarcal dele.

Você já teve alguma ideia que não se efetivou por parecer radical demais?

Fiz um ensaio fotográfico com Steven Klein para a capa do meu último álbum, e pintei o rosto todo de preto, deixando só os lábios vermelhos e o ranço dos olhos. Era um jogo de palavras. Você já ouviu falar da "Madona Negra"? Tem várias camadas de significado e, por um minuto, achei que seria um título legal para meu álbum. Mas daí pensei: "25% do mundo talvez entenda, provavelmente menos. Não vale a pena". Coisas assim acontecem o tempo todo, porque minhas referências com frequência estão na escala Richter. É por isso que tenho gente como Guy [Oseary, empresário] na minha vida, que me olham e falam: "Não, você não vai fazer isto".

Muitos fãs consideram "Live to Tell" a sua canção definitiva. Você se lembra de quando a escreveu?

Às vezes, quando estou escrevendo, só estou canalizando. Poderia dizer que "Live to Tell" fala sobre a minha infância, o relacionamento com os meus pais, com minha madrasta. Mas talvez não. Pode ser sobre alguma coisa em um romance de F. Scott Fitzgerald ou sobre uma história que ouvi. É verdade, mas não necessariamente autobiográfico. Posso dizer o mesmo sobre "La Isla Bonita". Não sei de onde saiu aquilo.

Então você nunca "sonhou com San Pedro"?

Eu nem sei onde fica San Pedro. Àquela altura, eu não era uma pessoa que passava férias em ilhas lindíssimas. Talvez eu estivesse a caminho do estúdio e vi uma saída na estrada para San Pedro.

Como você escreveu "Vogue"?

Escrevi enquanto estava fazendo o filme ,i>Dick Tracy [1990]. Depois de terminarmos as filmagens, [o então namorado] Warren Beatty perguntou se eu podia escrever uma música que se encaixasse no ponto de vista da minha personagem. Ela era obcecada por bares ilegais onde se vendia bebida durante a lei seca e coisas assim. A ideia da letra chegou por meio desse pedido. Por coincidência, eu estava indo à Sound Factory para conferir uns dançarinos que estavam fazendo um estilo novo de dança chamado "vogueing". E Shep Pettibone, que coproduziu "Vogue" comigo, costumava dar som lá. Foi assim que as duas coisas se juntaram.

Qual foi o maior desafio da sua carreira?

Trabalhar em Evita [musical de 1996]. A sensibilidade para cantar é diferente. Tive que trabalhar a sério com um professor de canto para cantar com força e convicção. Muita coisa foi gravada ao vivo, e fiquei no estúdio com produtores e compositores desconhecidos, uma orquestra enorme e um papel enorme para preencher. A primeira música que quiseram que eu gravasse foi "Don't Cry for Me Argentina", que é a mais difícil. Acho que quase chorei. Me senti intimidada. Na metade da gravação, comecei a relaxar.

A maioria dos seus discos conta com produtores que não estão em evidência, como William Orbit [Ray of Light, 1998], Mirwais [Music, 2000] e Stuart Price [Confessions on a Dance Floor, 2005].Mas, para Hard Candy (2008), você preferiu criadores de sucessos comprovados como Timbaland e Justin Timberlake. Por quê?

Sempre penso: "Quem está fazendo música de que eu gosto agora?" Gosto mesmo, de verdade, da música de Timbaland e de Justin. Justin é um compositor brilhante. Quer dizer, "What Goes Around... Comes Around"? Brilhante. Achei que seria desafiador trabalhar com ele.

Alguém já recusou a trabalhar com você?

Claro. Ou é "eu não tenho tempo". Eu quis trabalhar com Eminem. Acho que ele não quis trabalhar comigo [sorri]. Talvez ele seja tímido.

Em 1996, você teve sua primeira fi lha, Lourdes. De lá para cá, a sua família cresceu com Rocco, que você teve com Guy Ritchie, e David e Mercy, adotados de orfanatos no Malawi. Os seus filhos têm as músicas preferidas de Madonna deles?

Com certeza. Lourdes gosta de todas as minhas músicas antigas. Ela realmente se liga nos anos 80, desde a maneira que se veste até as músicas que escuta. Rocco gosta de qualquer coisa que eu tenha feito com Timbaland. Basicamente, ele é um garoto do hip-hop e da eletrônica. A música preferida de David é "Ha Isla", é assim que ele fala. Ele é o meu maior fã. Todo mundo diz que, quando ele assiste ao show, fica paralisado do início ao fim, observa tudo, sabe cada passo de dança [sorri]. Ele não é resistente igual aos meus outros filhos.

Você e Lourdes foram a um show de Lady Gaga em Nova York. Vocês vão a muitos shows juntas?

Acabamos de começar a ir. Nós gostamos do mesmo tipo de música. Acho Lady Gaga ótima. Quando nós a vimos, eu na verdade senti um tipo de reconhecimento. Pensei: "Ela tem alguma coisa". Tem algo peculiar nela. Ela é destemida e engraçada, e quando falou com o público pareceu inteligente e esperta. Ela é única.

Você sente a ambição de outros artistas?

Sim. Há gente como Justin Timberlake, que é muito bonito e relaxado. Eu o adoro, adoro trabalhar com ele, mas não me reconheço nele. Mas consigo me enxergar em Lady Gaga. No início da minha carreira, com certeza. Quando a vi, ela não tinha dinheiro para a produção, então tinha furos na meia-calça arrastão e um monte de erros. É meio que uma bagunça, mas dá para ver que ela tem um quê a mais. É legal ver isso em estado bruto.

Você diz que admira o Sting. Sobre o que falam?

Eu consideraria Sting meu amigo, mas sou mais amiga da mulher dele, Trudie. Ele é um músico incrível, que toca 50 instrumentos, e sempre me sinto meio intimidada por ele. Sempre acho que ele se considera superior a mim. Não exatamente superior, mas sou apenas uma estrela pop. Ele é músico de verdade. Não falamos muito de música quando estamos juntos. Ele geralmente fica sentado em um canto, jogando xadrez ou tocando algum instrumento de 16 cordas de que nem sei o nome.

Em 2008, você e Guy Ritchie se divorciaram...

[Interrompe] Não precisa baixar a voz para dizer isso. Não é palavrão. Mas achei que nós estávamos falando de música. Se você conseguir conectar a ideia do divórcio à música, eu falo sobre o assunto.

Então vamos falar sobre a letra de "Devil Wouldn't Recognize You", de Hard Candy: "I should just walk away / Over and over, I keep on coming back for more" (eu devia simplesmente cair fora / uma vez depois da outra, eu sempre volto para mais).

O que se pode dizer? Foi um ano difícil. Acho que o trabalho me salvou, e me sinto muito grata por ter tido trabalho para fazer. Eu poderia ter me jogado de um prédio A vida é uma adaptação. Meus fi lhos não estão comigo agora, estão com o pai, e eu não fico muito à vontade com a ideia de que os meus filhos não moram juntos. Existem prós e contras, mas me sinto bem agora.

O que você mais gosta do fato de ter filhos de três países diferentes?

Quanto mais diversificado é o mundo em que você vive, mais aberta você fica. Meus dois filhos mais novos são da África, e isso me abriu os olhos e me deu uma perspectiva nova sobre o mundo. Minha casa parece um anúncio da Benetton. Tenho babás francesas, meus seguranças são israelenses, tenho assistentes da Argentina e de Porto Rico, além de um assistente e chef japonês e outro chef da Itália. É maravilhoso, eu adoro. Não poderia ser de outra maneira. A minha vida é uma cacofonia de línguas e músicas diferentes.

Eu fui ao show ontem e me surpreendi de ver que nenhuma música tinha o arranjo original.

Até as músicas novas precisam ser revisitadas, senão, após uns meses, eu enjoo. Quando você as reinventa, tem que passar dias com o diretor musical e a banda. Inevitavelmente, acaba sampleando alguém, e precisa obter permissão, e pagar mais caro. Já me disseram: "Você poderia só ir lá, tocar guitarra e cantar suas músicas, como Paul McCartney", mas eu fi caria entediada. A grande alegria de um show é a magia de criá-lo. Sou perfeccionista.Gosto de me empenhar. Gosto de suar.

Você cantou "Into the Groove" pulando corda.

Eu sempre preciso fazer alguma coisa impossível de verdade durante os shows, e esse é meu momento realmente impossível. É muito difícil cantar e dançar ao mesmo tempo, é por isso que a maior parte das pessoas que dança não canta, ou pelo menos não muito bem.

No documentário I'm Going to Tell You a Secret, você aparece toda coberta de gelo, igual a um jogador de basquete, depois dos shows.

Eu chego em casa e passo dez minutos em uma banheira com gelo. Dói muito quando você entra, mas depois a sensação é boa. Eu sou atleta. Minhas canelas são enfaixadas antes dos shows, e eu recebo tratamentos e tenho fisioterapeutas. É por causa de anos e anos de exageros, de dançar de salto alto, que não faz muito bem para os joelhos. Todos os dançarinos têm lesões, mas nós simplesmente encaramos. Fazemos acupuntura e tratamentos e simplesmente seguimos em frente.

Quando olha o público, no que você repara?

Às vezes é só um olhar de entusiasmo puro. Eu estava em Munique [Alemanha] uma noite dessas e tinha um pai na primeira fila com a filha em cima dos olhos, e ele estava completamente arrebatado, sorrindo de orelha a orelha. Ou dois caras sem camisa, cobertos com tatuagens de mim. São essas coisas que eu vejo.

Quando os fãs de Varsóvia cantaram "Parabéns a Você", você ficou comovida.

Quando o público começa a chorar, o efeito é contagiante. Chorar é complicado porque, quando você chora, não canta bem, porque aperta a garganta. No decorrer dessa turnê, muitas coisas emocionantes aconteceram. Obama foi eleito logo antes de entrarmos no palco. Estávamos rezando antes do show, e lágrimas escorriam e eu disse: "Parece que estou sonhando". Agora mesmo estou com vontade de chorar por causa disso.

Você já declarou à Rolling Stone: "Há momentos em que eu achei que, se soubesse que [a fama] seria assim, eu não teria me esforçado tanto. Se em algum momento ficar demais, ou se eu sentir que estou sendo esmiuçada demais, não vou mais fazer". O que você pensa sobre a fama hoje em dia?

Vale a pena se você entender que é um meio para um fim. Meu trabalho me permitiu fazer coisas que não têm nada a ver com música. Saber que as minhas experiências na África transformaram a vida das pessoas para melhor, ver a vida delas mudar na frente dos meus olhos...Como posso não me sentir positiva com isso? Não sou sempre positiva, garanto. Ontem, acordei com o pé esquerdo. Ainda bem que a entrevista foi hoje.

Mal-humorada?

Super mal-humorada. Quando durmo pouco, não fico divertida. Mas todos os dias tiro um momento para prestar atenção, ter noção de consciência a respeito de como minhas palavras e ações afetam as pessoas. Faço isso quando acordo e quando vou para a cama. "O que vou fazer com o meu dia? O que eu fiz do meu dia?"

Você se sente satisfeita a maior parte do tempo?

Às vezes sim. Outras vezes não, de jeito nenhum, e fico pensando que não faço nada além de criar confusão e causar caos. Mas sou um ser humano. Simplesmente preciso cometer erros e me perdoar logo em seguida.