Metamorfose Pessoal

Norah Jones acentua as guitarras em The Fall, e deixa claro que não quer se prender ao jazz

Por Bruna Veloso Publicado em 11/01/2010, às 09h49

No disco novo, Norah declara sua afinidade com um cão

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Norah Jones mudou. Ela cortou radicalmente as madeixas, trocou de banda e há quase dois anos não namora mais Lee Alexander, com quem dividia não apenas os lençóis, mas diversas composições. The Fall, seu quarto disco de estúdio, reflete a "nova" Norah. Aqui, ela resolveu experimentar - a começar pela produção. "Eu estava tentando achar alguém para me ajudar a fazer o álbum. Já tinha as músicas, mas queria um som diferente. Ouvindo um dos meus discos preferidos do Tom Waits, o Mule Variations, resolvi ir atrás do [produtor] Jacquire King", explica a cantora. King serviu perfeitamente ao propósito de Norah: acentuar as guitarras e diminuir as participações ao piano, tão presente em seus trabalhos anteriores.

A cantora diz que "tem tocado mais guitarra, porque é divertido e tem sido natural". Além disso, ela sempre preferiu compor ao violão. Se o alarde feito em cima da "troca" das teclas pelo dedilhado nas seis cordas

causou certa apreensão nos fãs mais xiitas, Norah, antes do lançamento do disco, parecia não se importar. "Sempre haverá alguém para não gostar do que você faz ou não gostar que você mude. Não sei, mas espero que gostem", pondera a cantora, que, ao telefone, emite uma voz mais forte, resoluta, diferente da suave melodia ecoada em suas músicas.

É possível sentir a mudança de ares em boa parte de The Fall. A maioria das faixas começa com acordes de violão ou guitarra, mas a leveza dos vocais e das canções continua intacta. Piano, teclados e órgão não deixam de aparecer, com mais destaque em "You've Ruined Me", "Back to Manhattan" e "The Man of the Hour". Esta última, uma declaração de amor - para um cachorro. "Por que não? Comprei um cachorro no ano passado, mas escrevi a música antes disso", revela Jones, desta vez na defensiva: a impressão é que algumas das canções, escritas há cerca de um ano e meio, foram diretamente influenciadas pelo fim (amigável) do relacionamento com Alexander, que atuava como baixista em sua banda.

Depois de três trabalhos ocupando o posto de diva do jazz-pop, o título de uma das mulheres que mais venderam discos nesta década (calculam-se 36 milhões) e um álbum de estreia vencedor de oito prêmios no Grammy (Come Away with Me, lançado em 2002), Norah pode mesmo se dar ao luxo de arriscar. A nova-iorquina se diz "sempre aberta a novas experiências musicais, e é em aventuras fora de seu som característico que ela foge da pressão do mercado. "Estou bem feliz com a minha vida agora. É diferente trabalhar com essa pressão, mas tenho outros grupos, tocando em clubes pequenos, sobre os quais as pessoas não têm expectativas." Um desses projetos, pouco conhecido por aqui, é o El Madmo. No trio independente, que teve o primeiro disco lançado em 2008, Norah aparece irreconhecível. Ela assume o pseudônimo Maddie, usa uma peruca loira e entoa - às vezes grita - versos fora do seu lugar - comum como "Eu vejo ele na aula/ Olho para sua bunda/ Ele fuma uma boa maconha/ Vou tricotar um suéter para ele/ Ele é o Carlo".

Desde o início de sua carreira, Norah seguiu o caminho inverso: em vez de sair do indie para se consagrar no mainstream, a cantora foi, de cara, arremessada ao olimpo dos artistas multiplatinados em vendas. Na verdade, a relação com o mundo dos "peixes grandes" da música vem do berço. Seu pai, o citarista Ravi Shankar, tornou-se conhecido por ter sido amigo dos Beatles, e influenciado a fase psicodélica da banda. Com ele, Norah só conversa sobre música às vezes. "Nós fazemos tipos de música muito, muito diferentes. Acho que ele aceita o que eu faço e eu aceito o que ele faz". Fã declarada de Elis Regina e Jorge Ben Jor, a cantora quer vir ao Brasil no ano que vem. Sua nova turnê mundial - na qual ela empunha, como não podia deixar de ser, uma guitarra no palco - deve começar no próximo mês de março.