Dias Nada Tranquilos

Com um novo trabalho lançado antes no exterior, Otto volta tentando se livrar de mágoas passadas

Por José Julio do Espirito Santo Publicado em 11/01/2010, às 09h56

Otto prefere transformar as perdas recentes em música
JOÃO WAINER

"É uma vitória", Otto desabafa. Já é noite, mas o cantor e compositor mais farrista que já conheci está totalmente sóbrio. Sentado em uma poltrona de um auditório vazio, lembra pouco quem se deixa levar em devaneios a cada minuto. Aos 41 anos - e há quatro sem um novo álbum -, Otto parece não querer perder mais tempo. "Quase que eu não chegava [até aqui] porque eu parei de trabalhar", ele lamenta. Essa parada, entre outros perrengues, atrasou o lançamento de seu novo trabalho, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos. Como Gregor Samsa, protagonista da novela de Franz Kafka de onde o título surgiu, a vida de Otto sofreu uma metamorfose que ele espera ter tido fim. Ela começou com o lançamento de Sem Gravidade, primeiro álbum do artista a não cair na graça unânime da crítica. "Parece que era uma

raiva porque eu estava namorando uma atriz - minha mulher, que não tinha nada a ver com isso, sabe?", Otto fala sobre Alessandra Negrini, com quem foi casado durante sete anos. "Lá fora eu tenho uma carreira maravilhosa. Agora, mais ainda - mais robusta."

Mesmo sem o apoio de uma gravadora e com poucos shows pelo caminho, Otto contou com a valiosa ajuda dos amigos para fazer um disco na raça. Certa Manhã foi produzido por ele mesmo e Pupillo, do Nação Zumbi. "Tem o mestre da minha banda Fernando Catatau, o Cidadão Instigado, nas guitarras", ele comenta, e lista uma dezena de participações especiais - da cantora Julieta Venegas, que conheceu quando ele fez a trilha sonora do filme Só Deus Sabe, do mexicano Carlos Bolado, ao escultor Tunga, que cedeu uma de suas instalações para a capa do álbum. "São amigos de verdade, que chegam com presentes assim", Otto diz e comenta que a intenção inicial era lançar o disco apenas na internet. Foi Ilhan Ersahin, do Wax Poetic (banda pela qual passaram N'Dea Davenport e Norah Jones) quem o levou para o formato CD. "Na verdade, eu queria passar esse disco para quem o quisesse", explica Otto. Pouco antes de o álbum sair nos Estados Unidos pela NuBlu, selo de Ersahin, o pernambucano ganhava uma enorme matéria no New York Times. Aqui, graças à web, seu público se inteirou do novo som. "Posso citar de sete a dez nomes aqui em São Paulo que, por proximidade, pegaram o disco", Otto comenta com satisfação. Desses dez, viraram dez mil". Em seu show mais recente, em Crato, no interior cearense, a plateia já sabia de cor as músicas novas. "Lan houses do Brasil inteiro estão absorvendo uns cinco anos que eu passei de espera", ele completa. É o melhor indício de que uma nova curva para cima está logo à frente. "Foram cinco anos e várias perdas. Quer dizer, perdi casamento, perdi shows Perdi afilhada com meningite e agora perdi minha mãe", Otto fala, visivelmente emocionado por ela não ter visto o filho sair da fase "bicuda".

Quatro meses atrás, em um estúdio de tatuagem dentro de um estúdio de gravação, em São Paulo, eu tentava dissuadi-lo, sem sucesso, de fazer uma tatuagem na mão. A inscrição "The Moon 1111" já não aparece inflamada e a familiar feição de músico visionário finalmente volta quando ele mostra como ficou a tattoo-título do próximo disco em que ele pretende reunir Naná Vasconcellos e Pupillo em um trabalho bem experimental, com menos canção. "Sabe aquela quebra da memória no filme de Truffaut?", Otto pergunta animado a respeito de Fahrenheit 451. "Pois vai ter muito disso. Bem mais improvisado", ele fala já com um sorriso no rosto, lembrando que Certas Manhãs acaba de ser lançado no Brasil. "É assim. Acabou um disco e já estou pensando no outro."